terça-feira, 2 de julho de 2013

Selvagens - 41° ao 50° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow







41

Eles encontram Ben na esteira de bagagem esperando sua bolsa de viagem verde, como se ainda fosse um universitário voltando de uma viagem à Costa Rica.
Ele parece magro, como sempre que volta para casa. Sua pele adquiriu aquele tom terceiro-mundista particularmente estranho: está simultaneamente bronzeada e pálida — escurecida pelo sol mas com uma camada de palidez por baixo, provocada por infecção. O que será desta vez? Anemia? Hepatite? Algum parasita que se enfiou na unha do seu dedão do pé até alcançar a corrente sanguínea?
Esquistossomo.
Ben os vê e sorri.
Dentes grandes, brancos e regulares.
Em outra geração, Ben teria sido do Corpo da Paz. Porra, Ben teria sido o diretor do Corpo da Paz, teria jogado futebol americano de mentirinha com Jack e Bobby no gramado de Hyannis Port, navegaria de iate. Bronzeado e sorridente. Uma vida de vigor, moral e físico.
Mas aquela era uma geração diferente.
O. corre até ele, joga os braços sobre seus ombros, enrosca as pernas em sua cintura. Tranquilo, ela pesa, tipo, nada.
— Bennnnnnnnnnnnnn!!!!!!!
Os outros passageiros se viram e olham.
Ben a segura com um braço, se vira e estende a outra mão para Chon.
— E aí.
— E aí.
Sua bolsa vem pela esteira. Chon a apanha e a coloca no ombro, e eles passam pela estátua de
O Duke…
E por falar nisso…
Foda-se ele.


42

O Coyote Grill
No sul de Laguna Beach
A apenas uma escada externa de Table Rock e do condomínio.
Eles se sentam na varanda. Um retângulo do Pacífico azul abaixo deles, barcos de pesca nos limites dos leitos de algas, a Catalina deitada gorda e preguiçosa (um gato doméstico mimado) na beira do mundo.
Bem legal.
Sol brilhando e um aroma de salsa fresca no ar.
É o lugar preferido de Ben quando ele está na Califórnia. Seu cantinho. Mas ele não come muito hoje, apenas brinca com a comida no prato e belisca uma tortilha, e Chon imagina que ele esteja com algum problema intestinal. Intestinos roncando e muitas idas ao banheiro. Melhor se abastecer de revistas, pois Ben vai ler muito.
Chon pediu um hambúrguer. Ele odeia comida mexicana. Em sua opinião, toda comida mexicana é igual, apenas embrulhada de formas diferentes.
O. come feito um cavalo.
Um grande prato de nachos com frango, tacos de peixe com olho-de-boi, arroz e feijão preto. Ter Ben em casa aumenta seu apetite já habitualmente voraz. (Seus dois homens ao redor.) É quase nojento vê-la enfiar tanta comida na boca. Rupa teria uma hemorragia pelos ouvidos se visse isso.
O que deixaria O. com mais fome ainda.
Ben pede chá gelado, mas Chon diz a ele que líquidos claros são melhores. Se você está desarranjado, só beba fluidos transparentes. Ben pede uma limonada e basicamente só mastiga o gelo.
— Onde você esteve? — pergunta O. entre uma garfada e outra.
— Por toda parte — responde Ben. — Primeiro em Mianmar.
— Mian…?
— … mar — diz Ben. — Antigo Burma. Vá para a Tailândia e vire à esquerda.
Acabei no Congo.
— O que havia no Congo? — pergunta Chon.
Ben dirige a ele aquele olhar Apocalypse Now. Brando antes dos sorvetes.
O horror.


43

Lar, lar.
Bem-vindo ao lar.
Ben entra na grande sala de estar e instantaneamente começa a conferir as coisas, fazendo um inventário mental para verificar os estragos causados por Chon em suas viagens de vodca e metanfetamina.
Mas o lugar parece em ordem.
Impecável.
— Vocês chamaram uma faxineira — diz Ben.
— Uma das retentivas anais de Rupa — diz O.
— Ficou legal — diz Ben. — Obrigado.
As faxineiras de Rupa costumam seguir um entre dois padrões: têm colapsos nervosos e vão embora, com sorte roubando algo de valor na saída; ou são obsessivocompulsivas totalmente dedicadas a atingir os padrões impossíveis dela. O. levou uma das últimas para esterilizar o esconderijo de Ben.
Eles se sentam no sofá e fumam. Ficam olhando o oceano. Olhando o oceano.
Olhando o oceano…
Chon diz que vai nadar um pouco.
Isso significa que ele vai nadar muito, pelo menos 3 quilômetros, mais a caminhada de volta. Ele sai da sala, volta de sunga e diz:
— Até mais.
Eles o veem ir até a praia e pular na água.
Nada de molhar os dedinhos para Chon.


