segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Selvagens - 231° ao 240° Capítulo


Selvagens (Savages)

Don Winslow



231

Ken “Doc” Lorenzen, ex-médico da equipe de Chon nos Seals, é um felino sereno.
Se não acredita, deveria tê-lo visto naquela cena de emboscada — um gelo seco em um calor infernal — indo de um homem ferido para outro com pressa deliberada — como se as balas não estivessem indo em sua direção, como se ele não fosse um alvo. Se não fosse tão sério teria sido cômico, Doc ali com seu corpo esquisito — pernas curtas, tronco curto, braços compridos —, dando assistência médica para salvar vidas. O que Doc fez naquele dia deveria ter lhe rendido a Medalha de Honra, mas Doc não fazia questão.
Doc fez seu trabalho.
Tirou Todo Mundo Dali.
Hoje ele mora naquele trailer pago pela pensão por invalidez, entorna cerveja, come chili Hormel e ensopado de carne Dinty Moore, assiste a jogos de beisebol em sua TV pequena e vê pornografia, a não ser quando consegue arrancar uma gata 4x4 de seu buggy de areia, uma que não se incomode com um trailer.
É uma vida razoável.
Ele varre latas de cerveja amassadas, jornais, revistas de mulher pelada e um saco de Cheetos da mesa da “cozinha”. Chon sobe na mesa e deita.
— Está esterilizada? — pergunta Ben.
— Não venha me ensinar a fazer meu trabalho. Vai ferver água.
— Você precisa de água fervida?
— Não, mas se isso vai fazer você calar a boca…
Ele acha seu kit embaixo de uma roupa de neoprene amassada, arranca a camisa de Chon com uma tesoura e examina o ombro.
— Você tem um ferimento de cinema, irmão. Na carne do ombro. Deve ter raspado no colete e subido.
— A bala ainda está aí?
— Pode crer.
— Você consegue tirar?
— Pode crer.
Está brincando? Uma cirurgia simples em um trailer (mais ou menos) limpo, com ar-condicionado, sem AEIs explodindo e ninguém atirando nele?
Moleza.
Ele pega uma compressa e cria uma área esterilizada. Coloca um copo de álcool isopropílico e mergulha os instrumentos no líquido.
Ben vê o bisturi.
— Você vai dar a ele um pouco de uísque ou algo do tipo?
— Sério, quem é você? — responde Doc. Ele pega um frasco de morfina. — E, aliás, qual foi a merda que vocês, crianças, fizeram que o meu rapaz aqui não está no Scripps?
Chon responde:
— Ainda tem cerveja?
— Não lembro.
— Morfina e cerveja? — pergunta Ben.
— Já não servem mais só no café da manhã — retruca Doc.
Ele enche a seringa e acha uma bela veia.


232

Ben sai e conta o dinheiro.
3,5 milhões.
O número de O.
Missão cumprida.


