Sunday, 23 June 2013

Selvagens - 1° ao 10° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow

Espero que gostem do livro "Selvagens"... Conheçam o livro que deu origem ao filme:

Todos os direitos reservados. Não compartilhem sem permissão!




— “Going back to California,
So many good things around.
Don’t want to leave California,
The sun seems to never go down.”

JOHN MAYALL, “CALIFORNIA”


1

Vai se foder.






2

Meio demais o comportamento de Chon naqueles dias.
Ophelia diz que ele não se comporta, se “malporta”.
— Faz parte do charme dele — diz O.
Chon responde que é preciso ser um pai muy pirado para dar à filha o nome de uma doida que se matou por afogamento. É um impulso muito doentio.
Não foi o pai dela, conta O., foi a mãe. Chuck não foi encontrado quando ela nasceu, então Rupa fez como achou melhor e deu ao bebê o nome de “Ophelia”. A mãe de O., Rupa, não é indiana nem nada do tipo, “Rupa” é só como O. a chama.
— É um acrônimo — explica ela.
R.U.P.A.
Rainha do Universo Passivo-Agressiva.
— Sua mãe odiava você? — perguntou Chon a ela dessa vez.
— Ela não me odiava — respondeu O. — Ela odiou ter uma filha porque engordou à beça e tal, e, para Rupa, 3 quilos era muito. Ela me pariu e comprou uma esteira a caminho de casa, assim que saiu do hospital.
Ééé, isso aí, porque Rupa é totalmente R&B SOC.
Rica e Bonita de South Orange County.
Sendo loura de olhos azuis, com o nariz cinzelado e os MPDPC — os Melhores Peitos que o Dinheiro Pode Comprar (se você tem peitos de verdade em Orange, você é, tipo, amish) —, os quilinhos extras não ficariam bem nem durariam muito nos quadris dela. Rupa voltou para seu barraco de 3 milhões de dólares na baía Emerald, prendeu a pequena Ophelia ao corpo com um daqueles suportes e se mandou para a esteira.
Caminhou 3.200 quilômetros e não chegou a lugar algum.
— O simbolismo é irônico, não acha? — perguntou O., encerrando a história. Ela imagina que é de onde vem seu gosto por máquinas. — Tipo… só pode ser essa grande influência subliminar, né? Afinal, eu sou aquele bebê, ouvindo aquele zumbido ritmado e constante e os barulhos todos e vendo as luzes piscando, aquela merda toda, sabe?
Fala sério.
Assim que tinha idade suficiente para saber que Ofélia era a queridinha bipolar de Hamlet, uma mulher com personalidade instável que foi dar uma nadada só de ida, ela insistiu para que seus amigos a chamassem apenas de “O.”. Eles colaboraram, mas há alguns riscos de se autoapelidar “O.”, ainda mais se você tem fama de atingir orgasmos capazes de estilhaçar vidro. Como naquela vez que ela estava na festa com aquele cara. E começou a cantar sua musiquinha feliz. E todo mundo conseguiu ouvir lá embaixo, mesmo com o som rolando e tudo o mais. O techno martelava, mas O. gozava, tipo, umas cinco oitavas acima. Suas amigas riam. Tinham dormido na casa dela quando O. usara seu brinquedinho cheio de peças extras, então conheciam o refrão.
— É ao vivo? — perguntou sua amiga Ashley. — Ou playback?
O. não ficou constrangida nem nada. Desceu relaxada e satisfeita e deu de ombros.
— Vou falar o quê? Eu gosto de gozar.
Por isso seus amigos a conheciam como “O.”, mas as meninas a chamavam de “O. Múltiplo”. Poderia ser pior, poderia ser “Grande O.”, mas ela é pequena. Tem 1,58 metro e é magrinha. Nada de bulimia ou anorexia, como a maioria das garotas de Laguna, só um metabolismo de motor a jato. Queima combustível loucamente. Essa garota se alimenta bem, e não gosta de vomitar.
— Sou uma fada, uma santinha — diria ela.
É, não mesmo.
Essa santinha tem tatuagens em technicolor no braço esquerdo que vão do pescoço ao ombro: golfinhos prateados dançando na água com ninfas do mar douradas, grandes ondas azuis quebrando, algas marinhas verde-brilhantes se retorcendo em volta. Seu cabelo, antes louro, agora é louro e azul com faixas carmim, e ela tem um piercing na narina direita. O. que quer dizer…
Vai se foder, Rupa.


