segunda-feira, 29 de julho de 2013

Selvagens - 151° ao 160° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow



151

— Encontramos o Lincoln — diz Hector a Lado.
Lado dá de ombros.
— Onde?
— Estacionamento da estação ferroviária de San Juan — responde Hector. — Está registrado em nome de um tal de Floyd Hendrikson. Ele tem 83 anos e deu queixa de roubo esta manhã.
Eles vão falar com o motorista e o pendejo que estava com a escopeta.
Lado e Hector os levam a uma grande fazenda de produção de tâmaras perto de Indio e os colocam em um galpão onde guardam tratores e outras coisas. Os dois se sentam no chão de terra apoiados na parede de zinco corrugado e desenvolvem diarreia verbal. Ficam falando sem parar sobre como eram dois caras, uma escopeta e duas pistolas, profissionais…
Lado já sabe que eram profissionais — pois sabiam quando, onde e o quê, e sabiam que deveriam procurar o GPS.
— Dois? Certeza? — pergunta Lado.
Eles têm certeza.
Dois caras altos.
Lado acha isso interessante.
Usando máscaras.
— Que tipo de máscaras?
Apresentadores de TV yanquis.
Jay Leno e…
— Letterman — diz o motorista.
O outro anotou a marca do carro e a placa.
— Que incrível. Nenhum de vocês dois se machucou, nem um pouco — diz Lado.
Muita sorte, eles concordam.
Bem, isso não vai durar.


152

Lado tem plena certeza de que eles contaram a verdade e não tiveram nada a ver com aquilo.
Nada além de serem covardes idiotas e preguiçosos e deixarem acontecer.
Aqueles cabróns têm famílias no México, procedimento padrão para qualquer um que trabalhe para o CB deste lado da fronteira: você precisa ter família onde o CB possa pegá-la.
Fodam-se referências de trabalho; se quer garantir bom desempenho e lealdade, você mantém pais, irmãos e irmãs, até mesmo primos no seu bolso. Homens que não pensariam duas vezes em arriscar as próprias vidas nunca pensariam em arriscar as de suas famílias.
Ele joga o chicote no chão.
Dois caras altos…
Não, não pode ser. Como os dois gueros iriam saber a localização do depósito, o caminho que os motoristas usam?
Não poderiam.
Não, um tombe como este só pode ser trabalho de gente de dentro. Talvez não esses dois pendejos, mas alguém de dentro.
— Cortem os dois — ordena ele.


153

Café de grife na Ritz-Carlton Drive.
E a PCH, Pacific Coast Highway, lado do litoral.
Chon se refere ao lugar como Yummy Mummy Heaven, ou Paraíso das Mamães Gostosas.
Ele costumava se instalar em uma das mesas externas, tomar cappuccino e assistir ao desfile de jovens mães ricas correndo e empurrando seus carrinhos de bebê de corrida de três rodas. Corpos firmes em camisetas (ou suéteres de grife com capuz, em climas mais frios) e calças de moletom.
— Esse é o turno da manhã — explicou ele a Ben.
O turno seguinte inclui a creche exclusiva que fica mais à frente na rua. As MG (Mamães Gostosas) ligeiramente mais velhas deixam suas crianças mimadas e aparecem para um café com leite, e talvez sexo pós-café com leite com Chon.
— Entediadas e ressentidas — observou Chon a Ben. — Perfeitas na cama.
— Adúltero.
— Eu não sou casado.
— O que foi feito da moral? — Ben suspirou.
— O mesmo que foi feito dos CDs.
Substituída por uma tecnologia mais nova, mais rápida e mais fácil.
Ben perguntou:
— O que O. pensaria dessas escapadas repulsivas?
— Você tá de sacanagem, né? — reagiu Chon. — Ela caça talentos para mim.
— Cala a boca.
Mas é sério. O., quando consegue acordar cedo o suficiente, passa muitas horas alegres avaliando as chances de Chon. Aquela é gostosa, aquela é safada, aquela é feliz em casa, pode esquecer, olha aquela bunda, eu pegaria aquela ali…
— Ela alguma vez…
— Que nada.
Esta manhã eles não estão pensando nas tendências lésbicas mal identificáveis de O. ou nas MGs. Mas estão pensando em O. quando Alex e Jaime entram…
— Siameses chupa-rolas.
— Calma.
… param no balcão e pedem café para viagem.
Ben e Chon os seguem até o estacionamento e entram no banco de trás da Mercedes de Alex.
— O que foi? — pergunta Ben.
Alex se vira para olhar para Ben.
— Um dos nossos carros foi roubado ontem à noite.
Ben está gelado. Filho de dois analistas que o colocavam constantemente à prova, ele sabe como encarar um interrogatório.
— E?
Alex é um amador nisso.
Revela tudo em seu rosto de advogado.
— Vocês saberiam de alguma coisa a respeito?
Ben se encrespa com o tempo verbal.
— Ah sim, eu saberia alguma coisa a respeito se tivesse algo a ver com isso.
Considerando-se que não tenho, não sei.
Divertindo-se com a linguagem.
Alex tenta fazer Chon baixar os olhos.
Aham, vai funcionar.
Tente fazer um rottweiler piscar.
— Certo — diz Alex finalmente.
Chon é Chon, mas Ben é Ben.
— Tente não me chamar por causa de besteiras no futuro, certo? Como está a O.?
— Quem?
— Quem? — Chon parece prestes a estapear o cara. Há uma possibilidade real por um segundo, mas Ben o interrompe:
— A Ophelia. Nós a chamamos de O. A jovem que vocês sequestraram. Como ela está? Queremos falar com ela.
— Talvez isso possa ser arranjado — diz Alex.
Ben percebe a forma passiva.
Responsabilidade sendo evitada ou
Autoridade não possuída.
Interessante.
— Arranje — diz Ben, abrindo a porta do carro. — Se não há mais nada a ser dito, Chon tem alguns casamentos pra destruir, e eu tenho produto a produzir.
Eles ficam parados no estacionamento enquanto a Mercedes parte.
— Você é bom — diz Chon. — Acha que eles realmente suspeitam da gente?
— Se suspeitassem, teriam trazido o Cara da Motosserra.
Eles voltam à cafeteria.
— Aliás — diz Chon —, acho que eu faço os casamentos melhorarem.
— Sério?
— Com certeza.


