Tuesday, 25 June 2013

Selvagens - 11° ao 20° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow




11

O. vai para casa.
Onde encontra Rupa em uma de suas fases.
O. tem dificuldade em acompanhar as fases dela…
Mas são mais ou menos as seguintes:

Ioga
Comprimidos e álcool
Reabilitação
Política republicana
Jesus
Política republicana e Jesus
Ginástica
Ginástica, política republicana e Jesus
Cirurgia plástica
Culinária gourmet
Jazzercícios
Budismo
Imóveis
Imóveis, Jesus e política republicana
Bons vinhos
Rerreabilitação
Tênis
Equitação
Meditação

E agora…

Vendas diretas.

— Isso é esquema em pirâmide, mãe — disse O. quando viu as caixas e mais caixas de produtos orgânicos para tratamento de pele que Rupa tentou convencê-la a vender.
Ela já havia recrutado a maioria das amigas, que estavam vendendo aquela merda umas para as outras em uma espécie de circuito fechado comercial.
— Não é um esquema em pirâmide — objetou Rupa. — Esquema em pirâmide é como o dos produtos de limpeza.
— E isto…
— Não é — disse Rupa.
— Você já viu uma pirâmide? — perguntou O. — Ou a imagem de uma?
— Já.
— Ok — disse O., perguntando-se por que estava tentando. — Você vende essa bosta e dá uma porcentagem para a pessoa que a recrutou. Aí você recruta outras pessoas, que lhe dão uma porcentagem. É uma pirâmide, mãe.
— Não, não é.
O. volta para casa esta tarde, e Rupa está no pátio virando mojitos com todas as suas colegas da Seita da Maquiagem Orgânica. Estão todas bêbadas e tagarelando sobre um futuro cruzeiro motivacional de três dias.
Vocês vão virar comida para piratas somalis, pensa O.
— Querem uns suquinhos? — oferece O. às mulheres, simpaticamente.
Rupa está distraída.
— Obrigada, querida, mas já temos nossas bebidas. Quer se juntar a nós?
Sim, de modo algum, pensa O.
— Estou ocupada — responde, se retirando para o relativo santuário de seu quarto.
Seis se encontra escondido no escritório fingindo acompanhar o mercado, mas na verdade está assistindo a um jogo dos Angels. A porta está aberta; ele vê O. e rapidamente se vira para espiar o monitor do computador.
— Não se preocupe — diz O. — Não vou dedurar você.
— Quer um martíni?
— Estou bem assim.
Ela entra no quarto, se joga na cama e apaga.