44

Ou para O.
— Faz quanto tempo que você não pega uma mulher? — pergunta ela a Ben.
— Alguns meses.
— Isso é tempo demais.
Ela ajoelha na frente dele, abre o zíper e o chupa, segurando suas bolas. Ele a interrompe e pergunta:
— O que Chon acha disso?
— Não é a língua dele, nem a boca.
E o engole fundo, deslizando os lábios para cima e para baixo por seu belo pau quente, sente ele endurecer, adora o poder de fazer isso acontecer, sacode bastante a cabeça junto com o movimento da língua, sabendo que ele vai gostar da visão, os caras adoram ver essa (aparente) submissão; ela nota que os dedos dele estão agarrando a almofada do sofá.
— Quer gozar na minha boca ou na minha boceta?
— Em você.
Ela o pega pela mão e o leva ao quarto. Tira o vestido pela cabeça, desliza a calcinha pelas pernas e a chuta longe. Tira a camisa dele, a calça jeans e a cueca e o puxa para cima dela.
— Está molhada? — pergunta Ben.
O puro Ben, sempre preocupado. Ben nunca quer machucar ninguém.
— E como. Sente só.
Ela se abre para que ele a veja brilhando.
— Meu Deus, O.
— Quer me comer, Ben?
— Ah, quero.
— Me come, meu doce Ben.
Doce, doce Ben, tão lento e gentil tão forte e gentil, tão quente quente quente quente, cacete, seus olhos castanhos olhando nos dela questionando, perguntando se esse prazer pode ser real perguntando se esse prazer realmente pode ser encontrado, e seu sorriso uma resposta, o sim porque seu sorriso dá a ela um pequeno gozo, a primeira pequena onda.
A sereia no braço de O. acaricia as costas dele, as algas marinhas verdes o prendem e o apertam contra ela, doce armadilha viscosa, golfinhos surfando em sua coluna enquanto ele a come, seus suores salgados se encontrando e se misturando, fazendo-os deslizar, fazendo-os grudar, bolhinhas brancas de espuma unindo o pau dele à boceta dela.
O. adora o pau duro e macio dele, adora agarrar seus ombros enquanto ele entra e sai; ela sussurra em seu ouvido:
— Senti saudade disso.
— Eu também.
— Doce, doce, doce Ben, me comendo.
O “me” dispara outro orgasmo, é o “me” em questão, aquele belo, maravilhoso, doce, adorável homem, ele quer “me” comer, seus belos olhos castanhos quentes olhando nos “meus”, suas mãos nas minhas costas, o pau dele na minha boceta.
Ela goza novamente e tenta desacelerar, mas não consegue, não consegue, e abre mão do controle que queria para tornar aquilo mais lento para ele, fazer durar para ele, mas não consegue e levanta o quadril para empurrar o clitóris contra o osso púbico dele, e gira o quadril para esfregá-lo ali, o pau dele bem fundo dentro dela.
— Oh, Ben. Oh!
Os dedos dela, um caranguejo deslizando pela areia molhada, correm até a bunda dele, procuram e acham o rego, uma poça, ela enfia um dedo e o ouve gemer e o sente gozar fundo nela, os músculos das costas tremendo, e depois de novo, e então ele cai
sobre ela.
A sereia sorri.
Os golfinhos adormecem.
Assim como Ben e O.


