quarta-feira, 17 de julho de 2013

Selvagens - 101° ao 110° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




101

Esse Chon é um homem muito corajoso, pensa Elena.
E deve amar muito essa garota.
Isso a deixa um tanto triste, nostálgica de paixão.
Mas agora ela sabe o que queria saber…
Esses homens farão qualquer coisa — qualquer coisa — por essa mulher.
Ela é a força e a fraqueza deles.


102

O. ergue o rosto para os olhos negros de Lado.
Ele olha para o relógio.
Não diz nada.
É bom que O. não saiba o que ele está pensando, que não tenha acesso a esse monólogo interior específico.
Cinco horas, segundera, e você é minha. Piranha que dorme com dois homens, talvez eu rasgue você antes de cortá-la, guerita. Você é pequena, um carretel, como dizem. Eu rasgaria você, você não precisa de dois homens, só de um de verdade.
Cinco horas, putana. Eu pessoalmente espero que eles não consigam.
É, O. não consegue ouvir esse gargarejo do fluxo de consciência.
Que bom — mesmo com a oxicodona ela está aterrorizada, então…
Lado simula puxar a corda de uma motosserra.
Faz um barulho…
Rum, rum, ruuuummmm…


103

Chon divide o mundo em duas categorias de pessoas:
Ele, Ben e O.
Todo o Resto.
Ele faria qualquer coisa por Ben e O.
Por Ben e O. ele faria qualquer coisa a Todo o Resto.
Simples assim.


104

Chon enrosca o silenciador na pistola
Coloca a arma na bolsa impermeável
Fecha bem a bolsa.
Mais além do porto, as luzes da silhueta de San Diego se refletem na suave baía negra.
Uma camada de cor pintada na água.
Um truque de Photoshop.
A vida imitando a arte (gráfica).
Chon escurece o rosto, amarra a corda da bolsa ao pulso e confere a faca Ka-Bar presa à perna direita.
Afunda na água.
Silenciosamente.
Especialidade militar.
É uma distância curta até o barco, mas ele tem que percorrer a maior parte sob a água, para não ser visto ao passar pelos outros veleiros ancorados no porto. Todo o treinamento que a Marinha pagou, pelo qual o fez passar e do qual não fez uso, ele usa agora.
Desliza logo abaixo da superfície, quase sem criar ondulação.
Uma cobra-d’água.
Uma lontra marinha.
Ele sobe duas vezes para conferir sua posição, ver as luzes de atracação do barco.
Por trás de cortinas, uma luz acesa na cabine.
A quase 20 metros do barco ele vira à direita, na direção da popa. Nada até a escada e se segura em uma corda enquanto abre a bolsa e tira a pistola.
Um pente — nove balas.
Nove deve dar.
Ele sobe a bordo.


105

Eles dão mais oxicodona a O.
E não precisam empurrar garganta abaixo, ela fica feliz de tomar.
Porque está com medo pra cacete, entendeu?
Não sabe onde está, não sabe o que vão fazer com ela, e imagens de cabeças flutuantes flutuam ao redor da sua cabeça.
Se você está sentado há horas em uma cama em um quarto pequeno trancado sem nada para fazer além de imaginar alguém levando uma serra ao seu pescoço, você toma todos os sedativos que quiserem lhe dar.
Você só quer dormir.
Quando O. era pequena, ficava deitada na cama em seu quarto escutando Rupa e o
Um gritando um com o outro, e a única coisa que ela queria era dormir para que os sons parassem. Levantava os joelhos, enfiava as mãos entre as pernas e fechava os olhos com força.
Perguntando a si mesma
Eu sou a Bela Adormecida?
Vou ser acordada pelo(s) meu(s) Príncipe(s) Encantado(s)?


106

Chon abre a porta da cabine.
Com a mão esquerda.
Arma na direita.
O problema está ali, apagado.
Com uma mulher ao lado.
Muito bonita. Cabelos cor de mel espalhados no travesseiro, ombros nus acima do lençol, lábios carnudos de beijar entreabertos. Chon a ouve respirar.
Ela tem sono leve. Abre os olhos e se senta e olha para Chon incrédula. Ele é um sonho? Um pesadelo? Não, é real, mas quem é? Um ladrão que entrou pela janela? Mas em um barco?
Ela vê a arma, sabe como o homem adormecido ao seu lado tem dinheiro para o barco e seus cabelos cor de mel. Olha para Chon e murmura:
— Não. Por favor. Não.
Chon dispara duas vezes.
Na cabeça dele.
Problema resolvido.
Prendendo um grito, ela salta da cama, se lança dentro do banheiro e tranca a
porta.
Chon sabe o que tem que fazer.


107

De volta à água.
Sob a água.
Braçadas fortes o impulsionando
Chon corta a escuridão
Nadando forte e rápido
Para uma medalha de ouro O-límpica.
No ponto em que sabe que a água é funda, ele solta a arma e deixa que afunde até o leito lodoso.
Ele sabe que foi um erro
Não matar a mulher, mas…
ele pensa, enquanto emerge da água colorida pelas luzes…
eu não sou um selvagem.