12

Lado é contração de “Helado”, “frio como pedra” em espanhol.
Bem adequado.
Miguel Arroyo, vulgo Lado, é frio como pedra.
(Aliás, uma expressão da qual Chon discordaria. Tendo estado no deserto, ele sabe que as pedras podem ser quentes pra cacete.)
Mas enfim…
Mesmo quando garoto, Lado não parecia ter sentimento algum, e se tinha, não demonstrava. Você podia abraçá-lo — a mãe dele fazia muito isso — que não dava em nada. Surra de cinto — o pai fazia muito isso —, e ainda não conseguia nada. Ele só olhava para você com aqueles olhos pretos, como quem diz: o que você quer comigo?
O cara não é mais criança. Tem 46 anos, é pai. Dois garotos e uma filha adolescente que o está deixando loco. Claro, é a função dela nessa idade. Falando sério: ele tem uma esposa, uma bela empresa de jardinagem, ganha dinheiro. Ninguém mais usa um cinto contra ele.
Agora está dirigindo seu Lexus por San Juan Capistrano, olhando para o belo campo de futebol, depois vira à esquerda no grande conjunto habitacional, um quarteirão após o outro, todos com prédios residenciais idênticos, atrás de um muro de pedra ao longo da ferrovia.
STM.
Só Tem Mexicano.
Quadras e mais quadras.
Quando você ouve inglês aqui, é o carteiro falando sozinho.
Este é o lugar onde vivem os bons mexicanos. Onde vivem os mexicanos respeitosos, respeitáveis e trabalhadores quando não estão no trabalho. São famílias mexicanas antigas, viviam ali desde antes de os anglos roubarem, estavam ali quando seus pais espanhóis apareceram para roubar primeiro. Coloque as pedras na missão para que as andorinhas voltem.
São mexicano-americanos, põem os filhos na boa escola católica do outro lado da rua, onde os padres veados os ensinarão a ser dóceis. São os mexicanos gente boa que vestem a melhor roupa aos domingos e depois da missa vão ao parque ou aos gramados que se estendem ao longo do porto em Dana Point e preparam comida ao ar livre.
Domingo é o Dia de Passear dos mexicanos, reze para Jesus e passe las tortillas por favor.
Lado não é um bom mexicano.
Ele é um daqueles mexicanos assustadores.
Ex-policial do estado de Baja, ele tem mãos grandes com as juntas dos dedos quebradas e cicatrizes de facas e balas. Olhos pretos bem pretos de obsidiana. Ele viu aquele filme do Mel Gibson sobre o México na época dos maias, quando eles abriam as barrigas das pessoas com facas de obsidiana, e seus viejos dizem que seus olhos são como aquelas facas.
Antigamente, Lado era um dos Zetas, a força-tarefa especial de combate às drogas em Baja. Ele sobreviveu à guerra dos narcóticos dos anos 1990, viu muitos homens serem mortos, vários por suas próprias mãos, mandou para o xadrez vários traficantes, levou-os para becos e os fez contar seus segredos.
Ele ri das matérias sobre “tortura” no Iraque e no Afeganistão. Eles usavam o afogamento simulado no México desde que ele se entendia por gente, só que não usavam água, mas Coca-Cola — o gás tornava tudo mais interessante e estimulava o traficante a borbulhar informações úteis.
Agora o Congresso dos Estados Unidos vai investigar.
Investigar o quê?
O mundo?
A vida?
O que acontece entre os homens?
De que outra forma se faz um cara mau dizer a verdade? Acha que é só sorrir para ele, dar sanduíches e cigarros, ficar seu amigo? Ele vai sorrir de volta, mentir para você e pensar no cabrón que você é.
Mas isso era antigamente, antes de ele e o resto dos Zetas se cansarem de apreender drogas e não ganhar dinheiro, de se matarem de trabalhar e morrerem vendo os traficantes enriquecendo; antes de decidirem enriquecer também.
Os olhos de Lado são frios como pedras?
Talvez porque esses olhos tenham visto…
As próprias mãos segurando uma motosserra
Passando pelo pescoço de um homem enquanto
O sangue jorrava.
Se fosse você, seus olhos também seriam duros.
Seus olhos virariam pedra.
Alguns daqueles sete homens imploraram, choraram, apelaram para Deus, para suas mãezinhas, disseram que tinham famílias, mijaram nas calças. Outros não disseram nada, apenas olharam com a resignação silenciosa que Lado julga ser a expressão do próprio México. Coisas ruins vão acontecer, a questão é saber quando. Deveriam bordar isso na bandeira.
Ele está contente por estar em El Norte.
Agora ele vai achar esse rapazinho chamado Esteban.