233

Mesmo no Sul da Califórnia, mesmo no meio do deserto, você não deixa seis mexicanos mortos em meio às ruínas fumegantes de três carros sem chamar alguma atenção.
SoCal leva seus carros muito a sério.
Mexicanos morrem no deserto o tempo todo.
Não é um acontecimento diário, mas também não é manchete. A maioria é de mujados tentando cruzar a fronteira na quente região selvagem entre San Diego e El Centro, e ou eles se perdem por conta própria ou os coiotes os jogam lá e eles morrem de insolação e sede. Chegou a um ponto em que a Patrulha da Fronteira deixa esconderijos de água marcados com bandeiras vermelhas em postes altos, porque os agentes não querem que o pique-esconde eterno seja realmente letal.
Traficantes de drogas mexicanos?
Isso é outra história, literalmente.
Você espera esse tipo de merda ao Sul da Fronteira — é um acontecimento banal, uma tediosa manchete tsc-tsc com fotos de corpos mortos e/ou decapitados, baleados, veículos explodidos com uma salada confusa de nomes espanhóis e palavras como “cartel” e “guerra às drogas”, e normalmente um comentário de um agente da DEA.
Você espera isso lá embaixo, é o que você espera daquele pessoal.
E você espera eventuais ecos de gangues em barrios de San Diego, Los Angeles, e até mesmo certas áreas de Orange County. (Certas áreas — isto é, Santa Ana ou Anaheim; deixem de fora Irvine e Newport Beach, amigos. Apenas limpem as piscinas e vão para
casa.)
Mas um tiroteio completo ao estilo mexicano — porra, bombas e carros queimados — deste lado da fronteira?
Isso é demais.
Isso é ultrajante.
Isso é totalmente assustador, é o que é.
Isso deixou os apresentadores de programas de entrevistas no rádio tão agitados que eles não repousam suas bundas gordas quietas nas poltronas, porque isso parece
                                                                                      La Reconquista
                                                                                    A Invasão Mexicana
Aquilo Para o Qual Todos Têm Alertado Todos Esses Anos Mas o Governo Federal Simplesmente Não Escuta. (Bush precisava do voto mexicano, e Obama… bem, Obama também é um imigrante ilegal, não é? Um operário sem documentos na Casa Branca.
Péssimo que não haja uma porra de um deserto no Havaí.)
Basta dizer
Este é quente.
Até Dennis levanta o traseiro. Seu supervisor o manda correr para East County e descobrir que porra é essa que está acontecendo lá, porque
É o que parece.
Um tombe, no jargão do negócio.
Dennis está ligado nos desdobramentos.
Ele sabe da Guerra Civil do CB.
Aliás, não é a pior coisa do mundo, desde que você consiga superar seus escrúpulos.
Dennis acredita piamente, por exemplo, que os Estados Unidos estavam melhores quando Irã e Iraque derramavam o sangue um do outro até a morte, mas os corpos deveriam ser empilhados ao Sul da Fronteira, ou em Áreas Reservadas para Gangues, não em uma rodovia pública.
Os californianos levam muito a sério suas rodovias. É por onde eles dirigem seus malditos carros.
Dennis sabe das novas regras e regulamentos de Lado, sabe que está olhando para um desfile de carro da frente/ carro do dinheiro/ carro de trás que não conseguiu muito bem alcançar a linha de chegada.
Um agente que acabou de completar uma excursão de coleta de informações pelo Afeganistão reconhece os sinais de explosões por uso de AEI — duas delas —, que parecem confirmar o boato de que os cartéis começaram a contratar militares americanos recém-dispensados.
Dennis espera fervorosamente que os cartéis também não tenham começado a contratar talibãs recém-dispensados, porque isso iria provocar um zona de proporções monumentais com os paranoicos profissionais de Segurança Doméstica.
(Condição Escarlate!!!)
O outro interessante elemento de prazer médico-legal é a presença de horrendos e enormes ferimentos aparentemente causados por balas calibre .50, e os patrulheiros rodoviários locais acalentam entusiasmadamente a opinião de que elas foram disparadas por uma suposta super-arma chamada Barrett 90, difícil de obter e reconhecidamente difícil de operar, de modo que temos ali um trabalho de profissional.
Sério?, Dennis pensa ao olhar aquela cena saída diretamente do noticiário noturno.
(Por favor, Deus misericordioso, não permita que as redes de TV descubram isto.) Ah, jura? Três carros cheios de narcotraficantes eliminados com AEI e com um super-rifle e você não acha que os responsáveis foram um bando de adolescentes da região sem o que fazer, de modo que precisamos construir para eles uma porra de um centro comunitário com uma mesa de pingue-pongue e uma pista de skate?!
Dennis dirige de volta para a relativa civilização da San Diego urbana com o nauseante pensamento de que as coisas estão Fora De Controle.


234

Doc tem recepção de rádio em seu laptop.
Recepção por satélite.
Ele usa para escutar Jim Rome.
Ele agora recebe notícias de um tiroteio ao estilo Istãolândia não muito longe dali, e Doc não é idiota. Ele olha para Chon.
Chon não mudou muito desde aquela época.
Quando Chon anunciou que AQ significava
Acertar Qretinos
E acertou toda uma unidade de cretinos entrincheirados em um complexo em Doha.
Demorou o dia inteiro, mas Chon era paciente, metódico, sem pressa alguma. Voltou, engoliu três rações e deitou. Dormiu como um bebê saciado. Portanto, meia dúzia de narcos? Problema nenhum, moleza.
Chon e Ben observam Doc escutar o noticiário, somar dois mais dois e ligar aquilo a Chon.
Doc diz:
— Melhor você se livrar do carro. Pode pegar meu Dodge.
— Valeu, cara.
— Nada.
Eles dirigem o carro do serviço até uma ravina, com Doc atrás na picape. Ele tira latas de gasolina da caçamba e dá um banho no carro do serviço. Acende uma cartela de fósforos e a joga pela janela do carona.
Nem dá tempo para uns churrasquinhos.
Em vez disso, Doc dá a Chon algumas ampolas de morfina e seringas, e deseja a ele Boa viagem.


