Wednesday, 31 July 2013

Selvagens - 161° ao 170° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow





161

Eles sabem, porra.
Três anos atrás, dois de seus homens arrumaram um serviço em um laboratório de refino de cocaína em National City.
Carlos e Felipe acharam que eram os caras, acharam que iriam se safar.
Mas não foi o que aconteceu.
Lado os levou para um armazém em Chula Vista. Fez Carlos observar enquanto ele colocava Felipe em um saco de cânhamo, amarrava e pendurava em uma viga.
Depois brincaram de piñata.
Bateram no saco com um porrete até sangue e pedaços de ossos se espalharem pelo chão como moedas e doces.
Carlos confessou.


162

Ben parece entediado.
Indiferente.
Enfiando na sua cabeça a ideia de —
Quer me assustar com histórias de terror?
Vá ao Congo, babaca.
Vá a Darfur.
Veja o que meus olhos viram, e depois
Me assuste com histórias.
Lado não tenta assustá-los com histórias. Ele diz:
— Se eu ligar isso a vocês, sua putana morre.
Ben sabe que ao menor sinal de medo em seus olhos, Lado saberá.
Então o olha nos olhos e pensa
Vai se foder.


163

Chon segue Lado após a reunião.
O homem dirige até um conjunto residencial em Dana Point Harbor, entra e fica lá cerca de uma hora.
Chon pensa em ir atrás dele.
Resolver ali, na hora.
Mas sabe que não pode.
Lado sai com uma mulher. Gata bonita, uns 30 anos, talvez menos. Lado entra em seu carro, a boceta entra no dela.
Chon anota mentalmente a placa dela, depois continua a seguir Lado.
Chegam a uma empresa de jardinagem em SJC — San Juan Capistrano.
Lado entra no escritório pelos fundos.
Então, quando não está aparando cabeças, pensa Chon,
Ele apara sebes.


164

— Melhor fazermos alguma coisa — diz Ben.
Para desviar as suspeitas um pouco.
— Tipo o quê?
— Bem — diz Ben —, eles estão nos roubando, certo?
— Pode-se dizer que sim.
Eles tiraram de nós tudo que poderiam roubar. (Perdão, Sr. Dylan.)
— Então nós precisamos nos roubar para mostrar a eles que não podem se livrar dessa.
(Perdão, Sr. Sahl.)


165

Gary é o produtor de uma estufa na região leste de Mission Viejo, perto das montanhas, um simpático bio-geek de óculos e 20 e tantos anos que descobriu ser possível ganhar muito mais dinheiro, com muito menos aborrecimento, criando maconha refinada para Ben em vez de ensinando botânica 1 a um bando de calouros que, acima de tudo, não quer aprender.
— Pronto para entrega? — Chon pergunta a Gary.
— Pronto — afirma Gary, franzindo o cenho.
Gary não está contente de vender seu belo e sofisticado trabalho, fruto de muito amor, para o CB, que ele considera um bando de bárbaros empresariais incultos incapazes de apreciar os tons nuançados dessa mistura específica.
— Tire a noite de folga — diz Chon. — A gente cuida disso.
— Mesmo? — pergunta Gary, agradecido.
— Vai embora, palerma — diz Ben. — Sai daqui.
Gary sai dali.
Uma hora depois, os rapazes da coleta do CB chegam.
Transação rápida.
Dinheiro por bagulho.
Eles esperam alguns minutos depois que os caras do CB vão embora, e então Ben diz
— Bora roubar esses caras.
E então…
— É… Isso é um assalto.
— Para com essa porra.
Mas Ben está se animando.
— No chão. Nenhuma gracinha, e ninguém se machuca. Ninguém tenta dar uma de herói, e todos voltam para casa, para suas esposas e filhos.
Chon diz:
— Chega.
Ben liga para Alex e diz que tem um problema.