154

Existe um mito segundo o qual roubar gente do tráfico é o crime perfeito, porque as vítimas não podem dar queixa à polícia.
Aham.
Elas podem não dar queixa policial, mas isso não significa que não o relatem à polícia.
Só tem que ser a polícia certa.
Alex por acaso conhece alguns sujeitos dessa polícia.
Por exemplo: o subxerife Brian Berlinger, do departamento do xerife de Orange County, tem uma bela casa em Big Bear, onde gosta de passar fins de semana e férias.
Motivo pelo qual ele está neste exato instante ao computador pesquisando quais lojas na região de Orange County têm em estoque máscaras de Leno e Letterman.


155

Para o próximo roubo, Ben se decide por astros do cinema.
— Acho que vou de gay — diz ele a Chon.
— Não me surpreende, mas especificamente…
— Estou assustadoramente empolgado com essa coisa de tema — diz Ben enquanto examina suas escolhas em um catálogo na internet. — Se esse lance de drogas e roubos não der certo, talvez eu possa entrar nessa área de produção de eventos.
— Ou pode chupar paus.
— Sempre há essa possibilidade — admite Ben, estudando as ofertas. — Quer ser Brad Pitt ou George Clooney?
— Isso está além de gay. Você faz o gay parecer hétero.
— Escolha.
— Clooney.
Ben clica em “Comprar”.
Chon está em seu próprio laptop.
Google Earth.
Vista aérea da próxima cena de crime.


156

Dessa vez eles estarão esperando.
Estarão alertas.
E sem brincadeira.
Lado mandou dizer que se alguém vir algo do lado da estrada não pare, não reduza, pise no acelerador, ese.
Continue dirigindo, não importa o que aconteça.


157

Ben e Chon terminam de estender a chapa de pregos na estrada de terra e agora jogam uma camada de cascalho por cima.
Como todo mundo, eles assistem a Cops. (“Bad boys, bad boys, whachoo gonna do…”)
Depois retornam ao carro que pegaram para esse trabalho, escondido em um campo de abacateiros perto de Fallbrook.
— Guacamole? — pergunta Ben.
É, tá, sem graça.
O nervosismo pré-jogo está começando. Os maxilares de Chon parecem ter sido apertados com uma chave Allen, e o joelho de Ben sacode para cima e para baixo como uma britadeira fissurada.
É, mas ele relaxa fazendo isso.
Ben ouve pneus de carro na estrada de terra.
— Hora do jogo — diz Chon.
Eles ouvem os pneus estourando, Chon coloca o carro do serviço na estrada, e os dois estão em cima deles. Mesmo esquema (ensaio, ensaio, ensaio) — Chon no motorista, Ben no carona.
E funciona assim.


158

820 mil paus é pagamento de merda para Clooney e Pitt.
Um trocado para os garotos do Treze homens, mas nada mau para um serviço em meio a abacateiros.


159

— Brad Pitt e quem? — pergunta Lado.
— George Clooney — diz o motorista.
— Onze homens e um segredo — acrescenta o carona.
— E Outro segredo.
— Cala a porra da boca.
Ele fala ao telefone com Alex.
Como estamos com as máscaras?


160

Eles reduziram o número a cinco lojas, e Berlinger está verificando as cinco.
É a resposta à pergunta.
Lado dirige até o estacionamento de Aliso Beach.
— O quê? — exclama Ben. Mas eu não estou…
… produzindo meu bagulho?, não estou…
… entregando o produto aos meus varejistas?, não estou…
… falando com meus clientes?, não estou…
sendo um bom menino?
Lado olha dentro dos olhos de Ben.
— Onde você esteve na noite passada?
Ben não pisca.
Lado também está olhando, ese. Seus olhos negros já encararam muitos homens, viram as mentiras em seus olhos, na rua, nas salas, os viram pendurados em ganchos de carne. Difícil encarar esses olhos negros e mentir.
Mas Ben mente.
— Em casa. Por quê?
— Um dos nossos carros foi apanhado noite passada.
Ben resiste. Mantém os olhos fixos nos de Lado.
— Não temos nada a ver com isso.
— Não?
— Não — diz Ben. — Talvez você devesse checar seu próprio pessoal.
Lado bufa.
O que significa…
Meu pessoal tem noção do perigo.

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