235

Na volta para OC, Chon está, tipo, o que você esperava?
Ele está blasé.
(É, a morfina ajuda.)
Seis mexicanos mortos é um dia tranquilo no, hã, México, e o fato de que eles estão caídos deste lado da fronteira é menos que nada para ele.
Fronteiras são abstrações, e ele está acostumado a certa flexibilidade mental no que diz respeito a fronteiras nacionais, tipo a suposta linha entre Afeganistão e Paquistão.
Em sua cabeça, ambos não passavam de istões, e se o Talibã não se importava, ele menos ainda. Depois havia a fronteira entre Síria e Iraque, que era um pouco nebulosa (bela palavra, nebulosa) por algum tempo, até algumas pessoas na Síria partirem para a longa caminhada.
Ben também tem consciência de que fronteiras são abstrações.
Há fronteiras mentais e há fronteiras morais, e, se você cruza a primeira, talvez possa retornar, mas se cruza a segunda, não há mais retorno. Sua passagem de volta é cancelada.
Pergunte a Alex.
— Não faça isso — diz Chon.
— Isso o quê?
— Não desperdice sua energia se sentindo culpado por causa desses caras — diz Chon —, nem por Alex, nem qualquer outro.
Talvez eu possa relembrá-lo de que esses são aqueles que…
… decapitaram pessoas
… torturaram garotos
e
… sequestraram O.
— Eles mereceram? — pergunta Ben.
— É.
Coloquemos a coisa toda em termos simples.
— Punição coletiva.
— Você não precisa colocar rótulos em tudo, B — diz Chon.
O mundo não é um supermercado moral.
Material de limpeza no corredor três.


236

Chon já leu muita história.
Os romanos costumavam enviar suas legiões aos limites do império para matar bárbaros. Foi o que fizeram por centenas de anos, mas então pararam de fazer. Porque estavam distraídos demais, ocupados demais trepando, bebendo, se enchendo de comida. Tão ocupados brigando pelo poder que esqueceram quem eram, esqueceram sua cultura, esqueceram-se de defendê-la.
Os bárbaros vieram.
E foi o fim.
— Então pagamos, resgatamos O. e damos o fora daqui — diz ele a Ben.
Acabou.


