Tuesday, 23 July 2013

Selvagens - 121° ao 130° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




121

Temos um acordo.


122

Um novo vídeo passa pela cabeça de O.
Uma repetição contínua — ela não consegue fazer parar, não consegue desligar a repetição. Não consegue mudar a configuração.
As imagens se repetem e repetem e repetem.
No vídeo ela se vê
Amarrada a uma cadeira…
Uma motosserra no pescoço
Ela sente o terror, o puro medo
Ela vê
A lâmina se aproximar
Ela tem consciência
Da própria morte
Ela se ouve
Gritando.
E volta ao início.
Vendada é pior, porque ela só pode ver dentro da própria cabeça. Não pode percorrer o multiplex até encontrar um filme de que goste, só tem esse. Ela sempre foi “a garota maluca”, mas agora está realmente com medo de se tornar a garota maluca.
Um pensamento a mantém em parte sã.
Seus homens estão vindo buscá-la.
Ela sabe que estão.


123

Seu malportamento domado
Mas ainda assim Chon tem uma arma na mão enquanto está de pé no deque, olhando para o oceano sem vê-lo realmente.
O que ele de fato vê é
… a si mesmo matando pessoas.
Ele gostaria de matar…
Hernan Lauter e
O filho da puta que estava segurando a motosserra e…
Hernan Lauter novamente.
Chon gostaria de começar todos os dias matando Hernan Lauter, e em certo sentido ele de fato o faz, porque sempre acorda do pouco que consegue dormir pensando nisso.
É meio complicado imaginar em detalhes, já que ele nunca viu Lauter, mas Chon fica com sua imagem mental.
Algumas vezes Lauter é gordo; em outras, magricela; jovem, velho, com papada, emaciado, várias tonalidades de pele marrom ou branca, os cabelos são negros, brancos, prateados, grossos ou finos.
Mas o método de matá-lo nunca varia.
Claro, claro que em sua fantasia Chon coloca uma pistola na boca de Lauter e puxa o gatilho.
Dois tiros…
… bang, bang…
… depois atira nas tripas do filho da puta da serra, e enquanto ele está convenientemente curvado Chon arranca a cabeça do cara e a joga aos pés de O…
… galanteador como sempre…
Honesto como é, Chon não tem certeza se sua fúria é fruto mais do que Hernan fez a ele ou do que fez a O. Sabe que deveria ser a última opção, mas provavelmente é mais a primeira, porque no final das contas não dá para sentir as dores dos outros, só imaginá-las.
Mas ele tem uma noção do que ela sente porque Lauter mostrou a ambos a morte iminente.
Sua fúria é — ele escolhe a palavra deliberadamente — impotente.
Porque ele sabe que não pode concretizar (taí uma porra de uma não palavra)
Não pode tornar concreta
                                                               concretar
sua fúria.
Nenhuma quantidade de Viagra ou Cialis lhe permitiria realmente matar ou mesmo chegar a uma distância fatal de Hernan Lauter. Ele é impotente para fazê-lo, então sua fúria é uma tempestade interior
condensando violentamente, ficando mais forte porque está contida
(chuvarada, chaleira)
o que, claro,
produz mais
fúria.


124

Ben sai para o deque.
Ele diz:
— Talvez você tivesse razão.
— Quando eles ameaçaram pela primeira vez — diz Chon —, deveríamos ter fugido na mesma hora ou matado um monte de gente. Era uma escolha clara, e não a fizemos.
— Agora é tarde demais — diz Ben.
Ele analisa a situação. Há Três Opções:

