sábado, 3 de agosto de 2013

Selvagens - 181° ao 190° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




181

Quando a van do bagulho não chegou, Hector e seus rapazes refizeram o caminho e encontraram dois de seus homens sentados ao lado de um corpo na estrada.
Com a arma ainda na mão.
Lado o envolveu com cuidado em pedaços de lona e o colocou respeitosamente na caçamba da picape.
— Enterre-o como um homem — ordenou. — Ele morreu fazendo seu trabalho.
Dinheiro para a família.
Depois partiu em busca dos assassinos.


182

Dois aspirantes a bandidinhos viram a van estranha e levaram uns 15 segundos para roubá-la.
Passearam com ela até Doheny Beach, onde olharam na parte de trás do veículo e não acreditaram na própria sorte.
Toda aquela yerba.
De olhos arregalados, Sal olha para Jumpy e pergunta:
— Quanto você acha que isso vale?
— Muito.
Mucho dinero.
Eles não conseguem resistir e provam um pouquinho. Arrancam a pontinha do embrulho de um tijolo…
— Isso é sangue, hermano?
— Mierdita, isso é cabelo?
… e fumam.
Surreal, cabrón.
Um tapa só já dá barato, mas eles dão três, cada. Em cinco minutos estão mais altos que o céu.
— Estamos ricos — diz Pulo.
— Onde podemos vender isso? — pergunta Sal.
— Essa merda? — responde Pulo. — Em qualquer lugar.
Eles viajam nessa ideia alguns minutos, então Sal realmente se liga.
— Pense por um segundo — diz, embora isso seja muito difícil. — Isso pode ser o nosso ingresso.
Eles estão tentando entrar há algum tempo. Isso poderia ser a pulseira que os permite entrar e sair da boate.
E da Sala VIP.


183

Ben e Chon voltam para casa porque seria muito suspeito não voltar.
— Se não voltarmos, nunca poderemos voltar — raciocina Ben. — Eles vão saber que somos nós.
Eles então voltam para Table Rock, mas se armam para a esperada invasão.
Escopetas, pistolas, rifles, metralhadoras — todo o arsenal de Chon está preparado.
Mas nem mesmo os mexicanos irão a uma casa de praia em Laguna no meio do dia para um tiroteio.
Se eles quiserem pegar a gente, vão esperar, Chon sabe disso.
Pelo menos até de noite.
Muito provavelmente terão mais paciência que isso. Mandarão os profissionais esperarem, apanhá-los quando a oportunidade surgir.
Como seria, é assim que será.
Mas eles não recebem uma invasão, recebem uma mensagem de texto.
Convocando Ben para um encontro.
Venha sozinho.
— Eles vão pegar você — diz Chon.
— Ou me balear quando eu estiver indo para lá; ou na volta — diz Ben.
— Duvido — diz Chon. — Vão querer torturá-lo antes. E provavelmente filmar, para usar como lição.
— Valeu.
Mas ele vai.


184

Pega o outro caminho.
Toma a ofensiva.
Encontra Lado e Alex em um lugar público, a calçada de Town Beach, recebe a notícia do roubo sangrento e a insinuação de culpa e explode:
— Melhor você fazer alguma coisa quanto a isso — diz Ben a Lado. — Estou nesse negócio há oito anos e nunca um homem meu foi nem sequer arranhado. Eu me junto a vocês e sou assaltado, e agora você me diz que um cara morreu?!
— Vai com c…
— Vai com calma você — diz Ben, cutucando Alex no peito. — Achei que vocês fossem o Cartel de Baja, porra. Achei que oferecessem proteção. Bom, parece que vocês podem ser muito bons em apanhar garotas na rua, mas quando se trata de…
— Chega.
Esse foi Lado.
Ben cala a boca, mas balança a cabeça e vai andando na frente.
Um belo dia em Town Beach.
Pessoas na água.
Mulheres magras, altas e fortes jogando vôlei. Os músculos do abdômen esticados como tambores.
Os garotos estão na quadra de basquete. Gays de meia-idade assistem dos bancos.
O sol brilhando sobre tudo isso.
Mais um dia no paraíso.
Alex o alcança.
— Você está dizendo que não tiveram nada com isso.
— Estou dizendo que não vou ter nada com vocês caso continuem dessa maneira.
Com acordo ou sem acordo, não vou de forma nenhuma colocar meu pessoal em perigo. Se vocês querem meu produto, melhor garantir nossa segurança, ou eu fecho tudo. E você pode ligar para a Rainha e dizer isso a ela. Tive uma ideia melhor ainda, você me coloca no telefone e eu mesmo digo isso a ela.
— Acho que você não vai querer fazer isso, Ben — diz Alex. — Lembre-se de quem…
— É, eu lembro — diz Ben, fazendo questão de olhar para Lado. — E quanto a essa porra de insinuação, essa sua acusação idiota de que estamos de alguma forma envolvidos nisso, foda-se você e todo o seu bando. Também não vou aturar mais isso.
— Você vai aturar o que eu mandar você aturar — diz Lado.
— Cuide dos seus problemas, entendeu? — diz Ben. — Não se preocupem comigo.
Estou cuidando dos negócios.
Ele vai embora.
Atravessa a PCH e os deixa lá parados.


