domingo, 2 de junho de 2013

Uma Princesa de Marte - 26° Capítulo

Capítulo 26 - DA CARNIFICINA À ALEGRIA


Algum tempo depois, Tars Tarkas e Kantos Kan retornaram para anunciar que Zodanga estava completamente subjugada. Suas forças haviam sido totalmente destruídas ou capturadas, não restando mais nenhuma resistência posterior. Diversas belonaves escaparam, mas havia milhares de navios de guerra e mercantes sob a guarda dos guerreiros thark. As hordas menores haviam começado a pilhagem e, conseqüentemente, as disputas entre eles. Ficou decidido que reuniríamos quantos guerreiros pudéssemos, tripulássemos quantos navios fosse possível com prisioneiros zodanganos e partíssemos sem demora para Helium.
Cinco horas depois, navegávamos a partir dos telhados das docas com uma armada de duzentos e cinqüenta navios de guerra, levando quase cem mil guerreiros e seguidos por uma frota de cargueiros para nossos thoats. Deixamos para trás uma cidade em retalhos, dominada por cinqüenta mil guerreiros verdes, ferozes e brutais, das hordas inferiores. Eles estavam pilhando, assassinando e lutando entre si. Em centenas de lugares eles haviam feito uso de suas tochas, e colunas de fumaça densa se erguiam sobre a cidade como           que para ocultar dos olhos do céu as terríveis cenas abaixo. No meio da tarde avistamos as torres vermelha e amarela de Helium. E, pouco tempo depois, uma grande armada de belonaves zodanganas se levantou dos campos em redor da cidade, avançando de encontro. As flâmulas de Helium haviam sido estendidas de proa a popa em cada uma de nossas poderosas naves, mas os zodanganos não precisavam ver esse sinal para saber que éramos inimigos, pois nossos guerreiros marcianos haviam aberto fogo sobre eles praticamente no momento em que decolaram. Com sua fabulosa mira, varreram a frota inimiga com rajada após rajada. As cidades gêmeas de Helium, percebendo que éramos amigos, enviaram centenas de embarcações em nosso auxílio, e então teve início a primeira batalha aérea de verdade que meus olhos já viram.
Os navios que carregavam nossos guerreiros verdes foram mantidos circulando as frotas em combate de Helium e Zodanga, uma vez que suas baterias eram inúteis nas mãos dos tharks que, por não possuírem armada, não tinham habilidade com o equipamento naval. Suas armas de mão, contudo, eram bastante efetivas, e o resultado final da batalha foi extremamente influenciado - se não determinado - pela sua presença. Primeiro, as duas forças circulavam à mesma altitude, disparando sua artilharia de costado a costado uns nos outros. Nesse momento, um grande buraco se abriu no casco de uma das imensas naves de guerra do lado zodangano. Com uma guinada, ela girou completamente, despejando a sua tripulação, que caiu rodopiando em espirais na direção do solo trezentos metros abaixo. Então, a uma velocidade alucinante, a nave mergulhou atrás deles, enterrando-se quase que completamente na greda do fundo do mar antigo. 
Um clamor selvagem de exultação se elevou do esquadrão heliumita e, com ferocidade redobrada, se lançaram sobre a frota zodangana. Por meio de uma bela manobra, dois dos navios de Helium ganharam uma posição acima de seus adversários e dali fizeram chover de suas baterias laterais uma torrente perfeita de bombas. Então, uma a uma, as belonaves de Helium tiveram êxito em se posicionar sobre os zodanganos e, em pouco tempo, várias de suas embarcações militares cercadas eram apenas ruínas flutuando à deriva na direção da grande torre escarlate de Helium. Muitas outras tentaram escapar, mas logo foram rodeadas por milhares de pequenas aeronaves individuais acima das quais pendia outra monstruosa nave de Helium pronta para lançar grupos de abordagem sobre seu convés. Pouco mais de uma hora depois que o esquadrão zodangano havia decolado do campo de cerco em nossa direção, a batalha estava terminada. As embarcações remanescentes dos vencidos se encaminhavam para as cidades de Helium sob o comando de suas valorosas tripulações.
