sexta-feira, 31 de maio de 2013

Uma Princesa de Marte - 23° Capítulo

Capítulo 23 - PERDIDO NO CÉU


Sem dificuldades para me esconder, apressei-me para as cercanias de nossos alojamentos, onde eu tinha certeza de que encontraria Kantos Kan. Ao me aproximar da construção, tornei-me mais cuidadoso porque julguei - acertadamente - que o lugar estaria sendo vigiado. Diversos homens em metais civis vadiavam perto da entrada central e o mesmo acontecia nos fundos. Meu único meio de alcançar o último andar onde ficavam nossos alojamentos era através do edifício adjacente e, depois de uma manobra considerável, consegui chegar ao telhado de uma loja várias portas adiante. Saltando de telhado em telhado, logo alcancei uma janela aberta no edifício onde esperava encontrar o heliumita. No momento seguinte eu estava parado à sua frente, dentro do cômodo. Ele estava sozinho e não demonstrou surpresa com minha chegada, dizendo que estava me esperando, pois meu turno já devia ter acabado há algum tempo. Percebi que ele não sabia dos eventos do dia no palácio e, quando o coloquei a par, ficou completamente excitado. A notícia de que Dejah Thoris havia prometido sua mão a Sab Than o preencheu de pavor.
- Não pode ser - exclamou. - É impossível! Ora, qualquer homem em toda a Helium preferiria morrer a entregar nossa amada princesa à dinastia de Zodanga. Ela deve ter enlouquecido para ter concordado com uma barganha tão atroz. Você, que agora sabe o quanto nós de Helium amamos nossa dinastia, não pode imaginar com que horror contemplo essa aliança maldita. O que pode ser feito, John Carter? - ele continuou. - Você é um homem de recursos. Não consegue pensar em um meio de salvar Helium da desgraça?
Se eu puder chegar a uma distância de Sab Than que minha espada alcance - respondi -, posso resolver a dificuldade que preocupa Helium. Mas, por razões pessoais, preferiria que outro desferisse o golpe que libertará Dejah Thoris. Kantos Kan me observou atentamente antes de falar:
Você a ama! - ele disse. - Ela sabe disso?
Ela sabe, Kantos Kan, e me repele simplesmente por causa de sua promessa a Sab Than.
A esplêndida figura levantou-se num salto e, me puxando pelo ombro, ergueu sua espada para o alto, exclamando: Se a decisão dependesse de mim, não teria escolhido um companheiro mais adequado para a primeira princesa de Barsoom. Eis aqui minha mão em seu ombro, John Carter, e minha palavra de que Sab Than sucumbirá pela ponta de minha espada, pelo amor que guardo por Helium, por Dejah Thoris e por você. Nesta mesma noite tentarei chegar até seus aposentos no palácio.
Como? - perguntei. - Ele está fortemente guardado e uma força quádrupla patrulha os céus.
Ele pendeu sua cabeça, pensativo por um momento, e então a levantou em sinal de confiança: Preciso apenas passar pelos guardas para fazê-lo - disse finalmente. - Conheço uma entrada secreta para o palácio através do pináculo da torre mais alta. Descobri essa passagem por acaso, quando estava em turno de patrulha voando sobre o palácio. Nesse trabalho é preciso que investiguemos qualquer ocorrência fora do comum, e um rosto espiando do pináculo mais alto era, para mim, fora do comum. Assim, me aproximei e descobri que o dono daquele rosto era ninguém menos que Sab Than. Ele ficou irritado por ter sido visto e ordenou que eu guardasse o fato somente para mim, explicando que aquela passagem da torre levava diretamente aos seus aposentos, e que somente ele sabia de sua existência. Se eu conseguir chegar ao telhado do quartel e pegar meu aeroplano, estarei no quarto de Sab Than em cinco minutos. Mas como posso escapar deste prédio se está tão vigiado como você diz?
Quão bem guardados são os hangares das máquinas? - perguntei.
Normalmente há apenas um homem em serviço durante a noite.
