Friday, 12 July 2013

Selvagens - 81° ao 90° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




81

Elena está deitada em sua grande cama solitária vendo uma novela.
Observa a paixão das outras pessoas.
Magda liga da faculdade.
Tudo bem? Eu estou bem. E você? Nada de novo, na verdade…
Elena sabe que o telefonema é mais para esconder que para revelar, mas compreende e até mesmo aprova. É bom que a garota saia e tenha sua própria vida.
Pelo menos o quanto ela conseguir, sendo seguida por toda parte por guarda-costas. Ela mandou que eles fossem discretos e disse que eram seguranças, não espiões: ela não precisa saber o que não precisa saber.
A luz da TV tremula na tela contra granadas do lado de fora da janela e Elena observa por alguns instantes. Então os dois amantes na tela começam a gritar um com o outro, ela volta sua atenção para aquele momento e a discussão termina com um abraço e um beijo apaixonado.
Quando o telefone toca, é Lado.
Os dois gueros saíram com uma garota e todos voltaram para a mesma casa.
— Uma puta? — pergunta Elena.
— Não profissional — responde Lado. — Acho que não.
Ela parece e age como uma menina rica.
Elena ouve isso e pensa em Magda. Será que ela parece e age como uma menina rica? Provavelmente. Preciso ter uma conversa com ela sobre baixar a bola.
— Ela é namorada de quem? — pergunta Elena. — Pertence ao Sr. Chega dessa Merda ou ao Sr. Vai se Foder?
— Não sei — responde Lado.
Ele explica sua dificuldade.
— Você está aí agora — diz ela.
— Do lado de fora da casa, sim.
— E os três ainda estão aí?
— Sim.
— Interessante.
Não para Lado. Ele está entediado. Tem quatro bons homens com ele, todos mujados, sem documentos, impossíveis de rastrear, assassinos frios que cruzariam a fronteira de volta antes de o sol nascer. Os três gueros estão bêbados e chapados — poderia ser o mais fácil que eles um dia conseguiriam…
— Posso resolver agora.
— Mas isso incluiria a garota.
Lado deixa que seu silêncio seja a resposta.