3

Belo dia em Laguna.
Mas não são todos belos?
É o que Chon pensa enquanto contempla mais um dia ensolarado. Um depois do outro depois do outro depois do…
Outro.
Ele pensa em Sartre.
O condomínio de Ben fica em um promontório que se projeta sobre Table Rock Beach, e é o lugar mais bonito que você já viu — e tinha que ser mesmo, considerando a quantidade de zeros que Ben pagou por ele. Table Rock é um grande rochedo a uns 45 metros — dependendo da maré — oceano adentro e lembra, bem, uma mesa. Não é preciso ser um gênio para chegar a essa conclusão.
A sala de estar onde ele se encontra sentado tem vidros blindex do chão ao teto, para você poder apreciar cada centímetro da vista deslumbrante — oceanos, penhascos e a ilha Catalina no horizonte —, mas os olhos de Chon estão grudados na tela do laptop.
O. entra, olha para ele e pergunta:
— Vendo pornografia na internet?
— Sou viciado.
— Todo mundo é viciado em pornografia na internet — diz O. Inclusive ela; ela gosta muito. Gosta de entrar, digitar “mulheres gozando” e ver os vídeos. — Isso é clichê para um cara. Você não pode ser viciado em outra coisa?
— Tipo?
— Sei lá. Heroína. Uma coisa meio retrô.
— HIV?
— Você podia usar agulhas limpas.
Ela imagina que poderia ser legal ter um namorado junkie. Quando acabasse de trepar e não quisesse lidar com ele, era só encostá-lo num canto no chão. E tem toda aquela coisa trágica e moderna. Até começar a ficar chato, aí ela poderia fazer aquele drama da intervenção e visitá-lo na reabilitação no fim de semana, e, quando ele saísse, os dois poderiam ir a reuniões juntos. Ficar lá toda séria e espiritual e essa merda toda até isso começar a ficar chato. E aí fazer outra coisa.
Mountain bike, talvez.
Chon é magro, bem que poderia ser um junkie, ele é todo alto, anguloso, musculoso — parece que foi montado com peças de ferro-velho. Tem as extremidades afiadas. A amiga dela, Ash, diz que você pode se cortar dando para Chon, e a piranha provavelmente sabe por experiência própria.
— Mandei uma mensagem para você — diz O.
— Não vi.
Ele ainda está olhando para a tela. Deve ser delícia, delícia, ela pensa. Uns vinte segundos depois ele pergunta:
— Dizia o quê?
— Que eu estava vindo.
— Ah.
Ela nem se lembra de quando John virou Chon, e ela o conhece há séculos, desde, tipo, o maternal. Ele se malportava desde aquela época. Os professores odiavam Chon. Odiaaaaaavam. Ele largou tudo dois meses antes de terminar o ensino médio. Não que Chon seja burro — é inteligente acima da média; só que se malporta demais.
O. estica a mão para pegar o narguilé, sobre a mesinha de centro de vidro.
— Tudo bem se eu fumar?
— Vai com calma — avisa ele.
— É?
Ele dá de ombros.
— A tarde é sua.
Ela apanha o Zippo e acende. Dá um tapa leve, sente a fumaça ir para os pulmões, se espalhar pela barriga e encher sua cabeça. Chonny não estava mentindo — é uma hidro poderosa —, como seria de se esperar de Ben & Chonny, que produzem a melhor hidro deste lado de…
Lugar nenhum.
Apenas produzem a melhor hidro, ponto final.
O. fica instantaneamente cha-pa-da.
Deita de costas no sofá e deixa o barato bater por todo corpo dela. Maiooooor barato, maior graça, faz cócegas na pele. Dá tesão. Grande coisa: até o ar deixa O. com tesão. Ela abre a calça jeans, desliza os dedos para baixo e começa a tocar uma siririca.
Típico de Chon, pensa O. — embora ela esteja quase além da razão, por causa do superbagulho e do grelo crescendo —, ele prefere ficar sentado lá vendo sexo pixelado a comer uma mulher de verdade ali do lado, se satisfazendo com a mão.
— Vem me comer — ela se ouve dizendo.
Chon levanta da cadeira devagar, como se fosse uma provação. Fica em pé na frente dela, olhando durante alguns segundos. O. iria agarrá-lo e o puxaria para perto, mas uma de suas mãos está ocupada, e ele parece longe demais. Ele finalmente abre a calça e sim, pensa ela, você, o maioral, mestre zen deslocado e comedor de Ash, você está duro que nem diamante.
Ele começa tranquilo e controlado, cuidadoso, como se seu pau fosse um taco de sinuca e ele estivesse planejando suas jogadas, mas depois de um tempo passa a trepar com raiva, bam, bam, bam , como se atirasse nela. Joga os ombros pequenos de O. contra o braço do sofá.
Ele tenta expulsar a guerra de dentro de si, movendo o quadril como se ele pudesse sumir com as imagens, como se as cenas ruins fossem sair com sua porra, mas isso não vai acontecer não vai acontecer não vai acontecer não vai acontecer embora ela faça sua parte levante o quadril e balance como se tentasse arrancá-lo de dentro da gruta de samambaias essa máquina invasora derrubando sua floresta tropical sua selva úmida e escorregadia.
Enquanto ela goza…
Oh, oh, oh.
Oh, oh, ohhhhh…
O!


