sábado, 27 de julho de 2013

Selvagens - 141° ao 150° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow





141

O problema com a questão da informação não é o quê, é qual. É informação demais, e não insuficiente. Você de alguma forma tem que descobrir o que é significativo. Então agora que eles têm um monte de merda sobre o Cartel de Baja, estocada em cinco pen drives, precisam vasculhar tudo isso para encontrar aquilo de que precisam.
Metanfetamina ajuda.
É, essa coisa de virar a noite pesquisando costumava ser um barato de café e cigarro, os dois intrépidos repórteres investigativos em busca do Garganta Profunda, a dupla de policiais procurando uma pista antes que o tenente os afastasse por estar sendo pressionado pelo gabinete do prefeito.
Foda-se isso.
Eles não fumam (cigarros), e Ben já tem caganeira mesmo sem se entupir de café italiano, e de qualquer maneira ele só compraria aquela bosta de comércio justo que tem gosto de terra, então eles pegam o caminho farmacêutico.
Palitinhos químicos para segurar os olhos.
Pop. Pop.
Sentar na frente de um computador tendo tomado metanfetamina é como estacionar o carro enquanto enfia o pé no acelerador.
Rodando a 150 por hora.
Ela não aguenta muito mais, capitão.
É, bem, ela poderia, Jim, se tivesse Ben para dar a ela uma mistura indica-sativa que deixa seus nervos em repouso ao mesmo tempo que acelera seu cérebro.
O amanhecer os encontra…
Corrigindo…
O amanhecer não “encontra” porra nenhuma; o amanhecer não está procurando. (A única qualidade redentora do universo é sua indiferença, acredita Chon.)
Quando o sol nasce, eles ainda estão ali, vasculhando a montanha de material.
Ben, claro, quer contexto.
— Não há conteúdo sem contexto — diz. Ele aprendeu isso em Berkeley.
Chon espera que Ben não queira “desconstruir” o Cartel de Baja. Chon quer desconstruir o cartel, mas de uma forma bem diferente, nada Derrida. Contexto, conteúdo — ele não queria seguir esse caminho, mas, já que estão aí, ele só quer entrar e explodir pessoas.
Ele está um pouco perturbado pela falta de sono. Mas Chon sabe por experiência própria que é um Grande Erro tentar dormir depois de uma viagem de metanfetamina.
Você não consegue laçar aquele pônei, tem que deixá-lo correr até o bicho cair sozinho. (Aviso: tentar dormir depois de tomar metanfetamina pode provocar um surto psicótico. Consulte seu médico imediatamente. Tipo, alerta: se uma ereção persistir por mais de quatro horas, consulte um médico imediatamente e torça para ser uma médica cheia de tesão.)
Ben não está desconstruindo o cartel, está desconstruindo a informação.
Aparentemente Dennis conseguiu a maior parte de suas informações de uma única fonte — IC 1459, que não é identificada em nenhum momento nos arquivos.
Então Dennis não está dando o nome da fonte para ninguém, nem mesmo para seu próprio pessoal. Não é incomum — um ativo é apenas isso, um ativo, e os burocratas não abrem mão de suas moedas.
Vamos conseguir no momento que precisarmos, pensa Ben.
— Certo, mas qual é a porra do seu contexto? — pergunta Chon.


