sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Selvagens - 271° ao 280° Capítulo


Savages (Selvagens)

Don Winslow



271

Durante um breve período tivemos uma civilização que se aferrou a uma estreita faixa de terra entre o oceano e o deserto.
Nosso problema era a água: em excesso de um lado, mais escassa do outro, mas isso não nos deteve. Construímos casas, rodovias, hotéis, shopping centers, condomínios residenciais, estacionamentos, edifícios-garagem, escolas e estádios.
Proclamamos a liberdade do indivíduo, compramos e dirigimos milhões de carros para provar isso, construímos mais estradas nas quais dirigir os carros para podermos ir a toda parte que era parte alguma. Regávamos nossos gramados, lavávamos nossos carros, engolíamos garrafas plásticas de água para nos mantermos hidratados em nossa terra desidratada, construímos parques aquáticos.
Erguemos templos às nossas fantasias — estúdios cinematográficos, parques de diversão, catedrais de cristal, megaigrejas — e os frequentávamos em rebanhos.
Íamos à praia, pegávamos onda e jogávamos nosso lixo na água que dizíamos amar.
Reinventávamo-nos todo dia, refizemos nossa cultura, nos trancamos em comunidades fechadas, comíamos alimentos saudáveis, paramos de fumar, erguíamos o rosto ao mesmo tempo que evitávamos o sol, fizemos peeling, retiramos nossas rugas, sugamos nossa gordura da mesma forma que fazemos com nossos bebês indesejados, desafiamos o envelhecimento e a morte.
Fizemos da riqueza e da saúde duas deusas.
Uma religião do narcisismo.
No final, idolatramos apenas a nós mesmos.
No final, não foi o bastante.


272

Uma encruzilhada no deserto.
Afinal, por que não?
Há um recuo conveniente onde os carros podem parar e fazer a troca.
E onde as tropas de Elena podem abater todos e desaparecer muito antes de os xerifes ou a Imigração chegarem lá.
Todos sabem disso.
Lado sabe disso.
Seus homens decididamente sabem disso.
Qualquer leitor de ficção ocidental ou fã de cinema ocidental sabe disso.
Ben e Chon sabem disso.
E vão assim mesmo.
Porque tem que acontecer.


273

Eles vão no Mustang, claro.
Carregado com duas escopetas, duas pistolas, dois AR-15.
Se vão dançar, vão dançar mandando bala.
Entupiram Magdalena com erva suficiente para deixá-la dócil, e saíram do hotelzinho ambos de braços dados com ela. Puseram a garota no banco de trás, colocaram fita isolante na boca e os punhos na frente do corpo.
Uma longa e silenciosa jornada até o deserto.
Sobre qual assunto conversar e que música colocar no rádio como trilha sonora de sequestro e assassinato?
O silêncio é melhor.
Não há nada a dizer mesmo.


274

Pela primeira vez na vida, Elena sente o puro terror.
Uma profunda náusea no estômago.
E o tempo… simplesmente… não… passa.
Ela dá um pulo ao ouvir a batida na porta do quarto.
A esposa de Lado, Delores.
Está à beira das lágrimas, e Elena se sente estranhamente comovida com sua
compaixão.
— Elena — diz ela —, sei que você está com… coisas demais… na cabeça, mas…
Sua voz falha e ela começa a chorar.
— Minha amiga — diz Elena —, o que está acontecendo?
Ela passa um braço pelos ombros da mulher, leva-a para dentro do quarto e fecha a
porta.
Delores conta a Elena tudo sobre seu marido, o que ele fez, o que tem feito.
275
Viagem curta para O.
A maior parte dela apagada com Ambien.
Fita adesiva farmacêutica.
Acorda tremendo na noite fria do deserto.
— Estamos perto — diz Lado.
Muito perto de ganhar tudo, pensa ele.
Seus homens saíram uma hora atrás e estão em posição ao redor do recuo na
estrada.
276
Delores soluça sem parar.
Elena compreende, mas se cansa disso rapidamente.
Dá mais um tapinha, a coloca sentada e diz:
— Você fez a coisa certa. Fez o que qualquer mulher faria para proteger os filhos.
Os homens nos ensinam como tratá-los.
277
Ben e Chon encontram o recuo junto ao cruzamento.
Param e piscam os faróis duas vezes.
Um sinal de resposta vem da escuridão e depois um SUV preto avança e para cerca
de 10 metros à frente deles.
Chon consegue sentir o cheiro de emboscada noturna, e sente isso agora, com o
arbusto de creosoto e do tabaco indígena, os cheiros suaves do deserto, mesmo naquela
noite gelada.
— Eles estão aí? — pergunta Ben.
— Ah, sim — diz Chon. — Dos dois lados.
Sem dúvida estão deitados nos arbustos junto ao recuo e do outro lado da estrada.
— No instante em que você pegar O., se jogue no chão e 􀃠que deitado — repete
Chon.
— Tá.
— Ben?
— Sim?
— Foi um barato.
— É, foi.
Ben enfia uma pistola nas costas do seu cinto, pega Magda e a tira do carro.
Chon estica o braço para trás e apanha os dois ARs.
278
Lado enfia uma pistola no cinto, dá a volta até o lado do carona e tira O. do carro.
A putinha ainda está apagada.
As pernas moles.
Têm que estar, depois do que eu dei a ela, pensa Lado.
Ele anda na direção do carro dos gueros.
279
Elena sai do Land Rover.
Hernan ao seu lado.
Ela vê um dos filhos da puta andando com Magda à sua frente.
Graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus.
Os homens sabem que é para abrir fogo assim que ele a soltar.
— Solta ela! — grita Lado. — Manda pra cá!
— Você também! — responde Ben.
Ele dá um empurrãozinho em Magda na direção de Lado.
Lado faz o mesmo com O.
Assim que Magda está fora do alcance de Ben, Elena faz um sinal com a cabeça.
280
A noite se acende.
Os canos de doze armas brilham em vermelho, todas apontadas para
Lado.
Enquanto Elena grita:
— Dido!
Informante.
O que Delores contou a ela.

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