166

— Você me limpa e depois você me limpa? — reclama Ben. — Meu Deus, Alex, existe ganância e ganância, mas derrubar o meu preço e depois vir aqui e roubar o pouco dinheiro que você me pagou… isso é cem por cento de desconto, o que é um pouco demais.
Eles estão sentados um diante do outro em uma mesa de piquenique do lado de fora do Papa’s Tacos em South Laguna. Se você quer um taco de peixe realmente bom, vai ao Papa’s. Se não, vai a algum outro lugar.
— Do que você está falando? — pergunta Alex.
— Cinco minutos depois que o seu pessoal pegou o material, outros caras chegaram e levaram o dinheiro — bufa Ben.
— Você não pode estar falando sério.
— Estou com cara de quem tá de sacanagem?
Alex incorpora o advogado:
— Ei, depois que a transferência é feita, a responsabilidade não é nossa.
— Só que foi um trabalho interno.
O que é tecnicamente verdade.
— O que faz você pensar isso? — pergunta Alex, ficando um pouco pálido.
— Quem mais sabia?
— Seu pessoal.
Ben diz:
— Eu estou no negócio há oito anos e nunca fui roubado pelo meu pessoal.
— Qual a aparência dos sujeitos?
— Bem, não eram retardados, porque estavam usando máscaras — diz Ben.
— Que tipo de máscara?
— Madonna e Lady Gaga.
— Não é hora de brincadeira.
— Também acho — diz Ben. — Eles não falaram muito, mas o pouco que disseram me soou um pouco sul da fronteira.
Alex pensa nisso um segundo, mas não quer ceder terreno.
— Talvez você precise reforçar sua segurança.
— E talvez você precise dar uma olhada na sua — diz Ben, enrolando seu taco e se levantando. — Me mantenha informado. É melhor que isso não se repita.
Alex decide partir para o ataque:
— Vocês já têm o dinheiro do resgate?
— Estamos trabalhando nisso — manda Ben.


167

— Ele está em cima de mim — diz Alex a Lado.
Despensa de uma das lojas de taco de Machado em SJC. Alex não gosta do lugar — cheira a galinha crua, e galinha crua tem um monte de bactérias perigosas. Ele tenta não deixar seu paletó encostar no balcão.
Lado percebe seu desconforto e gosta disso.
Esse pendejo muppie precisa se lembrar de onde veio.
— E daí? — pergunta Lado.
— Ele culpou a gente.
— E?
— Ele está em cima de mim.
— Você já disse isso.
Um garoto entra em busca de uma lata de massa de tomate. Lado olha para ele como se fosse maluco, e o garoto, assustado, vai embora.
— Você mandou os sujeitos — diz Alex. — Será possível que um ou dois deles estejam fazendo os próprios negócios?
— Vou verificar.
— Porque isso está causando um probl…
— Eu disse que vou verificar.
Lado está de mau humor; estava assim quando acordou de manhã, está agora, e provavelmente vai estar quando for para a cama. Delores começou a encher o saco mal ele tinha acordado — as fugeda calhas precisavam de limpeza, Junior tirou 3,5 em álgebra… Ela abria a boca apenas para se ouvir falando.
Ele quis gritar com ela — eu tenho problemas de verdade. Outro tombe…
Depois três cabróns não apareceram para trabalhar de manhã e ele teve que correr até o shopping e contratar três ilegais no estacionamento. E agora essa porra? Os gueros resmungando porque foram roubados? Bem-vindos ao clube.
— Vou verificar — repete ele.
Lado sai da despensa, pega um burrito e um suco para viagem e volta ao carro. Já são 12h30, e Gloria só tem uma hora de almoço. É cabeleireira em um salão de Dana Point Harbor, mas por sorte sua casa é praticamente em frente.
Ele tem uma chave e ela está esperando por ele na cama quando Lado chega.
Vestindo apenas o sutiã e a calcinha marrom-escura de que ele gosta, o conjunto que comprou para ela que destaca os peitos firmes e a bunda cheia.
— Está atrasado, querido — diz ela.
— Vira.
Ela se vira, ficando de quatro.
Lado tira a roupa, se ajoelha na cama atrás dela e baixa a calcinha até os tornozelos. Ele se orgulha de ficar duro sem ela precisar tocá-lo ou ele próprio se tocar — isso é bom para um homem da sua idade.
Ele passa os dedos pelas costas dela e a sente estremecer. Sua pele é como manteiga.
Então ele a abre. Soca até ela gemer de prazer, sente a pressão nos bagos, tira de dentro e a vira.
Ela o coloca na boca e termina com a mão.
Lado não usa camisinha e não quer mais filhos.
Quando Gloria sai do banheiro, deita ao lado dele, passa a mão pelos cabelos dele e diz:
— Está ficando desgrenhado. Você devia vir cortar comigo.
— Eu vou.
Ela se levanta e começa a se vestir.
— Tenho uma cliente às 2 horas.
— Esquece ela.
— “Esquece” — zomba ela. — Tenho que trabalhar.
— Eu pago.
— É freguesa antiga.
A blusa preta fica justa sobre seus peitos. Ele aposta que ela recebe muitas gorjetas dos homens que vão ao salão. Isso deveria deixá-lo com ciúmes, mas em vez disso o excita; e ela sabe. Às vezes ela conta a Lado que os vê de pau duro e roça uma das coxas neles.
— Aposto que as esposas desses caras fazem a festa de noite — diz ele.
— Com certeza — diz ela.
Ela lhe dá um beijo de despedida e sai. Ele veste as calças, vai até a cozinha e pega uma cerveja da geladeira. Senta e assiste a um programa de entrevistas idiota na TV.
É bom relaxar alguns minutos.
Então seu celular toca, e é Delores.