142

A família Lauter consistia de quatro irmãos e três irmãs.
Anotaí, Chekhov.
Elena é a irmã do meio.
Ele acha uma foto de Elena.
Definitivamente uma coroa comível.
Cabelos cor de ébano, malares marcados, olhos castanho-escuros, corpinho firme.
Rainha Elena.
Ela viu os irmãos caírem um a um. O último homem da família é seu filho, Hernan, mas não é ele, ele não é o cara, não é capaz. É engenheiro, inteligente, poderia aprender os aspectos empresariais, mas na verdade não leva a sério engenharia nem nada, exceto, talvez, bocetas.
Mamãe sabia disso, sabia que ele não podia comandar os negócios da família; parte dela teria gostado de simplesmente sair de cena e deixar El Azul e Sinaloa ficarem com a merda toda. Mas também sabia que, sendo o último pau de pé, seus rivais não poderiam deixar seu filho vivo.
Ela teve que assumir, no mínimo para mantê-lo vivo.
Não queria encontrá-lo em um barril de ácido.
Ela é muito capaz. Tem cérebro, experiência, nome, DNA, coragem, pessoal, sangue-frio, colhões e/ou ovários.
E ela descobre que gosta de comandar as coisas, gosta do poder.
Elena é quente — sexy, bonita, inteligente, eficiente. Usa tudo isso para manter seguidores leais ao seu redor. Também é impiedosa: é me ame ou cortem-lhe a cabeça.
Ela é a Rainha Vermelha.
El Azul, um ex-tenente, não aceita. Simplesmente não se permite receber ordens de uma mulher, além de achar que ela não dá conta. Provavelmente também não a acha capaz de dirigir um carro ou cuidar de um talão de cheques, então rompe com aquilo tudo e monta seu próprio grupo. Volta para os caipiras de Sinaloa e diz:
— Dá para acreditar, os Lauter são comandados por uma mulher. E quando ela ficar de chico?
— Eu digo o que acontece, porra — diz Ben, entusiasmado —, os caras têm as porras das cabeças cortadas, o sangue corre, é isso aí.
Mas Elena é esperta — ela cresceu no tráfico de drogas, não há nada que não tenha visto antes, então faz uma análise fria e vê que perderia uma guerra contra El Azul e Sinaloa.
Uma análise recente escrita por Dennis sugere que a seção Elena/Hernan do CB está aliada a um grupo chamado Los Zetas.
— Os caras do vídeo — diz Chon.
Los Zetas recentemente atravessaram a fronteira para a Califórnia e formaram um subgrupo chamado Los Treintes. A DEA parece que não sabe muito sobre eles, mas pelo visto são chefiados por um ex-Zeta chamado Miguel Arroyo Salazar, mais conhecido como “El Helado” — “Gelado”.
Ben mostra a Chon a velha foto de arquivo mostrando um policial do estado de
Baja. Eles colocam o vídeo da refém e olham para o homem com a motosserra de pé junto a O.
— O mesmo cara? — pergunta Ben.
— Parece.
— O mesmo que eu conheci hoje — diz Ben. — Nosso novo chefe: Miguel Arroyo Salazar.
— Esse cretino está morto — diz Chon. Mais cedo ou mais tarde, vai estar.
Então, continua Ben, Elena recruta os Zetas — paga bem a eles, dá uma área para explorarem e diz: “Cresçam e prosperem.” Sigam para o norte, bravos, e tomem a Califórnia (de volta).
— Por quê? — pergunta Ben, de forma retórica.
— Porque é onde o dinheiro está — responde Chon de forma retórica.
Ou seria algo mais?, pensa Ben.
Mas ele deixa isso pra lá.
Uma coisa de cada vez, e a primeira é resgatar O. viva.
Comprá-la de volta.
— Temos o bastante aqui para seguir em frente — diz Chon.
Foda-se o contexto.
Vamos ao conteúdo.


143

Precisamos ser cuidadosos, pensa Ben.
Precisamos ser mais que cuidadosos. Se o CB tiver qualquer suspeita de que estamos usando o dinheiro deles para pagar o resgate, eles matam O.
Portanto…


144

Eles acham o endereço em um dos arquivos de Dennis.
Lá nos novos projetos residenciais do leste que abraçam as montanhas.
Terra dos caçadores.
Não o novo tipo de caçador, o velho tipo de caçador, os leões da montanha.
Dennis o vigiou durante meses. Alugado por um tal de Ron Cabral, reconhecidamente um aliado etc.
Agora Ben e Chon estão lá.
Veem os carros chegar e sair, tarde da noite ou de manhã cedo, normalmente antes de o sol nascer. Conseguem ter uma noção de quando os negócios são feitos, quando as entregas entram, saem, quantos homens.
Um depósito.
Onde o dinheiro é guardado até ser embalado e enviado para o sul.
Ou não, como pode vir a ser.


