Thursday, 11 July 2013

Selvagens - 71° ao 80° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




71

É o caos.
Onde costumava haver três cartéis — Baja, Sonora e Golfo —, agora há pelo menos sete, todos lutando por terreno.
E o governo mexicano começou uma guerra contra todos eles.
Pior ainda, ela enfrenta uma rebelião em seu próprio Cartel de Baja. Uma facção permaneceu leal a ela e ao velho nome da família, mas outra responde a El Azul, um soldado que trabalhou para seus irmãos mas que agora resolveu ser patrón.
Isso evoluiu rapidamente para guerra aberta. Hoje Baja tem em média cinco assassinatos por dia. Corpos ficam jogados nas ruas ou, como prefere El Azul, são enfiados vivos em barris de ácido. Só no mês passado, Elena perdeu uma dúzia de soldados.
Claro, ela retaliou à altura.
E foi esperta — se aliando aos Zetas, antes uma unidade de elite da polícia antinarcóticos que entrou no mercado por conta própria como assassinos de aluguel.
Foram os Zetas que iniciaram as decapitações.
Matar pessoas certamente gera medo, mas a decapitação parece inspirar uma espécie de terror primal. Há algo na ideia de ter a cabeça arrancada que realmente afeta as pessoas. Eles recentemente tiveram a ideia de procurar o pessoal de TI e transformar isso num viral — a velha técnica de liderança encontra o marketing moderno —, e foi uma ferramenta eficaz.
Mas os Zetas são caros — dinheiro por cabeça e sua própria região de drogas como pagamento —, então Elena tem que obter mais território apenas para manter sua posição.
E El Azul também tem seus aliados.
O Cartel de Sinaloa, talvez o mais poderoso do país hoje, fornecendo dinheiro, soldados e influência política à rebelião de Azul. Pressionando ainda mais Elena a conseguir mais território, ganhar mais dinheiro para contratar mais homens, comprar mais armas, pagar por mais proteção política. Funcionários do governo precisam ser pagos; polícia e exército, subornados… dinheiro, dinheiro, sempre mais dinheiro…
portanto, ela precisa expandir.
Mas o único espaço livre é ao norte.
El Norte.
Ainda bem que ela teve a visão de mandar Lado para lá, há quanto tempo, oito anos? Para discretamente preparar o terreno, recrutar soldados, se infiltrar. Assim, quando ela decidiu que era hora de o Cartel de Baja assumir o tráfico de drogas na Califórnia, Lado tinha se estabelecido e estava pronto.
Azul, claro, logo imitou Elena — era a jogada óbvia —, mas até o momento Lado o supera em pessoal, armas e preparação lá naquela área de cima.
Foi Lado quem decapitou os sete homens.
Lado é quem vai supervisionar o novo mercado de maconha.
E agora aqueles dois yanquis querem ficar de joguinho?
Ela não pode aturar a idiotice deles. Ela está em guerra, precisa da renda. É uma questão de vida ou morte para ela.
Não pense que eles não matarão uma mulher. Já fizeram isso — ela viu as fotos, as mulheres com uma fita tapando-lhes a boca, as mãos presas às costas, sempre nuas, geralmente estupradas antes.
Os homens ensinam a você como tratá-los.


72

— Vai se foder? — pergunta ela. — Ele disse isso? Com essas palavras? Chinga te?
Ela conversa com Alex e Jaime pelo telefone.
— Sinto dizer que sim — diz Alex, com relutância.
— “Vai se foder” acaba significando “Vem me foder”.
Alex não vai chegar nem perto disso. Ele tem uma vida bastante dulce na Califórnia e não quer se prejudicar por causa de uma guerra do tráfico. Por Alex, eles podiam ficar com essa merda lá no México. Portanto, ele busca a paz.
— Eles concordaram em sair do mercado imediatamente, totalmente.
Elena La Reina não aceita.
— Não fizemos a eles uma oferta e ficamos esperando uma contra-oferta. Fizemos uma exigência, e esperávamos obediência. Se permitirmos que eles pensem que podem negociar com a gente, mais cedo ou mais tarde isso vai causar problemas.
— Mas, se eles estão dispostos a abandonar o terreno…
— Isso é um mau exemplo — continua Elena. — Se deixarmos esses dois negociarem com a gente, falar com a gente assim, outras entidades vão se achar no direito de fazer o mesmo.
E ela está preocupada com os dois americanos — um, dizem a ela, é um homem de negócios inteligente, sofisticado e razoável, que não tem estômago para um banho de sangue. O outro é um bárbaro inculto de boca suja que parece adorar violência.
Em resumo, um selvagem.


