segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Selvagens - 191° ao 200° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winnslow




191

A foto aparece na tela de Ben.
Três garotos mortos
Com a legenda:
“cuidando dos negócios”.


192

O. está sentada na cama assistindo a um episódio de The Bachelorette no site Hulu.
— Estou te dizendo — opina Esteban —, ela vai ficar com o cara errado. Aquele garoto é um galinha.
O. discorda.
— Eu acho ele fofo e vulnerável.
Esteban não sabe o que significa “vulnerável”, mas sabe o que é um galinha, e aquele garoto na banheira de água quente é um galinha.
Talvez, talvez, pensa O.
Homens conhecem homens.
Ela e Esteban estabeleceram uma bela relação. Ele é seu novo Melhor Amigo para Sempre. Certo, provavelmente um caso de síndrome de Estocolmo (O. uma vez viu esse negócio sobre Patty Hearst na TV), e ele não é um Ashley, mas parece um garoto legal. Tão apaixonado pela noiva, Ai meu Deus, tão entusiasmado o garoto. Ele conta a O. tudo sobre Lourdes e o bebê, e ela dá a ele sábios conselhos fraternais sobre como tratar uma mulher.
— Joias são muito importantes — diz ela. — Joias e bons hidratantes. Mas eu deixaria de lado os chocolates, porque ela deve estar se sentindo supergorda e tal.
— Está mesmo. — Esteban suspira.
— É, bem, não é você quem está carregando as compras, amigo — diz O. — E está cumprindo suas obrigações regularmente?
— Que?
— Perfurando, garimpando ouro, cumprindo suas obrigações como marido?
O. forma um “V” com dois dedos da mão esquerda e enfia o indicador direito para a frente e para trás entre eles.
Esteban fica chocado.
— Ela está grávida!
— Mas não morta — retruca O. — E no segundo trimestre os hormônios ficam em disparada, que nem coelhos num bosque de cravos. Ela está mais excitada que um convento. Você tem que cuidar disso, amigo, ou ela vai pensar que você não a acha mais bonita, e aí vai procurar em outras freguesias.
— Ela é bonita. — Esteban suspira.
Entusiasmado, entusiasmado, entusiasmado.
— Mostre a ela.
Na verdade, uma das coisas de que O. gosta em Esteban é o fato de ele ser sexualmente inofensivo.
Algo que O. aprecia no momento.
Ela não gosta muito da ideia de ser tocada, quanto mais penetrada, violada, embora antigamente costumasse gostar muito.
Seu apetite sexual antes voraz murchou até uma bulimia sensual. Seu botãozinho que costumava se abrir e dar as boas-vindas a qualquer sensação nova agora se esconde no armário em posição fetal.
Muito obrigada, irmãzinha Elena, companheira de clitóris.
E Cara da Motosserra.
Invocar essa imagem é um erro, porque isso faz ligar o vídeo. Ela aperta os olhos, e quando os abre novamente a cabeça do galinha está flutuando na água, e um segundo depois ela se dá conta de que ele apenas afundou na banheira de água quente, mas por um segundo pareceu muito que a bachelorette estava participando daquela brincadeira de apanhar maçãs com os dentes na tina d’água.
— Stebo, você tem erva?
— Eu não posso…
— Ah, vai.
Mostre um pouco de huevos.


193

— A gente fez isso — diz Ben, olhando para as imagens.
— Foi o Lado quem fez isso — responde Chon.
— A gente causou isso — diz Ben.
Chon explode. Um raro fluxo de palavras valiosas:
— Se você vai se afundar nessa vibe de culpa e autopiedade, nunca deveria ter começado isso, para início de conversa. O que você acha que acontece em uma guerra?
Acha que só soldados são mortos?
“Você sabia o que estava fazendo quando deixou aquela van no bairro. Sabia que estava montando uma armadilha. Não seja hipócrita agora de lamentar pelos que serviram de isca.
“E você sabe que isso não vai parar por aqui. O pessoal do Azul vai ter que responder. Vão aparecer mais garotos mortos daqui a alguns dias. Depois outra resposta, e mais uma contrarresposta, até ser o mundo dos cegos de Gandhi. Mas não foi isso que resolvemos fazer?”
Chon sabe o que é a guerra.
No que ela nos transforma.
Eles sabem que Lado vai continuar.
Ele acredita que há um vazamento em sua organização, um vira-casacas trabalhando para El Azul, e não vai parar até encontrá-lo.
— Ou até darmos um a ele — diz Ben.


194

Finalmente, cacete.
Na Party City de Irvine, o delegado Berlinger conversa com um balconista doidão que se lembra de ter vendido máscaras de Letterman e Leno.
— Você se lembra do sujeito?
— Mais ou menos.
Mais ou menos.
Malditos maconheiros.
— Você conseguiria descrevê-lo para mim?
Surpreendentemente, o garoto consegue.
Branco alto. Olhos castanhos, cabelos castanhos, não falou muito.
Pagou em dinheiro.
Ainda assim, é alguma coisa, pensa Berlinger.
Para tirar Alex da minha cola.