1. Entrar no Jogo — cooperar com o Cartel de Baja e esperar que O. consiga resistir três anos.

2. Achar e Resgatar — descobrir onde estão mantendo O. e ir salvá-la.

3. Pagar os 20 milhões.

A primeira opção não é uma opção. O. nunca suportaria tanto tempo, e além disso, mais cedo ou mais tarde Rupa iria querer saber onde está sua menininha, e então botaria a boca no trombone. A polícia, o FBI, a porra toda, e isso significaria a morte de O.
A segunda opção é improvável. O CB poderia estar com O. em qualquer lugar, literalmente qualquer lugar do mundo. Caso ela esteja no México, que é o mais provável, não há como a encontrarem, muito menos montar um ataque à la Israel para resgatá-la. Pelo menos não viva.
Mas eles decidem que ainda assim têm que tentar. Um passo de cada vez — tentar localizá-la, mas enquanto fazem isso…
A opção seguinte — pagar a porra do dinheiro.
É, legal, mas eles não têm essa grana toda, ao menos não líquida.
Eles têm mercadoria que em curto prazo precisam vender para o CB. Ben poderia vender a casa, mas quem anda comprando imóveis de milhões de dólares ultimamente?
E os bancos estão pedindo dinheiro emprestado em vez de emprestar, e o que os dois poderiam usar como garantia? Maconha? Na verdade é mais seguro que muitas outras coisas hoje em dia, mas nada que se possa colocar no formulário de pedido de empréstimo.
(Quer descongelar aquele seu crédito congelado?, perguntou Chon uma vez. Obrigar aqueles veados que pegaram nosso dinheiro e agora não querem mais devolver a abrir a mão? Pelotões de fuzilamento: você entra com alguns presidentes de banco no intervalo do Monday Night Football e metralha todos no meio do campo que o crédito vai rolar solto que nem uísque em festa irlandesa.)
Ben tem dinheiro — contas na Suíça, nas ilhas Caimã, nas Cook. Ele tem alguns investimentos que pode encerrar. O problema é que também possui muitos que não pode. Erva Verde. O cara é basicamente uma organização beneficente internacional na figura de um homem só, e investiu muito dinheiro naquilo em que acredita. Darfur, Congo, Mianmar. Então…
… liquidando tudo o que pode liquidar, ele consegue reunir 15 milhões de dólares.
Faltam 5 milhões de dólares.
Para libertar O.
— Será que a gente conhece alguém que tenha esse dinheiro? — pergunta Ben.
— O Cartel de Baja tem esse dinheiro.
O Cartel de Baja com certeza tem esse dinheiro.


125

Por onde começar, por onde começar?
Ben, ainda muito no seu estilo Ben de análise, diz que eles deveriam começar revendo seus próprios erros.
— Autocrítica maoista — sugere Chon.
— Algo do tipo — diz Ben, e confessa os pecados de…
Complacência.
Arrogância.
Ignorância.
Dois levam a três.
Mas a complacência deles está no fim, assim como a arrogância.
Resta a ignorância.
— Lauter sabe tudo sobre nós — diz Ben. — Nós sabemos muito pouco sobre ele.
Portanto, primeiro passo.