82

Outro silêncio esquisito e não usual.
Quando eles voltam para a casa de Ben.
O. pensando no que fazer — com quem transar.
Mas Ben apresenta
O bagulho do sexo.
Bagulho úmido, almiscarado, terroso, saboroso, fedido pra cacete.
Um tapa molha sua flor, dois fazem você fluir, fluir, fluir. Você incha e flui, agarra e solta, e chora. Lágrimas da sua boceta, lágrimas dos seus olhos, seus mamilos chorariam se pudessem, é bom a esse ponto. E isso para as mulheres, para os homens é
Hora da raiz mestra.
Poderia brotar através de uma calçada de concreto em busca de luz, à procura do sol. Muito duro, muito duro, muito duro, mas dura para sempre. Fodendo até a eternidade, cada nervo de sua pele um centro cintilante de prazer, tipo ela toca a porra do seu tornozelo e você geme.
O Bagulho do Sexo, de Ben & Chon.
Responsável por mais orgasmos na Costa Oeste que os consolos da Doctor Johnson.
Não admira que os mexicanos queiram isso.
Todo mundo quer.
Se dessem isso ao papa, ele lançaria camisinhas do balcão para milhares de fiéis gratos e adoradores. Dizendo a eles para aproveitar. Deus é bom, transem. Deus é amor, mandem ver.
O. dá dois tapas.
AMD.
Ai meu D.
Chon também dá um tapa. Dá um demorado, mas um demorado é suficientemente demorado. O. e Chon jogados na cama. Ele se senta ao lado de O., que dá outro tapa e passa para Ben. Ele traga, e isso é mais que um tapa, é uma decisão, um acordo, uma aceitação tácita de que eles vão cruzar um rio.
Todos sentem isso.
O., o centro, o meio, o canal de seu amor tripartite.
Mas eles não têm pressa, cada movimento lento é fascifodanante. Chon demora uns 37 minutos só para abaixar a alça do vestido dela, e ela acha que vai gozar só com isso.
Ela está usando o sutiã preto transparente, e ele gasta uns bons cinco anos roçando no seio com as costas dos dedos, vendo, sentindo aquele mamilo tentando brotar pelo material como uma planta subindo na primavera até que ela leva a mão às costas e solta a maldita coisa (Sr. Gorbatchev, derrube esse muro), porque quer sentir a pele dele em seu peito antes que o peito simplesmente exploda, e quando ele faz isso ela tem um pequeno ali mesmo, e mais um outro quando ele cola a boca no mamilo, e as cores no quarto enlouquecem.
As cores ficam positivamente psicóticas quando ele desliza para baixo, abre-a com os dedos e a lambe. Muito incomum em Chon esse amor oral, ele normalmente é um cara que vai direto ao pau, mas dessa vez ele vai com calma e cantarola musiquinhas alegres dentro dela (Senhorita Eco), aperta com o dedo o ponto esponjoso, e ela se contorce e se move e se move, arfa e geme e ronrona e goza e goza e goza (O!), então vira de lado, arranca a calça jeans dele, agarra o pau e o coloca dentro dela (que é o seu lugar).
Ben acaricia as costas dela. Desliza os dedos lentamente pela coluna, para cima e para baixo, ao longo da curva da bunda, pela parte de trás das coxas, panturrilhas, tornozelos, pés, e volta a subir.
Refinado.
O. diz:
— Eu quero os dois. Meus dois garotos.
Ela estica a mão às costas para sentir o pau quente e macio dele. Ben é pinheiro, não — carvalho não —, sândalo, doce e perfumado sândalo sagrado, e ela o coloca onde o quer, o aço frio-quente de Chon a bombeia, a enche, mas não por completo, então ela sente Ben empurrar e há uma pequena resistência, mas então ele está lá dentro e ela tem seus dois homens dentro dela (que é o lugar deles).
Quem diria que eles eram músicos assim tão talentosos, quem diria que eram um dueto capaz desse ritmo, essa batida, essa dança? Quem diria que ela era um instrumento capaz dessas notas? Uma música lenta no começo, lenta e suave, largo e piano, depois o ritmo acelera, uma força vem enquanto a outra recua, para trás e para a frente, uma batida incansável. As mãos de Ben em seus seios, as de Chon em sua cintura, ela toca o rosto de Chon, os cabelos de Ben. Seus dois homens, metendo nela, brincando com ela, e ela então se ouve gritar, sem escapatória para o prazer, sem intervalo, sem pausas de colcheia, sem descanso, sem santuário, uma membrana fina os separando, ela pinga, incha, agarra, aperta, jorra, esguicha, grita uma longa nota enquanto eles gozam juntos.
OOOOOOOOOOOOO


83

Elena não consegue dormir.
Pensando na garota.


84

De Chon sobre a diferença entre publicidade e pornografia:
A publicidade dá nomes bonitos a coisas feias.
A pornografia dá nomes feios a coisas bonitas.


85

Deveria ser constrangedor (O que fizemos ontem à noite?!) de manhã, mas não é.
É mole.
Tranquilo e feliz.
Chon levanta primeiro. Vai para o deque e faz suas flexões. Ben ainda quentesonolento na cama. Levanta alguns minutos depois, ouve a água do chuveiro e O. cantando alguma música do rádio.
Eles se reúnem à mesa do café.
Grapefruit, manga fatiada, café.
O. sorrindo feliz.
Os garotos quietos até que Ben olha para Chon do outro lado da mesa, aproxima o polegar a um milímetro do indicador e diz:
— Estamos a essa distância de sermos gays.
Eles riem durante meia hora.
Paus coletivos.


86

No rádio, um locutor acelerado não para de falar sobre o novo presidente ser um socialista enquanto outro macaco amestrado o “defende”.
Uma briga tão real e coreografada quanto luta livre. O liberal num canto, o conservador no outro — escolha seu vilão, escolha seu herói.
Ben gosta do novo presidente, porque o cara fumou maconha, provou crack, escreveu sobre isso e se deu bem.
Ninguém falou porra nenhuma.
Nem nas primárias, nem na campanha, nada.
E sabe por quê?
Porque ele era preto.
E é impossível não gostar disso.
Sem desrespeito ao Dr. King, pensa Chon, mas o cara mais leve no dia da posse seria Lenny Bruce.
Rupa ficou, tipo, chocada quando Obama foi eleito.
Tipo, depois vai ser o quê, um mexicano?
Pelo menos o gramado da Casa Branca ficaria bem-tratado, consolou-a O.