4

Quando ela acorda…
… mais ou menos…
Chon está sentado à mesa da sala de jantar, ainda olhando para o laptop, mas limpando peças complexas de uma arma desmontada sobre uma toalha de praia. Porque Ben ficaria louco se Chon sujasse de óleo a mesa ou o carpete. Ben é chato com as coisas dele. Chon diz que ele parece mulher, mas Ben vê de outra forma. Tudo o que é legal representa um risco — plantar e distribuir hidro.
Embora Ben não apareça há meses, Chon e O. ainda tomam cuidado com as coisas dele.
O. espera que as peças da arma não signifiquem que Chon esteja se preparando para voltar ao I-Rock-and-Roll, como ele chama. Voltou duas vezes desde que saiu das Forças Armadas, em uma dessas empresas de segurança privada irregulares. Como ele diz, volta com a alma vazia e a conta bancária cheia.
E é basicamente por isso que ele vai.
A gente vende as habilidades que tem.
Chon terminou a escola, entrou para a Marinha e enveredou pelo caminho da academia das forças especiais de fuzileiros navais. A quase 100 quilômetros ao sul dali, em Silver Strand, eles usaram o oceano para torturá-lo. Fizeram-no deitar de costas em um mar gelado de inverno enquanto as ondas o cobriam (afogamento simulado era apenas parte do treinamento, meus amigos, procedimento padrão). Colocaram troncos pesados em seus ombros e o obrigaram a subir correndo dunas de areia e entrar no oceano até ficar com água na altura das coxas. Obrigaram-no a mergulhar e a prender a respiração até ele achar que os pulmões iriam explodir. Fizeram tudo o que conseguiram imaginar para levá-lo a jogar a toalha e sair — só não sacaram que Chon gostava da dor. Quando finalmente se deram conta desse fato doentio, ensinaram-no a fazer tudo o que um homem verdadeiramente louco e loucamente atlético podia fazer em H2O.
Mandaram-no para a Istãolândia.
O Afeganistão.
Onde…
Tem areia, tem neve, não tem oceano.
O talibã não surfa.
Nem Chon; ele odeia essa merda falsamente legal, sempre gostou de ser o único cara hétero em Laguna que não surfava, e só achou engraçado terem gastado seis dígitos treinando-o a fim de transformá-lo no Aquaman para depois o mandarem para um lugar sem água.
Ah, bem, as guerras se fazem onde se consegue encontrá-las.
Chon passou por dois períodos de serviço, depois saiu. Voltou a Laguna para…
Para…
Hã…
Para…
Nada.
Não havia nada para Chon fazer. Nada que ele quisesse, ao menos. Poderia ter virado salva-vidas, mas não queria ficar sentado em uma cadeira alta vendo turistas alimentando seus melanomas. Um capitão da reserva da Marinha deu a ele uma chance de vender iates, mas Chon não conseguia vender coisas e odiava barcos, então aquilo não funcionou. Assim, quando o recrutador da empresa o procurou, Chon estava disponível.
Para ir para I-Rock-and-Roll.
Merda suja, muito suja, naqueles dias pré-Levante, com sequestros, decapitações, bombas caseiras e melões sendo explodidos. O trabalho de Chon era impedir que essas merdas acontecessem com os clientes, e se a melhor defesa é o ataque, bem…
Era o que tinha que ser.
E na verdade, com a mistura certa de hidro, anfetamina, hidrocodona e oxicodona, era um videogame bastante legal — IraqueBox —, e dava para conseguir muitos pontos no meio da zona xiita-sunita-al-Qae-da na Mesopotâmia se não se pensasse muito particularmente naquelas particularidades.
O. diagnosticou Chon com FTEPT.
Falta de Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Ele diz que não tem pesadelos, ansiedade, flashbacks, alucinações ou culpa.
— Eu não fiquei transtornado, e não houve trauma — insistia Chon.
— Deve ter sido a droga — opinou O.
A droga é uma coisa boa, concordou Chon.
A droga teoricamente é ruim, mas em um mundo ruim é algo bom se você sacar a polaridade moral invertida disso. Chon se refere a drogas como uma “resposta racional à insanidade”, e seu uso crônico do crônico é uma resposta crônica à insanidade crônica.
Isso gera equilíbrio, acredita Chon. Em um mundo fodido, você tem que ser fodido,
ou você…
                  acaba…
                                    caindo…


