Monday, 15 July 2013

Selvagens - 91° ao 100° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




91

O. decide começar na Banana Republic.
No South Coast Plaza, claro.
(Calma, não vamos repassar toda a lista de novo.)
Ela nunca vê o carro que a segue até em casa e de casa até o shopping. Ela estaciona seu carro e entra.
Esteban, um dos três homens no carro que a segue, liga para Lado.


92

Que está em seu escritório cuidando de umas porras completamente inúteis de jardinagem.
Todo mundo quer que tudo seja feito ao mesmo tempo — ou seja: agora mesmo —, e querem o mesmo serviço por menos dinheiro. Estão todos procurando promoções nos últimos tempos, aqueles que simplesmente não suspenderam o serviço — é cômico de se ver: um guero tentando ligar um cortador de grama —, mas Lado não foi tão afetado.
A maior parte dos seus negócios é com condomínios, e ele também tem um pequeno nicho de mercado na recessão: bancos e corretores precisam que propriedades antes fechadas sejam limpas para que possam ser vendidas.
Ele vê a identificação da chamada e sai para atender.
Dá a resposta Nike — Just do it: Apenas faça.
Os garotos são bons, sabem o que fazer.


93

O. decidiu por um lance totalmente Kristin Scott Thomas para suas roupas de viagem.
Discreto, mas sensual.
Muito branco e cáqui. O que não conseguiu encontrar foi aquele chapéu — grande, solto, dobrável, mas sensual assim mesmo —, então decidiu sair do SCP e dirigir até a Fashion Island, em Newport Beach.
Ela volta para o carro, gira a chave e sente a lâmina na nuca.
— Vai dirigindo, chica.
Ela dirige para onde a voz ordena, cruzando Bristol até Costa Mesa, pegando algumas ruas até a parte de trás de um pequeno shopping, onde um mexicano com boné de beisebol entra pelo lado do carona e enfia uma agulha em sua coxa.


94

Chon recebe o e-mail com o vídeo anexado.
Chama Ben.
É O.
Sentada em uma cadeira em uma sala vazia.
Paredes amarelas feias.
Uma motosserra aos seus pés.


95

Então o videoartista faz uma coisa muito maneira:
A cabeça de O. simplesmente se descola dos ombros e começa a flutuar pela tela.
Um número de telefone aparece.


96

Ben liga para o número.
Pergunta:
— O que vocês querem?
Chon diz:
— Me dê o telefone.
Ben não vai fazer isso. Para Chon dizer “Vai se foder” e eles realmente separarem a cabeça de O. do corpo.
Realidade versus virtualidade.
— Preciso de uma prova de que ela está viva — diz Ben.
Uma frase que ele se lembra de ter ouvido em algum filme.
Sem problema
Skype.


97

O. parece assustada.
É claro.
Com medo e chapada. Eles deram algo a ela.
— Oi.
— Oi.
— Machucaram você? — pergunta Chon.
Pronto para atacar.
O. diz:
— Não, eu estou bem.
Ben diz:
— Desculpa por isso.
— Tudo bem.
A imagem dela some da tela.
Substituída por um áudio.


98

Uma voz modificada eletronicamente diz:
— Quero falar com o Sr. Chega dessa Merda.
— Estou aqui.
— Então, chega de merda, pode ser? Você vai fazer a primeira entrega para mim, pelo preço que eu determinar, nas próximas cinco horas, ou vai receber um e-mail não muito agradável.
— Sem problema.
— Mesmo? Porque antes era um problema.
— Não é mais.
— Ótimo. Agora quero falar com o Sr. Vai se Foder.
— Aqui — diz Chon.
— Você me insultou.
— Me desculpe.
— Desculpas não são o suficiente.
— O que você quiser — diz Chon.
— Imagino que tenha uma arma. Pegue.
Chon pega seu .38.
— Pronto.
— Fique na frente da câmera onde eu possa vê-lo.
Chon obedece.
— Agora enfie a arma nessa sua boca grande — diz a voz.
Eles ouvem O. gritar:
— Chon, nãããããoo!!!
Mas também ouvem uma motosserra sendo ligada e a voz dizer:
— As mãos dela primeiro…
— Estou fazendo, estou fazendo!
Ben está em choque. Um estranho e doentio choque de pesadelo.
Chon abre a boca e engole o cano.
— Agora puxe o gatilho.
Chon puxa o gatilho.


99

— Pare!
— Meu Deus do céu.
Os joelhos de Ben fraquejam, e de repente ele está sentado no chão com o rosto nas mãos.
— Tire a arma.
Chon tira o cano da boca lentamente. Lentamente porque sente como se estivesse se movendo sob a água, e também porque não quer fazer a merda de atirar em si mesmo ao tirar a arma da boca.
— Na próxima vez que eu lhe pedir que você faça algo, imagino que não vou ouvir “Vai se foder”, certo?
Chon faz que não com a cabeça.
— Ótimo. Tem um homem em San Diego me criando problemas. Vocês receberão os detalhes. Se eu não souber da morte dele em cinco horas, vou matar sua amiga.
Buenos días.
O áudio se encerra.
A tela se apaga.


100

O que fazer, o que fazer?
Procurar o FBI?
A DEA?
Ben estaria totalmente disposto a fazer algo desse tipo, caso isso salvasse O., ainda que sem dúvida significasse para ele anos de prisão. Mas isso não a salvaria — apenas a mataria. Se os federais pudessem dar conta dos cartéis, já teriam acabado com eles.
Então essa opção está descartada.
A alternativa é…
Ninguna.
Eles estão fodidos.
Isso é culpa de Ben, e vem de longa data. Ben sempre achou que poderia viver com um pé em cada mundo. Uma Birkenstock no submundo oficialmente criminoso da venda de maconha e a outra no mundo da civilização e da lei.
Agora ele sabe que não pode.
Está com os dois pés atolados na selva.
Chon nunca nutriu essas ilusões.
Chon sempre soube que há dois mundos:
O selvagem
O menos selvagem.
O selvagem é o mundo da pura força bruta, da sobrevivência do mais apto, dos cartéis de drogas e esquadrões da morte, dos ditadores e homens-fortes, dos ataques terroristas, das guerras de gangues, dos ódios tribais, dos assassinatos em massa, dos estupros coletivos.
O menos selvagem é o mundo do puro poder civilizado, de governos e exércitos, multinacionais e bancos, companhias petrolíferas, doutrinas militares de choque e pavor, genocídio, estupro econômico em massa.
E Chon sabe…
Que ambos são o mesmo mundo.
— O que vamos fazer? — pergunta Ben.
— Assim que a informação chegar eu vou pular no meu carro e matar quem eles pedirem — responde Chon. — Você vai tirar a bunda do chão e entregar a maconha.
— Você vai matar alguém para ele?!
— Eu fiz isso por Dick Cheney e pelo Fantoche de Meia — diz Chon. — Qual a diferença?
O telefone toca.
Chon atende às pressas.
— Aham… aham… entendi.
— Eles deram o endereço? — pergunta Ben.
— Mais ou menos.
— Como assim mais ou menos?
— É uma porra de um barco — diz Chon.
Uma porra de um barco…
… finalmente, finalmente, o treinamento de Chon como Seal vai ter alguma utilidade.

No comments:

Post a Comment

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...