185

Sal vai até Jesus.
É, piada velha, mas fazer o quê? É o nome dele.
Eles encontram Jesus onde ele sempre está, no estacionamento atrás da loja de bebidas, perto do lava a jato, jogando conversa fora com cinco outros 94, tomando cerveja e fumando um pouco de yerba.
Onze da manhã e eles estão lá.
Há 3 anos Sal e Pulo tentam entrar para o 94, mas são recusados. Jesus disse a eles que não é mais como nos velhos tempos — você vivia no barrio, podia entrar —, agora tinha que colocar alguma coisa na mesa, m’ijo, ese. Você tem que trazer — como Jesus chamou? Ativos.
— Hola, Jesus.
Hola, hola, m’ijo etc. e tal.


186

Jesus não é mais criança.
Tem 23 anos, e passou 8 desses 23 atrás das grades. Sorte não ter passado mais, com todas as merdas que fez. Ele e os outros 94, defendendo seu território das outras gangues mexicanas. Execuções clichês em carros passando, daquele tipo que a gente vê nos filmes, aquela merda de olho por olho. Aos 12 anos Jesus já tinha ficha na polícia. Arrebentou outro moleque, o juiz olhou naqueles olhos nada arrependidos (remorso? de quê?) e o mandou para o reformatório de Vista, onde os garotos mais velhos o obrigaram a tocar punheta para eles e chupar seus paus até ele sentir mais raiva do que medo, agarrar um deles pelos cabelos e bater sua cabeça na parede de concreto até parecer um adesivo descolando.
Saiu, entrou para os 94 (mais um clichê, o estereótipo que você vê em todos os filmes), aos 13 anos vendendo maconha nas esquinas, comendo uma chucha de 14 anos em colchões sem lençol nem nada em casas de crack, foi apanhado com crack na mão, não caguetou ninguém e voltou para o reformatório, mas dessa vez ele era um dos garotos maiores (braços fortes, mãos grandes, um pouco de peso), e era ele quem fazia os garotos menores baterem punheta para ele, chuparem seu pau, e ele olhava com aqueles olhos mortos e eles faziam, faziam o que ele mandava.
Novamente na rua, as gangues em guerra simplesmente se detonando na disputa por terreno, por vingança, por porra nenhuma, ele levou uma bala de um carro em disparada. Estava de bobeira no gramado da frente, fumando yerba, tomando cerveza, se preparando para colocar seu pitón naquele pedacinho doce quando bang, sentiu uma dor na coxa e o pedacinho gritava, mas não como ele gostava que ela gritasse, e tinha sangue escorrendo pela perna dele. Jesus terminou a cerveja antes de ir para o hospital.
Quando saiu, duas semanas depois, ainda de bengala, só para recomeçar fez com que seus rapazes passassem com ele de carro por uma casa no barrio de Los Treintes, colocou sua AK para fora da janela e sentou o dedo. Pegou um Treinte, mas também uma niña de 4 anos no ricochete, mas Jesus não se importa com essas coisas.
A prole não gosta, mas espera a hora certa, porque ele agora era um jefe e eles queriam se livrar dele. Jesus caga, e manda ver pra cima deles também. Aquele lambioso olha comprido para a garota dele, Jesus vai e esmaga a cara do sujeito e eles o trancam por seis anos na Q. — San Quentin.
A não ser pela comida e pela falta de chucha, Jesus gostou da cadeia.
Puxando ferro, andando com os mesmos garotos com quem ele andaria na esquina, lutando contra os arianos e os zulus, fumando yerba, se picando, fodendo punks, fazendo tatuagens. Matou mais dois na Q. e nunca chegaram perto dele por isso.
Ninguém se metia com Jesus. Comandava os 94, ou o que restara deles, de sua cela.
Ordenou mais três assassinatos na rua e eles foram executados.
De volta às ruas, de volta aos 94, descobriu que não tinha sobrado muitos deles.
Vários estavam mortos, outros em cana, alguns viraram craquedos e drogados. A coisa de gangue tinha acabado, finito.
E ele já não era tão jovem.
Os anos, eles voam.
As pessoas, não.
As pessoas, elas agarram e arrastam, e isso aparece.
De qualquer modo, ele cumpriu seu tempo, e agora saiu e está de volta, e dizem que os dias das gangues acabaram, que todos matamos uns aos outros, e isso é um pouco verdade, mas também é um pouco falso. As gangues estão voltando — como dizem, o bom gosto nunca sai de moda —, mas de forma diferente.
De forma séria.
De forma empresarial.
Ganhando dinheiro.
Os conselheiros da prisão ficavam naquela lenga-lenga de “fazer boas escolhas”.
Fazer boas escolhas quando sair para não voltar para o xadrez.
Boas escolhas.
Então, você pode escolher matar por orgulho, por cores idiotas de gangues, por
território, por venda de drogas, ou pode escolher matar por dinheiro.
Jesus escolhe matar por dinheiro.
Como diz o ditado: “Trabalhe em alguma coisa de que goste, e nunca trabalhará um só dia na vida.”