Havia um lado extremamente patético na rendição dessas poderosas aeronaves, resultado de um costume atávico que demandava que a capitulação do derrotado fosse sinalizada pelo mergulho voluntário do comandante do navio vencido em direção à terra. Um após outro, os bravos indivíduos, segurando suas cores sobre suas cabeças, saltavam dos altos mastros de suas portentosas naves em direção a uma morte terrível. Até que o comandante de toda a frota não saltasse para a morte, indicando assim a rendição dos navios restantes, a luta não cessaria e o sacrifício inútil de valentes homens continuaria. Nesse momento, sinalizamos para a nau capitania das forças armadas de Helium se aproximar e, quando se colocaram a uma distância suficiente, avisei que tínhamos a princesa Dejah Thoris à bordo, e que gostaríamos de transferi-la para sua embarcação e assim ser levada imediatamente para a cidade. Quando minha proclamação chegou até eles, um grande brado se elevou dos conveses do navio líder. No momento seguinte, as cores da princesa de Helium desabrocharam de uma centena de pontos das construções superiores. Quando outros navios do esquadrão entenderam o significado da ação, se uniram ao clamor e desenrolaram as cores da princesa em plena luz brilhante do sol. A capitania desceu para perto, flutuou graciosamente até tocar nosso flanco e uma dúzia de oficiais saltou para os nossos deques. Quando seus olhares surpresos recaíram sobre centenas de guerreiros verdes, que agora saíam dos abrigos de combate, eles estancaram, mas ao verem Kantos Kan, que se adiantou para encontrá-los, continuaram e o cercaram para cumprimentá-lo.
Dejah Thoris e eu avançamos, eles não tinham olhos para outra pessoa que não sua princesa. Ela os recebeu com graça, chamando-os pelo nome, porque eram homens da mais alta estima e a serviço de seu avô, os quais ela conhecia há muito tempo.
- Pousem suas mãos sobre os ombros de John Carter - ela disse a eles, voltando-se para mim -, o homem a quem Helium deve sua princesa assim como sua vitória de hoje. Trataram-me com muita cortesia e me dispensaram muitos cumprimentos e gentilezas, embora o que parecia impressioná-los mais fosse o fato de eu ter conseguido a ajuda dos ferozes tharks em minha campanha pela liberação de Dejah Thoris e de Helium.
-Vocês devem seus agradecimentos mais a outro
homem do que a mim - eu disse e aqui está ele. Conheçam um dos maiores soldados e governantes de Barsoom, Tars Tarkas, jeddak de Thark. Com a mesma cortesia refinada que haviam dispensado a mim, estenderam suas saudações ao grande thark que, para minha surpresa, não ficou muito atrás comparando-se o altruísmo e a escolha das palavras. Apesar de não serem uma raça de muitas palavras, os tharks são extremamente formais e seus modos lhes emprestam maneiras imensamente dignas e nobres. Dejah Thoris subiu a bordo da capitania e ficou irritada quando eu disse que não a seguiria, porque, como expliquei, a batalha estava apenas parcialmente vencida. Ainda tínhamos que cuidar das forças terrestres zodanganas que mantinham o cerco, e eu não poderia deixar Tars Tarkas antes que isso fosse resolvido.
O comandante das forças navais de Helium prometeu organizar seus exércitos para um ataque conjunto vindo do interior da cidade e por terra. Após isso, as embarcações se separaram e Dejah Thoris voava triunfante de volta à corte de seu avô, Tardos Mors, jeddak de Helium. Ao longe - onde permaneceram por toda a batalha -, estava nossa frota de cargueiros, levando os thoats dos guerreiros verdes. Sem pontes de desembarque, a tarefa de descarregar essas feras em campo aberto não seria fácil, mas não havia alternativa, e assim nos deslocamos para um ponto a cerca de quinze quilômetros distante da cidade e começamos o trabalho. Era preciso baixar os animais até o chão com alças, e essa missão ocupou todo o restante do dia, assim como metade da noite. Fomos atacados duas vezes por destacamentos da cavalaria zodangana, mas tivemos poucas baixas. De qualquer forma, quando a escuridão caiu, eles recuaram. Assim que o último thoat foi desembarcado, Tars Tarkas deu comando de avanço e, em três divisões, esgueiramo-nos sobre o acampamento zodangano para o norte, o sul e o leste.
