sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Selvagens - 171° ao 180° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow



171

É, ela quer a maldita internet.
Quer internet, um computador para usar a internet, e torce para que eles tenham wi-fi nesse buraco em que estão, e não cabo ou, Deus os ajude, discada. Ela quer tudo isso e quer uma TV, parabólica — se eu perder mais um episódio de The Bachelorette nunca mais vou conseguir acompanhar —, um iPod para acessar sua conta no iTunes, e eles poderiam incluir uma salada de vez em quando, porque se ela continuar engolindo todo esse carboidrato vão precisar de uma empilhadeira para tirá-la de lá e entregá-la a algum retiro de gordos em La Costa, o que deixaria Rupa muito contente, e por falar em sua mãe…
— É melhor me deixarem usar a internet — diz ela através da porta —, porque se minha mãe não receber notícias minhas a cada 27 minutos ela vai chamar o FBI, e eu acho, embora não tenha certeza, que um dos meus padrastos… o Quatro, talvez…
enfim, não importa, um deles talvez já tenha sido do FBI — na verdade era da empresa federal de garantia de depósitos, mas quem se importa —, então ela conhece pessoas, e sim, eu quero entrar em contato com os meus amigos para dizer que estou bem, ou pelo menos uma versão de bem, e vai cair a mão de alguém se me arranjarem um martíni?
Esteban entra no quarto.
Ele não sabe o que dizer.
Ela manda:
— Certo, qual o seu nome?
— Esteban.
— Legal — diz O. — Legal, Esteban, eu quero…
Ela repete suas exigências.
Esteban concorda em ir perguntar.


172

Isso vai subindo por toda a hierarquia.
Dos garotos que cuidam da casa onde a garota está trancada até Alex, Lado e então Elena.
Que aceita o argumento Rupa.
A última coisa que ela quer é um drama “caçada à garota desaparecida” na televisão americana, então diz sim, dê à garota um computador e uso controlado da internet. Garanta que ela escreva para a mãe — verifique se ela não vai dar pistas de onde realmente está — e deixe que escreva para os amigos, que, afinal, são nossos parceiros comerciais.
Eu já tenho uma filha mimada rebelde, pensa Elena.
Preciso de mais uma?


173

O. escreve a Rupa:
Querida mamãe,
Olá de Paris, ou eu deveria dizer bonjour de Parrí? É muito legal aqui, com a Torre Eiffel e tudo mais. O pain au chocolat é maravilhoso, mas não se preocupe, não estou comendo demais. Todas as francesas são magricelas, as piranhas. Falo com você em breve.
Sua filha, Ophelia
O pessoal do CB não é idiota — eles passam o e-mail por uma de suas afiliadas na França para que o “enviado de” corresponda à localização.
Depois O. escreve para Chon e Ben:
Oi, meninos,
Me tirem daqui, poha.
Amo vcs
O.


174

— Eles mesmos podem estar escrevendo isso — diz Chon.
— Não, é ela.
— Como você sabe?
— “Poha”?
Eles escrevem uma resposta:
“Vamos pegar você.”
Depois tentam descobrir como tornar isso verdade.


175

O problema é que
O CB mudou todos os seus depósitos.
Tudo muito divertido, mas
Agora é pra valer.
Um grama de prevenção, 1 quilo de cura. Lado e Elena pensam juntos e dão a ordem: novas casas e novas rotas devem resolver o problema dos carros com dinheiro por algum tempo, ou pelo menos tempo suficiente para descobrir o vazamento.
Então Ben e Chon se foderam. Eles foram conferir todos os depósitos que havia nos arquivos de Dennis, e estavam todos desertos. Simplesmente se mudaram e abandonaram os lugares.
Hoje aqui, amanhã sumiram do mapa.
E embora roubar de si mesmo ajude a desviar as suspeitas, não se ganha dinheiro roubando o que já se tem. Pelo menos não com itens não passíveis de seguro como droga e dinheiro de droga. (“Alô, State Farm? Qual seria o prêmio para uma tonelada de heroína e… alô, State Farm?”). Nem aquele maldito lagartinho da Geico engoliria essa, que dirá os neandertais.
Além do mais, você quer confundir os caras. É o ciclo incansável da guerrilha, como Chon sabe. Você age, o inimigo se ajusta. Você ajusta novamente, o inimigo reajusta. E assim por diante.
— Poderíamos pegá-los quando estiverem vindo para uma coleta de maconha — diz Ben, porque ele agora é, tipo, Butch Cassidy. — Mas a gente receberia esse dinheiro de qualquer maneira, então qual o sentido?
— Nenhum.
Mas quando eles saírem com o bagulho pelo qual acabaram de pagar…
Porque bagulho é tão bom quanto dinheiro. Na verdade até melhor, nesta economia. Maconha nunca cai em relação ao euro.
Então esse é o novo plano: vender o bagulho ao CB, depois roubar deles o bagulho que acabaram de vender.
Porque assim que sai da loja…


176

Reagan e Ford.
Um assalto republicano.
Ben se recusa terminantemente a usar a máscara de Reagan (para um budista de meia-tigela, Ben pode ser rancoroso de tigela inteira), então Chon fica com ela. Ben coloca a cara de Ford e imediatamente bate com a cabeça entrando no carro.
— Sou um ladrão metódico — explica ele.
Chon não aprova a frivolidade.
— As coisas podem ficar feias desta vez — alerta ele.
— É tudo muito divertido até alguém perder um olho — concorda Ben.


