domingo, 11 de agosto de 2013

Selvagens - 221° ao 230° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow





221

Chon vai de sunita para cima deles.
AEI.
Se você não tem bombardeiros, mísseis e aviões não tripulados, você apela para os Artefatos Explosivos Improvisados. Coloca-os à beira da estrada, aperta o controle remoto quando o comboio passa.
Chon demora três dias para construí-los.
Horas felizes na antiga mesa da sala de jantar.
— Você não vai explodir a gente junto, vai? — pergunta Ben.
— Vamos sair ilesos — diz Chon. — A não ser que o CB tenha um avião teleguiado lá em cima ou algo do tipo. Nesse caso, estamos fodidos. Mas eu não usaria o controle remoto da TV por algum tempo.
Só por garantia.
Ben pergunta:
— O que devo fazer se eu ouvir você murmurar “Merda”?
— Dessa distância? Nada.
Muitas questões existenciais serão respondidas logo depois do “Merda”.
Como acontece na vida.


222

A caravana vem pela estrada sinuosa.
É como uma cobra enrolada, o Cajon Pass. Bem no meio dessa merda de deserto vazio, a quilômetros de qualquer coisa parecida com civilização.
Paisagem lunar dos dois lados da estrada.
Deus acordou de mau humor e espalhou projeções rochosas como bolas de gude pelas encostas íngremes.
Que ficam vermelhas à luz da alvorada.
O reflexo dificulta a vida de Chon, que está no alto da colina oposta, apontando o Barrett.
Ele espera que Ben tenha a frieza necessária para apertar os botões.


223

Carro da frente, carro de dinheiro, carro de trás.
Escalade, Taurus, Suburban.
O Escalade está bem à frente, talvez 50 metros, o Suburban colado no Taurus.
Ben se agacha entre as rochas perto da estrada.
Controles remotos de aviões de brinquedo nas mãos.
Dois interruptores.
Eles passaram a noite toda lá, colocando os AEI. Estudaram a estrada no Google Earth, procuraram a curva à direita em U, perto de rochas que vão conter e dirigir o impacto.
Conflito assimétrico.
Desta vez não será autodefesa, será assassinato explícito.
Os homens na caravana devem estar bem relaxados. Vieram do deserto plano e não viram nenhum carro em quilômetros, não viram nada.
Não tem nada por aqui.
Ben espera.
A mão treme.
Adrenalina ou hesitação?


224

A caravana entra na curva fechada.
Chon aponta. Mas em sua mente seu olho vê…
… talibãs
se movendo como escorpiões por uma paisagem similar
sua própria caravana feita em pedacinhos
sangue correndo dos seus parceiros
Agora eu sou um deles
Ele mira novamente.
Não há tempo para
Falta de TEPT
Ele só espera que
O meigo Ben
O Ben da Paz
também seja um deles agora.
Agora, Ben.
Ache seu talibã interior.


225

Ben espia por cima do rochedo de proteção e vê os três veículos entrando na passagem.
Os carros propriamente ditos não são nada — produtos de plástico e aço de linha de montagem, pequenos bicos de Bunsen do aquecimento global. Pegadas carbônicas de dinossauro na paisagem nua. Eles são coisas, e Ben não tem pena de coisas (“somos espíritos no mundo material”). Tenta dizer a si mesmo que eles são apenas coisas, mas ele sabe a verdade: há pessoas dentro das coisas.
Seres com famílias, amigos, entes queridos, esperanças, medos.
Capazes, ao contrário das coisas que os carregam, de dor e sofrimento.
Que ele está prestes a infligir.
Dedos indicador e polegar no interruptor.
Um simples espasmo de fibra muscular, mas
Não há um botão Desfazer.
Nada de Ctrl Alt Del
Ben pensa em homens-bomba
Assassinato é o suicídio da alma.
Ele afasta a mão.


226

Agora, Ben, pensa Chon.
Agora ou nunca.
Agora ou nada.
Mais dois segundos e o momento terá passado.


