quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Selvagens - 241° ao 250° Capítulo


Selvagens (Savages)

Don Winslow



241

Querida mamãe,
Londres é +QD+. E balança como um pêndulo. Sabia que o Big Ben é o relógio, não a torre? Eu não sabia. E a Torre de Londres é realmente interessante.
Cortaram a cabeça de um monte de gente lá. Tipo, eca, né? Que bom que não fazem mais isso, embora eu ache que ainda aconteça em alguns países árabes como a Arábia. De qualquer forma, é bem legal aqui. Certo, hora de ir à Trafalgar Square e depois ao West End assistir a uma peça. Talvez eu até dê uma chance a Shakespeare! Quem diria, hein?

Saudades,

Te amo
O. (para simplificar)

Quando O. e Esteban não estão vendo TV no Hulu, estão no Google e na Wikipédia procurando informações sobre as cidades que O. está visitando em suas viagens pela Europa para ela contar nos e-mails para Rupa.
— Ela é, tipo, obcecada por detalhes, então eu tenho que colocar todas as coisas certinhas — O. explica a Esteban.
A doideira é que Rupa nunca escreve em resposta.
Ocupada demais com Jesus, imagina O.


242

Spin parece gloriosamente ridículo esta manhã em um macacão de ciclismo Ferrari colante com um capacete Cinzano.
Uma coisa que é impossível não amar em Spin é que ele nem sequer pisca quando Ben aparece com 20 milhões em ativos e dinheiro e diz que isso precisa passar por um ciclo acelerado, mas voltar tudo em dinheiro, embora totalmente limpo.
Uma coisa tipo Receita — Ben talvez precise dar uma boa explicação sobre como conseguiu o dinheiro, algo que não seja tê-lo tirado das mesmas pessoas às quais está prestes a dá-lo. Ele não diz isso exatamente a Spin, mas não precisa.
Spin senta-se com o laptop e
… vende a casa de Ben a uma das empresas do próprio Ben, depois para um morador de Vanuatu que não existe, depois…
… descarrega um punhado das ações e dos títulos de Ben em uma empresa controladora de propriedade de Ben, depois…
… cria uma pequena fazenda na Argentina, coloca um pouco de gado, vende o gado e…
— Seu dinheiro está imaculado.
Spin volta para a bicicleta.
Ben vai se encontrar com Jaime.


243

— Onde você conseguiu?
Jaime pergunta, olhando para as maletas cheias de dinheiro.
— Que diferença isso faz? — pergunta Ben, imaginando que uma falta de resistência poderia levantar suspeitas.
— Nós tivemos algum dinheiro roubado.
— Que pena, hein?
Ben explica que parte do dinheiro é da pouca grana que o CB tem pagado a ele pelo fumo, e o restante vem da venda de quase tudo que ele tem, muito obrigado, aliás.
— Precisaremos de documentação.
Ben dá a ele o código do computador, as chaves para o reino e o manda procurar.
— Sou transparente — diz.
Mas ande logo.
Jaime anda logo.
Tudo bate.
— Por que você simplesmente não fez isso antes? — pergunta Jaime.
— Você tentou vender uma casa ultimamente? — responde Ben — Para seu governo, fui roubado no valor. Dê o telefonema, Jaime.
Jaime dá o telefonema.
Elena autoriza pessoalmente.
Ela está contente, realmente contente de poder deixar a garota ir embora.


244

Esteban entra no quarto de O. parecendo quase triste.
— Vão deixar você ir embora — diz ele.
O que você disse?
— Seus amigos pagaram — diz Esteban. — Vamos levar você de volta.
O. começa a chorar.
Esteban também está um tanto engasgado.
Reunindo toda a sua coragem, ele pede a ela para ser seu amigo no Facebook.


245

Eles enviam as instruções por SMS:
Estejam prontos às 14h. Mandaremos a localização.
— Você confia nesses filhos da puta? — pergunta Chon.
Pule, eu pego você.
— Não, mas temos escolha?
Não.


