quinta-feira, 4 de julho de 2013

Selvagens - 51° ao 60° Capítulos

Selvagens (Savages)

Don Winslow





51

Ben quer paz.
Dê uma chance à paz, imagine que não existem países. É, imagine que também não há Mark David Chapman, veja aonde isso leva. Mas é o negócio de Ben, então eles pegam o laptop e acham o e-mail para enviar uma resposta ao vídeo dos Sete Anões.
Dezoito e-mails depois eles marcam um encontro com o CB amanhã, no Montage.
Ben reserva uma suíte de 2 mil paus a diária.
Quando eles terminam, O. sorri para seus rapazes e pergunta:
— Podemos sair? Nós três? Sair de verdade?
Eles sabem o que ela quer dizer com “de verdade”. “De verdade” significa fazer a coisa direito — se vestir bem, ir aos melhores lugares, gastar horrores, chutar o balde, tudo.
Podemos sair é a resposta.
Ben pensa: por que não sair na noite em que nós saímos? Fazer a coisa direito, celebrar o fim de um empreendimento bem-sucedido que foi bom para nós.
Abraçar a mudança.
— Amanhã à noite — diz Ben. — Arrume-se bastante.
— Vou ter que comprar umas coisinhas — responde O.


52

Quando O. chega em casa, Eleanor está mais uma vez saindo da entrada para carros.
Parece que aquela mulher está sempre saindo das entradas para carros.
Quando O. entra em casa, Rupa faz com que ela se sente na sala para uma
Conversa Séria.
— Querida, precisamos ter uma conversa séria — diz ela.
O que para O. é como
Oh-oh.
— Você vai terminar comigo? — pergunta O., sentando-se na almofada que Rupa indicou para ela com um tapinha.
Rupa não entende a brincadeira. Ela se inclina na direção de O., os olhos suaves e úmidos, respira fundo e diz:
— Querida, preciso lhe contar que Steve e eu decidimos seguir nossos destinos separados.
— Quem é Steve?
Rupa toma as mãos de O. e as aperta.
— Mas isso não significa que não a amemos. Nós a amamos, sim; muito. Isso não tem nada a ver com você e… não é… culpa… sua… você entende isso, não é?
— Ai, meu Deus, é o cara da piscina?
O. gosta do cara da piscina.
— E Steve vai continuar na cidade, você poderá vê-lo quando quiser, isso não vai mudar a relação de vocês.
— Estamos falando do Seis?
Rupa a olha sem entender.
— Steven; seu padrasto.
— Se você diz.
— Tentamos fazer com que desse certo — diz Rupa —, mas ele não me apoiava nessa questão do aconselhamento, e Eleanor disse que eu não deveria ficar com um homem que não me apoia em meus objetivos.
— O Seis não apoia sua conselheira quando ela a aconselha a deixá-lo — diz O. — Que babaca.
— Ele é um ótimo homem, mas é que…
— Isso é algo no estilo L World, mãe? Porque a Eleanor me parece um tanto… Sapata.
Não que haja algum problema nisso, pensa O. Ela e Ash tiveram umas coisas quase lésbicas influenciadas pelo baseado e pelo ecstasy, e basicamente uma influenciou a outra, mas não é muito sua onda permanente, só uma espécie de medida de emergência, como picolé quando na verdade você quer sorvete, mas a loja está fechada e só tem isso no congelador.
Ou talvez seja exatamente o contrário, metaforicamente falando.
Ela tenta imaginar Rupa descendo, colocando um cinto de pênis, ou sendo a femme da machona Eleanor, mas a imagem é tão horrenda — de arrancar os olhos com uma colherzinha de café — e tão nada a ver — de fazer você passar mil horas na terapia e ainda assim continuar fodida da cabeça — que ela desiste.
Então Rupa anuncia delicadamente:
— Então Steve está de mudança.
— Posso ficar com o quarto dele?


