Tuesday, 14 May 2013

Uma princesa de Marte - 9° Capítulo


Capítulo 09 - EU APRENDO O IDIOMA

Quando me recuperei, olhei para Sola, que havia testemunhado o encontro, e fiquei surpreso ao notar a estranha expressão em seu semblante normalmente inexpressivo. O que ela estava a pensar, eu não saberia dizer por ainda ter aprendido muito pouco do idioma marciano - apenas o suficiente para satisfazer minhas necessidades diárias. Ao alcançar o portal do edifício, uma estranha surpresa me esperava. Um guerreiro se aproximou carregando armas, ornamentos e equipamentos como os seus. Ele os ofereceu a mim com algumas palavras ininteligíveis e uma atitude ao mesmo tempo respeitosa e ameaçadora.
Mais tarde, Sola, com a ajuda de várias outras mulheres, remodelou os ornamentos para que servissem minhas proporções menores e, após completarem o trabalho, pude sair vestido com todo o meu arsenal para a guerra. A partir de então, Sola me instruiu nos mistérios das diversas armas, e passei várias horas, todos os dias, praticando na praça com os jovens marcianos. Eu ainda não era proficiente em todas elas, mas minha grande familiaridade com as armas da Terra tornou-me um pupilo mais apto que o comum, progredindo de uma maneira muito satisfatória.
Meu treinamento e o dos jovens marcianos era conduzido exclusivamente pelas mulheres, que não apenas cuidavam da educação nas artes da defesa e do ataque pessoais, mas também eram responsáveis pelo artesanato que produz todos os artigos manufaturados usados pelos marcianos verdes. Elas fazem a pólvora, os cartuchos, as armas de fogo. Na verdade, tudo o que carrega algum valor é produzido pelas fêmeas. Nos tempos de guerra, elas formam parte da reserva e, quando a necessidade aparece, lutam com inteligência e ferocidade até superior às dos homens. Os homens são treinados nos ramos mais altos da arte da guerra, em estratégia e manobras de grandes números de tropas. Eles fazem leis quando necessárias, uma nova a cada emergência. Eles são livres de precedentes para a aplicação da justiça. Costumes tornaram-se tradições após eras de repetições, mas a punição por ignorar um costume é motivo de tratamento diferenciado pelo júri formado pelos pares do acusado - e devo dizer que a justiça raramente erra o alvo, mas parece reger em razão inversa perante a ascensão da lei. Pelo menos em um aspecto os marcianos são um povo mais feliz: eles não têm advogados.
Não vi a prisioneira novamente por vários dias após nosso primeiro encontro, até avistá-la de relance enquanto era conduzida para a grande câmara de audiências na qual eu havia tido minha primeira entrevista com Lorquas Ptomel. Não pude deixar de notar a grosseria e a brutalidade desnecessária com que suas guardas a tratavam, tão diferente da bondade quase maternal que Sola demonstrou por mim, e a atitude respeitosa dos poucos marcianos verdes que se importaram em notar minha existência. Percebi nas duas ocasiões em que a havia visto que a prisioneira trocava palavras com suas guardas, e isso me convenceu de que elas conversavam, ou pelo menos conseguiam se fazer entender por alguma linguagem em comum. Com esse incentivo extra, enlouqueci Sola com meus pedidos para que apressasse minha educação e, em questão de dias, eu havia dominado o idioma marciano suficientemente bem a ponto de manter uma conversa aceitável e de compreender completamente quase tudo o que ouvia. Nesse período, nossos dormitórios foram ocupados por três ou quatro fêmeas e um casal de jovens recentemente saídos do ovo, além de Sola e seu jovem protegido, eu e Woola, o cão. Após terem se recolhido para a noite, era costume dos adultos levar uma conversa descontraída antes de caírem no sono, e agora que eu podia entender sua língua, era sempre um afiado ouvinte, embora nunca proferisse minhas próprias observações.