-Vá para o telhado deste prédio, Kantos Kan, e me espere lá. Sem parar para explicar meus planos, refiz meu caminho para a rua e me apressei para os galpões. Não ousei entrar no prédio, cheio como estava de membros do esquadrão de patrulha aérea que, assim como toda a Zodanga, procuravam por mim. O prédio era enorme, na retaguarda de um soberbo pico que se elevava trinta metros para o céu. Poucas construções em Zodanga eram mais altas que esses hangares, apesar de outras serem algumas dezenas de metros mais altas. Os atracadouros das grandes belonaves enfileiradas ficavam a quarenta e cinco metros do chão, ao passo que as estações de cargas e passageiros das esquadras mercantes se erguiam quase tão alto. Era uma longa escalada pela face lateral do prédio, e repleta de perigos. Mas não havia outro meio, e assim ensaiei a tarefa. O fato de a arquitetura barsoomiana ser extremamente ornamentada fez a missão ser muito mais simples do que o esperado, com suas reentrâncias e projeções enfeitadas formando uma escada perfeita por todo o caminho até o beiral do telhado do prédio. Ali, encontrei meu primeiro obstáculo real. A beira se projetava quase seis metros para além da parede na qual eu me segurava, e embora eu tivesse circulado o grande edifício, não encontrei nenhuma abertura através dela.
A cobertura estava acesa e forrada de soldados entretidos em seus passatempos. Portanto, eu não podia chegar ao telhado pelo edifício. Havia uma pequena e desesperada chance, a qual decidi arriscar; e qualquer homem que já viveu arriscaria mil mortes por alguém como Dejah Thoris. Agarrando-me à parede com os pés e uma mão, soltei uma das longas tiras de couro de meus paramentos. Em sua extremidade pendia um grande gancho usado pelos marinheiros para se pendurar nas laterais e no casco de suas naves quando reparos eram necessários e com os quais os grupos de aterrissagem descem das naves até o chão. Girei o gancho cuidadosamente e lancei-o até o telhado por várias vezes até que ele encontrasse um encaixe. Gentilmente o puxei para que ficasse mais bem fixado, mas eu não podia saber se aguentaria o peso de meu corpo. O gancho poderia estar preso em falso e escorregar, lançando- me para o pavimento trinta metros abaixo. Hesitei por um instante e depois, soltando-me do ornamento na parede, lancei-me no espaço segurando a ponta da tira. Muito abaixo de mim repousavam as ruas lindamente iluminadas, os duros pavimentos e a morte.
Houve um pequeno solavanco no topo onde o gancho se prendia e um traiçoeiro escorregão, com um rangido áspero que me congelou em apreensão. Então, o gancho se firmou e eu estava a salvo. Escalando rapidamente até o topo, agarrei-me no beiral e me projetei para a superfície do telhado acima. Assim que fiquei em pé, fui confrontado pelo sentinela em serviço, o qual encontrei ao encarar o cano de seu revólver.
Quem é você e de onde veio? - gritou.
Sou um patrulheiro aéreo, amigo, e por muito pouco não estou morto também. Escapei por pura obra do acaso de cair na avenida lá embaixo - respondi.
Mas como você chegou até o telhado, homem? Ninguém aterrissou ou decolou do prédio na última hora. Vamos, explique- -se ou chamarei a guarda.
-Venha olhar aqui, sentinela, e verá como cheguei e o quão pouco faltou para que eu não chegasse - respondi virando-me para a beira do telhado onde, seis metros abaixo, na ponta de minha tira, estavam amarradas todas as minhas armas.