168

Gloria entra no salão e veste o avental preto.
Teri, agarrando uma xícara de café, sorri maliciosamente para ela.
— Por que eu faço isso se só faz com que eu me sinta suja e aviltada? — pergunta Gloria.
— Você acabou de responder à própria pergunta — diz Teri.


169

Lado se senta na arquibancada atrás da base e vê Francisco se preparar. Os pés estão juntos demais, e Lado faz uma anotação mental para dizer isso a ele quando chegar em casa.
— Você tem feito a coleta com o pessoal novo — diz ele a Hector.
Hector anui.
Francisco faz seu arremesso, mandando uma bela bola com efeito, baixa e interna, para um strike.
— Tem feito mais alguma coisa, Hector?
Hector parece confuso.
— Como assim?
Francisco se prepara, e Lado sabe que dessa vez ele vai mandar a bola rápida. À esquerda do campo, Junior parece sonolento. Sabe que a bola não irá em sua direção.
Ele está certo, pensa Lado, mas ainda assim tem que parecer mais ligado.
— Você não está fazendo jogo duplo, está?
— Não!
É a bola rápida, direto no meio, mas o garoto gira atrasado. Hector é um bom homem, está com eles há, o quê, seis anos? Nunca nenhum problema, nenhuma confusão.
Lado diz:
— Não quero que ninguém pense que pode tirar vantagem desses gueros só porque são novos e um pouco frouxos. As pessoas precisam saber que eles estão sob a minha proteção.
— Entendido, Lado.
Pode apostar seu traseiro mexicano marrom que entende. Se você está sob o guarda-chuva de Lado, você não se molha.
— Ótimo — diz Lado. — A próxima coleta tem que ser tranquila.
— Vai ser.
Francisco desperdiça o lançamento seguinte, exatamente como Lado sabia que ele faria. Francisco é um garoto inteligente, com dois na contagem não faz sentido cansar o braço; joga uma bola ruim para ver se o garoto rebate. Esperto.
— Como está seu irmão? — pergunta Lado. — O Antonio. Ainda vendendo carros?
Ele pode ouvir o coração de Hector parar.
— Sim, ele está bem, Lado. Vai gostar de saber que perguntou por ele.
— E a família dele? Duas filhas, não é?
— É. Todos bem, dio gracio.
Francisco faz a pose. A postura ainda é muito apertada, mas o garoto tem um braço comprido de chicote, então se vira. Bola com efeito que cai como se escorregasse de uma mesa, e o rebatedor gira e perde.
Mais um que já era.
E agora Hector sabe que se estiver fazendo jogo com os carregamentos de yerba estará morto, mas não antes de seu irmão, sua cunhada e suas sobrinhas que moram em Tijuana.
— Delores! Olá!
Lado se vira para ver Delores abrindo caminho pelo banco, dizendo olá às outras mães. Ela se senta junto a ele.
— Então eu cheguei na hora e você está atrasada — diz Lado.
— Estava esperando os caras do telhado — diz ela. — Claro que chegaram tarde.
— Eu disse que cuidaria disso.
— É, mas quando? — pergunta ela. — O inverno vai ser úmido. O Junior já rebateu?
— Provavelmente no próximo inning.
Francisco lança uma bola baixa, um lixo, mas o rebatedor raspa e manda uma curta. Lado se levanta e aplaude enquanto Francisco trota para o banco, a luva dobrada descontraidamente sob o braço.
— Vamos levar os garotos ao CPK depois do jogo — diz Lado.
— Por mim, tudo bem — responde Delores.
Ela pode sentir nele o cheiro da puta cabeleireira.
O mínimo que ele poderia fazer era tomar um banho.


170

Ela pode sentir o cheiro dele.
Seu suor, seu hálito.
Quando ele vai em direção à ela.
O. desvia a cabeça, mas
Ele fica bem ali, de pé, respira em seu rosto, olha
Para seu rosto com aqueles
Olhos negros e frios
Ela
Chora, ela
Soluça de pânico, ela
Não consegue desligar.
É, mas você precisa, garota, diz O. a si mesma.
Ela se obriga a respirar fundo, hora de deixar de ser pueril com isso. Hora de ser durona, mostrar um pouco de ovários. Ela sai da cama, vai até a porta e a esmurra.
— Ei! — grita. — Eu quero acesso à internet!

No comments:

Post a Comment

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...