45

Ben se solta com cuidado dos braços úmidos dela.
Sai da cama, veste a calça jeans e a camiseta e vai para a sala. Ele olha pela grande janela e vê Chon sentado no deque. Ben vai à geladeira, apanha duas Coronas e sai.
Dá uma cerveja a Chon, debruça na grade de metal branca e pergunta:
— Boa nadada?
— Aham.
— Nada de tubarões?
— Não que eu tenha visto.
Não é nenhuma surpresa: os tubarões têm medo de Chon. Predadores se reconhecem.
Ben diz:
— Fazemos o acordo.
— Um erro.
— O que foi? — diz Ben. — Agora está com medo que o pau deles seja maior que o nosso?
— Nosso pau?
— OK, nossos paus. Nosso pau coletivo. Nosso pau conjunto.
— Redundante — fala Chon. — Melhor manter nossos paus separados.
— Certo, eles venceram — diz Ben. — E o que nós perdemos? Saímos de um negócio do qual já queríamos sair mesmo. Estou dizendo, Chon, cansei disso. Hora de seguir em frente. Próximo.
— Eles acham que temos medo deles.
— E temos mesmo.
— Paus separados? — diz Chon. — Eu não tenho medo.
— Nem todos nós somos você — rebate Ben. — Nem todos nós mastigamos e cuspimos 15 terroristas antes do café da manhã. Eu não quero uma guerra. Não entrei nisso para guerrear, matar gente, provocar a morte de pessoas, fazer suas cabeças serem arrancadas. Isso costumava ser um trabalho bem gostoso, mas, se vai chegar a esse nível de selvageria, pode esquecer. Não quero fazer parte disso. Eles acham que temos medo deles? Quem se importa? Não estamos na quinta série, Chon.
É, não estamos, pensa Chon. Não é uma questão de orgulho ou questão de ego ou questão de pau.
Ben simplesmente não saca como essas pessoas pensam. Ele não consegue fazer sua cabeça racional enxergar a realidade: essas pessoas vão interpretar sua postura sensata como fraqueza. E quando eles veem fraqueza, quando farejam medo, eles atacam.
Eles caem em cima.
Mas Ben nunca vai entender isso.
— Não podemos derrotar o cartel em uma guerra armada, a conta simplesmente não bate — diz Ben.
Chon concorda. Ele conhece uns caras que poderia recrutar, um pessoal bom que pode cuidar do assunto, mas o CB tem um exército. Ainda assim, o que você vai fazer? Pegar o KY, se curvar e se apoiar na grade? Amor na prisão?
— Isso era só uma forma de ganhar a vida — diz Ben. — Meu saco não está amarrado nesse negócio. Temos algum dinheiro guardado. Ilhas Cook, Vanuatu…
Podemos viver confortavelmente. Talvez seja a hora de começarmos a nos concentrar em alguma outra coisa.
— Não é um bom momento para começar, Ben.
O mercado está despencando; o crédito, no fundo do poço. A confiança do consumidor atingiu uma baixa histórica. O fim do capitalismo como o conhecemos.
— Estou pensando em energia alternativa — diz Ben.
— Torres de vento, painéis solares, esse tipo de merda?
— Por que não? — pergunta Ben. — Sabe como estão fazendo aqueles laptops de 14 dólares para crianças na África? E se fosse possível fazer um painel solar de 10 dólares?
Mudar a porra do mundo.
Ben ainda não entende…
… pensa Chon…
… que não se muda o mundo.
O mundo é que muda você.
Por exemplo…


46

Três dias depois de Chon voltar de Rack, ele e O. estão em um restaurante em Laguna quando um garçom derruba uma bandeja.
Barulho.
Chon se joga debaixo da mesa.
Ali, de quatro, ele procura uma arma que não está lá, e se Chon fosse capaz de ter qualquer autoconsciência social, se sentiria humilhado. Mesmo assim, é difícil voltar serenamente para sua cadeira após se jogar debaixo da mesa em um restaurante cheio de pessoas olhando para você, e a adrenalina ainda correndo por seu sistema nervoso, então ele fica ali embaixo.
O. se junta a ele.
Ele olha ao redor e lá está ela, os olhos fixos nos seus.
— Estamos um pouco tensos, não? — diz ela.
— Um tantinho.
Boa palavra, “tantinho”. Os diminutivos são os melhores.
O. diz:
— Já que estou aqui de quatro…
— Existem leis, O.
— Escravo do conformismo. — Ela estica a cabeça para fora e pede: — Pode nos trazer um pouco mais de água, por favor?
O garçom a serve embaixo da mesa.
— Eu meio que gosto daqui de baixo — diz ela a Chon. — É como os fortes que a gente fazia quando criança.
Ela estica o braço, pega os cardápios em cima da mesa e dá um a Chon. Após analisar as opções por algum tempo, ela diz:
— Vou querer a salada Caesar de frango.
O garçom, um tipo surfista, jovem, com bronzeado perfeito e sorriso branco perfeito, se agacha ao lado da mesa:
— Posso sugerir algum dos nossos especiais?
É impossível não amar Laguna.
É impossível não amar O.