145

Chon estaciona o Mustang a 3 quilômetros e caminha pelo chaparral denso das encostas.
Ele se sente quase bem de estar novamente se exercitando.
Fica de cócoras, pega o visor noturno e vasculha o terreno até encontrar o que está procurando: uma curva acentuada na estrada, afastada das casas. Tira um instantâneo mental e o arquiva.
I-Rock-and-Roll, Istãolândia, SoCal.
Uma emboscada é uma emboscada.
É uma emboscada.


146

Eles repassam o plano um zilhão de vezes.
Na opinião de Ben.
Não o bastante, na de Chon.
— Isso não é uma brincadeira, porra — diz Chon.
— Eu não disse que era — responde Ben. — Estou dizendo que já entendi. Está na minha cabeça.
É, mas Chon sabe que vai sair da cabeça dele no instante em que a ação começar e a adrenalina correr. Então será apenas memória muscular, que só se consegue por repetição, repetição, repetição.
Então eles repassam o plano mais uma vez.


147

O começa a fazer programas de entrevistas.
O-prah, claro.

OPRAH
uma história de coragem… inspiradora… de dignidade. Por favor, deem as boas-vindas a O.

A plateia aplaude. Alguns se levantam. O., recatada em um vestido cinza, entra, agradece os aplausos timidamente e se senta.

OPRAH
Que experiência verdadeiramente impressionante. O que você aprendeu? O que tirou disso?

O.
Bem, Oprah, sabe, quando você passa tanto tempo sozinha, não tem escolha a não ser confrontar a si mesma. Acho que você ganha em autoconhecimento. Você realmente aprende sobre si mesma.

Oprah olha para as mulheres na plateia e sorri. “Essa garota não é impressionante?” Ela se volta novamente para O.

OPRAH
(suavemente)
O que você aprendeu?

O.
Aprendi como sou forte. A força de uma mulher…
uma força interior que eu não conhecia plenamente…

Aplausos.

OPRAH
A seguir, um exemplo realmente impressionante de coragem sob pressão — a mãe de O., Rupa.

O. agora está na Ellen.

ELLEN
Recebam O., da MTV!
O., com uma camiseta sem mangas cheia de estilo que mostra suas tatuagens, dá alguns passos de dança e então se joga na poltrona dos convidados.

ELLEN
Você passou por um momento bem intenso recentemente, não é?

O.
Ah, foi. Mas antes: você pegou a Portia de Rossi? Eu daria camisetas em troca disso.

A plateia explode.
Ela dança com ELLEN, depois

No Dr. Phil.

DR. PHIL
… a melhor forma de prever o comportamento futuro é vendo o comportamento passado, e eu acredito bastante que você ensina às pessoas como tratar você. Você tem que consentir em ser refém, e se não faz sua parte nisso, não tem poder de resolver a situação. Eu tenho trabalhado com casos de sequestro e reféns há 35 anos, não cheguei agora nessa área.
Para cada rato que a gente vê, há cinquenta que a gente não vê.

O.
Você é babaca pra caralho.

DR. PHIL
Estou preparado para oferecer a você ajuda de primeira, caso aceite. Mas não estou brincando, iremos fundo, e chegaremos até a base disso, sou apenas um velho garoto do interior…

O.
E um babaca.
Ah, menina, ela diz a si mesma — você tem que dar um jeito nessa sua cabeça.


148

Ben deixa Chon no Seizure World (Mundo da Doença)…
… uma comunidade de aposentados que se chama na verdade Leisure World (Mundo do Lazer), então você pode imaginar…
… depois de meia-noite, quando os velhos estão dormindo, mas antes de 4 da manhã, quando eles estão acordados de novo…
… e Chon circula até encontrar um Lincoln de que gosta. Ele precisa de 18 segundos para abrir a porta, mais trinta para fazer ligação direta (“fruto de uma juventude desperdiçada”), e sai com o carro. Esconde-o no estacionamento de um shopping em SJC, onde Ben o apanha.
— Sabe o que dá o cruzamento de um mexicano com um chinês? — pergunta Chon.
— O quê?
— Um ladrão de carros que não sabe dirigir.