O camarada, agindo pelo impulso da curiosidade, deu um passo para o meu lado e outro para sua desgraça. Quando ele se inclinou para espiar por sobre o beiral, agarrei-o pela garganta e pelo braço da pistola, arremessando-o pesadamente sobre o telhado. A arma soltou-se de sua mão e meus dedos abafaram sua tentativa de gritar por ajuda. Eu o amordacei e amarrei para depois pendurá-lo na mesma beirada do telhado onde eu estava pendurado momentos antes. Eu sabia que o descobririam somente pela manhã, e todo tempo que eu pudesse ganhar seria precioso. Vestindo meus paramentos e armas, apressei-me para os galpões e logo havia trazido para fora minha máquina e a de Kantos Kan. Amarrando a dele atrás da minha, liguei meu motor e planei sobre a borda do telhado para mergulhar sobre as ruas da cidade bem abaixo da altitude habitual da patrulha do ar. Em menos de um minuto pousava em segurança sobre o telhado de nosso apartamento diante de um Kantos Kan estupefato. Não perdi tempo com explicações e me pus rapidamente a discutir nossos planos para o futuro imediato. Ficou decidido que eu tentaria chegar a Helium enquanto Kantos Kan entraria no palácio para dar cabo de Sab Than. Se fosse bem-sucedido, ele deveria seguir meus passos. Ele ajustou a minha bússola, um engenhoso e pequeno apetrecho que indica permanentemente um determinado ponto fixo em toda a superfície de Barsoom. Despedimo-nos e alçamos vôo juntos, acelerando na direção do palácio que ficava na rota que eu deveria tomar para chegar a Helium. Ao nos aproximarmos da alta torre, a patrulha atirou em nós de cima para baixo, jogando a luz de seu ferino holofote em cheio sobre minha aeronave. Uma voz rugiu um comando de parada, seguido por um tiro pelo fato de eu ignorar o aviso. Kantos Kan mergulhou rapidamente para a escuridão enquanto eu subia constantemente a uma incrível velocidade rasgando os céus marcianos, perseguido por uma dúzia de naves de patrulha aérea unida em minha perseguição. Logo em seguida, um cruzador ligeiro levando cem homens e lima bateria de armas de fogo rápido se juntou a eles. Ziguezagueando minha pequena máquina, ora para cima, ora para baixo, consegui despistar seus holofotes na maior parte do tempo, mas também estava perdendo terreno com essa tática, e assim decidi arriscar tudo em um curso direto, deixando o resultado nas mãos do destino e da velocidade de minha máquina. Kantos Kan havia me ensinado um truque com a transmissão de marchas, conhecido apenas pela armada de Helium, que aumentava em muito a velocidade de nossas naves. Assim, me senti seguro em poder me distanciar de meus perseguidores se conseguisse desviar dos projéteis por mais alguns momentos.
Ao acelerar através do ar, o zumbido das balas ao meu redor me convenceu de que somente um milagre me faria escapar, mas a sorte já estava lançada. Coloquei a nave a toda velocidade e risquei uma linha reta em minha rota na direção a Helium. Gradualmente, deixei meus perseguidores mais e mais para trás, e já estava comemorando sozinho minha fuga quando um tiro certeiro do cruzador explodiu na proa de minha pequena nave. O impacto quase a fez emborcar, mas com um atordoante mergulho ela começou a cair pela escuridão da noite. O quanto eu caí antes de retomar o controle do aeroplano não saberia dizer, mas devia estar bem próximo ao chão quando comecei a subir novamente, porque pude ouvir claramente os ruídos dos animais logo abaixo. Novamente em rota ascendente, vasculhei os céus em busca de meus perseguidores e finalmente divisei suas luzes muito atrás de mim. Vi que estavam pousando, evidentemente à minha procura. Não arrisquei acender a pequena lâmpada de minha bússola antes que suas luzes não pudessem mais ser vistas. Para minha consternação, um fragmento do projétil havia danificado completamente meu único guia, assim como meu velocímetro. Era verdade que eu podia seguir as estrelas na direção de Helium, mas sem saber a exata localização da cidade ou a velocidade com que estava viajando, minhas chances de achá-la eram ínfimas. Helium fica a mil e seiscentos quilômetros a sudoeste de Zodanga, e com a bússola intacta eu teria chances de completar a jornada, exceto por algum acidente, dentro de quatro ou cinco horas. Da forma como as coisas aconteceram, a manhã me encontrou voando sobre a vastidão de um fundo de mar morto depois de seis horas de vôo contínuo a grande velocidade. Nesse momento, uma grande cidade apareceu sob mim, mas não era Helium, porque somente ela - de todas as metrópoles barsoomianas - possui duas imensas cidades circulares e muradas, separadas por cento e vinte quilômetros, o que seria fácil para mim distinguir da altura na qual voava.
Acreditando que eu havia ido longe demais para o norte e para o oeste, dei meia-volta na direção sudeste, passando no decorrer da manhã por várias grandes cidades, mas nenhuma que lembrasse a descrição que Kantos Kan havia feito de Helium. Além da formação de cidade-gêmea, Helium tem outra característica marcante, que são suas duas imensas torres: uma, de um vermelho vivido, ergue-se quase um quilômetro e meio para os céus, bem do centro de uma das cidades; a outra, de um amarelo brilhante e da mesma altura, simboliza sua irmã.

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