187

— O que posso fazer por vocês, rapazes? — pergunta Jesus.
Jesus é o jefe dos 94, conseguiu para eles uma pequena plaza em DP, querendo se mudar para o grande bairro mexicano em SJC.
Mas SJC é terra dos Treinte, então Jesus busca apoio externo. Ele se associou a um representante do próprio El Azul, porque todos sabem que ele vai acabar no topo, então Jesus quer subir com o vencedor. Trabalhe para El Azul, e, quando ele assumir, vai dar SJC para os 94.
Sal tenta posar de importante.
— Isso que podemos fazer um pelo outro.
Jesus ri.
— Bueno, m’ijo, o que podemos fazer um pelo outro?
Sal se vira e acena para Pulo, que chega com a van.
— Não trabalho com carros — diz Jesus.
Não vale o risco, não vale a pena. Você rouba um carro, tem que dirigir até o México, e lá eles roubam você no valor que lhe pagam pelo veículo.
— Olha lá dentro.
Sal abre a porta do passageiro e aponta.
— O que vocês têm aí, niños? — pergunta Jesus, dando um risinho. — Aparelhos de TV?
Nãããããão, nada de TV.
Ativos.
Jesus assovia.
— Onde conseguiram isso?
Sal gosta da reação. Não é fácil impressionar Jesus.
— Digamos que simplesmente conseguimos — diz, apontando o polegar e o indicador como uma pistola.
— Espero que tenham jogado fora as peças.
O que é muito bom, porque estão conversando como homens.
— Pode nos ajudar a vender isso? — pergunta Pulo.
— A gente dá uma prova — acrescenta Sal rapidamente.
Claro, responde Jesus. Ele pode fazer isso.
Deve ter uns bons 200 quilos na van. Mande um pouco disso para El Azul e vai conseguir sua atenção. Ele se vira para um dos rapazes e diz:
— Pegue umas cervejas para os meus primos aqui.
Sal está feliz.
Fica ali tomando cerveja na Sala Vip.