126

O trem se aproxima.
Metrolink interurbano, sentido sul para Oceanside.
Dennis vai até o carro.
— Duas vezes em uma semana — diz ele. — A que devo esse prazer?
— Entre — diz Ben. Convite e ordem.
Dennis se instala no banco do carona.
— Quero toda informação que vocês têm sobre o CB — diz Ben.
— Já dei tudo a vocês.
— Não quero saber do seu trabalhinho de escola — retruca Ben. — Estou falando da sua inteligência, seu G-2, tudo o que vocês têm sobre o cartel.
Dennis dá um risinho.
— Não posso.
Ben dá um tapa em seu rosto. Forte.
— Cacete, Ben! O que…
Chon fica encantado. Esse é Ben?
O gentil Ben?
O Ben da Paz?
Legal.
— Na verdade, Dennis, você pode sim — diz Ben. — Ou eu vou ao seu escritório, vou bater na porta do seu chefe e me apresentar como a sua principal fonte de renda.
Dennis ri. Ben e Dennis têm essa coisa de Garantia de Destruição Mútua. Se um sacanear o outro, vão terminar os dois na mesma prisão, e ele lembra a Ben dessa dinâmica perfeitamente simétrica.
— Eu já não me importo mais — rosna Ben. — Eu vou para a cadeia. Mas você… seu condomínio em Princeville é leiloado, sua esposa passa a viver do auxílio do Estado e seus filhos vão para o treinamento de assistentes de gerência do Burger King em vez de irem para a universidade.
Dennis não está mais rindo. Mas está dando desculpas.
— Seriam milhares de páginas…
— Ótimo.
— Informantes confidenciais…
— Todos eles.
— Isso não faz parte do nosso acordo — diz Dennis.
— Agora faz — diz Chon.
Dennis fica no blá-blá-blá. O que você acha que eu posso fazer? Simplesmente sair do prédio com caixas de documentos? Não funciona assim. Eles vigiam a gente como falcões, a coisa lá é um 1984 com circuito interno de TV, levantamento de dados interno, toda a tecnologia mais atual.
— Mande eletronicamente — diz Ben. — Meus ratos de computador vão ligar para você. Siga as instruções deles. Não vai demorar.
— Eu levaria semanas para reunir essas coisas — diz Dennis.
— Escuta, seu escroto de dois salários — diz Ben, e dá uma de Hyman Roth para cima dele: — A gente paga a você todo mês, sem desculpas. Mês bom, a gente paga.
Mês ruim, a gente paga. Você não pergunta e a gente não comenta, porque é irrelevante. Ano após ano, pagamos a escola dos seus filhos, aquecemos as costas deles com roupa quentinha, alimentamos eles. Agora precisamos da porra da sua ajuda, e você vai ter que cooperar. Esteja ao computador às 10 da noite de hoje, ou às 10h05…
Ele fala o número do celular do chefe de Dennis.
Dennis baixa os olhos para o piso do carro.
Resmungando.
— Achei que vocês fossem pessoas honradas.
— Não somos — diz Chon.
— Comece a falar agora — diz Ben. — Me dê alguma coisa útil sobre Hernan
Lauter.
Dennis ri.
Hernan Lauter?


127

Hernan não conseguiria dirigir nem um cortador de grama, conta Dennis. Hernan poderia projetar um, porque é um puta engenheiro, mas comandar o Cartel de Baja, ainda mais quando a organização está em guerra? Ah, por favor.
— Então, se não é Hernan o…
— Elena La Reina — responde Dennis alegremente.
Ben dá de ombros.
— Mamãe. — Dennis está feliz por surpreender aqueles doidões de praia arrogantes e paternalistas. — A mãe dele comanda o espetáculo. Elena Sanchez Lauter, irmã dos falecidos e não pranteados irmãos Lauter. Elena La Reina.


128

— Uma mulher, chefe de cartel? — diz Chon. — Naquele país machista que é o México? Não sei não.
— É — diz Dennis. — Acho que é o machista do Chon que não consegue acreditar.
Acho que você não consegue imaginar o que não consegue imaginar.
Talvez seja verdade, pensa Chon.
Mas isso muda a fantasia de vingança.
Agora ele não consegue se ver matando a tal chefe.
Embora ele provavelmente tenha matado mulheres antes. Durante uma patrulha, deve ter escolhido uma casa afegã com terroristas para os garotos dos não tripulados, e provavelmente havia mulheres nela quando foi vaporizada.
Mas Chon não bateria numa mulher.
Também não consegue se imaginar fazendo os miolos dela explodirem pela nuca.
Chauvinista.
Ben está impressionado.
Uma mulher chefiando o Cartel de Baja?
Hillary ficaria puta.


129

O. também não está muito animada.
Que fosse o Power Ranger rosa a cortar sua maldita cabeça. Ela ouviu a voz da mulher ao telefone, dando ordens ao Cara da Motosserra.
É demais para a classe.
Oprah não vai gostar disso.
E se aquelas fêmeas cheias de violência verbal em The View apanharem essa vadia, ela que se cuide.


130

Dennis sai do carro e olha para eles.
— Se vocês pretendem enfrentar Elena La Reina, eu vejo pessoas mortas — diz.
Isso faz com que se sinta um pouco melhor.
Assim como o double bacon burger.
Com queijo.

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