73

Claro, quase todos os americanos são.
Selvagens.
E isso é o que a maioria dos americanos não compreende: que a maioria dos mexicanos de classe média e alta considera os americanos rústicos incivilizados, nada sofisticados, incultos e desordeiros que apenas tiveram sorte nos anos 1840 e se valeram disso para roubar metade do México.
O México é basicamente a Europa depositada sobre cultura asteca depositada sobre cultura indígena, mas os mexicanos aristocráticos se veem como europeus e veem os americanos como…
Bem, americanos.
E os yanquis podem fazer quantas piadas quiserem sobre jardineiros e camponeses mexicanos e imigrantes ilegais, mas o que eles não entendem é que os mexicanos veem essas pessoas como índios, e também as desprezam.
É o segredinho sujo do México: quanto mais escura sua pele, mais inferior seu status. O que meio que nos lembra… nos lembra…
Ahnn…
De qualquer forma, mexicanos de pele mais clara ficam de nariz em pé para mexicanos de pele mais escura, mas não tanto quanto para os americanos.
(Americanos negros? Esqueça.)
É, certo, então Elena acha que esse “Chon” é um animale, mas um animale perigoso. O “Ben” tem seu valor, mas se recusa a usá-lo. De qualquer modo, ela não pode aceitar a desobediência deles.
— Então quer que os dois sejam assassinados? — pergunta Alex.
Ela pensa nisso e sua resposta é
Ainda não.


74

Ainda não.
Porque um Ben Morto não poderia cultivar a excelente erva que gera tanto lucro potencial. E um Ben Vivo nunca faria isso caso matassem seu amigo Chon. E esse Chon, se passado é prólogo, também tem sua utilidade.
Portanto, seria um desperdício matá-los.
Além do mais, é melhor que esses dois sejam vistos pelo resto do mundo como testemunhos de obediência.
Então…

INT. ESCRITÓRIO DE ELENA — DIA

ELENA
O que precisamos fazer é obrigá-lo a trabalhar para nós segundo nossos termos.

ALEX
Como vamos fazer isso?

ELENA
(sorrindo de forma enigmática)
Vou fazer a ele uma oferta irrecusável.


75

É uma pena que Elena seja alérgica a pelo de gato, pois seria ótimo ter um felino no colo naquele momento, mas de qualquer forma ela nunca deixaria um vestido caro estragar com todo aquele pelo de gato.
Mas foi basicamente o que ela disse.
O que leva a uma pergunta
Não é mesmo?


76

Elena sabe que o amor fortalece
E o amor enfraquece.
O amor o deixa vulnerável.
Então, se você tem inimigos,
Tire deles aquilo que eles amam.


77

O.
está incrível em seu pretinho básico, que apesar de básico deve ter custado a hipoteca de um apartamento. Meias finas pretas e sapatos estilo-me-fode. O cabelo cortado e tingido, de volta a seu louro “natural”, brilhante e escorrido.
— Uau.
Diz Ben.
Chon assente com a cabeça.
Ela sorri diante da aprovação deles, desfruta, se embala ao brilho da admiração dos dois.
— Você caprichou — diz Ben.
— Sim — responde O. — Vou sair com meus dois homens.