237

Elena não consegue ouvir nada, apenas o alto e incessante latejar nos ouvidos, e não sabe o que aconteceu primeiro, só se dá conta de que foi uma bomba quando olha para fora da janela do carro e vê o homem, um dos seus homens, agarrar o braço destroçado, e então o carro se lança à frente, acelerando pelas ruas de Rio Colonia, em Tijuana, ultrapassando sinais de trânsito e depois passando pelo portão que está aberto, mas se fecha imediatamente atrás dela, e então um dos sicários abre a porta do carro, a tira e a leva às pressas para dentro da casa, e já se passaram vários minutos, na verdade alguns, quando ela se dá conta de que tentaram matá-la.
— E as crianças?! — grita ela assim que entra em casa.
Seu novo chefe de segurança, Beltran, responde:
— Estão bem. Já verificamos. Estamos com eles.
Graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus, pensa Elena. Ela pergunta:
— E Magda?
— Estamos de olho. Ela está bem.
Ela está na Starbucks perto do campus, com o laptop, aparentemente escrevendo um trabalho. Lado tem dois homens do outro lado da rua.
— Quero falar com ela.
— Ela não sabe nada sobre…
— Ligue para o celular dela.
Alguns momentos depois ela ouve a voz levemente irritada de Magda.
— Oi, mãe.
— Oi, querida. Só queria ouvir sua voz.
Magda faz um pequeno silêncio no diálogo para que sua mãe saiba que está interrompendo algo importante por causa de absurdos sentimentais de mãe, e depois diz:
— Bem, esta é a minha voz, mãe.
— Você está bem?
— Ocupada.
Ou seja: bem.
— Então vou deixar você em paz — diz Elena, um pequeno estremecimento de alívio na voz.
— Ligo para você no fim de semana.
— Vou ficar esperando — diz Elena, respirando fundo. — Desço em alguns minutos — diz ela aos homens.
É bobagem, mas o que ela quer é um banho, então chama Carmelita para prepará-lo, mas os homens não deixam Carmelita nem ninguém subir para o segundo andar, então, irritada, ela mesma o prepara.
A água quente provoca uma sensação boa em sua pele, ela sente os músculos na base das costas relaxando, nem havia se dado conta de que estavam tão contraídos.
Senta-se para abrir a torneira de água quente de novo e percebe que agora consegue ouvir a água correndo e antes não, e se permite mais dez minutos deitada na banheira antes de sair, se vestir e assumir o comando novamente.
Rainha Elena.
É a minha vida agora.
Ela veste um suéter preto bem sóbrio sobre a calça jeans e desce.
Os homens estão esperando na sala de jantar.
— Achamos que foi El Azul — diz Salazar, um coronel da polícia estadual; homem de pouca imaginação, mas confiável, desde que o dinheiro o compense.
— Claro que foi ele — corta Elena. — A questão é: como os homens dele chegaram tão perto?
— Foi um AEI — diz Beltran, a dois postos de Lado, cuja ausência é muito sentida.
O homem que ocupava o cargo intermediário era El Azul.
— Explique.
— Artefato explosivo improvisado — diz Beltran. — Basicamente uma bomba plantada no seu caminho, detonada por controle remoto.
Elena balança a cabeça.
— Quantos mortos?
— Cinco. Três dos nossos, dois civis.
Elena diz:
— Encontre as famílias, pague as despesas dos funerais.
— Acredito piamente que você deveria passar algum tempo na finca, onde podemos cuidar de você — diz Beltran.
— Você deveria cuidar de mim aqui — diz Elena. Ela o fita até que ele baixe os olhos e mire a mesa. Ela suspira e diz: — Muito bem, irei para a finca.
A porta se abre e Hernan entra apressado.
— Mãe, acabei de saber. Graças a Deus.
Ele a beija na bochecha, vira-se para Beltran e grita:
— Por que não está fazendo seu trabalho? Eu juro, se minha mãe tivesse se machucado…
Hernan não termina a ameaça. Em vez disso, diz:
— Temos que responder a isso. Não podemos deixá-los pensar que podem agir impunemente. Descubra quem fez isso e…
— Sabemos quem são — diz Beltran.
Elena olha para ele surpresa.
— Azul está recrutando soldados nos Estados Unidos — explica Beltran. — Literalmente soldados, mexicanos recém-saídos do Exército americano. Eles sabem como fazer esses AEI. Aprenderam no Iraque.
— Pegue-os — diz Hernan.
— Já devem estar do outro lado da fronteira.
— Dê a missão a Lado — diz Elena.


238

O. e Esteban gostam de fumar baseado, comer pizza e assistir ao reality show The Biggest Loser.
Entupir-se de gordura e carboidrato enquanto se assiste doidão a um programa sobre pessoas tentando perder peso é algo perverso o suficiente para compensar o tédio de O., e, como já foi mencionado, a garota gosta de comer.
Esteban só gosta de fumar, ver TV e ficar com O.
De comer pizza também. A dessa noite é uma extragrande de pepperoni com hambúrguer, pimentão verde e queijo extra. Esteban não gosta de pimentão, mas gosta de deixar O. contente.
De qualquer forma, O. está fascinada por estar fascinada com a ideia de acompanhar uma atividade que você não pode realmente ver. É, tipo, tele visão, certo, mas você não consegue ver a gordura sendo queimada dentro de nenhum daqueles corpos obesos. Mas você pode vê-los suar, gemer e chorar, e, além do puro prazer de se entupir enquanto eles passam fome, O. desenvolveu afeto por alguns deles.
É porque, tipo, eles estão tentando fazer algo.
Mudar suas vidas para melhor.
É admirável.
Ao contrário de você, ela diz para si mesma certa noite.
— Vamos encarar a realidade — diz ela a Esteban. — Eu sou basicamente uma xota inútil.
Esteban conhece “inútil” — fregado —, mas não conhece “xota”.
— Quando eu sair daqui — diz O. —, se eu sair daqui…
— Vai sair.
— Vou fazer alguma coisa da minha vida.
— O quê?
Bem, esse é o problema, ese, Este.
Não faço a menor ideia.