47

Ben quer paz.
Chon sabe
Que não é possível ficar em paz com selvagens.


48

O. acorda de seu cochilo, se veste e vai para o deque.
Se a garota se sente desconfortável por estar na presença dos dois caras que ela está simul-pegando, não demonstra. Provavelmente porque não se sente assim. Sua lógica sobre isso é básica e aritmética:
Mais amor é melhor que menos amor.
Ela espera que eles pensem da mesma forma, mas se pensam diferente…
Ah, que pena.
Ben e Chon decidem ir a Dickyville.
Etimologia:
San Clemente, lar da antiga Casa Branca do Oeste de
Richard Nixon
Vulgo Dick Nixon
Vulgo Tricky Dick
Dickyville.
Desculpe.
O. quer ir junto.
— É, não é uma boa ideia — diz Ben. Eles nunca a envolveram nos negócios antes.
Chon concorda: é um limite que ele acha que não deveriam cruzar.
— Eu realmente quero ir — diz O.
E…
— Não quero ficar sozinha aqui.
— Não pode ficar com Rupa?
— Não quero ficar sozinha aqui.
— Saquei.
Eles vão a Dickeyville.


49

Ver Dennis.
Param em um estacionamento na praia. A ferrovia passa bem ali. Ben e O. pegam o trem de vez em quando só pela diversão, ficam sentados vendo golfinhos e às vezes baleias pela janela.
Dennis já está lá. Ele salta de seu Toyota Camry e vai até o Mustang. Com 40 e muitos anos, Dennis tem cabelos claros que estão começando a rarear e carrega 15 quilos a mais que o ideal para seu 1,87 metro porque pelo visto não consegue passar direto por nenhum drive-thru. Aliás, tem um Jack in the Box logo ali do outro lado da Highway 5… Ainda assim é um sujeito bonito, a não ser pela barriga caindo sobre o cinto.
Ele fica surpreso ao ver Ben, porque normalmente encontra apenas Chon.
Depois normalmente dá uma passada no Jack in the Box.
Fica ainda mais surpreso ao ver aquela garota que ele não conhece.
— Quem é essa?
O. responde:
— Anne Heche.
— Não é não.
— Bem, você perguntou quem eu era.
— É uma amiga nossa — diz Ben.
Dennis não gosta nada disso.
— Desde quando convidamos amigos para essas festas?
— Ora, a festa é minha, Dennis — diz Ben.
— E eu vou chorar se me der vontade — acrescenta O.
— Entra aí — diz Ben.
Dennis senta no banco do carona. Chon e O. ficam atrás.
— Eu não deveria ser visto na mesma área que vocês — resmunga Dennis.
— Você não parece se incomodar com isso quando eu trago a sua sacola de presentes — diz Chon. Ele e Dennis se encontram uma vez por mês. Chon chega com uma bolsa cheia de dinheiro e vai embora sem ela. Dennis chega sem uma bolsa cheia de dinheiro e vai embora com uma.
Depois normalmente dá um pulinho no Jack in the Box.
— Prefere que a gente vá ao seu escritório? — pergunta Ben; o escritório é o prédio federal no centro de San Dog e serve de base para a DEA.
Onde Dennis é um figurão na força-tarefa de combate às drogas.
— Meu Deus, levantou com o pé esquerdo?
Dennis não está acostumado a ver esse lado de Ben — bem, ele não está acostumado a ver muito de Ben, mas, quando vê, o cara normalmente é bastante amigável. E Chon… — bem, esquece — Chon sempre parece muito surtado.
— Você tem informações sobre o Cartel de Baja? — pergunta Ben. — Hernan Lauter?
Dennis dá um risinho.
— É praticamente tudo o que eu tenho.
Sim, porque ele certamente não faz nenhum esforço para investigar a operação de Ben e Chon. De vez em quando eles dão a Dennis um esconderijo ou uma velha casa produtora, só para que ele continue progredindo na escada das promoções, mas só isso.
— Por quê? — pergunta ele, crente que está prestes a receber algo que possa usar.
— O CB está indo pra cima de vocês?
Ele está ligado na situação.
Não é um idiota.
Surgiram sinais por toda parte, incluindo um vídeo viral mostrando sete traficantes de droga decapitados.
Nem fale em aquisições comerciais hostis.
E agora Ben vai choramingar por causa disso?
Então a ficha cai.
— Espera aí — diz ele a Ben. — Se estão aqui para negociar uma redução do pagamento porque o CB está engolindo uma fatia do seu bolo, podem esquecer. As despesas são suas, não minhas.
Um trem passa em alta velocidade pelos trilhos.
O Metrolink, que vai de Oceanside pela estrada até Los Angeles. A conversa é interrompida porque eles não conseguem ouvir um ao outro, e depois Ben diz:
— Preciso de tudo o que você sabe sobre Hernan Lauter.
— Por quê? — pergunta Dennis, já aliviado por eles não estarem tentando descascá-lo.
Dennis tem contas a pagar.
— O porquê não é problema seu — diz Chon. — Seu problema é “o quê”.
Portanto, nos conte o que você sabe sobre Hernan.
O chefe do Cartel de Baja.