87

— Eu espero que ele seja mesmo socialista — diz Ben. — O socialismo funciona.
Certamente funcionou para Ben e Chonny.
Chon não acredita em socialismo ou comunismo, ou capitalismo.
O único “ismo” no qual acredita é
o abismo.
O., o repositório sagrado de sua fé, ri.
— E quanto a hedonismo? — pergunta Ben, apenas se divertindo com a brincadeira, pois Chon é uma das pessoas menos hedonistas que ele conhece. Chon sem dúvida gosta do seu prazer, mas também é um autotorturador diário disciplinado que corre quilômetros de praia, nada quilômetros de oceano, faz mil flexões e abdominais e enfia o punho nu em um poste de madeira até sangrar (o punho, não o poste).
— Não, hedonismo não — responde Chon. — No meu mundo só existe o cara faz ou não faz ismo, porque na hora de resolver as coisas, ou o cara faz ou não faz.
O. concorda.
Feliz por ter dois do tipo o-cara-faz.
— Saquei — diz Ben. — Niilismo.
— Niilismo — repete Chon. — Agora talvez você esteja chegando perto.
Certo, isso é muito divertido, pensa O.


88

Então Ben diz:
— Acho que devíamos fazer uma viagenzinha.
Ele e Chon parecem conspirar. Para dois vendedores de maconha, eles são impressionantemente transparentes, pensa O. Ela devia obrigá-los a ensiná-la a jogar pôquer com eles, tirar tudo o que têm.
— Nós? — pergunta O. Tipo, quem é o nós em “nós”? Nós dois — e nesse caso quais nós — ou nós três (reis do Oriente)?
— Nós três — esclarece Ben. — Nova vida, novo começo.
— Vamos para a Bolívia? — pergunta O.
— Eu estava pensando na Indonésia.
Ele conhece aquela linda aldeiazinha no oceano. As pessoas são bonitas e simpáticas. Ben criou uma clínica, uma escola e uma unidade de tratamento de água nessa aldeia. Levou cirurgiões plásticos para curar crianças. Os homens da aldeia — homenzinhos magros de saiotes — carregam compridas lâminas curvas e amam Ben.
— Indonésia? — pergunta ela.
— Indonésia — responde Ben.
— Vou ter que fazer mais umas compras.
— Compre coisas frescas.
— Eu sempre compro coisas frescas.
— Não, estou falando de coisas frescas. Roupa para clima quente e úmido — diz Ben. — E seu passaporte está na validade?
— Acho que sim.
Ela acha que sim porque Rupa guarda seu passaporte em uma gaveta da escrivaninha para que O. não perca a porra do documento.
Ou vá a algum lugar.
— Pegue seu passaporte, compre algumas roupas frescas e encontre a gente aqui às cinco.
— Tá legal.


89

Quando O. pergunta a Rupa como estão as coisas com Eleanor, Rupa olha para ela de um jeito estranho e confuso.
— Eleanor? — insiste O. — Sua orientadora?
— Jesus me orienta agora.
Opa.
No fim das contas, Rupa entrou para uma megaigreja em Lake Forest. Sendo Rupa quem ela é, claro que se trata da maior igreja do país.
— Hã… você sabe alguma coisa da vida de Jesus, mãe? — pergunta O. — Leu uma biografia ou algo assim?
— Sim, querida, a Bíblia.
— Você chegou até o fim? Porque…
— Eu aceitei Cristo como meu salvador pessoal.
— … a história não acabou de uma forma muito boa para o sujeito. Sabe, a crucificação e tudo mais.
Três Coisas que Farei Hoje para Ser Pregado a uma Cruz:

1 – Irritar os cambistas
2 – Irritar os romanos
3 – Dizer a meu pai que eu não quero
(O jovem Jesus pendurado em uma cruz, aprendendo uma lição sobre confiança.
“Sobe lá, vai. Eu seguro você.”)
— Você rezaria comigo, Ophelia? — pergunta Rupa.
— Ah, não. Mas obrigada.
— Eu rezarei por você.
— Onde está meu passaporte?
Isso dispara o sistema de alarme de Rupa.
— Por quê?
— Eu quero ficar com ele.
— Vai a algum lugar?
— Estou pensando na França.
— O que há na França?
— Sei lá, coisas francesas. Os franceses.
— É um homem francês, Ophelia?
Sua pele está tão esticada sobre os ossos que você poderia usá-la como tambor. O. fica tentada a dizer que na verdade ela foi comida por dois belos caras totalmente americanos ontem à noite, apenas para ver o rosto dela se transformar de vez em um quebra-cabeça, mas não fala nada. Ela quer dizer que está indo para a Indonésia com esses dois homens e talvez tente construir alguma espécie de vida, e quer dizer adeus, mas também não fala nada.
— O passaporte é meu — ela se ouve choramingar.
— Primeira gaveta da esquerda na escrivaninha, no meu escritório — diz Rupa. — Mas precisamos conversar sobre isso.
É, temos que conversar sobre muita coisa, mãe, pensa O. Mas isso não vai acontecer. Ela entra no escritório de Rupa, vasculha a gaveta da escrivaninha, acha o passaporte e sai pela porta dos fundos.
Até mais ver.