Na noite seguinte à visita da prisioneira à câmara de audiência, a conversação finalmente recaiu sobre esse assunto. Na hora, fiquei todo ouvidos. Eu temia perguntar a Sola sobre a bela cativa, pois não podia me furtar à memória da estranha expressão que notei em seu rosto quando de meu primeiro encontro com ela. Eu não saberia dizer se ela denotava ciúmes, mas julgando as coisas por padrões mundanos, como ainda fazia, achei mais seguro fingir indiferença sobre o assunto até que eu pudesse definir com mais certeza a atitude de Sola em relação ao meu objeto de solicitude. Sarkoja, uma das mulheres mais velhas que dividia nosso domicílio, estivera presente na audiência como uma das guardas da cativa, e foi para ela que a pergunta foi dirigida.
Quando vamos nos deliciar com o derradeiro sofrimento da vermelha? - perguntou uma das mulheres. - Ou será que Lorquas Ptomel, jed, pretende mantê-la como refém? Eles decidiram levá-la conosco de volta a Thark e exibi-la agonizar nos grandes jogos perante Tal Hajus - respondeu Sarkoja.
Qual seria um meio de libertá-la? - perguntou Sola. - Ela é tão pequena, tão linda. Eu esperava que fossem mantê-la como refém.
Sarkoja e as outras mulheres rosnaram enraivecidas diante dessa evidência de fraqueza da parte de Sola. É triste, Sola, que você não tenha nascido um milhão de anos atrás - disparou Sarkoja -, quando todos os espaços ocos da terra eram cheios de água e as pessoas eram tão leves quanto o material sobre o qual velejavam. Hoje, nós progredimos a um ponto em que tais sentimentos indicam fraqueza e atavismo. Não será bom permitir que Tars Tarkas saiba que você guarda tais sentimentos degenerados porque temo que assim ele não confiaria a alguém como você as sérias responsabilidades da maternidade.
- Não vejo nada de errado com minha expressão de interesse por essa mulher vermelha - retorquiu Sola. - Ela nunca nos machucou ou nos machucaria, caso caíssemos em suas mãos. São somente os homens de sua espécie que guerreiam conosco, e sempre achei que essa atitude deles nada mais é do que o reflexo das nossas para com eles. Eles vivem em paz com todos os seus, exceto quando recai sobre eles o dever da guerra, enquanto não estamos em paz com ninguém. Guerreando infinitamente entre nossa própria espécie, assim como com os homens vermelhos. Mesmo em nossas comunidades, os indivíduos lutam entre si. Oh, vivemos um período contínuo de terrível carnificina desde o momento em que quebramos a casca até abraçarmos alegremente o seio do rio do mistério, o escuro e ancestral Iss, que nos leva a uma existência desconhecida, mas não mais esta, assustadora e terrível!
Bem-aventurado é aquele que encontra seu fim na morte precoce. Diga o que quiser a Tars Tarkas, pois não poderá me dar pior destino do que a continuação da abominável existência que somos forçados a ter nesta vida.
A repentina explosão por parte de Sola surpreendeu e chocou bastante as outras mulheres. Tanto que, após algumas poucas palavras de censura geral, elas se silenciaram e logo estavam adormecidas. Se o episódio havia servido para alguma coisa, no mínimo me assegurou da simpatia de Sola para com a pobre garota, além de me convencer de que eu havia sido extremamente afortunado ao cair em suas mãos, e não nas das outras fêmeas. Eu sabia que Sola se afeiçoara a mim, e agora que havia descoberto sua aversão à crueldade e à barbárie, estava confiante de que podia contar com sua ajuda para que eu e a cativa escapássemos, caso tal possibilidade estivesse ao seu alcance. Eu sequer sabia que havia um lugar melhor para o qual escapar, mas estava disposto a arriscar minhas chances entre pessoas com formas mais parecidas com as minhas do que continuar mais tempo entre os repugnantes e sanguinários homens verdes de Marte. Mas para onde ou como ir era uma incógnita para mim, assim como a antiga busca pela fonte da vida eterna o era para os terráqueos desde a aurora do tempo. 
Decidi que na primeira oportunidade eu confidenciaria meus planos a Sola e pediria abertamente que me ajudasse. Com essa decisão fortemente tomada, me virei sobre minhas sedas e peles e dormi o sono pesado e revigorante de Marte.

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