246

Querida Unidade Materna,
Estou batendo meus sapatinhos vermelhos.
A Europa é tipo legal e tudo mais, mas “não há lugar como o nosso lar”, certo?
Além do mais, estou quase sem dinheiro, mas imagino que você já tenha imaginado isso.
Agora, mãezoide, quando digo que estou voltando para o lar não quero dizer lar, lar. Bem, talvez por algum tempo, mas depois vou me mudar. Está na hora, né? Acho que eu preciso criar uma vida, sabe? (Sem conselheira, quero dizer.) Nem sei ainda o que isso realmente significa, mas tem que significar alguma coisa. Talvez eu até mesmo vá para o exterior (de novo) fazer algum trabalho humanitário. Sabe,
tipo ajudar as pessoas. Lembra o meu amigo Ben? Talvez eu vá com ele e outro amigo, Chon, fazer alguma coisa útil na Indonésia. Cavar poços ou algo assim. Você consegue imaginar isso? Sua garotinha inútil com uma pá nas mãos?

T amo,
O.


247

Barney, da loja de armas, é um ouvinte inveterado de programas de rádio de direita.
Seja como for, Barney ouve tudo sobre o massacre na rodovia e recebe notícias adicionais, que são no mínimo boas pelo fato de ele agora ter seis mexicanos a menos com os quais se preocupar. O que ele escuta é informação vazada sobre as balas .50 encontradas dentro e ao redor dos ditos mexicanos, e a especulação de que os primeiros tiros foram disparados à distância…
… ora, grandes merdas, ninguém usa um Barrett 90 de perto…
… e ele identifica uma oportunidade de se dar bem.
Entenda, Barney vive na fronteira.
É, certo, todo mundo nesta maldita vida vive, mas Barney vive na fronteira, e o que isso realmente significa nos dias de hoje é que ele vive tanto no México quanto nos EUA.
Ele não gosta disso, não fica contente com isso, mas fatos são fatos.
Não importa o que diz a Patrulha de Fronteira, o que dizem os justiceiros, o que qualquer idiota em Washington diz, este país é comandado tanto ou mais pelo Cartel de Baja.
Mais uma coisa com a qual Barney tem que lidar.
O que ele faz bastante bem, considerando-se que eles são seus melhores clientes.
Ele não espalha isso, porque seus segundos melhores clientes são os direitistas que, como Barney, odeiam mexicanos, mas Barney tem uma pilha de contas de médicos, o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos está em cima dele — estamos falando da possibilidade de ele passar seus anos de ouro evitando os pretos e o resto da escória em uma penitenciária federal —, então ele agora tem que fazer uma escolha.
Para qual governo ele telefona?
Em qual ele pode confiar?
Qual vai lhe oferecer mais vantagens?
Ele diminui o volume do rádio para conseguir falar ao telefone.
Lado fica muito contente de ouvi-lo, e acredita que sim, eles podem “negociar uns cavalos”.
(Pendejo branco caipira.)
Então Lado escuta o equino que Barney tem a oferecer e
… não gosta nem um pouco.