177

Eles estão em uma perua da Volvo roubada a 800 metros da casa produtora do interior de Ortega.
Sim, uma perua da Volvo.
— Um Volvo? — perguntou Ben quando Chon voltou com o carro de serviço. — É sério isso?
— Essas coisas são tanques.
Uma merda de dirigir, mas batem lindamente.
Então eles ficam sentados no Volvo e veem a van do CB chegar, e esperam a transação ser concluída e depois a van sair. Só há uma estrada, então eles sabem que a van voltará pelo mesmo caminho, com um carregamento de Ultra de primeira.
— Está de cinto? — pergunta Chon quando eles ouvem a van se aproximar.
— Mesinha fechada e assento na posição vertical.
— Velocidade de impacto.
Porque todos adoram Clube dos cafajestes.
Eles batem na van em diagonal, na lateral dianteira da direita. Chon já saltou do banco do motorista antes mesmo de o carro parar. Ele mostra a escopeta ao motorista aturdido e o arranca do assento. Ben vai até o carona. O motorista está deitado no chão, Chon começa a entrar e então…
Merdas não acontecem em câmera lenta como nos filmes.
Acontecem assustadoramente rápido.
Doentiamente rápido:
Chon está sentando no banco do motorista quando…
O tiro é disparado
Muito alto
O resto acontece em silêncio; bem,
Não silêncio, há um som esquisito de água correndo nos ouvidos de Ben enquanto…
Chon gira e tropeça para trás e Ben…
… grita, e então
Começa a atirar nos fundos da van, e…
… a porta da van desliza e o cara sai cambaleando, buracos de bala por todo o corpo do sujeito, enquanto
Chon se ajeita e manda ver na escopeta…
… e o cara é jogado contra a van como um boneco de testes de colisão.
Chon joga o corpo de lado, vai para o volante.
Ben pula para dentro e eles pegam a estrada.


178

Ben surta.
— Calma — diz Chon. — Segura a onda.
— Eu matei um cara!
— Ainda bem, porra — diz Chon.
O primeiro tiro passou por Chon raspando. O segundo o teria matado se Ben não tivesse aberto fogo. Ele olha para Ben, lágrimas escorrendo pelas suas faces, o rosto contorcido de dor.
Traz de volta.
A primeira vez.
Rompendo aquele cabaço.
Não houve tempo para sentir culpa na hora.
AQ por todo o maldito lugar. Atiradores de elite lançando fogo de toda parte.
Companheiros caindo com o zip-zip das balas. Chon, colado no chão, se obrigou a olhar para cima, encontrar um alvo, atirar.
Você matou um, garoto? Mate mais.
Agora ele diz a Ben:
— Relaxa.
— Não consigo.
— O que você achou que seria, Ben?
E não sabe que vai ficar pior?


179

Concentração, concentração, Ben cobra de si mesmo.
Concentre-se em salvar O.
Com uma baixa entre os seus homens, o CB se sentirá na obrigação de Fazer Algo a
Respeito, e esse algo pode ser contra O. caso eles suspeitem do nosso envolvimento no roubo.
É preciso dar a eles outra pessoa.
Isso é bem ruim, porque o bagulho vale seis dígitos, mas eles têm que jogar fora.
Jogar o bagulho e a culpa em Outra Pessoa.
É feio, é errado, e…
Eles levam a van até Dana Point.
DP é uma antiga e charmosa cidade de surfe que mantém um pouco do seu charme.
Costumava ser famosa entre os surfistas como “Dana Matadora”, por causa de uma grande onda que quebrava bem no ponto de Dana Point. Mas depois construíram o porto e a marina e foderam com a onda. Só o que sobrou de Dana Matadora foi uma loja de surfe epônima…
… boa palavra, Chon postulou que Alcoólicos Anônimos é também Alcoólicos Epônimos…
… que ainda assim mantém a lenda viva.
Dana Point também tem um barrio pequeno mas bem definido, com um pequeno mas crescente problema de gangues. Ben tem em mente dar ao pequeno mas crescente problema de gangues um problema maior. Chon entra no barrio com a van, encontra um belo beco sem saída e a deixa ali.
Ele e Ben saem andando.


180

Durante a caminhada, Ben promove um autointerrogatório interno socrático.
Você tirou uma vida humana.
Sim, mas em defesa pessoal.
Na verdade não, você estava roubando o cara e era ele quem estava se defendendo.
Na verdade, ele me roubou primeiro.
Então dois erros fazem um acerto?
Claro que não, mas quando ele puxou a arma não me deixou escolha.
Deixou sim. A escolha moral não teria sido permitir que ele o matasse em vez de você mesmo cometer um assassinato?
Talvez, mas eu apenas reagi.
Exatamente. Você não pensou.
Não havia tempo para pensar. Apenas para reagir.
Mas você se colocou naquela situação. Você cometeu um assalto, você levou uma arma. Foram escolhas.
Ele teria me matado.
Agora você está apenas se repetindo.
Ele teria matado meus amigos.
Então você estava salvando a eles, não a si mesmo?
Eu não sei o que eu estava fazendo, entendeu?! Não me reconheço. Não sei mais quem sou.
E é tudo muito divertido até alguém perder um eu.

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