Cerca de uma milha antes do acampamento principal, encontramos seus postos avançados e, como estava combinado, esse era o sinal para o ataque. Com gritos ferozes e selvagens, entremeados pelos berros desagradáveis de thoats enervados para a batalha, nos abatemos sobre os zodanganos. Não os pegamos desprevenidos, mas sim entrincheirados, prontos para nos enfrentar. Uma vez após a outra fomos repelidos até que, perto do meio-dia, comecei a temer o resultado do confronto. Somados de pólo a pólo, os soldados zodanganos eram cerca de um milhão, espalhados sobre suas faixas territoriais próximas às hidrovias, ao passo que contra eles havia menos de uma centena de milhar de guerreiros verdes. As forças a serem enviadas por Helium ainda não haviam chegado, e nenhuma notícia delas foi ouvida. Exatamente ao meio-dia ouvimos uma pesada artilharia ao longo da linha entre os zodanganos e as cidades, e sabíamos que nossos tão necessários reforços haviam chegado. Novamente Tars Tarkas ordenou o ataque, e outra vez os poderosos thoats levaram seus terríveis cavaleiros contra as linhas de defesa inimigas. Ao mesmo tempo, a linha de frente de Helium surgiu sobre a barricada oposta dos zodanganos que, no próximo momento, estavam sendo esmagados contra duas forças inexoráveis. Eles lutaram com nobreza, mas em vão.
A planície em frente à cidade tornou-se um verdadeiro matadouro antes que o último zodangano se rendesse, mas finalmente a carnificina cessou. Os prisioneiros foram encaminhados de volta a Helium e entramos pelos grandes portões como uma grande e triunfante procissão de heróis conquistadores. As largas avenidas estavam ladeadas por mulheres e crianças e, entre elas, os poucos homens cujas tarefas necessitavam que permanecessem dentro da cidade durante a batalha. Fomos saudados com um coro infinito de aplausos e banhados com ornamentos de ouro, platina, prata e pedras preciosas. A cidade estava enlouquecida de alegria. Meus brutais tharks causaram extremo entusiasmo e excitação. Nunca uma tropa armada de guerreiros verdes havia entrado pelos portões de Helium, e o fato de agora entrarem como amigos e aliados enchia os homens vermelhos de regozijo. Que meus parcos serviços prestados à Dejah Thoris já eram conhecidos pelos heliumitas, era evidente pelos altos brados chamando meu nome e pelos punhados de ornamentos que eram colocados sobre mim e meu grande thoat enquanto passávamos pela avenida em direção ao palácio, porque mesmo diante da aparência selvagem de Woola, o populacho se prensava muito próximo a mim.
Ao nos aproximarmos daquela magnífica construção, fomos recebidos por um grupo de oficiais que nos saudou calorosamente e pediu que Tars Tarkas, junto com seus jeds, os jeddaks e jeds de seus aliados bárbaros e eu, desmontássemos e os acompanhássemos para receber de Tardos Mors toda a sua gratidão por nossos serviços. No alto da grade escadaria que se elevava aos portões principais do palácio, a corte real nos esperava, e quando começamos a galgar os degraus mais baixos, um deles começou a descer ao nosso encontro. Ele era um espécime masculino quase perfeito. Alto, reto como uma flecha, soberbamente musculoso e com a postura e atitude de um verdadeiro monarca. Não foi necessário que ninguém me dissesse que aquele era Tardos Mors, jeddak de Helium.
O primeiro membro de nosso grupo a quem se dirigiu foi Tars Tarkas, e suas primeiras palavras selaram para sempre uma nova amizade entre as duas raças: Que Tardos Mors - disse ele sinceramente - conheça o maior guerreiro vivo de Barsoom é uma honra inestimável, mas que ele ponha sua mão sobre o ombro de um amigo e aliado é uma bênção ainda maior. -Jeddak de Helium - respondeu Tars Tarkas -, foi preciso que um homem de outro mundo ensinasse aos guerreiros verdes de Barsoom o significado da palavra amizade. A ele devemos o fato de que as hordas tharks agora podem ouvi- lo, apreciar e dar em troca sentimentos tão bondosamente expressados. Tardos Mors saudou cada um dos jeddaks e jeds verdes e a cada um proferiu palavras de amizade e apreço. Ao se aproximar de mim, pousou ambas as mãos sobre meus ombros: Seja bem-vindo, meu filho - ele disse que mereceu, com muita felicidade e sem nenhuma palavra em contrário, a mais preciosa jóia de toda Helium, sim, de toda a Barsoom, e por isso também merece minha estima.
Em seguida fomos apresentados a Mors Kajak, jed da Helium inferior e pai de Dejah Thoris. Ele havia acompanhado Tardos Mors e parecia ainda mais afetado pelo encontro do que seu pai. Ele tentou diversas vezes expressar sua gratidão a mim, mas, com a voz embargada pela emoção, não conseguia falar, embora sua reputação como lutador bravo e destemido fosse destacada mesmo no ambiente habitualmente militar de Barsoom. Assim como toda a Helium, ele venerava sua filha e não podia deixar de se emocionar profundamente ao imaginar de quais agruras ela havia escapado.

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