50

Dennis dá o serviço a eles.
Não começa em Baja, mas em Sinaloa.
Uma região montanhosa do oeste do México que tem a altitude, a acidez do solo e o índice pluviométrico ideais para plantar papoula. Durante gerações, os gomeros — gíria em espanhol para fazendeiros de ópio — de Sinaloa cultivaram a planta, a transformaram em ópio e venderam para um mercado americano, inicialmente composto, em sua maioria, por operários chineses de ferrovias, ao longo da região da fronteira sudoeste do Texas, do Novo México, do Arizona e da Califórnia.
A princípio, o governo americano tolerou o comércio, mas depois declarou o ópio ilegal e fez alguma pressão — embora ineficaz — para que o governo mexicano acabasse com os gomeros.
Mas durante a Segunda Guerra Mundial o governo americano voltou atrás.
Precisando desesperadamente de ópio para produzir morfina, e sem acesso à produção habitual do Afeganistão e do Triângulo Dourado do Sudeste Asiático, o governo procurou o México e implorou que fosse produzido, em vez de menos, mais ópio. Aliás, nós construímos ferrovias de bitola estreita para que os gomeros escoassem sua produção das montanhas mais rapidamente. Os gomeros, em resposta a isso, começaram a dedicar cada vez mais hectares ao cultivo da papoula. Assim, durante a década de 1940, a economia de Sinaloa passou a depender do comércio do ópio, e os gomeros se tornaram proprietários de terras ricos e poderosos.
Depois da guerra, os Estados Unidos, enfrentando um sério problema interno com heroína, se voltam novamente para o México e insistem para que parem de cultivar papoula. Os mexicanos ficam um tanto confusos, para dizer o mínimo, mas também preocupados, já que os habitantes de Sinaloa — não apenas os ricos gomeros, mas também os campesinos, que trabalham a terra — estão economicamente viciados na papoula.
Sem problema, diz a máfia americana. Bugsy Siegel vai a Sinaloa e garante aos gomeros que a máfia comprará todo o ópio que conseguirem produzir. Surge então a pista secreta — o comércio ilegal da droga —, e gomeros rivais começam a disputar terreno. Culiacán, a maior cidade de Sinaloa, passa a ser conhecida como “Little Chicago”.
Entra Richard Nixon.
Em 1973, Nixon cria a Drug Enforcement Administration (Força Administrativa de Narcóticos) e envia agentes da instituição — a maioria deles ex-CIA — a Sinaloa para acabar com os gomeros. Depois, em 1975, a Operação Condor, em nome da qual agentes da DEA e do Exército mexicano bombardeiam, queimam e desfolham muitos hectares de cultivo de papoula em Sinaloa, desaloja milhares de camponeses e arrasa a economia local.
E olha só, olha só, o tira mexicano que cuidava do seu lado da operação — o homem que apontava onde lançar bombas, o que queimar e quem prender — é o segundo maior produtor de ópio de Sinaloa, um verdadeiro gênio do mal chamado Miguel Angel Alvarado, que usa a Condor para destruir seus rivais.
Alvarado reúne em um restaurante de Guadalajara — protegido pelo Exército e pelos federales — os sobreviventes por ele escolhidos e cria la Federación, dividindo o México em plazas, ou territórios; a saber:
O Golfo, Sonora e Baja, sendo ele mesmo o chefe-geral, baseado em Guadalajara.
Alvarado, um legítimo revolucionário dos negócios, também os afasta do ramo do ópio, colocando-os para entregar cocaína colombiana pela porta dos fundos do México.