90

Ben e Chon estão ocupados.
Muito a fazer, encerrando as atividades.
Primeiro ficam ao telefone, mensagens de texto, e-mail para todos os varejistas, mandando tirarem uma folga, sumirem do radar por um tempo. Muitos resmungos, pressão e perguntas, mas Ben fica firme.
Os negócios estão suspensos.
Só avisando.
Depois ele e Chon vão de carro até o Café Heidelberg, no cruzamento com a Brooks Street, tomar um café e comer um doce com o cara do dinheiro. Passam por três Starbucks até chegar lá, mas Ben não entra em nenhuma delas. Ele só toma café de “comércio justo”. Chon tem um conceito diferente sobre “comércio justo”. Ele dá dinheiro, eles dão café, isso é comércio justo. Mas ele não se importa, o Heidelberg serve.
Ele diz para Ben dirigir, embora Ben seja uma merda no volante. Mas Chon quer ficar com as mãos livres para a Glock em seu colo, a escopeta no chão e a faca Ka-Bar na cintura, apenas para o caso de eles se depararem com um cervo que precise ser abatido ou caso as coisas fiquem íntimas e pessoais.
Ben acha o arsenal excessivo.
— É uma negociação empresarial — diz ele.
— Você viu o vídeo — retruca Chon.
— Aquilo foi no México — diz Ben. — Aqui é Laguna Beach. Os policiais usam short e andam de bicicleta.
— Civilizado demais por aqui?
— Mais ou menos isso.
— Aham. Então por que estamos indo para a Indonésia?
— Porque não tem motivo para não tomarmos cuidado.
— Exatamente.
Eles acham uma vaga na Brooks, e Ben coloca moedas de 25 no parquímetro. Por alguma razão, Ben sempre tem moedas de 25. Chon nunca tem moedas de 25.
Spin Dry já está a uma mesa ao ar livre.
Spin D. antigamente era um banqueiro de investimentos em um banco bem-estabelecido de Newport Beach. Então ele descobriu o produto de Ben, e que poderia ganhar mais dinheiro lavando o lucro de Ben. O banco não ficou triste por ele sair.
Agora Spin passa as primeiras horas da manhã monitorando os mercados financeiros na Ásia e no Pacífico, e o restante do tempo andando de bicicleta, indo à academia e comendo Esposas Perfeitas de Orange County que recebem as Mercedes e as joias dos maridinhos e os docinhos de Spin.
Spin é um homem feliz.
Ele veio de bicicleta e está vestindo uma daquelas roupas coladas italianas com capacete combinando.
Chon acha que ele parece um idiota.
— Coé? — diz Spin, pois ele acha que falar como um surfista que levou muita pranchada na cabeça vai fazê-lo parecer mais jovem que os seus 43 anos.
— Nada muito legal — diz Ben. — Preciso sumir do mapa por um tempo. 
Spin limpa a espuma do cappuccino de seu lábio superior.
— Tranks.
— É, na verdade não — diz Ben. — Mas é o que vamos fazer. Preciso que crie uma nova linha para mim, bloqueio duplo, liquide 500 mil paus, e quero todo o resto lavado de novo. Um ciclo todo novo, faça sumir em algum lugar por um tempo.
— Sem problema.
Sem problema — sempre que Chon ouve “sem problema” ele vê problemas.
— Quero sacar a grana limpa em Jacarta — Ben diz a Spin. — Metade em dólar, metade na moeda local.
— Muita alface para ficar carregando por aí, chefe.
— Tudo bem — diz Ben. — E você também pode planejar suas finanças pessoais: estamos saindo da velha pista secreta.
— Amigo… — diz Spin, chocado.
Um mundo sem a Ben e Chonny’s?
— Mandamos bem — diz Chon. — Você ganhou muito dinheiro.
Muito é muito.
Mas nunca suficiente.

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