Sunday, 2 June 2013

Uma Princesa de Marte - 27° Capítulo

Estamos chegando ao final desse livro que eu sinceramente amei. Esse é o penúltimo capítulo, espero que todos estejam gostando e ansiosos pelo último capítulo amanhã... 

Capítulo 27 - DA ALEGRIA À MORTE


Por dez dias as hordas de Thark e seus aliados selvagens se fartaram e se entretiveram e, então, carregados de caros presentes e escoltados por dez mil soldados de Helium comandados por Mors Kajak, iniciaram sua jornada de retorno a suas terras. O jed da Helium inferior, acompanhado por uma pequena comitiva de nobres, os acompanhou por todo o caminho até Thark para selar com mais propriedade os laços de paz e amizade. Sola também acompanhou Tars Tarkas, seu pai, que a reconheceu como filha perante todos os líderes. Três semanas depois, Mors Kajak e seus oficiais, acompanhados por Tars Tarkas e Sola, retornaram em uma belonave que havia sido despachada à Thark para trazê-los a tempo da cerimônia que fez de Dejah Thoris ejohn Carter um só.
Por nove anos eu servi nos conselhos e lutei nos exércitos de Helium como príncipe da casa de Tardos Mors. O povo parecia nunca se cansar de me cobrir de honrarias, e nenhum dia se passou sem que uma nova prova de amor fosse entregue à minha princesa, a incomparável Dejah Thoris. Em uma incubadora de ouro sobre o telhado de nosso palácio repousa um ovo branco como a neve. Por quase cinco anos dez soldados da guarda do jeddak cuidaram de sua vigília, e nenhum dia se passou enquanto estive na cidade sem que Dejah Thoris e eu ficássemos de mãos dadas diante de nosso pequeno santuário planejando o futuro, quando a delicada casca se rompesse. Vivida em minha memória permanece essa imagem da última noite em que nos sentamos, falando em voz baixa sobre o estranho romance que entrelaçou nossas vidas e sobre essa maravilha que estava chegando para ampliar nossa felicidade e cumprir nossas esperanças. Ao longe, vimos a luz branca brilhante de uma aeronave se aproximando, mas não dispensamos atenção especial a uma visão tão comum. Como um relâmpago, ela voou em direção a Helium até que sua própria velocidade a denunciou. Piscando os sinais que a identificavam como portadora de uma mensagem ao jeddak, ela circundou impacientemente à espera da morosa nave de patrulha que deveria escoltá-la até as docas do palácio.
Dez minutos depois que ela pousou no palácio, uma mensagem me convocava para a câmara do conselho, que já estava se preenchendo com os membros daquele grupo. Tardos Mors estava na plataforma elevada do trono, andando para a frente e para trás com um rosto marcado pela tensão. Quando todos estavam em seus assentos, ele se voltou para nós. Hoje de manhã - ele disse -, chegou a notícia a vários governos de Barsoom de que a fábrica de atmosfera não faz contato via rádio há dois dias, e tampouco as quase incansáveis chamadas dirigidas a ela por várias capitais lograram um sinal de resposta. Os embaixadores das outras nações pediram que tomássemos a responsabilidade sobre o assunto e enviássemos sem demora o zelador-assistente da fábrica. Durante o dia todo, mil cruzadores procuraram por ele até que neste momento um deles retornou trazendo seu cadáver, encontrado nos fossos sob sua casa, terrivelmente mutilado por algum assassino. Não preciso dizer a vocês o que isso significa para Barsoom. Levaria meses para penetrar suas poderosas muralhas, embora, de fato, o trabalho já tenha começado. Haveria pouco a temer se os motores da estação de bombeamento estivessem funcionando normalmente, como o fez por milhares de anos até agora. Mas tememos que o pior tenha acontecido. Os instrumentos mostram uma queda rápida da pressão do ar em todas as partes de Barsoom. O motor parou. Meus cavalheiros - ele concluiu -, temos no máximo três dias de vida.
Um absoluto silêncio se fez por vários minutos até que um jovem nobre se levantou e, com sua espada fora da bainha, segurou-a alto sobre sua cabeça e se dirigiu a Tardos Mors. Os homens de Helium se orgulham de sempre terem mostrado a Barsoom como uma nação de homens vermelhos deve viver. Agora é nossa oportunidade de mostrar como se deve morrer. Vamos continuar nossas tarefas como se outros mil anos de atividade produtiva nos esperassem. A câmara rugiu em aplausos e não havia nada melhor a ser feito do que amainar os temores do povo dandolhes o exemplo. E assim seguimos nossos caminhos com sorrisos em nossos rostos e a tristeza aguilhoando nossos corações. Quando retornei ao meu palácio, descobri que o rumor já havia chegado até Dejah Thoris e contei a ela tudo o que havia ouvido.
Nós fomos felizes, John Carter - ela disse -, e agradeço qualquer destino que se abata sobre nós desde que nos permita morrer juntos.
Os próximos dois dias não trouxeram nenhuma mudança significativa no suprimento de ar, mas na manhã do terceiro dia tornou-se difícil respirar em locais mais altos, como os telhados dos prédios. Todas as atividades cessaram. A maior parte das pessoas encarou bravamente sua morte anunciada. Aqui e ali, contudo, homens e mulheres se renderam a um pesar silencioso. Perto da metade do dia, muitos dos mais fracos começaram a sucumbir e dentro de uma hora o povo de Barsoom caía aos milhares na inconsciência que precede a morte por asfixia. Dejah Thoris e eu, junto aos membros da família real, havíamos nos reunido em um jardim rebaixado em um dos pátios interiores do palácio. Conversamos em voz baixa - isso nos poucos momentos em que conversamos - enquanto o terror da amarga sombra da morte rastejava sobre nós. Até mesmo Woola pareceu sentir o peso da calamidade iminente, porque se aconchegou perto de Dejah Thoris e de mim, chorando copiosamente. A pequena incubadora foi trazida do telhado de nosso palácio a pedido de Dejah Thoris, e agora ela fitava detidamente a pequenina vida desconhecida que ela nunca conheceria.
