quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Selvagens - 201° ao 210° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow



201

— Ele também roubou o seu dinheiro — diz Lado, racional. — Então é você quem deve acabar com ele. Presente meu para você.
— Eu faço — diz Chon.
— Eu disse ele, não você — corta Lado.
Ele olha nos olhos de Ben.
E aperta a arma na mão de Ben.
Vai, torce Chon.
Você tem que fazer isso. Pense em O.
Ben atira duas vezes no peito de Alex.


202

— Então era o Alex — diz Ben no estacionamento. Sua mão treme como um esqueleto de casa assombrada.
— Era o Alex — confirma Lado.
— Tudo resolvido.
Uma anuência seca.
— Então, voltamos aos negócios de sempre?
Sí, os Negócios de Sempre.
— Quero falar com a O. pelo Skype.
Lado pensa por um segundo e permite.


203

O rosto de O.
Brilha quando os vê
Sorriso grande.
— Oi, garotos!
Oi.
Oi.
— Como você está? — pergunta Ben, se sentindo idiota.
— Sabe, eu estou bem — diz O. — É a fantasia de uma garota irresponsável; na verdade estou sendo obrigada, sob a mira de uma arma, a ficar deitada no meu quarto sem fazer nada além de ver uns programas de TV ruins.
— Não vai ser por muito mais tempo.
— Não?
— Não.
— Como vocês dois estão?
— É, bem — diz Chon.
— Ben, você está bem?
— É, tudo certo — diz Ben.
A ligação é interrompida.


204

É, tudo certo com Ben.


205

— Você reparou no fundo da imagem? — pergunta Ben a Chon. — É um lugar diferente.
Ele já viu isso umas trinta vezes.
— E escuta…
Ele aumenta o volume.
— O que é isso ao fundo?
— Vozes.
— Falando…
— Inglês.