13

Esteban vive no grande conjunto habitacional e tem uma postura questionadora.
Perguntas para o mundo anglo.
Quer que eu arrume um trabalho? Apare seu gramado? Limpe sua piscina, vire seus hambúrgueres, faça seus tacos? Foi para isso que viemos para cá? Para isso que pagamos aos coiotes? Que rastejamos para passar debaixo da cerca, nos arrastamos através do deserto?
Quer que eu seja um daqueles bons mexicanos, um daqueles supertrabalhadores, frequentadores de igreja, que valorizam a família, quer que eu vista minhas melhores roupas no domingo e passeie com meus primos por aqueles amplos bulevares banhados pelo sol até um parque batizado em homenagem a Chávez, pretos-taco-mexicanos humildes e respeitosos, aqueles que todos amamos, respeitamos e aos quais pagamos salários abaixo do mínimo? 
Como meu papi?
Saindo em sua picape antes do nascer do sol, os ancinhos na caçamba, aparando os gramados dos gueros para que fiquem muito verdes e bonitos. Voltando para casa à noite tão chingada de cansado que não quer conversar, não quer fazer nada além de comer, tomar uma cerveja e dormir. Faz isso seis dias por semana, parando só no domingo para ser um preto-taco-mexicano humilde e respeitoso de Deus, dar seu dinheiro suado para Deus e os padres veados. Domingo é o grande dia de seu papi, o dia em que coloca uma camisa branca limpa, uma calça branca limpa (sem manchas de grama nos joelhos), sapatos que saem de casa uma vez por semana, esfregados com um pano limpo, e leva a família à igreja, e depois da igreja eles vão juntos com todos os tíos e tías, com todos os primos, e vão ao parque e preparam carne e pollo e sorriem para suas belas filhas em seus belos vestidinhos de domingo, e isso é tão xingada de chato que Esteban surtaria se não tivesse dado uma fugida depois da igreja para um tapa, prendido a fumaça doce, relaxado.
Como mi madre? Trabalha nos hotéis, limpa os banheiros dos gueros, esfrega a merda e o vômito deles dos vasos? Sempre de joelhos; se não em piso de banheiro, em bancos de igreja. Uma mulher devota, sempre cheirando a desinfetante.
Durante algum tempo Esteban trabalhou em uma das barracas que vendem taco em Machado. Ralou para cacete picando cebolas, lavando pratos, tirando o lixo, e para quê? Uns trocados. Depois seu papi conseguiu uma vaga para ele nas equipes de jardinagem do Sr. Arroyo. Salário melhor, mas muito trabalho, e chato de doer.
Mas Esteban precisa de dinheiro.
Lourdes está grávida.
Como foi que isso aconteceu?
Claro que ele sabe como aconteceu. Ele a viu numa tarde de domingo em um daqueles belos vestidos brancos. Seus olhos pretos com longos cílios negros, os seios sob aquele vestido. Foi até lá e falou com ela, sorriu para ela, foi até a churrasqueira e levou alguma coisa para ela comer. Foi agradável com ela, bateu um papo legal com a mãe dela, o pai, os primos, as tias.
Ela era uma daquelas boas moças, virgem, deve ter sido isso que o atraiu nela, não era uma daquelas putas de gangue que se ajoelham para chupar qualquer um.
Ficou três meses ligando para ela, três meses até a família os deixar ficarem sozinhos, e depois mais três meses de quentes tardes de tortura na casa dela quando seus pais estavam trabalhando, os irmãos e irmãs fora. Ou no parque, ou na praia.
Dois meses de beijos até que ela o deixasse tocar suas titas, e semanas mais até deixá-lo colocar a mão dentro de sua calça. Ele gostou do que encontrou ali; cara, ela também.
E nesse momento ela disse seu nome, e ele se apaixonou.
Esteban não a desrespeita, ele a ama, quer se casar com ela, ele lhe disse isso. Uma noite, debaixo de uma árvore no estacionamento, ela tocou uma punheta para ele — pobrecito —, o material dele na coxa quente e morena dela, mas você sabia que iria acontecer, sabia que ele ia entrar ali assim que a calça jeans saísse, e ele estava tão perto que não conseguiu se segurar, nem ela. Naquele terceiro mês na cama dela, quando ela deixou que ele entrasse nela, ele não conseguiu parar antes de gozar lá dentro.
Agora eles vão ter que se casar.
Isso é bom, tudo bem. Ele a ama, quer o bebê, torce para que seja menino — um homem se torna homem quando tem um filho —, mas precisa de dinheiro.
Então é bom saber que Lado está vindo.
Chefe do seu papi, ele é dono da empresa de jardinagem na qual o pai de Esteban trabalha. Mas ele faz muito mais.
Muito mais.
Ele é o guardião da entrada do Cartel de Baja, no sul da Califórnia.
Um homem temido e respeitado.
Ele tem oferecido uns trabalhos a Esteban. Não trabalhos de jardinagem. No começo, coisas pequenas. Leve esta mensagem, fique de vigia, acompanhe esta entrega, fique de olho naquela esquina. Coisas pequenas, mas Esteban fez tudo direitinho.
Esteban o vê chegar, olha ao redor e entra no carro.


