domingo, 21 de julho de 2013

Selvagens - 111° ao 120° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




111

O telefone de Ben toca.
— Maravilha!
Retorne à Fairview Avenue, ordenam-lhe.
Passe dois sinais, vire à esquerda.
Mais dois quarteirões, vire à direita.
Agora vá; a gente liga de novo.
Ben dirige, com um novo mantra em sua cabeça agitada…
Dois sinais esquerda, mais dois direita.
Pouco antes da segunda à direita o telefone toca novamente.
— Está vendo a loja de peixes?
Ben olha ao redor…
A loja de peixes, a…
… então vê a placa com o desenho de um peixe, bolhas saindo da boca; o lugar vende peixes tropicais para aquários domésticos…
— Sim, estou vendo.
— Pegue à direita, depois direita de novo no beco atrás da loja.
Ele faz isso.
Entra no beco.
— Estacione e saia.
— Devo desligar o motor?
— Não.
Ele faz o que mandam e sai do carro.
Acontece tudo muito rápido. Um carro chega, dois sujeitos saltam do banco traseiro. Um deles agarra Ben, o joga contra a porta dos fundos da loja e coloca uma pistola na sua cabeça. O outro arranca o telefone de sua mão.
— Uma palavra, um movimento, um som. Você morre rápido, a garota morre devagar.
Ben assente como pode com a mão ao redor de seu pescoço, a bochecha pressionada contra a porta de metal.
— Você leva o nosso carro, a gente leva o seu. É só a gente ver alguém nos seguindo, um policial, um helicóptero, qualquer coisa, que a garota morre.
Ben assente de novo.
— Espere um minuto, depois vá para casa. Vamos ligar.
A mão o solta.
Ele ouve a van partindo.
Ben entra no carro, um Honda CRV. As chaves estão na ignição. Há uma sacola no banco do carona. Ele a abre e vê
Dinheiro.
Muito dinheiro.
Eles pagaram pela maconha.
Ben volta para Laguna.


112

Chon chega uma hora depois.
Olha para Ben e assente com a cabeça.
Ben devolve o gesto.
Eles se sentam e olham para a tela do computador.


113

O celular toca.
Lado atende.
O. o escuta falar em espanhol. Vivendo onde vive, ela deveria saber um pouco de espanhol, mas, exceto por algumas gírias e uns ingredientes de barracas que vendem tacos, não fala nada. Mas o mexicano feio está anuindo e dizendo algo que parece como “Entendo, entendo, sí, entendo”.
Depois ele larga o telefone e pega a motosserra.


114

Não pergunte por quem os sinos dobram.
O pequeno bong no computador anuncia um e-mail.
Ben abre e clica no link que eles mandaram.
Vídeo streaming. Podcast.
O. viva, algemada à mesma cadeira de madeira.
Ela soluça com a cabeça caída.
Um homem grande, suéter com capuz e óculos, de pé atrás dela com a motosserra, uma das mãos na corda de partida.
— Fizemos o que vocês mandaram! — grita Ben.
— Cala a boca — diz Chon em voz baixa.
— Fizemos o que vocês mandaram, soltem ela!
— Agora que aprendemos uma lição, estamos prontos para avançar em nosso relacionamento. Nossas exigências não são negociáveis. Vocês continuarão a cultivar seu produto e a vendê-lo para nós a um preço estabelecido por um período de três anos, a começar agora. Também nos fornecerão certos serviços caso necessitemos. Ao final desse período contratual, suas obrigações serão consideradas encerradas.
— Três anos — diz Ben antes que ele pense que seria melhor se calar.
— Feito.


115

Feito o cacete.
Pelo menos para Chon.
Quando tinha 10 anos, os sócios de seu pai sequestraram Chon e ficaram com ele por quase quatro meses, até papai aparecer com o dinheiro que devia por um grande carregamento de maconha.
Não foi tão ruim. Eles o levaram para uma fazenda que tinham no meio do nada perto de Hemet, e ele via TV e jogava videogame o dia inteiro e a maior parte da noite.
Deixavam que se entupisse de Cap’n Crunch e Coca-Cola. Deixaram até mesmo que dirigisse um quadriciclo até ele dar uma de Steve McQueen e quase derrubar uma cerca de arame farpado em uma tentativa de fuga.
Confiscaram sua Penthouse por uma semana. Foram realmente maus.
De qualquer forma, o Sr. John arrumou a grana e resgatou o Pequeno Johnny. Com as palavras: “Está vendo o quanto eu amo você? Quatrocentos mil pau.”
É sempre legal saber seu valor.


116

Ben, sendo como ele é, faz outra sugestão.
(Ben acredita muito em negociações em que todos saiam ganhando.)
Ele diz:
— Calculem o lucro que teriam ao longo desses três anos, apresentem um número e a gente paga pela libertação imediata dela.


117

— Uma oferta interessante — diz Elena.
— Ele não é um idiota — observa Jaime.
Elena diz:
— Voltaremos a falar com vocês.


118

Porque no final das contas tudo se resume a isso.
Números.
Se são bons ou não.
Jaime vai em frente. Uma projeção muito fácil de fazer, com base em vendas atuais, previsões de mercado, ajuste inflacionário, uma margem para variações do câmbio…
Alguém a fim de brincar de The Price Is Right?
Bora!
O preço de três anos de servidão por tempo definido, mais a vida de uma garota ligeiramente perturbada de Laguna… dá mais ou menos…


119

Vinte milhões de dólares.


120

— Fechado.
— Quero ter certeza de que estamos entendidos: vocês vão trabalhar para nós, e a garota será nossa hóspede por três anos ou até vocês nos fazerem um pagamento integral de 20 milhões de dólares. Certo?
— Certo.
— Fechado?
— Fechado — diz Ben.
— E quanto ao Sr. Vai se Foder?
Chon anui.
— Quero ouvir você dizer.
Está na ponta da língua.
Está, está.
Ele tenta controlar, tenta impedir, mas
Chon diz…

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