78

Eles vão de limusine até o Salt Creek Grille.
Difícil conseguir uma mesa ali em cima da hora a não ser que você seja Ben, o Rei da Hidro, mas aí você poderia conseguir uma mesa até na Última Ceia se quisesse. É, eles mandariam Jesus comer logo a sobremesa para vagar o assento para Ben (“O cavalheiro lá nos fundos já cuidou da conta, senhor. Em dinheiro. Volte sempre”), por isso uma mesa para três é no problem.
É bonito ali sob as fileiras de luzes da Pacific Coast Highway.
Impossível não amar.
Bela e suave noite de primavera, o ar cheira a flores, e O. está linda, sorridente e feliz. A comida é ótima, embora Ben tenha pedido apenas a sopa missô, que ele tempera com tabletes de Lomotil, a rolha química, como qualquer visitante ao Terceiro Mundo sabe.
Não O. — ela queimou um pouco da maconha de Ben como aperitivo e está comendo como uma égua prenha. Começa com polvo, depois ataca a sopa francesa de cebola, o atum grelhado com crosta de pimenta crocante e aïoli, o purê de batatas com alho, os feijões-verdes Gujerati, e depois o crème brûlée.
O vinho corre solto.
Sem fatura, sem conta, sem recibo, mas eles deixam uma generosa gorjeta simbólica e vão pegar a limusine; dão uns tapas e seguem para os exclusivos bares dos hotéis — St. Moritz, Montage, Ritz-Carlton, Surf & Sand. Apple martíni, e O. atraindo olhares por toda parte, ela está muito sensual com seus dois homens.
— É como naquele filme — diz ela, de pé no pátio externo do Ritz olhando para a luz da lua batendo nas cristas das ondas.
— Que filme? — pergunta Ben.
— Aquele filme antigo — diz O. —, com Paul Newman quando ele era vivo e Robert Redford quando jovem. Um dia eu estava doente em casa e não fui à aula, e passou na TV a cabo.
— Butch Cassidy e Sundance Kid — diz Chon. — Se eu estou acompanhando a viagem de O., você é Butch e eu sou Sundance.
— Qual deles era Butch? — pergunta Ben.
— Newman — responde Chon. — O que tem a ver, por causa desse seu lance de filantropo. Eu sou o pistoleiro sexy.
— Eu sou a garota — diz O. alegremente.
— Eles não morrem no final? — pergunta Ben.
— A garota não — diz O.


79

Lado se cansa
De seguir esses gueros mimados para cima e para baixo pela Golden Coast.
Eles na limusine.
Mas é bom para dar uma olhada neles. Um dos caras tem jeito de matador, e eles vão precisar tomar cuidado com ele. Foi o que disse “Vai se foder” para Elena (e já sabemos como Lado reage a esse tipo de coisa).
O outro parece gentil e tranquilo.
Sem problema.
A puta, la guerita?
O que Lado não consegue descobrir é: ela é a mulher de qual dos dois? Qual pau ela chupa? Os dois a tratam como sua mulher — um braço sobre o ombro, um selinho na boca, mas eles não parecem prestes a dar cabeçadas um no outro.
Será que ela dá para os dois?
E eles sabem?
E não se importam?
Malditos selvagens.


80

Depois da ronda pelos bares eles dão uma caminhada pela calçada de tábuas em Main Beach.
Laguna.
Um arco suave ancorado pela hospedaria em Laguna ao norte e o velho hotel Laguna ao sul. Altas e graciosas palmeiras, flores tropicais, a lua cintilando nas pequenas ondas. As quadras de basquete, as quadras de vôlei, o parque.
A velha torre do salva-vidas.
Um dos lugares preferidos de Ben na Terra e provavelmente o motivo pelo qual ele sempre acaba voltando para casa.
Então eles caminham, um tanto embriagados, e conversam sobre a ideia de se aposentar do negócio da produção de maconha. O que ele e Chon vão fazer, quem vão ser. O. está excitada com a ideia das fontes de energia, imaginando se talvez não haverá um lugar para ela, e a resposta é mas é claro. Esse ramo é diferente do anterior, sem riscos legais ou outros, tudo às claras, transparente a céu aberto.
Lave o dinheiro da droga e ele sai reluzentemente limpo como energia.
Eles ficam felizes com isso.
Até mesmo Chon está feliz com isso, agora que pensou um pouco e bebeu muito.
Pode ser legal deixar o nível de adrenalina baixar um pouco. Vai levar um tempo para se acostumar, mas pode ser algo bom. Trocar a parafernália de armas pela parafernália de turbinas, lâminas e painéis. Disparar eletricidade como rajadas de balas.
Acender tudo.
Ben está feliz.
Caminhando na praia que ele ama com as pessoas que ele ama.
O arco do litoral o envolve como os braços deles.

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