Conforme a dificuldade de respirar foi ficando mais perceptível, Tardos Mors se levantou e disse: - Vamos nos dar o último adeus. Os dias de grandeza de Barsoom se acabaram. O sol da próxima manhã irá iluminar um mundo morto que, por toda a eternidade, revolverá pelos céus despido até mesmo de nossas lembranças. Este é o fim. Ele se inclinou e beijou as mulheres de sua família, e pousou sua pesada mão sobre os ombros dos homens. Ao me voltar tristemente, meus olhos encontraram Dejah Thoris. Sua cabeça pendia sobre seu peito e parecia estar totalmente sem vida. Com um grito, saltei até ela e a ergui em meus braços. Seus olhos se abriram e olharam para mim:  Beije-me, John Carter - ela murmurou. - Eu te amo! Eu te amo! É cruel termos de nos separar, agora que começávamos uma vida de amor e felicidade.
Ao pressionar seus preciosos lábios contra os meus, o velho sentimento de poder e autoridade invencível ardeu dentro de mim. O sangue lutador da Virgínia reviveu em minhas veias.
Não será assim, minha princesa - eu gritei. - Há, deve haver, um outro meio e John Carter, que lutou em um mundo estrangeiro por seu amor, irá encontrá-lo.
E após minhas palavras uma série de nove sons há muito esquecida rastejou para o limiar de minha consciência. Como um raio na escuridão, seu significado completo alvoreceu sobre mim... a chave para as três grandes portas da fábrica de atmosfera! Virando repentinamente para Tardos Mors enquanto ainda segurava meu amor agonizante contra meu peito, gritei: Uma nave, jeddak! Rápido! Ordene que sua máquina voadora mais veloz esteja no topo do palácio. Ainda posso salvar Barsoom. Ele não perdeu tempo questionando, e em um instante um guarda corria para a doca mais próxima. Mesmo com o ar rarefeito e quase inexistente no terraço, conseguiram lançar a mais rápida máquina individual de patrulha aérea que a habilidade de Barsoom já havia construído.
Beijando Dejah Thoris uma dezena de vezes e ordenando Woola, que caso contrário teria me seguido, a ficar e montar guarda, parti com minha velha agilidade e força para os altos muros do palácio. No próximo momento, eu estava a caminho do objeto das esperanças de toda a Barsoom. Eu precisava voar baixo a fim de ter ar suficiente para respirar. Assim, tomei uma rota direta ao longo do fundo de um velho mar para então me elevar somente alguns metros acima do solo. Viajei a uma velocidade alucinante porque minha missão era uma corrida contra o tempo e contra a morte. O rosto de Dejah Thoris me acompanhava. Ao me virar para um último olhar enquanto deixava o jardim do palácio, pude vê-la enfraquecida e caída ao lado da pequena incubadora. Eu sabia bem que ela havia mergulhado no último estágio do coma que a levaria à morte, caso o suprimento de ar não fosse renovado. Assim, despindome de qualquer precaução, livrei-me de todos os apetrechos exceto o próprio motor e a bússola, até mesmo de meus ornamentos. Deitei-me de bruços no convés, uma mão no volante e a outra forçando o acelerador até o limite máximo, e rasguei o ar rarefeito de um planeta moribundo com a rapidez de um meteoro. 
Uma hora antes do anoitecer, as grandes muralhas da fábrica de atmosfera agigantaram-se repentinamente à minha frente, e com um baque nauseante, mergulhei para o chão diante da pequena porta que guardava a fagulha de vida dos habitantes de todo um planeta. Ao lado da porta, uma equipe de homens havia trabalhado na perfuração da parede, mas eles mal haviam arranhado a superfície de sílex. Agora, a maioria deles repousava em seu último sono, do qual nem mesmo o ar poderia despertá-los. As condições pareciam muito piores ali do que em Helium, e eu respirava com extrema dificuldade. Haviam alguns poucos homens conscientes e nenhum disse palavra. 
Seu eu puder abrir essas portas, há algum homem capaz de ligar os motores? - perguntei.
Eu posso - um deles respondeu se você agir rápido.
Tenho apenas mais alguns momentos de vida. Mas é inútil, porque ambos os zeladores estão mortos e ninguém mais sobre Barsoom conhece o segredo dessas malditas trancas. Por três dias homens ensandecidos pelo medo se arremessaram contra esse portal em tentativas vãs de resolver o mistério. Eu não tinha tempo para conversa. Estava ficando muito fraco e já tinha dificuldade em controlar minha mente. Mas, em um esforço final, dobrei-me fraco sobre meus joelhos e lancei as nove ondas mentais contra aquela coisa maldita à minha frente. O marciano havia rastejado para o meu lado e com seus olhos cheios de terror fixados em um único painel diante de nós, esperava a morte em silêncio. Vagarosamente a gigantesca porta se afastou perante nós. Tentei me levantar e continuar, mas estava fraco demais:
Vá em frente - gritei ao meu companheiro e se você chegar à sala de bombeamento, abra todas as bombas. É a única chance que Barsoom tem de sobreviver a este dia! 
De onde eu jazia, abri a segunda porta e depois a terceira, e ao ver a esperança de Barsoom rastejando debilmente sobre suas mãos e joelhos através do último portal, desabei inconsciente sobre o solo.

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