14

É assim que funciona com advogados e cartéis de drogas.
Se você está vendendo drogas para um cartel e é preso, o cartel manda um advogado. Ninguém espera que você fique calado ou guarde segredos, pode ir em frente e colaborar se isso o livrar ou se assim você descolar uma sentença menor. Você só tem que se sentar com seu advogado escolhido pelo cartel e dizer a ele o que contou à polícia, para que o cartel possa fazer os ajustes necessários.
E aí é uma loteria.
Você contrata seu advogado e paga a ele, ganhe ou perca. Você basicamente espera ser considerado culpado; a questão é quanto tempo vai pegar. Cada crime envolvendo drogas tem um parâmetro de condenação, com mínimo e máximo.
Para cada ano a menos, em relação a esse parâmetro, que seu advogado consegue, você dá a ele um bônus, mas não deduz nenhuma quantia ainda que receba a pena máxima. Você já é bem crescidinho, sabia dos riscos quando começou. Seu advogado consegue o que for possível, e é isso, sem ressentimentos, recriminações, a não ser que…
Seu advogado faça merda.
Seu advogado está tão ocupado, ou distraído ou indiferente, ou simplesmente é um incompetente que deixa passar algo que poderia ter reduzido de forma significativa sua pena.
Se esse foi o caso, se o advogado custou a você anos de vida, você custa a ele anos da dele — a saber, os que restam. E, se você ocupa uma posição bem alta no cartel — alguém que gera sete dígitos todo ano —, precisa ligar para alguém como Lado.
Foi o caso de Roberto Rodriguez e Chad Meldrun.
Chad é um advogado de defesa da área criminal, um cara de 56 anos e com um belo histórico, uma bela casa em Del Mar, uma fila de namoradas bonitas que têm de 10 a 15 anos a menos que ele…
— Não sabe que elas só estão com você pelo seu dinheiro?
— Claro, então que bom que tenho dinheiro.
… e um lamentável e um tanto anacrônico problema com cocaína. Chad estava bastante cheirado e doidão durante o julgamento de Rodriguez, e passou batido por duas moções que poderiam ter reduzido as provas da promotoria a merda de cachorro.
RR poderia ter saído de lá pela porta da frente.
RR não saiu. A única porta que viu foi a do ônibus para Chino. Agora ele vai ficar por ali por uns 15, 30 anos. É muito tempo para ficar pensando sobre seu advogado que fodeu com você com o seu próprio pó. RR pensa muito e seriamente nisso, talvez cinco minutos inteiros, antes de dar o telefonema.
Então agora Lado está a caminho de aplicar a justiça pessoalmente, e vai fazer com que seu filhote molhe as garras. Lado gosta de Discovery Channel e Animal Planet, e uma coisa que aprendeu foi que as mães leopardos e chitas têm que ensinar os pequenos a caçar, pois os filhotes não sabem fazer isso instintivamente. Assim, as felinas ferem um animal, mas não acabam com ele. Levam-no até os filhotes, para que aprendam a matar.
É a natureza.
Agora ele vai iniciar Esteban — “molhá-lo”, como dizem.
O cartel precisa de soldados ali. Era uma de suas missões quando ele recebeu o green card e foi para lá, há oito anos.
Recrutar.
Treinar.
Estar pronto para o dia.
Agora ele dirige até a casa do advogado.
Diz a Esteban para pegar o saco de papel pardo aos seus pés e abrir. O garoto faz isso, e tira do saco uma pistola.
Lado faz questão de acompanhar sua reação.
O garoto gosta. Gosta do peso e do encaixe em sua mão.
Lado percebe isso.