149

— Você está bem? — pergunta Chon.
— Estou alto — responde Ben.
— Não fique alto demais — diz Chon. — Dá uma fumada, esfria.
— Não tem problema?
— Não.
Chon não faz a mínima ideia se não tem problema. Ele já saiu em missões noturnas antes, mas nenhuma como essa. Deve ser basicamente a mesma coisa. Você quer estar ligado, mas não ligado demais.
Ben apenas parece nervoso, tenso.
Mas determinado, daquele jeito sério de Ben.
Eles fumam uma combinação indica-sativa selecionada que vai dar uma acalmada, mas ainda assim vai manter os dois alertas.
Só para eliminar a tensão.
Dirigem até o Lincoln roubado e partem.
Virando leste na Highway 74, conhecida como Ortega Highway, cruzando (Chon gosta dessa palavra) as montanhas Santa Ana de Mission Viejo até Lake Snore…
Etimologia:
Lake Elsinore…
é uma cidadezinha sonolenta, daí…
Lake Snore, ou Lago do Ronco.
Ortega é o mais rural possível em Orange County atualmente, e um bom lugar para plantar maconha (relevante) e ter laboratórios de metanfetamina (irrelevante, pelo menos no momento). Eles viram ao norte, pegando uma das muitas estradas estreitas que nascem na rodovia e seguem por entre florestas de carvalho branco como costelas quebradas.
Eles encostam o carro em um… acostamento… de terra em um cruzamento no qual há uma placa de PARE.
Chon salta, amarra um trapo vermelho na maçaneta da porta do carro, abre o capô e solta os cabos da bateria. Volta para dentro e diz a Ben para se deitar no banco e colocar a máscara.
Ben foi à Party City em Costa Mesa e escolheu como tema programas de entrevistas.
Então lá estão eles — Leno, Letterman —, esperando seus monólogos de abertura.
Agora sua mão fecha-se em torno da coronha da pistola que ele tem no colo.
— Você só usa isso se precisar — diz Chon.
— Não brinca.
— Não é diferente de um jogo de vôlei — diz Chon. — Concentração e trabalho em
equipe.
Alguns minutos depois eles ouvem um carro vindo pela estrada.
— Pronto? — pergunta Chon.
A garganta de Ben trava.
Chon não sente nada.
A van reduz no sinal de PARE. O guarda no banco do carona vê o Lincoln quebrado, mas não pensa em nada até o carro de repente se colocar na frente da van, bloqueando a estrada.
Chon sai do carro em um instante.
Aponta a escopeta para a janela do motorista.
O motorista começa a engrenar a ré, mas Chon aponta a arma para sua cabeça, e o motorista muda de ideia. O carona tenta pegar a pistola no banco, mas Ben está junto à janela com a .22 na direção dele.
— Larga a arma — Ben diz o que ele ouviu em uns mil programas de TV, de modo que quase ri ao dizer isso. Mas o cara larga a arma no piso do carro.
Chon abre a porta, pega o motorista, arranca-o do assento e o joga no chão enquanto Ben manda o carona sair por meio de gestos. O carona sai, olha para Ben e diz em espanhol:
— Vocês não sabem com quem estão se metendo. Somos La Treinte.
Ben aponta a arma para o chão, tipo, deita aí.
O cara boceja de forma estudada para mostrar que não está com medo, depois se abaixa, tentando manter a terra vermelha longe de sua camisa branca.
Chon mantém o motorista na mira da escopeta enquanto Ben entra na van e logo acha o dinheiro. Também acha o rastreador por GPS com o dinheiro e o joga no chão.
Diz:
— Vamanos.
Chon dispara duas vezes, nos pneus dianteiros e traseiros da van.
Eles entram no Lincoln e partem.


150

— Foi muito maneiro!
Ben está ligadão.
Adrenalina alta. Endorfinas ricocheteando nas paredes das células como um esquizofrênico jogando pimbolim consigo mesmo. Diferente de tudo que ele já havia experimentado.
— Conte — diz Chon.
765.500 dólares.
Um começo.

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