248

Lado não está feliz, mas Elena está furiosa.
Explodindo de ódio.
Porque se sente uma idiota.
Deixou aqueles americanos a enganarem, e agora se pergunta se sua simpatia (ou fascínio?) pela garota prejudicou sua opinião.
Instalar-se em sua nova casa americana…
Bem, na verdade complexo, uma nova fortaleza estabelecida no deserto distante, com metros de arame farpado, alarmes, sensores de som e movimento, homens armados patrulhando em veículos 4x4 e off-road, todos em alerta máximo depois das últimas tentativas de assassinato…
… é tristemente fácil. Outro conjunto de roupas, lençóis e afins, toalhas, artigos de toalete, utensílios de cozinha que nunca foram usados para preparar uma refeição, tudo tão estéril quanto sua vida atual. A esposa de Lado, a anfitriã perfeita, foi conferir pessoalmente se estava tudo em ordem. Mesmo o deserto ao redor parece limpo demais — esfregado pelo vento e alvejado pelo sol, um exterior que combinava com o cenário interior de Elena: vazio.
Sede.
Ela pensa em sua nova vida como a de uma refugiada.
Uma mujado bilionária, uma imigrante ilegal com uma grana legal no bolso.
Lado preparou aquele terreno (estéril) para esse dia, quando o cartel tivesse que deixar o México e assumisse nova existência naquela terra nova e selvagem. Tudo está no lugar — os esconderijos, os depósitos, os mercados e os homens. A DEA generosamente subornada, a presença de Elena ali devidamente ignorada.
Ela não queria deixar para trás um banho de sangue, e agora isso.
Uma guerra que a acompanhou.
Uma traição de sua confiança.
E agora a necessidade de cometer mais uma atrocidade.
Ela fala com Lado pelo telefone.
— Traga Magda para cá.
— Ela não vai querer ir.
— Eu lhe perguntei o que ela quer? — corta Elena.
O silêncio de aquiescência. Ela está acostumada com isso nos homens — passividade é a pequena rebelião deles. Isso parece manter seus preciosos cojones no lugar.
Então Lado acrescenta cruelmente:
— E quanto à garota? A outra?
— Não temos escolha a não ser seguir em frente.
— Concordo.
E eu perguntei se você concorda?, pensa Elena, mas guarda para si. O que ela está pedindo a ele já é muito sem acrescentar seu mau humor. Ela também sabe o que está por trás disso: ela não quer matar aquela garota.
Elena se senta ao computador e liga o monitor.
A garota está no quarto — em uma fazenda a poucos quilômetros dali —, deitada de costas, fazendo as unhas.
Preparando-se para ir para casa, pensa Elena.
Você não quer matar essa garota porque ela lhe lembra sua própria filha, sua menina rebelde, e faz você se lembrar de si mesma durante seu breve instante de liberdade no que agora é tão distante que parece outra vida.
Bem, se não quer matá-la, não mate.
A escolha é sua, você não tem que dar satisfações a ninguém.
Elena reconhece isso pelo que é: um momento de rebelião contra o atual estado de sua vida, contra o que ela se tornou.
Uma esperança desconsolada.
Se você não matar essa garota — se não fizer exatamente o que prometeu fazer —, estará colocando seus próprios filhos em risco. Porque os selvagens a verão como fraca, e virão atrás de você e dos seus.
Lado esperou pacientemente.
Ela diz:
— Faça. E quero que eles vejam.
Eu sou a Rainha Vermelha.
Cortem-lhe a cabeça.
— Quer estar presente? — pergunta Lado.
— Não — diz Elena.
Mas ela se obrigará a ver pelo computador. Se você pode ordenar isso, cobra ela de si mesma, pode assistir.
— Quero que isso seja feito antes que Magda chegue — acrescenta.
— Vou demorar um pouquinho para chegar lá — diz Lado.
— Assim que for possível, por favor — diz ela. E pensa outra coisa. — Entre em contato com os filhos da puta. Avise-os.
Faça com que sofram.


249

Ben e Chon esperam junto ao computador.
As instruções chegam às 2 horas.
Podem vê-la morrer às 6.
Sabemos que foram vocês.
Vocês são os próximos.


250

Eles têm quatro horas.
Para fazer o quê?
Sabem que ela está em um de três lugares no deserto, mas o que vão fazer? Escolher um e torcer para darem sorte? E mesmo que seja o lugar certo…
— Nunca conseguiríamos entrar — diz Chon. — E eles a matariam quando começasse o tiroteio.
— O que vamos fazer? — pergunta Ben. — Sentar e assistir?
— Não — diz Chon.
Não vamos fazer isso.

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