53

Lado está indo para casa e, enquanto dirige, escuta um cara do rádio falar sem parar sobre uma “latina sensata” e acha muito engraçado.
Ele sabe o que é uma “latina sensata”: “latina sensata” é uma mulher que sabe calar a boca antes de levar as costas da mão também, isso é o que uma “latina sensata” é.
Sua esposa é uma latina sensata.
Lado e Delores são casados há quase 25 anos, portanto não vá dizer a ele que isso não funciona. Ela cuida bem da casa, criou três filhos bonitos e educados, cumpre seus deveres na cama quando solicitada e não faz mais exigências.
Eles têm uma bela casa no fim de uma rua sem saída em Mission Viejo. Uma típica casa suburbana da Califórnia em um típico subúrbio, e quando eles deixaram o México para morar lá, há oito anos, Delores ficou maravilhada.
Boas escolas para as crianças, parques, espaço para brincar, uma excelente liga de beisebol na qual seus dois filhos são astros — Francisco é arremessador, e Junior, um outfielder que sabe rebater forte — e a mais velha, Angela, virou animadora de torcida este ano no ensino médio.
É uma vida boa.
Lado estaciona e desliga o rádio.
Plano de saúde, quem se importa com essa porra de plano de saúde? Você guarda dinheiro e se cuida caso fique doente. Ele foi obrigado a fazer um plano coletivo para seus funcionários na empresa de jardinagem e ficou puto da vida.
Delores está na cozinha fazendo o jantar…
… latina sensata…
… quando ele entra e senta.
— Cadê as crianças?
— Angela está no ensaio de torcida, os garotos, no beisebol — diz Delores.
Ela ainda é guapa, Delores, mesmo depois de três filhos. De fato, tem que ser, pensa ele, com o tempo que ela passa na ginástica. Eu deveria ter investido em alguma academia 24 horas, assim recuperava um pouco a grana. Ou isso ou ela está no salão fazendo alguma coisa — cabelos, pele, unhas, alguma coisa.
Sentada lá, tagarelando com as amigas.
Reclamando dos maridos.
Ele não fica em casa, não fica com as crianças, ele nunca mais me levou para passear, não ajuda na casa…
É, talvez ele esteja ocupado. Ganhando dinheiro para pagar a casa na qual ele não fica, pagando pelas roupas de animadora de torcida, pelo equipamento de beisebol, pelos professores particulares de inglês, pelos carros, pelo material de limpar piscina, pela academia, pelo salão…
Ela limpa o balcão na frente dele.
— O que foi? — pergunta Lado.
— Nada.
— Pega uma cerveja pra mim.
Ela abre a geladeira
… nova, 3 mil dólares
apanha uma garrafa de Corona e a coloca — meio rude demais — no balcão.
— O que foi, está infeliz de novo? — pergunta Lado.
— Não.
Ela faz “terapia” uma vez por semana. Mais dinheiro do qual ela se ressente de ele estar ralando para ganhar.
Diz que está deprimida.
Lado se levanta, coloca-se atrás dela e abraça sua cintura.
— Talvez eu devesse engravidar você de novo.
— Sí, é disso que eu preciso.
Ela se solta dele, vai até o forno e tira uma travessa de enchiladas.
— Está cheirando bem.
— Que bom que gostou.
— As crianças vêm jantar?
— Os garotos. Angela vai sair com as amigas.
— Não gosto dessa história.
— Bom. Diga isso a ela.
— Deveríamos comer juntos, a família inteira — diz Lado.
Delores acha que vai explodir.
Comer juntos — quando você aparece, quando acaba Deus sabe lá o que está fazendo, quando não está com seus muchachos, ou comendo suas putanas, deveríamos comer juntos. Mas ela diz:
— Ela vai à Cheesecake Factory com a Heather, a Britanny e a Teresa. Dios mío, Miguel, ela tem 15 anos.
— No México…
— Não estamos no México — retruca ela. — Estamos na Califórnia. Sua filha é americana. A ideia era essa, não?
— Deveríamos ir ao México mais vezes.
— Podemos ir no próximo fim de semana se você quiser — diz ela. — Visitar sua mãe…
— Talvez.
Ela confere um calendário preso na geladeira por um imã.
— Não, o Francisco tem um torneio.
— Sábado ou domingo?
— Os dois dias se eles vencerem.
Essa é a vida dela. Motorista profissional. Jogos de beisebol, partidas de futebol, ginástica, animação de torcida, brincadeira na casa dos amigos, shopping, Sylvan Learning Center, lavanderia, supermercado, ele nem sabe o que mais.
Delores mal pode esperar para que Angela tire carteira e possa se deslocar sozinha, talvez ajude com os garotos. Ela ganhou 2 quilos e meio, tudo nos quadris, só de dirigir sentada.
Ela sabe que ainda é uma mulher bonita. Não se permitiu ficar como muitas das esposas mexicanas da sua idade. O tempo todo na academia — jazzercício, esteira, pesos, sessões de tortura com Troy —, mantendo distância de refrigerantes, de pão. As horas no spa e no salão, pintando os cabelos, fazendo as unhas, a pele, tudo para ficar bem, e ele percebe?
Talvez eles saiam uma vez por mês em família — ao TGI Friday’s, ou à Marie Callender’s, à California Pizza Kitchen caso ele esteja num dia bom —, mas e apenas os dois? Um restaurante adulto para um vinhozinho, um cardápio bacana? Não lembra quando foi a última vez.
Nem a última vez que ele transou com ela.
Como se ele quisesse, aliás.
Quando foi? Um mês? Mais? A última vez que voltou às 2 da manhã meio bêbado e quis dar umazinha? Provavelmente porque não conseguiu arrumar uma puta naquela noite, então eu tive que servir de segundera?
Os garotos entram e ficam em cima dele. Os arremessos que fizeram, as rebatidas que deram, nem sequer se dão o trabalho de tirar os tênis até ela, aos gritos, mandá-los fazer isso. Lama por todo o chão da cozinha, e amanhã Lupe vai reclamar do trabalho extra, aquela puta guatemalteca preguiçosa. Delores ama os filhos mais que tudo, mas dios mío…
É como um tapa na cara o momento em que ela percebe
Que ela quer o divórcio.