15

Bem legal essa casa.
Gramado aparado, bem-cuidado, passeio de cascalho direitinho até os fundos, até a porta da cozinha.
Esteban acompanha Lado pelo passeio de cascalho.
Lado toca a campainha, embora eles possam ver o advogado de pé no balcão da cozinha picando cebolas. Ele larga a faca e vai até a porta.
— Sim?
Parece incomodado, distraído, talvez chateado. Provavelmente acha que são mujados procurando trabalho.
Lado põe a mãozorra no peito do cara e o empurra para dentro.
Esteban fecha a porta atrás com um chute.
Agora o advogado parece assustado. Olha para a faca na tábua de cortar, mas decide não fazer isso. Pergunta a Lado:
— Quem são vocês? O que querem?
— Roberto Rodriguez pediu que eu fizesse uma visitinha a você.
O advogado fica branco. As pernas começam a tremer um pouco, e Esteban sente algo que nunca sentiu antes em toda a sua vida…
Poder.
Peso.
Alguma importância naquele solo americano.
A voz do advogado treme.
— Se é dinheiro… eu arranjo algum dinheiro.
Lado bufa.
— Roberto poderia comprar e vender você com o que tem no bolso. De que serve dinheiro para ele na prisão?
— Um recurso, poderíamos…
Lado atira nele duas vezes, nas pernas.
O advogado desaba no chão de azulejos. Ele se encolhe e choraminga.
— Saque a sua arma — diz Lado a Esteban.
O garoto tira a pistola do bolso.
— Atire nele.
Esteban hesita.
— Nunca saque sua arma se não for atirar — diz Lado com firmeza. — Agora atire nele. No peito ou na cabeça, não importa.
O advogado escuta isso e começa a implorar. Tenta se levantar, mas as pernas feridas não permitem. Ele se arrasta pelo chão da cozinha, deixando para trás um rastro de sangue, e Esteban pensa que sua mãe detestaria ter que limpar aquilo.
— Agora — ordena Lado, seco.
Esteban não se sente mais poderoso.
Ele se sente enjoado.
— Se não atirar, você vai ser uma testemunha — diz Lado. — Eu não deixo testemunhas.
Esteban atira.
A primeira bala atinge o advogado no ombro, jogando-o de volta no chão. Esteban dá um passo à frente e dessa vez, para garantir, enfia duas balas na cabeça dele.
Na saída, Esteban vomita no passeio de cascalho.
Mais tarde naquela noite, ele se deita com a cabeça na barriga de Lourdes e chora.
Depois murmura para o ventre dela:
— Fiz isso por você, m’ijo. Fiz isso por você, filho.


16

Certo Natal
O que esperava por O. debaixo da árvore eram…
Peitos.
Ela queria uma bicicleta.
Foi durante um de seus (raros) Períodos Produtivos, quando arrumou um E-M-P-R-E-G-O na loja Quicksilver da Forest Avenue e queria uma condução ecológica para ir e voltar do T-R-A-B-A-L-H-O.
Então ela desceu de manhã (tudo bem, eram 11h30, mas isso ainda é de manhã, porra), animada como uma criança, embora na época tivesse 19 anos, e não encontrou a bicicleta nova e brilhante que esperava, mas um envelope novo e brilhante. Rupa estava sentada no chão de pernas cruzadas (foi durante sua fase budista) e Padrasto Três (Ben certa vez comentou que O. estava nas fases iniciais de um Programa de Doze
Padrastos), jogado em sua poltrona sorrindo para ela como o cretino lascivo que era, usufruindo a benção de ignorar que já estava com um dos pés do lado de fora para dar espaço para o Quatro.
O. abriu o envelope e encontrou um cartão de presente de um cirurgião plástico para:
“1 Aumento Mamário Grátis.”
— Isto na verdade quer dizer dois aumentos mamários grátis, certo? — perguntou ela a Rupa.
— Com certeza, querida.
— Porque do contrário… — disse, deixando um dos ombros cair para ilustrar, ultradesconfiada de que Três estava, tipo, avaliando seu peito.
— Feliz Natal, minha menina querida — disse Rupa, o rosto radiante com o ato de dar um presente.
— Eu meio que gosto dos meus peitos do jeito que são — falou O.
Pequenos, sim, mas saborosos, sim, e outras pessoas também parecem gostar deles.
Com a erva certa, alguns dedicaram horas a eles…
— Mas, Ophelia, você não gostaria de ter seios como…?
Ela buscou a palavra certa.
A palavra é “meus”, pensou O.
Não gostaria de ter seios como os meus? Espelho, espelho meu, quem tem melhor comissão de frente que eu? Eu, eu, eu, eu. Caminho por South Coast Plaza e deixo os homens de pau duro até o outro lado do corredor. Para mostrar que ainda sou atraente, que não estou envelhecendo, e sim envelhecendo sem envelhecer. Você não gostaria de ser bonita como eu?
Hum, não.
— Eu realmente queria uma bicicleta, mãe.
Mais tarde, depois de três apple martínis no jantar de Natal no Salt Creek Inn, Rupa perguntou a O. se ela era lésbica. O. confessou que era.
— Sou cem por cento sapatão, mãe. Meu negócio é velcro e consolos, pode apostar. Ela trocou o cartão de presente com Ash por uma bicicleta vermelha brilhante de dez marchas.
De qualquer maneira, largou o emprego três semanas depois.