188

Jesus vai ver um homem que ele conhece.
Que vai ficar muito contente em comprar a mercadoria por um bom preço.
Antonio Machado tem cinco lojas de tacos em South Orange County, um bom negócio, porque ele movimenta muito mais erva do que chimichangas.
Jesus escolheu o señor Machado porque o homem tem laços com El Azul. O jefe vai receber seu material, Jesus vai fazer Machado ficar bem na fita e por isso receber favores em troca, e os dois ganharão muito dinheiro. Melhor ainda, Machado paga menos a Sal e Pulo, e dá a quantia real a Jesus, o que vai cobrir a transferência da mercadoria para Machado e El Azul.
Negócio bom, inteligente.
Pelo menos seria, não fosse por…
Pelo fato de que falta a Jesus uma informação vital.
O señor Machado tem certos vídeos. Recebeu visitas de Lado, que lhe explicou: ele deveria saber de que lado sua tortilla leva manteiga, e esse lance do El Azul? Não perca a cabeça por causa disso.
A Rainha vive, Tío.
Longa vida à Rainha.
E ele também recebeu, naquela mesma manhã, um Alerta Âmbar sobre certo carregamento de maconha que sofreu um contratempo: em termos bastante claros, nosso bom amigo Antonio, qualquer um que tente movimentar essa yerba está colocando a própria cabeza no cepo. Qualquer um que veja ou mesmo ouça falar dessa yerba e não pegue o telefone…
Machado pega o telefone.
Vai para os fundos de uma de suas lojas, onde o balcão está cheio de estudantes em visita à Mission, e faz a ligação.
— Você é um bom amigo — diz Lado. — Sabíamos que podíamos contar com você.
Combine a venda.


189

Jesus se contorce na rede de pesca pendurada na viga.
— Vou perguntar novamente — diz Lado. — Onde conseguiu esta yerba?
— Daqueles dois — diz Jesus, apontando para Sal e Pulo, que estão sentados no chão apoiados na parede.
— Daqueles dois perritos? — pergunta Hernan, apontando com o queixo para os dois garotos, sentados em uma poça do próprio mijo. — Acho que não. Tente de novo.
— Foi isso! — E sai como um gemido.
Lado balança a cabeça e gira o taco. Grande fã de beisebol, Lado. Em dado momento achou que poderia ter uma chance como profissional. Um período curto no Double A, talvez. Agora ele adora ir a jogos dos Padres. Chega cedo para ver o treino de rebatidas.
Jesus grita.
— Essa foi uma simples — diz Lado. — A próxima vai ser dupla, vai lançar para fora do campo.
Ele gira novamente.
Pulo ouve um osso partir e começa a chorar.
De novo.
— Tá a fim de uma tripla? — pergunta Lado. — Diz a verdade. Diz um pouco de verdade e eu talvez te deixe vivo.
Jesus desmonta.
— Fui eu, eu roubei.
Lado, um pouco ofegante, se apoia no taco.
— Não sozinho, isso não. Quem estava com você?
— Os 94.
— Nunca ouvi falar. O que é isso?
— Minha gangue.
— Sua “gangue” — diz Lado. — Um merda como você não conseguiria um tombe como este. Você é pau mandado de quem?
— Do Cartel de Baja.
— Pendejo, eu sou o Cartel de Baja.
— O outro.
— Que outro?
— El Azul.
Lado anui.
— E quem do El Azul disse a você aonde ir e quando?
Jesus não tem uma resposta.
Realmente não tem.
Nem mesmo quando Lado acerta uma tripla.
Nem mesmo quando manda sua melhor tacada.
Jesus apenas cospe um monte de merda sem sentido. Um cara o procurou, não sabe o nome do cara, o homem misterioso deu a ele informações sobre o transporte da erva, sugeriu atacar, eles dividiriam os lucros…
— Conhece um homem chamado Ben? — pergunta Lado. — Foi ele?
Jesus fica contente com qualquer sugestão.
— Isso, foi isso, Ben.
— E como ele é fisicamente?
Respostas erradas, respostas erradas. Jesus não consegue descrever Ben, não consegue descrever Chon.
Fregado — inútil.
— Eles sabem? — pergunta Lado, apontando para Sal e Pulo.
Sim, Jesus diz a ele, eles sabem.


190

Sal geme.
Ele pode sentir o cheiro do próprio medo, da própria calça cagada.
Não consegue fazer as pernas pararem de tremer, as lágrimas pararem de cair, nem a meleca de escorrer.
Os gemidos de Jesus pararam.
Ele está ali jogado como uma pilha de roupas sujas.
Lado cola a pistola na testa de Pulo e atira, espalhando pedaços do amigo de Sal por cima dele. Então se vira para Sal e pergunta:
— Você realmente espera que eu acredite que vocês simplesmente acharam uma van cheia de yerba estacionada no seu barrio e pegaram? É nisso que você espera que eu acredite?
— Eu não sei.
Lado coloca a arma na cabeça dele.

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