sábado, 1 de junho de 2013

Uma Princesa de Marte - 25° Capítulo

Capítulo 25 - O SAQUE A ZODANGA


Quando o grande portão onde eu estava se abriu, meus cinqüenta tharks, liderados pelo próprio Tars Tarkas, adentraram montados em seus poderosos thoats. Eu os guiei para os muros do palácio, os quais não tive problemas em transpor. Uma  vez dentro, contudo, o portão me deu um trabalho considerável, mas finalmente fui recompensado ao vê-lo se mover em suas enormes dobradiças e logo minha escolta cavalgava por sobre os jardins do jeddak de Zodanga. Ao nos aproximarmos do palácio, era possível ver a câmara de audiência brilhantemente iluminada de Than Kosis através das grandes janelas do primeiro andar. O imenso hall estava repleto de nobres e suas esposas, como se algo muito importante estivesse acontecendo. Não havia guardas por ali, devido, presumi, ao fato de as muralhas da cidade e do palácio serem consideradas inexpugnáveis. Assim, cheguei mais perto para espionar.
Em um canto da câmara, sobre tronos de ouro cravejados de diamantes, sentavam Than Kosis e sua consorte, rodeados de oficiais e dignitários do governo. Diante deles se dispunha um longo corredor formado por soldados de ambos os lados. Enquanto eu observava, a ponta de uma procissão avançou, vinda do outro lado do hall, e adentrou o corredor em direção aos pés dos tronos. À frente marchavam quatro oficiais da guarda do jeddak trazendo uma grande bandeja sobre a qual repousava, em uma almofada de seda escarlate, uma grande corrente dourada com um cadeado em cada extremidade. Logo atrás desses oficiais, outros quatro traziam uma bandeja similar que carregava os magníficos ornamentos dignos do príncipe e da princesa da casa real de Zodanga. Aos pés do trono esses dois grupos se separaram e pararam, frente a frente, cada um de um lado do corredor.
Depois disso vieram mais dignitários e os oficiais do palácio e do exército e, finalmente, duas figuras inteiramente cobertas em seda escarlate - das quais nenhuma feição era discernível. Esses dois pararam aos pés do trono, à frente de Than Kosis. Quando o resto da procissão já havia entrado e assumido seus lugares, Than Kosis se dirigiu ao casal perante ele. Eu não podia ouvir as palavras, mas naquele momento dois oficiais avançaram e removeram as vestes escarlates de uma dessas figuras, e assim vi que Kantos Kan havia falhado em sua missão, porque era Sab Than, príncipe de Zodanga, quem apareceu diante de meus olhos. Than Kosis tomou um conjunto de ornamentos de uma das bandejas e colocou um dos colares de ouro ao redor do pescoço de seu filho, fechando a trava do cadeado. Depois de algumas palavras proferidas a Sab Than, ele se voltou para a outra figura, da qual os oficiais removeram as sedas que a envolviam. Assim me foi revelada Dejah Thoris, princesa de Helium.
O objetivo da cerimônia estava claro para mim. Em alguns instantes Dejah Thoris seria unida para sempre ao príncipe de Zodanga. Era uma cerimônia impressionante e bela, presumo, mas para mim parecia a visão mais aterrorizante que jamais havia testemunhado. Enquanto os ornamentos eram ajustados sobre sua linda figura e seu colar de ouro permanecia aberto nas mãos Than Kosis, elevei minha espada longa acima de minha cabeça e, com uma pesada coronhada, estilhacei o vidro da grande janela, saltando no meio de uma assembléia surpresa. Com um pulo, eu estava nos degraus da plataforma próxima a Than Kosis, e enquanto ele estava paralisado de surpresa, desci minha espada longa sobre a corrente de ouro que teria unido Dejah Thoris a outro. No segundo seguinte tudo era confusão. Mil espadas me ameaçavam de todas as direções e Sab Than saltou sobre mim com uma adaga adornada que havia sacado de seus ornamentos nupciais. Eu poderia tê-lo matado facilmente como a uma mosca, mas o antigo costume de Barsoom impediu meu movimento e, segurando seu punho enquanto a adaga voava na direção de meu coração, lancei-a para o outro lado da sala com minha espada.
- Zodanga caiu - gritei. - Vejam!
Todos os olhares se voltaram para a direção que apontei, e ali estavam, forçando sua entrada pelas portas de acesso, Tars Tarkas e seus cinqüenta guerreiros cavalgando seus thoats. Um grito de alarme e assombro tomou a multidão, mas não houve nenhuma palavra de medo. Em um segundo os soldados e nobres de Zodanga estavam se abatendo sobre os tharks invasores. Empurrando Sab Than de cima da plataforma, puxei Dejah Thoris para o meu lado. Atrás do trono havia uma estreita passagem e Than Kosis a bloqueava, me encarando, com sua espada longa em riste. Em um momento estávamos nos enfrentando, mas não encontrei um antagonista à altura. Enquanto circundávamos a larga plataforma, vi Sab Than correndo em auxílio de seu pai, mas, ao levantar sua mão para desferir o golpe, Dejah Thoris saltou à sua frente e então minha espada encontrou o espaço para fazer de Sab Than jeddak de Zodanga.