17

Certo dia, quando Chon — então Johnny — tinha 3 anos, seu pai ensinou-lhe uma lição sobre confiança.
John Pai era um dos fundadores da Associação, o lendário grupo de garotos de Laguna Beach que ganhou milhões de dólares contrabandeando maconha antes de fazer merda e ir para a cadeia.
O Grande John colocou o Pequeno John em cima da lareira da sala de estar, esticou os braços e disse a ele para saltar.
— Eu pego você.
Encantado e sorrindo, o garotinho se jogou, e nesse momento o Grande John baixou os braços, deu um olé, e o Pequeno Johnny caiu de cara no chão. Confuso, machucado, sangrando na boca — um dente da frente cortou-lhe o lábio —, Chon aprendeu a lição que o pai queria lhe ensinar sobre confiança:
Nunca.
Jamais.
Em ninguém.


18

Chon não vira muito o pai desde que o velho concluíra sua pena federal de 14 anos.
John voltou para Laguna, mas na época Chon estava na Marinha, e eles meio que simplesmente perderam contato. Chon esbarra nele de vez em quando na Starbucks, no Marine Room ou mesmo na rua, e eles se cumprimentam e trocam o máximo de comentários banais que Chon consegue, e é isso.
Não há hostilidade; apenas não há afinidade.
Isso não incomoda Chon.
Não é algo que ele deseje.
O que Chon pensa é que vinte e tantos anos atrás seu pai comeu sua mãe, o espermatozoide fez seu trabalho de homem-rã, e daí? Seu pai estava cuidando da sua vida, nada de beisebol, pescarias ou conversas profundas. Quanto à garota que ele comeu, também conhecida como mamãe, ela gostava muito mais de um barato do que de Chon, e Chon entende isso perfeitamente: ele gosta muito mais de um barato do que dela.
Certa vez, Ben observou que seria possível dizer que Chon foi “criado por lobos”, só que lobos são mamíferos carinhosos que cuidam dos filhotes.


19

Um breve retrospecto de Ben.
O ausente Ben, o raramente presente Ben.
Começando com o material genético…
O pai de Ben é analista, a mãe é analista.
Será que podemos dizer com segurança que ele cresceu em um lar superanalisado?
Todas as palavras reconsideradas, todas as ações reinterpretadas, toda pedra virada em busca de seu significado oculto.
O que ele mais desejava era privacidade.
Ele amava (e ama) seus pais. São pessoas boas, calorosas, carinhosas. Pessoas de Esquerda descendentes de Pessoas de Esquerda. Seus avós eram Judeus Comunistas de Nova York, defensores convictos de Stálin (“O que mais ele poderia fazer?”) que mandaram os filhos (os pais de Ben) para um acampamento de verão socialista em Great Barrington, Massachusetts, onde se conheceram e estabeleceram uma associação precoce entre sexualidade e dogma político de esquerda.
Os pais de Ben foram de Oberlin para Berkeley, fumaram maconha, tomaram ácido, largaram a faculdade, voltaram à faculdade e terminaram em consultórios de psicoterapia confortavelmente lucrativos em Laguna Beach.
Onde eram alguns dos muito poucos judeus no local.
(Certo dia Chon estava resmungando quanto a ser um dos poucos [ex-]militares de Laguna Beach, Califórnia, e Ben decidiu desafiá-lo.
— Sabe quantos judeus tem em Laguna? — perguntou ele.
— Sua mãe é judia? — retrucou Chon.
— É.
— Três.
— Correto.)
Ben cresceu escutando Pete Seeger e os dois Guthries, Joan Baez, Dylan. Assinaturas de Commentary, Tikkun, The Nation, Tricycle, Mother Jones. Stan e Diane (Ben foi orientado a chamá-los por seus nomes) não ficaram aborrecidos quando apanharam Ben, aos 14 anos, com um baseado — apenas o mandaram fumar no quarto e, claro, o encheram de perguntas intermináveis: Ele era feliz? Infeliz? Alienado? Não? Tudo bem na escola? Estava confuso sobre sua sexualidade?
Ele era feliz, não alienado, tirava 4 e era infatigavelmente hétero com uma série de garotas de Laguna.
Só queria ficar doidão de vez em quando.
Parar de analisar tudo.
Ben foi criado com privilégios, mas não com riqueza.
Casa legal mas não luxuosa nas colinas que se erguem acima do centro de Laguna, pois é. Os consultórios de papai e mamãe ficavam em casa, então ele aprendeu a entrar pela porta lateral depois da escola para não encontrar os pacientes na sala de espera.
Ele virou um descolado de Laguna.
Ia à praia, queimava fumo, andava descalço. Ficava na quadra de basquete, na de vôlei (era realmente bom lá, conheceu Chon lá, os dois foram parceiros e derrotaram muitas duplas lá), o parque.
Mandava bem na escola.
Gênio em botânica.
E administração.
Ben foi para Berkeley — claro.
Onde mais?
Dois diplomas — botânica e marketing, e ninguém perguntou o que ele pretendia fazer com aquilo. Summa cum, Phi Beta Kappa, monografia. Mas Ben era SoCal (da região do sul da Califórnia, chamada Southern Californa), não NoCal (do norte), e esses não são só diferentes estados de espírito, são países distintos — ele é sol, não névoa, é leve, não pesado —, então voltou para sua Laguna.
Juntou-se a Chon — quando Chon estava em casa —, e eles jogaram mais vôlei ainda.
E começaram os negócios.