5

O. levanta a calça jeans, vai até a mesa e olha para a arma, ainda em pedaços sobre a toalha de praia. As peças de metal são bonitas em sua precisão engenhosa.
Como já foi observado, O. gosta de ferramentas poderosas.
Exceto quando Chon está limpando uma com concentração profissional, ainda que esteja olhando para uma tela de computador.
Ela espia por sobre o ombro dele para descobrir o que é tão bom.
Espera ver alguém fazendo boquete, alguém recebendo um boquete, porque não há dar sem receber, nem receber sem o dar no que diz respeito a chupadas.
Vai com calma.
Porque o que ela vê é isto:
No que parece ser o interior de um armazém, uma câmera percorre lentamente uma fila de sete cabeças cortadas e colocadas no chão. Os rostos — todos masculinos, com cabelo preto desgrenhado — apresentam expressões de choque, lamento, dor e até resignação. Então a câmera vira para a parede, onde os troncos dos corpos decapitados pendem, bem-arrumados, em ganchos, como se as cabeças os houvessem guardado no armário antes de ir para o trabalho.
O vídeo não tem som, nenhuma narração, apenas o ruído leve da câmera e de quem a carrega.
Por alguma razão, o silêncio é tão brutal quanto as imagens.
O. segura o vômito que sente se contorcer em sua barriga. Mais uma vez, como já foi dito, esta não é uma garota que curta vomitar. Quando recupera um pouco de ar, ela olha para a arma, olha para a tela e pergunta:
— Você vai voltar para o Iraque?
Chon balança a cabeça.
Não, responde ele, Iraque não.
San Diego.


6

Ai meu Deus.
Vc tá pronto pra…
Pornô de decapitação?
Imagine.
Pornô gay de decapitação?!
O. sabe que Chon é seriamente perturbado — não, ela sabe que Chon é seriamente perturbado —, mas não tão perturbado a ponto de gozar vendo caras tendo suas cabeças cortadas, como naquele programa de TV sobre o rei britânico, que toda mulher que ele come acaba tendo a cabeça cortada. (Moral do programa: se você se jogar de cabeça no sexo — hehe —, ele acha que você é uma puta e acaba com você. Ou: Sexo = Morte.)
— Quem mandou isso para você? — pergunta O.
É viral, está no YouTube, o vídeo obrigatório do dia? MySpace, Facebook (não, isso não é engraçado), Hulu? É o que todo mundo está vendo hoje, mandando para os amigos, você tem que ver isso?
— Quem mandou isso para você? — insiste ela.
— Selvagens — responde Chon.


7

Chon não fala muito.
As pessoas que não o conhecem acham que é por falta de vocabulário. Mas a verdade é o oposto: Chon não usa muitas palavras por gostar demais delas. Ele as valoriza, então tende a guardá-las para si.
— É como pessoas que gostam de moedas de 25 centavos — explicou O., uma vez.
— As pessoas que gostam de moedas de 25 centavos odeiam gastar moedas de 25 centavos. Então sempre têm muitas moedas de 25 centavos.
Bem, na ocasião ela estava doidona.
Mas não errada.
Chon sempre tem muitas palavras na cabeça, só não costuma deixá-las saírem pela boca.
Por exemplo, “selvagem”.
Singular de “selvagens”.
Chon se sente intrigado com o substantivo em comparação com o adjetivo, a galinha e o ovo, a causa e o efeito dessa etimologia específica. Esse enigma (essa é uma palavra foda) surgiu de uma conversa que ele escutou em Istãolândia. O. tema era Fundamentalistas que jogaram ácido nos rostos de garotinhas pelo pecado de irem à escola.
Eis a cena de que Chon se lembra:

EXT. BASE DE EQUIPE SEAL — DIA
Um grupo de Seals — exaustos por causa do tiroteio — se reúne ao redor de um pote de café em uma mesa bagunçada.