54

O Montage.
Resort Hotel.
Costumava ser um estacionamento de trailers chamado Treasure Island.
Aaarggh, Jim, eu sei onde está o tesouro.
O tesouro está em um hotel luxuoso de frente para o mar onde os integrantes da beautiful people vão deixar 4 mil dólares por noite em uma suíte. Isso em comparação com um bando de aposentados e vagabundos de estacionamento de trailers levando a doce vida de SoCal (a doce vida lo-cal?) na poupança. O único dinheiro que eles dão é para os donos da 7-Eleven, da loja de bebidas e da lanchonete de tacos. Uma merreca.
Acabe com esse lixo e construa um hotel luxuoso, dê a ele um nome vagamente francês, descubra o preço mais ultrajante que pode cobrar e dobre esse valor. Se você construir, eles virão.
Ben e Chon se registram na suíte, mas não pretendem passar a noite ali. Os 2 mil paus ficam pela tarde. Conseguem um bangalô isolado com uma janela do chão ao teto com vista para a melhor onda quebrando à direita da Califórnia. Pedem o almoço pelo serviço de quarto. Estão prontos cedo para não perturbar a reunião. Os representantes do cartel não gostam de garçons entrando e saindo, acham que são agentes da DEA com escutas.
Tá tranquilo.
Ben levou seus próprios geeks, Jeff e Craig, dois doidões que fazem sua TI. Eles têm um escritório na Brooks Street onde nunca estão. Se você quer encontrá-los, atravesse a Pacific Coast Highway na Brooks até o banco em frente às ondas e agite os braços. Se eles o reconhecerem, talvez venham andando pela beira do mar para falar com você.
Fazem isso porque podem — inventaram o sistema de localização de alvo para o bombardeiro B-1, e agora garantem que toda a comunicação de Ben seja sagrada. 
Jeff e Craig conseguiram o trabalho assim: abordaram Ben em uma mesa externa do Café Heidelberg, no térreo do “escritório deles”, sentaram-se à sua mesa com seus lattes e seu laptop, abriram o computador e mostram a ele seus últimos três dias de emails.
Chon quis atirar neles; Ben os contratou.
No ato.
Paga a eles em dinheiro vivo e erva.
Então hoje eles aparecem no Montage e varrem o ar, limpam a aura de Ben de quaisquer vibrações ruins das agências de letrinhas. Depois criam interferência de modo que qualquer enxerido ouça só o que parece ser uma banda de garagem de adolescentes brincando com o retorno.
Chon faz uma varredura de outro tipo — percorre o perímetro procurando potenciais atiradores; sicarios, em espanhol. Ele sabe que é cautela em demasia, diligência em excesso, porque ninguém vai perpetrar qualquer trabalho sujo no
Montage. É ruim para os negócios. Capitalistas honram o Primeiro Mandamento: Não farás merda com o dinheiro. Também não se veem massacres na Rodeo Drive, e ninguém nunca verá — a não ser que haja uma agência dos correios por perto. Então, dificilmente alguém vai enfiar balas de AK em alguma galinha dos ovos de ouro ali. Se ainda fosse Treasure Island, você poderia espalhar nacos de carne, fragmentos de ossos e órgãos vitais sobre trailers e não seria nada de mais, mas agora era o Montage. O Montaaaggge. É francês, é chique.
Gente rica não apronta com o dinheiro ou com o lazer uns dos outros.
Ou o reluxomento.
Mas Chon cobre a área porque sempre há uma primeira vez, não é mesmo? Sempre aquela exceção que confirma a regra. O cara que diz: “Que se foda, as regras não se aplicam a mim.” Está acima disso. O cretino que vai fazer um John Woo básico nos gramados impecáveis e nos canteiros de flores para mostrar que está cagando para as convenções.
É, mas estamos falando do Cartel de Baja, e eles são donos de um punhado de hotéis em Cozumel, Puerto Vallarta e Cabo, então compreendem que chumbo voando deixa os turistas nervosos. Nenhum alemão vai fazer parasail se achar que uma bala vai cortar a linha e mandá-lo flutuando para a cama de ozônio. (Nossa, isso seria uma merda, hein?)
Chon volta da patrulha e Ben pergunta como foi:
— Nenhum sujeito de sombreiro, bigodão caído e cartucheira?
— Vai se foder.
E foi assim que esta história começou.