20

Toda grande empresa tem sua história; eis a de Ben e Chonny:
Estão os dois na área da praia, Chon em licença estendida entre seus dois períodos de serviço nas Forças Armadas, jogando vôlei na quadra perto do hotel Laguna.
Ben e Chon são os reis das quadras, e por que não seriam? Dois caras altos, magros e atléticos que formam uma grande dupla. Ben é o levantador que pensa o jogo como um xadrez, Chon é o cortador que manda ver. Eles vencem muito mais do que perdem, eles se divertem, e gatas bronzeadas de biquíni besuntadas de bronzeador param e ficam assistindo ao jogo deles.
Uma vida boa.
Então, um dia eles estão sentados na areia depois de um jogo e começam a especular sobre o futuro…
… o que vão fazer…
e Ben se sai com o velho ditado: “Faça o que ama e nunca trabalhará um só dia na vida.”
O que lhes parece legal.
Certo, o que a gente ama?, pergunta Chon.
Sexo
Voleibol
Cerveja
Erva
Eles não querem atuar em filmes pornôs nem produzi-los, então o sexo está fora. Só tem uns dois caras no mundo inteiro que conseguem ter uma vida decente jogando vôlei, e essa coisa de microcervejaria é furada, então…
Ben vem brincando com hidro em seu quarto.
Muita tentativa e erro, mas no final ele de fato produziu um bagulho realmente forte que ele, Chon e O. fumaram.
E eles adoram ficar chapados, ergo…
Ben tem o conhecimento científico e empresarial, e Chon tem…
O malportamento…
E pedigree nesse tipo de coisa, considerando-se o legado que recebeu do pai.
— Você estava lá quando a Associação afundou — observou Ben. — O que deu errado?
— Ganância — disse Chon. — Ganância, descuido e burrice.
(Qualidades que, para Ben, descrevem perfeitamente não apenas a finada Associação, mas também a espécie humana como um todo — gananciosa, burra e descuidada.)
Prometendo evitar ganância, burrice e descuido, Ben e Chon decidiram entrar no negócio de maconha. Não como contrabandistas ou comerciantes, mas como produtores.
Meta: produzir a melhor maconha do mundo.
Essa foi a semente (estamos chegando lá) de uma ideia, e, como qualquer grande ideia, tudo começa pela semente.
A melhor semente de Canabis do mundo vem do…
Afeganistão.
Sem oceano, sem ondas
Mas com maravilhosas sementes de Canabis, das quais a melhor de todas é chamada…
A Viúva Branca.
Coincidência ou destino?
Você decide.

No comments:

Post a Comment

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...