A porta da frente é a Flórida. Miami. Para onde a DEA dirigia seus maiores esforços. Os pobres idiotas no México continuavam a protestar contra as entregas de cocaína — sempre protegidas pelo exército e pela polícia —, mas Washington mandou que os idiotas calassem a boca se quisessem sair ilesos, pois já haviam anunciado a vitória na guerra às drogas no México.
Missão cumprida.
La Federación, em suas três plazas, fez milhões de dólares nos anos 1980 e 1990, obtendo tanta riqueza e poder que se tornou quase um governo paralelo, infiltrado na polícia, nas Forças Armadas e até mesmo no gabinete do presidente. Quando Washington acordou e admitiu a realidade, era tarde demais. La Federación era uma grande potência.
— E o que aconteceu? — perguntou Ben.
Ela se fragmentou. O carma se cumpriu, Alvarado se viciou em crack e acabou na prisão. Seguiu-se uma violenta luta pelo poder para preencher seu lugar, que ganhou força com uma vendetta sangrenta após outra. As plazas se dividiram em facções de uma guerra civil, ao mesmo tempo que o consumo de cocaína caía drasticamente nos Estados Unidos e as plazas se viam brigando por uma fatia menor do bolo.
E o Cartel de Baja foi tomado pelos sobrinhos de Alvarado, os irmãos Lauter, após terem rompido com seu chefe original na revolução. Os AF eram homens de negócios muito inteligentes. Oriundos de Sinaloa, eles foram para Tijuana e se infiltraram na nata da sociedade de Baja. Basicamente seduziram um grupo conhecido como os Juniores, filhos de médicos, advogados e jefes indígenas, e deram a eles oportunidades como contrabandistas de drogas. Também foram para San Diego e recrutaram membros de gangues mexicanas locais como soldados.
De meados ao final dos anos 1990, os Lauter e o Cartel de Baja foram o tráfico de drogas mexicano. Cooptaram o gabinete do próprio presidente, controlavam a polícia estadual de Baja e os federales locais, provavelmente assassinaram um candidato a presidente do México e com certeza abateram a tiros um cardeal católico que protestou publicamente contra o tráfico de drogas, e se safaram de tudo.
O orgulho antecede a queda. Eles foram muito longe. Washington fez toda a pressão sobre os mexicanos para que caçassem o Cartel de Baja. O chefe, Benjamin, está hoje na cadeia federal em Dago; o principal soldado, seu irmão Ramon, foi morto a tiros em Puerto Vallarta pela polícia mexicana.
Desde então tem sido o caos.
Onde antes havia três plazas — “cartel” é um equivalente genérico —, hoje há pelo menos sete lutando pela hegemonia. O próprio Cartel de Baja, após uma grande pulverização, parece ter se dividido em duas facções rivais:
“El Azul”, um ex-general dos Lauter, é apoiado pelo Cartel de Sinaloa, provavelmente o maior nos dias de hoje. El Azul, apelido justificado por seus olhos azuis profundos, é um sujeito particularmente encantador que gosta de afogar os inimigos em barris de ácido.
Os remanescentes da família Lauter, comandados por um sobrinho, Hernan, se aliaram a um grupo chamado Los Zetas, originalmente um esquadrão de elite de combate às drogas que passou para o lado negro e hoje trabalha para o Cartel de Baja.
O que eles mais curtem é cortar as cabeças das pessoas.
— A gente viu o vídeo — diz Ben.
— Por isso vocês estão aqui hoje — diz Dennis. — Querem meu conselho, rapazes?
E moça? Vou sentir falta de vocês, vou sentir falta do seu dinheiro, mas corram.
Corram rápido e para longe.

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