55

Os dois representantes do Cartel aparecem usando ternos Armani cinza.
Camisas de seda preta abertas no colarinho, mas sem correntes de ouro.
Punhos duplos. Sapatos italianos.
Em contraste com Ben — camisa jeans desbotada, calça jeans desbotada, sandálias de couro.
E Chon — camiseta Rip Curl preta, calça jeans preta, Doc Martens.
Apertos de mão.
Apresentações.
Ben.
Chon.
Jaime.
Alex.
Mucho gusto.
Jaime e Alex são os clássicos aristocratas de Baja de 30 e poucos anos oriundos de Tijuana e nascidos em San Diego, com dois passaportes. Frequentaram a escola em Tiju até os 13 anos, depois se mudaram para La Jolla para ingressar na Escola do Bispo, depois na faculdade em Guadalajara. Jaime é contador, Alex é advogado.
A&J não são empregadinhos nem garotos de recados.
São administradores de nível intermediário-alto do CB, ambos altamente valorizados, muito respeitados e belamente remunerados. Têm ações, plano de saúde incluindo odontológico, plano de aposentadoria e utilização rotativa dos condomínios da empresa em Cabo.
(Jamais alguém deixa o Cartel de Baja. Não por causa de juramentos de sangue ou medo de ser apanhado, mas porque… bem, por que você sairia?)
Ben serve o almoço.
Wraps de pato em molho hoisin com cebolinha. Club sandwiches com pancetta em vez de bacon, peru defumado e rúcula. Travessas de sushi, pratos de salada. Frutas frescas — manga, mamão, kiwi, abacaxi. Jarras de chá gelado, Arnold Palmers, água gelada. Biscoitos gourmet — gotas de chocolate, aveia com passas.
Café.
Muito bom, muito fresco.
Alex inicia os trabalhos.
— Para começar — diz —, obrigado por marcar esta reunião.
— É um prazer — diz Ben.
Até parece.
— Apreciamos sua disposição para o diálogo — diz Alex.
“Diálogo” é um substantivo, não um verbo, pensa Chon, perturbado.
“Decapitação” também é substantivo, enquanto “degolado” é tanto verbo como adjetivo.
— Talvez vocês pudessem ter proposto o diálogo antes de tomarem certas medidas
— diz Ben.
— Vocês teriam respondido? — pergunta Alex.
— Sempre estamos dispostos a conversar.
— É mesmo? — pergunta Alex. — Porque da última vez que alguém entrou na disputa de mercado com vocês, acredito que resolveram com uma escopeta e muito pouca negociação, se é que houve alguma.
Ele olha diretamente para Chon.
Chon olha de volta.
Vai se foder.
— Posso assegurar que não somos uma gangue de motoqueiros — diz Alex.
— Sabemos quem vocês são — diz Ben.
Alex assente, e então…

CORTA PARA:


56

INT. SUÍTE DO MONTAGE — DIA
ALEX
Vemos Ben e Chon’s como um produto de prestígio — bem acima da média — e pretendemos continuar a comercializá-lo assim.
Estamos plenamente conscientes do fato de que vocês têm uma clientela fiel de alto nível — e valorizamos isso —, e a última coisa que desejamos é estragar tal coisa.

JAIME
Concordo. Plenamente.

BEN
Fico feliz de ouvir isso.

ALEX
Por outro lado…

CHON
Lá vem.

ALEX
… por outro lado, sua estrutura de vendas — e acho que você tem que admitir isso se for realmente sincero — é perdulária e ineficiente, Ben. Vocês são muito liberais em suas políticas de remuneração, sua margem de lucro não chega nem perto do que poderia ser…

BEN
Isso é o que você diz.