Enquanto seu pai rolava morto sobre o chão, o novo jeddak se livrou dos braços de Dejah Thoris e novamente ficamos frente a frente. Rapidamente um grupo de quatro oficiais se uniu a ele e, com minhas costas voltadas para o trono dourado, lutei mais uma vez por Dejah Thoris. Eu estava obrigado a me defender e não atingir Sab Than, caso contrário, perderia minha última chance de conquistar a mulher que amava. Minha lâmina riscava o ar com a rapidez de um relâmpago, defendendo- me dos golpes de meus oponentes. Desarmei dois e derrubei um, quando vários outros vieram em auxílio de seu novo regente, buscando vingança pela morte do anterior. Enquanto avançavam, gritavam: "A mulher! A mulher! Matem a mulher! Ela planejou tudo! Matem! Matem a mulher!" Chamando Dejah Thoris para ficar atrás de mim, abri caminho na direção de uma pequena passagem por trás do trono, mas os oficiais entenderam minhas intenções e três deles saltaram às minhas costas, impedindo minhas chances de chegar a uma posição na qual eu poderia defender Dejah Thoris contra qualquer exército de espadachins. Os tharks estavam completamente ocupados no centro da sala, e comecei a entender que nada menos que um milagre poderia salvar Dejah Thoris ou a mim, quando vi Tars Tarkas surgindo do enxame de pigmeus que pululava sobre ele. Com uma parábola de sua poderosa espada, ele ceifou uma dúzia de corpos aos seus pés e assim abriu o caminho à sua frente até chegar sobre a plataforma, ao meu lado, distribuindo morte e destruição para todos os lados. A bravura dos zodanganos era contagiante. Nenhum tentou escapar, e quando a luta cessou
foi porque apenas os tharks haviam sobrevivido no grande hall além de Dejah Thoris e eu. Sab Than jazia morto ao lado de seu pai e os corpos da alta nobreza e dos cavalheiros zodanganos cobriam o chão daquele matadouro sangrento.
Meu primeiro pensamento após a batalha foi para Kantos Kan. Deixando Dejah Thoris sob a responsabilidade de Tars Tarkas, destaquei uma dúzia de guerreiros e corri para os calabouços do palácio. Os carcereiros haviam desertado para se juntar à luta na sala do trono, e vasculhamos a prisão labiríntica sem oposição. Chamei alto pelo nome de Kantos Kan em cada corredor, cada compartimento, e finalmente fui recompensado ao ouvir uma débil resposta. Guiados pelo som, logo o encontramos indefeso em uma cela escura. Ele estava exultante em me ver, e curioso em saber a razão da luta cujos ecos distantes haviam chegado até sua prisão. Ele me disse que a patrulha aérea o havia capturado antes que chegasse à torre alta do palácio, e que, portanto, sequer havia se aproximado de Sab Than. Descobrimos que seria inútil tentar cortar as barras e correntes que o mantinham aprisionado e, assim, seguindo sua sugestão, subi novamente para procurar nos corpos do andar acima pelas chaves dos cadeados de sua cela e grilhões. Felizmente, um dos primeiros que examinei era seu carcereiro, e logo Kantos Kan se juntava a nós na sala do trono.
Os sons de artilharia pesada, misturados a gritos e berros, chegavam das ruas da cidade, e Tars Tarkas logo se apressou em comandar seus soldados. Kantos Kan o acompanhou para servir de guia enquanto os guerreiros verdes começavam uma busca mais detalhada ao palácio, procurando por outros zodanganos e por valores a saquear. Dejah Thoris e eu fomos deixados a sós. Ela havia desabado em um dos tronos dourados, e quando me virei para ela, devolveu-me um sorriso exausto: Nunca houve um homem assim! - ela exclamou. - Sei que Barsoom nunca viu um homem como você antes. Será que todos os homens da Terra são como você? Mesmo solitário, estrangeiro, caçado, ameaçado, perseguido, você fez em alguns poucos meses o que nenhum homem fez por eras em Barsoom: uniu as hordas selvagens dos fundos dos mares e as trouxe para lutar como aliadas de um povo de marcianos vermelhos. 
A resposta é simples, Dejah Thoris - repliquei sorrindo. - Não fui eu quem fez isso, foi o amor. O amor por Dejah Thoris, um poder que pode realizar milagres ainda maiores do que este.
Um belo rubor se espalhou por sua face e ela respondeu: Agora você pode dizer isso, John Carter, e eu posso ouvi- lo, porque estou livre.
E devo dizer mais, embora seja tarde mais uma vez - retruquei. - Fiz muitas coisas estranhas em minha vida, coisas que homens mais sábios não teriam ousado, mas nunca, nem em meus sonhos mais selvagens, imaginei conquistar alguém como você, Dejah Thoris... porque nunca sonhei que em todo universo existisse uma mulher como a princesa de Helium. O fato de você ser uma princesa não me perturba, mas você me faz duvidar de minha sanidade ao lhe perguntar, minha princesa, se deseja ser minha. Aquele que sabe tão bem a resposta ao pedido que fez não precisa ficar perturbado - ela respondeu levantando-se e colocando suas doces mãos sobre meus ombros. Então, tomei-a em meus braços e a beijei.
E assim, em meio ao grande conflito na cidade preenchida por sirenes de guerra, com a morte e a destruição
ceifando sua terrível colheita à sua volta, Dejah Thoris, princesa de Helium, uma verdadeira filha de Marte, o
deus da guerra, prometeu se casar com John Carter, cavalheiro da Virgínia.

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