206

Danny Benoit é diácono da Igreja dos Santos dos Dias Mais Leves.
E um técnico de som altamente remunerado, que percorre a Interestadual 405 de sua casa em Laguna Canyon até os estúdios de gravação de L.A. mais ou menos uma vez por mês em um Corvette 66 que ele chama de Navio Pirata.
— Eu velejo com ele até L.A. uma vez por mês, encho o barco de butim e velejo de
volta antes que me peguem — diz Danny.
Danny B. é ouro.
Ou platina.
DB pode tornar grande uma voz média e tornar sublime uma grande voz. Todos “os maiores nomes da indústria fonográfica” querem Danny na mixagem.
Ele caga para os nomes dos caras.
Não está interessado em impressionar com nomes
Estar junto
Sair junto
Só quer fazer sua mixagem, ganhar seu dinheiro e voltar para casa.
E Danny faz alguns dos seus melhores trabalhos para a Ben & Chonny’s.
É sabido que eles lhe dão misturas dependendo de qual “artista” ele está adoçando
no momento. Quer sativa para o hip-hop, indica para R&B? É só dizer, cara, e B&C
passam por cima da rede de distribuição habitual e entregam diretamente.
Ben gosta de ouvir música no rádio sabendo que contribuiu.
— Deviam colocar os nomes de vocês nos CDs — disse Danny uma vez. Na verdade
ele ia agradecer a eles no Grammy certa noite, mas felizmente pensou duas vezes.
Teria sido legal, mas ilegal.
Eles levam uma gravação da sessão do Skype até a casa dele. Danny parece aquele
hippie básico que sabe que os anos 1970 passaram, mas não liga. Camiseta, calça jeans,
sandália, rabo de cavalo.
É indelicado aparecer na casa de alguém de mãos vazias, então eles levam um saco
de Pouso na Lua. (“Alguns dizem que aconteceu, outros dizem que foi encenado, nós
dizemos: quem se importa.”) Dennis tem a perfeita educação do doidão, e oferece um
pouco.
Terminadas as formalidades, Ben pergunta:
— Você pode aumentar isso?
— Kobe sabe encestar de três?
Ele coloca no seu som, gira alguns botões, interrompe alguns interruptores para a
frente e para trás, e em um minuto é como estar no quarto com O. E a conversa em
inglês ao fundo?
— Rádio — anuncia Danny. — FM.
— Emissora americana?
Danny tem um ouvido ótimo. Conhece suas emissoras de tanto escutar para
descobrir quem está sonegando seus royalties. (A resposta, claro, é que todos estão — é
esse tipo de negócio. Drogas, 􀃠lmes, música, uma espiral de roubo.) Ele consegue
escutar o silêncio e dizer qual é a emissora.
— KROC — diz após escutar algumas vezes. — “Kroc no seu dial”. Periferia de
L.A. Um prato de enchiladas de sucessos pop atuais e música dos anos 1990.
— O. escuta essa rádio — diz Chon.
— Chega ao México?
— Pode chegar, mas não com essa clareza — diz Danny. — O sinal é ótimo.
— É mesmo, pensa Ben.
207
De volta ao arquivo, de volta à pesquisa.
Se eles estão com O. no Sul da Califórnia, onde?
Precisam procurar muito, mas eles conseguem.
Dennis tem certas “preocupações” com uma empresa chamada Gold Coast Realty,
com sede em… espere…
Laguna Beach, Califórnia.
— Gold Coast Realty — diz Ben. — Isso lhe diz algo?
— Você não comprou esta casa da GCR?
— Foi.
— Steve Ciprian.
Steve Ciprian, dono da Gold Coast.
Membro pleno da Igreja dos Santos dos Dias Mais Leves.
Também conhecido como Padrasto Seis.
208
Steve não é difícil de achar.
Você pode localizá-lo:
(A) No bar do Ritz-Carlton
(B) No bar do St. Regis
(C) No campo de golfe
Steve admite livremente ser um alcoólatra funcional. Funcional porque ele só bebe
martínis nos bares e vinho (caro) no jantar, consegue vestir apenas camisas havaianas e
calças de algodão, passa o tempo que não está bebendo jogando tênis e golfe e batendo
papo com qualquer mulher com a qual esteja casado, fuma maconha e ganha cerca de
um zilhão de dólares por ano vendendo as casas mais exclusivas da Gold Coast —
aquele trecho da PCH entre Dana Point e Newport Beach.
É, ao menos ele costumava ganhar isso por ano, antes do crash. Agora todos estão
tentando vender, mas ninguém pode comprar, e Steve está tentando se virar diminuindo
sua comissão e ao mesmo tempo evitando os telefonemas.
E queimando mais.
Tem sido um ano duro para Steve.
Os negócios escorrem pelo ralo.
Sua secretária ameaça contar à esposa sobre eles.
A esposa de qualquer modo o bota para fora por motivos que não têm nada a ver
com o fato de ele comer a secretária, mas porque ele não consegue se entusiasmar com
a ideia de ela se tornar uma “conselheira pessoal”, o que quer que seja essa porra.
Uma droga ter que se mudar, mas de qualquer forma Kim estava se aproximando
rapidamente de sua “data de validade”, e, vendo pelo lado bom, há dezenas de casas
sendo retomadas pelos bancos para as quais ele pode se mudar temporariamente. Isso
vai calar a boca da secretária até ele se livrar dela, e
A secretária é um pé no saco, mas que peitos.
Ele está sentado no bar do St. Regis começando o segundo martíni quando Ben e
Chon chegam.
Sempre um prazer vê-los.
Legais, esses rapazes.
Vê-los jogar vôlei era como ver poesia em ação, fumar o bagulho deles, um toque
do sublime, e Steve não consegue lembrar qual deles estava pegando a 􀃠lhinha maluca
mas gostosa da Kim.
Puxa vida, ele não teria se importado de ancorar seu barco naquela rachinha
apertada, mas a garota nunca deu uma segunda olhada para ele.
Que pena.
Um pouco de ação mãe e filha.
E a garota chamava Kim por um nome engraçado que deixou escapar quando ambos
estavam realmente doidões certa noite, quando ele achou ter percebido uma pequena
abertura, como foi que ela a chamou?
Isso mesmo — “Rupa”.
Rainha do Universo Passivo-Agressiva.
Ela sacou bem, e agora a piranha metida encontrou Jesus. Bom, que Jesus pague seu
próximo lifting nos olhos.
Ben e Chon se sentam junto a ele.
Um de cada lado.
— Steve — diz Ben.
É isso, apenas Steve.
— Ben. Chon.
— Steve.
— Bem, sabemos nossos nomes — diz Steve.
— Eu tenho um nome para você — diz Ben.
Elena Sanchez Lauter.
— Cai fora.
Não, ele quer dizer…
Cai fora.
209
Eles levam para o escritório de Steve.
Levam para o escritório de Steve porque é para onde Chon sugeriu que levassem, e
ele parece conseguir o que quer. Ele também quer que a secretária de Steve saia mais
cedo. Então ela pega seus peitos lascivos e sai.
Steve diz:
— Pessoal, talvez vocês não saibam com que estão se metendo.
— Você tem comprado propriedades para Elena Sanchez e o Cartel de Baja — diz
Chon. — Usando empresas de fachada, laranjas, tudo.
— Ora essa.
— Eu quero uma lista.
— Você quer uma lista.
— Foi o que eu disse, Steve.
— Mesmo que eu tivesse feito o que você disse, e não estou dizendo que 􀃠z — geme
Steve —, e mesmo que eu tivesse tal lista, e não estou dizendo que tenho, você tem
alguma ideia do que poderia acontecer comigo caso eu liberasse essa informação?
Chon não está com paciência para discutir.
— Você tem alguma ideia do que poderia acontecer a você caso não a liberasse?
Ele agarra Steve pelo pescoço e o levanta com uma das mãos.
— Isso é pela sua enteada, seu merda — diz Chon. — Você me dá essa lista ou eu
mato você agora mesmo.
Eles saem de lá com a lista.
210
Casas, apartamentos, fazendas.
Eles conferem item após item.
Isso tudo conta uma história: Elena La Reina vem comprando propriedades no Sul
da Califórnia regularmente. E não vendendo. Eles estão por todo o terreninho de Deus.
Laguna, Laguna Niguel, Dana Point, Mission Viejo, Irvine, Del Mar.
— Eles não poderiam ter levado O. para os subúrbios — diz Chon.
As fazendas, então.
A maioria delas fica em San Diego County.
Rancho Santa Fe…
— Elegante demais, cheio demais.
Ramona, Julian.
— É mais isolado lá naquelas montanhas. Possível.
Anza-Borrego.
Vasto, basicamente um deserto vazio.
Elena comprou três propriedades lá, mais de 400 mil metros quadrados cada.
— Mas pra quê, cacete? — pergunta Chon. — Servir de depósitos?
Ben dá de ombros.
O telefone toca e é Jaime.
Reunião de equipe.

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