195

Juntando Spin (o Lavador de Dinheiro), Jeff e Craig (os geeks de computador), você tem:
(A) Os Três Patetas
(B) Os Três Tenores
(C) Um trio capaz de Invadir Contas Correntes e Fazer $ Aparecer em Qualquer Lugar
Se você marcou (C), ganhou. O que esses garotos fazem — sob o comando de Ben — é localizar a conta corrente americana de Alex Martinez, criar uma nova para ele, transferir para essa conta valores de 30, 45 e 33 mil dólares, fazer isso circular ao redor do mundo algumas vezes e lavar de volta para novas contas.
Depois compram para ele um apê em um condomínio do Cabo.
Depois xeretam mais um pouco e lavam tudo por intermédio de várias empresas de fachada e holdings de modo que apenas um perito contador experiente consiga entender.


196

Jaime é um perito contador experiente.
Ele e Ben ocupam uma mesa no bar do hotel St. Regis.
— O que você quer? — pergunta Jaime.
— Desconfortável? — diz Ben. — Sei que você e Alex normalmente vêm juntos a esses encontros. Vocês são como missionários mórmons, os dois. Só falta usar camisa branca e gravata preta.
— Então por que você quis me encontrar sozinho?
— Meu pessoal fez uma pequena pesquisa.
Ele desliza sobre a mesa uma pasta para Jaime, que olha para ela como se fosse um objeto estranho vindo do espaço sideral.
— Abra — diz Ben.
Jaime abre o arquivo. Começa a olhar e não consegue parar. Começa a virar as páginas cada vez mais rápido, avançando e recuando, o rosto colado no arquivo, o dedo acompanhando linhas e colunas.
Esse troço é como pornografia para um contador, Ben pensa.
É, mais ou menos, mas não totalmente. Jaime e Alex são garotos, e quando o primeiro enfim ergue os olhos, seu rosto está lívido.
Ele está desalentado de verdade. Ben o desalenta ainda mais. Gira o botão do desalentômetro ao máximo:
— Verifique as datas dos depósitos, compare com as datas dos roubos e tente dizer a si mesmo que nosso pequeno Alex não está enriquecendo com o meu fumo.
— Onde você conseguiu isso?
— Eu consegui — diz Ben. — Mas confira você mesmo. Use todos os meios, corrija meu dever de casa.
— Vou fazer isso — diz Jaime. — Alex tem esposa e três filhos. Sou padrinho da menina mais velha.
— Você tem filhos?
— Dois garotos. Oito e seis anos.
— Bem — diz Ben —, você é o contador, e aconteceu nas suas barbas. Conhecendo o temperamento do seu cliente, eu diria que ou os garotos dele crescem sem pai, ou os seus. A não ser… Ah, J., você não está nisso com ele, está?
Ben deixa uma nota de 20 e Jaime sentado ali.


197

Alex é convocado para uma reunião com Lado.
Alex recebe:
(A) Um bônus
(B) Uma promoção
(C) Um papo sério
(D)
Se você respondeu (D)…


198

Alex não consegue explicar
A fonte do dinheiro.
Os três depósitos, o imóvel.
É como uma reunião realmente ruim com um auditor da Receita, com a diferença de que Alex não pode ir acompanhado dos consultores da H&R Block ou de algum daqueles caras que anunciam no rádio.
Ele tem que ser seu próprio advogado, mas não tem o direito de permanecer calado.
E não está numa sala de interrogatório da polícia, mas em um armazém no planalto de Costa Mesa.
Ao menos Alex não está pendurado no teto. Lado conhece seu homem — o advogado não é durão, não há necessidade da piñata. Assim, Alex está apenas de mãos e pés amarrados, e Lado dá uns tapinhas nele, só isso.
O advogado lambioso já está chorando.
Chon e Ben também foram convocados para a reunião.
Ideia de Elena.
Para ver como reagem.
Ben assiste a este filme horrorizado.

                                                                                                                          CORTA PARA:


199

INT. ARMAZÉM — NOITE

ALEX sentado e apoiado na parede. Escorre sangue de sua boca, e respingos de sangue sujam os ombros de seu terno Armani cinza.

LADO se agacha ao lado dele, falando em voz baixa.

LADO
Quem pagou a você?

ALEX
Ninguém.

LADO
Azul? Os 94?

ALEX
Juro por Deus. Ninguém.

LADO
Olha, você vai morrer. Nós dois sabemos disso. Mas eu gosto de você, e você prestou anos de bons serviços. Então vou te dar uma chance. Você pode morrer — ou você e toda a sua família podem morrer.

ALEX começa a soluçar.

LADO (CONT.)
Você me diz a verdade — agora mesmo — e sua esposa e os garotos recebem sua apólice de seguro. Você mente pra mim mais uma vez e eu vou à sua casa, digo a eles que você sofreu um acidente e trago todos aqui. Mato na sua frente.


200

Ben não consegue respirar.
O mundo gira e ele acha que vai vomitar, mas sente que Chon está torcendo
Nem uma palavra. Nem uma maldita palavra.
Alex se ajeita, engole em seco, olha Lado nos olhos e diz:
— Foi o Azul. Ele está usando os 94.
Lado dá um tapinha na sua cabeça e se levanta.
Tira uma arma da cintura e
Dá a arma a Ben.
— Faça.


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