227

Ben aciona o interruptor.
Uma explosão de chamas, e o carro da frente tomba de lado.
Estraçalhado.
O carro do dinheiro acelera para passar, mas Chon aperta o gatilho do Barrett 90 e
O rosto do motorista desaparece, vermelho (encarnado) com o nascer do sol, e depois
O carona se estica para pegar o volante enquanto Chon desliza o ferrolho para trás, recarrega, suspira e abre um grande buraco irregular no peito do pretenso herói, e então o carro bate nas rochas, para e explode em chamas.
Homens com rifles nas mãos começam a sair do carro de trás, mas Ben aciona o segundo interruptor e fragmentos do Escalade se transformam em estilhaços, cortando, rasgando, matando, e o que isso não faz Chon faz.
Os sobreviventes da explosão — perplexos, chocados e sangrando — olham para cima e ao redor, como se estivessem se perguntando de onde vem a morte
ela vem de
Chon, deslizando o ferrolho, puxando o gatilho, e em segundos
Está tudo quieto, a não ser
Pelo crepitar das chamas e os
Gemidos dos feridos.


228

Chon solta o rifle, que
Bate nas rochas, e ele
Desce a encosta correndo, entra no carro de serviço, estacionado ao lado, coberto de arbustos, e dispara até o ponto em que Ben, com o rosto iluminado pelas chamas, está de pé entre os mortos e moribundos.
— Pegue o dinheiro — diz Chon. Ele enfia a mão entre as pernas do motorista morto e destrava a mala.
Ela abre com um som abafado.
Sacolas de lona cheias de dinheiro.
Eles as pegam e carregam para seu carro, voltam para pegar mais e Ben ouve o tiro e vê Chon girar e cair, e Ben,
Virando a cabeça, se vira e atira no cara que atirou, que já está morrendo mesmo.
Ben ergue Chon da poeira, o ajuda a entrar no carro, coloca-o no banco do carona.
Começa a sentar ao volante, mas Chon diz:
— Pega o resto do dinheiro. E Ben, você sabe o que tem que fazer.
Ben agarra as duas sacolas que restavam e as joga no carro.
Depois retorna.
Ele sabe
O que tem que fazer.
Sobreviventes poderiam identificá-los
E matar O.
Ele acha três homens ainda vivos.
Posição fetal, contorcidos de dor.
Um tiro em cada um deles, na nuca.


229

Sem chance.
A resposta de Chon à frase de Ben:
— Temos que levar você a um hospital.
Chon rasga um pedaço da camisa, pressiona o ombro ferido e continua a apertar.
— Onde fica o hospital mais perto? — pergunta Ben.
— Se você vai a um hospital com um ferimento de bala, a primeira coisa que eles fazem é chamar os tiras — diz Chon serenamente. — Dirija até Ocotillo Wells.
— Você perdeu a porra da cabeça? — reage Ben, as mãos tremendo no volante. Não há hospital em Ocotillo Wells. É um buraco minúsculo no deserto que atende ao pessoal 4x4 e off-road.
— Ocotillo Wells — responde Chon.
— Certo.
— Você está se saindo bem.
— Só não morra — diz Ben. — Fique comigo. Não é isso que se deve dizer?
Chon ri.
Chon é tão tranquilo.
Já Esteve Lá Antes.
Em Istãolândia. Comboio emboscado. Estrada estreita pela montanha. Merda voando, pessoas feridas, ou você fica sereno ou seu pessoal morre, você morre. Se não faz isso, se fica sereno, você tira…
Todo Mundo Dali.
Aliás…


230

Ben para ao lado do trailer Airstream em uma estrada de terra no Meio do Nada.
Arbustos rolando por toda parte como se saídos de um cenário de cinema. Energia elétrica improvisada em um gato no poste telefônico até o trailer. Uma picape velha e um Dodge GT estacionados sob uma remada improvisada com postes de salgueiro.
— Pare perto — orienta Chon. — Bata na porta, diga a Doc que está comigo e que eu levei uma.
Ben salta.
As pernas parecem borracha velha, frouxa e trêmula.
Ele sobe os degraus de madeira até a porta do trailer e bate. Ouve:
— Zero-três-trinta, melhor isso ser bom, cacete.
A porta se abre, um cara mais ou menos da sua idade olha para ele. Apenas de cueca, cabelo desgrenhado, olhos vermelhos, ele fita Ben e diz:
— Se você for uma maldita testemunha de Jeová ou coisa parecida, eu vou acabar com você.
— É o Chon. Ele levou um tiro.
— Traz pra dentro.

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