MÉDICO DA EQUIPE SEAL
(chocado, atônito)
Como as pessoas podem fazer algo tão… selvagem?

LÍDER DA EQUIPE SEAL
(calejado)
Fácil: eles são selvagens.

                                                                                                                  CORTA PARA:


8

Chon descobre o que é o vídeo: videoconferência.
Na qual o Cartel de Baja estabelece os seguintes pontos para negociação:
1 — Vocês não vendem sua hidro no varejo.
2 — Nós vendemos sua hidro no varejo.
3 — Vocês nos vendem sua hidro no atacado, por um preço.
4 — Ou…
                                                      … vamos ao vídeo.

Nesse esclarecedor recurso visual (ferramenta educacional) vemos cinco excomerciantes de drogas, anteriormente da região metropolitana de Tijuana/San Diego, que insistiram em oferecer a versão no varejo de seu produto em uma contravenção a nossas exigências previamente apresentadas, e quatro ex-policiais mexicanos, anteriormente de Tijuana, que davam proteção a eles (ou não, como parece ser o caso).
Esses caras eram completamente imbecis.
Acreditamos que vocês sejam muito mais espertos.
Assistam ao vídeo e aprendam.
Não nos obriguem a fazer ao vivo.


9

Chon explica isso a O.
O Cartel de Baja, com sede empresarial em Tijuana, exporta por terra, mar e ar um volume do cacete de erva, coca, heroína e metanfetamina para os EUA. Originalmente eles controlavam apenas o próprio contrabando pela fronteira e deixavam o varejo para os outros. Mas nos últimos anos começaram a integrar verticalmente todas as facetas do negócio, de produção e transporte até promoção e vendas.
Conseguiram isso com relativa facilidade em relação à heroína e à cocaína, mas tiveram que superar resistências iniciais das gangues norte-americanas de motociclistas que controlavam o negócio de metanfetaminas.
As gangues de moto logo se cansaram de fazer funerais grandiosos (já viu quanto custa a cerveja hoje em dia?) e concordaram em integrar a equipe de vendas do CB, e médicos de emergência dos Estados Unidos ficaram satisfeitos, pois a produção de metanfetamina havia sido padronizada, e, dessa forma, eles saberiam quais sintomas bioquímicos esperar quando as vítimas de overdose chegassem.
Contudo, as vendas das três drogas anteriormente mencionadas caíram drasticamente. Há um persistente fator darwiniano, em especial no uso da metanfetamina, com seus usuários morrendo ou tendo morte cerebral tão rapidamente que não conseguem descobrir onde comprar o produto. (Se você acha que odeia junkies, é porque ainda não conhece os tweekers, viciados em metanfetamina. Eles fazem os junkies parecerem John Wooden.) E embora a heroína pareça estar sofrendo uma recuperação árdua, mas perceptível, o CB ainda precisa compensar os lucros em queda para manter os acionistas satisfeitos.
Então, agora o cartel quer controlar todo o mercado de maconha e eliminar a concorrência dos produtores familiares de hidro no sul da Califórnia.
— Como Ben e Chonny — diz O.
Chon confirma com um aceno de cabeça.
O cartel deixará que permaneçam no negócio apenas se venderem unicamente para o cartel, que então ficará com a grande margem de lucro.
— Eles são o Walmart — diz O.
(Já mencionamos que O. não é burra?)
Eles são o Walmart, concorda Chon, e se organizaram horizontalmente de modo a oferecer uma grande variedade de produtos: vendem não apenas drogas, mas seres humanos para os mercados de trabalho e de sexo, e recentemente entraram no lucrativo ramo de sequestros.
Mas isso não é relevante para esta discussão ou o vídeo em questão, o qual ilustra claramente que…
Ben e Chonny podem escolher entre
De Acordo
Ou
De Capitação.


10

— Você vai fazer o acordo? — pergunta O.
— Não — bufa Chon.
Ele desliga o laptop e começa a remontar a bela arma.

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