108

Eu não conseguiria.
Um mantra que Ben repete involuntariamente, a cabeça girando, enquanto dispara para a estufa.
Eu não conseguiria.
Não conseguiria ter puxado o gatilho contra mim mesmo, nem para salvar O.
Desejaria.
Teria tentado, mas…
Não conseguiria.
Com o mantra vem a vergonha e, o que é surpreendente para o produto de dois psicoterapeutas, uma negação da própria masculinidade.
Ben se pergunta: Você se sente menos homem por não ter explodido seus miolos?
Quando ordenado? Como se alguma vez você houvesse equiparado masculinidade e machismo. Isso é loucura. Mais que loucura, é além do horizonte da loucura.
É, mas louco é onde vivemos agora.
A República da Loucura.
E Chon teria feito.
Retificando — Chon fez.
E se
e se
e se
eles tivessem ordenado que Chon atirasse não nele mesmo, mas
Em mim.
Ele teria feito.
Lamento, Ben. Mas bang.
E estaria certo em fazê-lo.
Ben entra na rua sem saída do silencioso bairro suburbano no limite leste de Mission Viejo. A “Velha Missão”. (Conheça a nova missão, igual à velha missão.) A casa fica no meio do contorno, seu quintal impecável separado por um muro de uma longa colina de chaparral que abriga coelhos e coiotes.
Ele para na entrada de carros, sai, sobe e toca a campainha.
Sabe que uma câmera de vigilância o observa.
(Melhor observar mesmo.)
Então Eric sabe que é ele ao vir atender à porta.
Eric não parece um plantador de maconha, parece um atuário. Cabelo castanhoclaro curto, rareando na testa, óculos de armação de chifre. Só falta um porta-canetas para bolso, e o sujeitinho seria totalmente nerd.
— Oi.
— Oi.
Ele conduz Ben pela sala — sofá modulado, poltrona reclinável, TV com uma tela grande transmitindo America’s Got Talent — e pela cozinha — balcões de granito, ilha central de carvalho, pia de aço inoxidável —, até a piscina coberta sob seu dossel de acrílico fumê.
Tem uma porra de uma piscina na casa, aham.
Com lâmpadas de estufa, canos de irrigação.
Lâmpadas halógenas — fase vegetativa
Vapor de sódio — fase de floração
Uma estufa fecunda.
Ben confere o relógio.
Desgraçado.
Percebe que suas axilas estão encharcadas de suor por causa da tensão.
— Tudo embalado? — pergunta.
— Tudo que estava pronto para colher.
— Vamos carregar.
Uma van de classe média sem os bancos de trás aguarda nos fundos. Ben e Eric enchem a van, depois Ben vai para o volante e liga o motor.
Ele tem 43 minutos para chegar a Costa Mesa.


109

Cortando SoCal.
Cortando a noite da Califórnia.
A autoestrada (5) é macia e quente e
Acolhedora
Mas para Ben
As placas verdes de saída são como degraus levando a um cadafalso
Levando a O.
Cada uma marcando tempo precioso, informando os quilômetros que faltam…
E os quilômetros que faltam para ela dormir
Aliso Viejo, Oso Parkway, El Toro
Lake Forest, Culver, MacArthur
O aeroporto John Wayne agora à sua esquerda, brilhando sob luz branca, fechado à noite agora, para que as decolagens não perturbem o sono de Orange County…
Jamboree, porque os escoteiros acamparam ali.
Ben vai a 140 com uma van carregada de maconha. Não quer essa velocidade, mas precisa, pois o tempo está correndo
Irvine Spectrum, com sua roda-gigante improvável e
Irvine Amphitheater anunciando em sua marquise a vinda de Jimmy Buffet, venham, fiéis Parrothead…
Ben vê com o canto do olho
O carro da patrulha rodoviária estacionado no canteiro central
Escondido para a emboscada
Como a morte
(Câncer, ataque cardíaco, aneurisma, todos esperando pacientemente no canteiro central)
Ele reza para que o guarda tenha coisas melhores a fazer, canta mentalmente uma música do Bruce Springsteen (Mister state trooper, please don’t stop me, please don’t stop me, please don’t stop me), não por temer os anos na prisão, mas porque isso significaria a morte de O., e ele espia pelo retrovisor para ver se o guarda saiu dali (please don’t stop me, please don’t stop me), e ele não saiu.
Puta merda, Ben não consegue respirar.
Mãos encharcadas no volante escorregadio de suor.
Finalmente, Bristol Street.
South Coast Plaza.
O território de caça de O.
Ele sai à esquerda na Fairview.
Com a cabeça virando para um lado e para outro, Ben procura o endereço que lhe deram, os números das ruas parecem um centro comercial.
Anda, anda, anda
Cadê, cadê, cadê
Seu estômago dói, em cólicas de tensão, ele sente que é capaz de se borrar todo, então vê…
A placa de madeira “33-38”.
Uma loja de bebidas, uma pizzaria, lavanderia, salão de manicure.
Todos fechados.
Ele estaciona a van na vaga em diagonal entre as linhas e se permite dar uma olhada no relógio.
Faltam dois minutos.
Então espera, sabendo que o estão vigiando.


110

Chon sai da água.
Criatura da Lagoa Negra.
Pisa em terra e volta até onde estacionou o Mustang.
Confere o relógio.
Quatro minutos.
Ele corre até o parque Spanish Landing, onde há uma fila de telefones públicos como monumentos ao passado.
Enfia moedas de 25 na ranhura e disca o número que lhe orientaram a discar.
— Feito.

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