239

Lado se arrasta para a cama.
Para dar umazinha com a mulher.
É do que ela precisa, um bom pau duro.
Ele se enfia entre as metades quentes da bunda dela e se esfrega para cima e para baixo, esperando um convite.
Delores se levanta e sai da cama.
— Dê isso à sua putana. Eu não quero.
Lado não está com paciência. Ele tem coisa demais para pensar. A guerra, o tombe, depois o atentado contra Elena e a segurança reforçada sobre a filha mimada que acha que não precisa de segurança. E agora Delores esquece qual é o seu lugar.
— Põe essa bunda de volta aqui.
— Não, obrigada.
— Eu mandei pôr essa porra dessa bunda de volta na cama.
— Me obrigue.
Certo, isso foi um erro.
Ele salta da cama como um raio. Delores tinha esquecido como ele é rápido, como é forte: o primeiro tapa a joga contra a parede, os ouvidos zunindo quando ele a agarra, joga na cama, monta em cima dela, prende os dois pulsos acima da cabeça com só uma das suas mãos grandes.
Ele abre suas coxas com o joelho.
— É assim que você quer, piranha?
— Eu não quero.
Talvez não, mas ele faz assim mesmo.
E sem pressa.
Depois, saindo do banheiro, ela diz:
— Quero o divórcio.
Ele ri.
— Você quer o quê?
— O divórcio.
— Você vai conseguir é uma surra se não calar a boca agora — diz Lado.
Delores recua até a porta.
— Já falei com um advogado. Ele disse que eu fico com metade da casa, do dinheiro, a guarda dos garotos…
Lado anui.
Ele podia dar uma surra em Delores, mas Lado tem algo pior do que isso para ela.
Ele sorri e diz:
— Delores, se você continuar com essa ideia, eu levo os garotos para o México e você nunca mais vai ver as crianças de novo. Você sabe que é verdade, sabe que eu faço isso, então pare de besteira e volte para a cama.
Ela fica de pé junto à porta por alguns segundos.
Ela o conhece.
Sabe quem ele é.
O que ele faz.
Ela volta para a cama.


240

Elena coloca algumas coisas na mala.
Ela só precisa de poucas coisas, porque tem tudo de que precisa em todas as suas residências. Cada casa, pensa ela, esperando, pronta e completa, por minha presença para eliminar seu vazio.
Alguém bate na porta, e pela insegurança ela sabe que é Hernan. Manda que entre, e ele pergunta:
— Pronta para ir para a finca?
— Sim, tudo pronto.
Eles descem, vão para o pátio e entram no carro, que recebeu uma blindagem lateral especial. Beltran, ansioso, se movimenta como uma galinha choca, os vê entrando no carro e entra em um Suburban fortemente armado na frente deles.
Eles passam por vários quarteirões, e então Elena ordena que o motorista vire à esquerda.
— A finca fica do outro lado, mãe.
— Não vamos para a finca — diz ela.
Ele parece confuso.
Claro que sim, o coitadinho, então ela continua:
— O plano era que fôssemos para a finca, onde Beltran teria tudo pronto para nos assassinar. Ele colocou a bomba. Se isso não me matasse, ele me levaria a buscar a segurança da fazenda sob a proteção dele.
Seu riso é amargo.
— Como soube?
Como você não soube?, é essa a questão, pensa Elena. E o problema. Ela não pode deixá-lo no México, ele não sobreviveria cinco minutos. Tem que levá-lo consigo e depois acertar as coisas para que a esposa bruja dele vá depois.
Antes que ela possa responder, o Suburban de Beltran faz a volta para acompanhá-la, mas dois outros carros saem de um beco lateral e bloqueiam a passagem. Elena olha pela janela escura enquanto homens com AK-47 saltam dos dois carros e abrem fogo contra o Suburban.
Beltran sai do lado do carona atirando, mas é crivado de balas e desmancha na calçada.
— Pode ir agora — diz Elena ao motorista.
O carro avança.
— Por que não me contou? — pergunta Hernan.
— Você teria conseguido? — pergunta ela. — Disfarçar seus sentimentos, sorrir e apertar a mão dele?
— Não.
— Por isso. — Ela dá um tapinha na mão dele e diz: — Estou cansada da guerra, cansada da matança, da preocupação. Já há algum tempo. Então preparei uma jogada.
Vamos para os Estados Unidos. Lado preparou o terreno para nós. Suas irmãs já estão lá.
Ela pensa: Azul quer Baja?
Tudo bem, pode ficar com ele.
Boa sorte para ele.
— Para a América? — pergunta Hernan. — E a polícia? A DEA?
Ela sorri.
Ah, meu menino.

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