ALEX
Isso mesmo, é o que nós dizemos, e queremos reorganizar essa margem de lucro para elevá-la ao nível em que poderia estar.

JAIME
Maximizá-la em todo o seu potencial. Pense em “maior e mais elevado uso”, Ben.
BEN se levanta, serve-se de chá gelado e caminha pela sala.

BEN
Vocês são inteligentes, podem muito bem compreender que nossos consumidores no varejo — a clientela de alto nível que vocês valorizam — estão acostumados a comprar o produto das pessoas com as quais estão acostumados. É mais que apenas uma relação de negócios. Se você tentar substituir essas pessoas por…

CHON
Um bando de boias-frias mexicanos.

BEN
… uma força de vendas anônima, simplesmente não vai dar certo.

ALEX
É para isso que contamos com vocês, Ben.

BEN
De que forma?

ALEX
Fornecendo sua clientela de alto nível e seu belo produto.

CORTA PARA:


57

— Não estamos exigindo que parem de plantar seu produto — diz Alex. — Estamos exigindo que vocês vendam seu produto para nós a um preço que nos permita obter um lucro razoável. Uma peça importante do quebra-cabeça é que vocês continuem a produzir o produto e nos ajudem a manter os clientes que o compram.
Jaime anui.
Parece que Alex definiu bem a proposta.
— Então, basicamente vocês querem que a gente trabalhe para vocês — diz Ben.
— Efetivamente, sim.
— Não.
— Por que não?
— Não quero — diz Ben. — Sempre trabalhei por conta própria. Não tenho interesse em trabalhar para mais ninguém. Nada pessoal, sem ofensa.
— Temo que nosso cliente leve isso para o lado pessoal — diz Alex.
Ben dá de ombros. Truísmo pop-psico-budismo: só posso controlar minhas ações, não as reações dos outros. Ben tenta explicar:
— Quero sair do ramo das drogas. Estou entediado, e isso se tornou um fardo.
Quero fazer algo diferente.
— Como por exemplo? — pergunta Alex.
— Energia limpa e renovável.
Alex parece não entender.
— Energia eólica, essas merdas — explica Jaime.
— Ah.
Alex parece não entender.
— E solar — acrescenta Ben.
— Ecológico — diz Jaime.
— Por aí.
— Não poderia fazer ambos? — pergunta Alex.
— Como eu disse — responde Ben —, não quero.
Ele sai, e Chon vai atrás.


58

Eles olham para a Aliso Creek Beach, lá embaixo.
A água é de um azul profundo e frio.
— Você não quer trabalhar pra esses caras, quer? — pergunta Ben.
— Não — responde Chon. — Permita-me reformular: nem morto.
— Então pronto — diz Ben. — Afinal, eles não podem nos obrigar a plantar erva.
Mas ele curte a ironia de que os mexicanos basicamente querem transformá-los em agricultores. Plantar, cultivar e colher a safra para eles. Ele acha maneiro o retrocolonialismo disso, mas simplesmente não é sua praia.
Chon olha para trás, na direção da suíte.
— Podíamos simplesmente matar os dois. Começar a festa.
— Buda ficaria muito chateado.
— Aquele japa gordo.
— Indiano gordo.
— Achei que fosse japonês — diz Chon. — Ou chinês. Um “ês” qualquer.
— Indianês.
Eles voltam à sala.


59

Ben cansou dessa porra.
Chegou ao limite de sua hidrocrisia.
Ele explode:
Chega dessa merda. Vocês estão aqui representando uma organização que decapitou sete pessoas, e falam como se fossem do Goldman Sachs? Representam um regime que assassina e tortura, e sentam aqui e me dão uma aula sobre minhas práticas empresariais? Vão aumentar seus lucros me coagindo a vender por um preço baixo — pronto, aí está seu brilhante “plano de negócios” — e querem que eu engula essa sua ladainha de merda dizendo que é caviar? Se você coloca um capanga em um terno caro, você tem um capanga bem-vestido, então não vamos fingir que isso é qualquer coisa além do que realmente é, extorsão.
Ainda assim…
Querem nosso negócio de maconha? Fiquem com ele.
Não podemos lutar contra vocês, não queremos lutar contra vocês. Nós nos rendemos.
Hasta la.
Vaya con.
AFP.
(Adiós, filhos de uma puta.)


60

Alex se vira para Chon.
— O que você tem a dizer?
Ah, vai.
Vaaaaaaai.
A gente sabe o que Chon tem a dizer.
Já vimos esse filme.

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