segunda-feira, 13 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 8° Capítulo


Capítulo 08 - UMA BELA CATIVA VINDA DO CÉU


No terceiro dia após a cerimônia da incubadora, nos colocamos a caminho de casa, mas mal a ponta do cortejo havia desembocado no campo aberto diante da cidade, foram dadas ordens para um retorno imediato. Mesmo treinados por anos através dessa evolução singular, os marcianos verdes derreteram como
bruma nas amplas passagens perto dos edifícios até que, em menos de três minutos, toda a caravana de carruagens, mastodontes e guerreiros montados havia sumido de vista.
Sola e eu entramos em um edifício na frente da cidade. Na verdade, era o mesmo no qual eu havia tido meu encontro com os macacos e, desejando entender o que causara tão repentina retirada, subi a um andar mais alto e espreitei pela janela sobre o vale e colinas à frente. E então vi a causa de sua pressa em se esconder. Uma grande embarcação longa, próxima ao solo e pintada de cinza, balançava sobre o topo da colina mais próxima. Seguindo-a, vinha outra, e outra, e outra, até que vinte delas, guinando baixo sobre o solo, navegavam vagarosa e majestosamente em nossa direção. Cada uma trazia uma estranha bandeira tremulando da roda da proa à popa, acima das estruturas do convés, e sobre a proa de cada uma delas estava pintado um bizarro desenho que brilhava sob a luz do sol e podia ser visto com bastante clareza na distância que nos separava das embarcações. Eu podia ver figuras infestando os conveses posteriores e nas estruturas das naves. Eu não saberia dizer se eles haviam nos descoberto ou se apenas olhavam para a cidade deserta, mas, de qualquer maneira, receberam uma recepção hostil.
Repentinamente e sem aviso, os guerreiros verdes marcianos dispararam uma salva de artilharia das janelas dos edifícios que encaravam o pequeno vale através do qual os grandes navios avançavam pacificamente. Instantaneamente a cena mudou, como que por mágica.
A embarcação mais à frente pendeu de través em nossa direção e, ativando suas armas, retornou nosso fogo ao mesmo tempo em que se movia paralelamente à nossa dianteira por algum tempo, e então nos deu as costas na evidente intenção de completar um grande círculo que a traria novamente a uma posição mais avessa à nossa linha de fogo. As outras naves seguiram sua trilha, cada uma disparando sobre nós enquanto se punham em posição. Nosso próprio fogo não diminuiu, e creio que nem um quarto de nossos tiros erravam os alvos. Eu nunca havia visto mira tão precisa e mortal. Parecia que uma pequena figura nos navios caía a cada explosão de nossa munição, enquanto as bandeiras e estruturas do convés se dissolviam em jatos flamejantes sob os projéteis inexoráveis de nossos guerreiros que as esfacelavam.
O fogo vindo dos navios era ineficiente devido, depois vim à saber, à inesperada e repentina rajada inicial, que pegou a tripulação da embarcação despreparada e os aparatos de mira das armas desprotegidos da precisão mortal de nossos guerreiros. Parece que cada guerreiro verde tem certos pontos específicos para mirar seus disparos sob circunstâncias similares de combate. Por exemplo, parte deles, sempre os melhores atiradores de elite, concentram seu fogo inteiramente nos localizadores sem fio ou nos dispositivos de mira das grandes armas de uma força naval hostil; outros atiradores dedicam-se aos oponentes com armas menores; outros escolhem os canhoneiros; e outros, ainda, os oficiais, enquanto diversos destacamentos concentram sua atenção sobre os demais membros da tripulação, sobre as estruturas do convés e sobre o mecanismo dos lemes e dos propulsores.
Vinte minutos depois da primeira saraivada, a grande frota desviou sua rota para a direção de onde havia vindo anteriormente. Vários dos veículos estavam claramente avariados, parecendo estar parcamente sob o controle de suas tripulações depauperadas. Sua artilharia havia cessado completamente e todas as suas energias pareciam concentradas na fuga. Nossos guerreiros, então, se apressaram para as lajes dos edifícios que ocupavam e seguiram a armada batendo em retirada com uma fuzilaria de fogo mortal. Um a um, contudo, os navios conseguiram se esconder além do topo das colinas a distância até que somente uma última nave avariada podia ser vista. Esta havia recebido a força principal de nosso ataque e parecia estar completamente à deriva, uma vez que nenhuma figura viva estava visível em seu convés.
Lentamente ela se desviou de seu curso, fazendo a volta em nossa direção de maneira errática e patética. Instantaneamente, os guerreiros cessaram fogo, pois era evidente que a embarcação estava completamente indefesa e, longe de representar qualquer perigo a nós, não podia sequer controlar-se o suficiente para escapar. À medida que ela se aproximava da cidade, os guerreiros correram ao seu encontro na planície, mas era claro que ela ainda estava alta demais para que pudessem alcançar seus deques. Eu tinha um ponto de visão privilegiado de minha janela e podia ver os corpos da tripulação espalhados, embora não pudesse deduzir que tipo de criaturas eram. Sequer um sinal de vida se manifestou sobre ela enquanto flutuava lentamente pela brisa em direção sudeste. Ela flutuava a aproximadamente quinze metros acima do chão, seguida por cerca de cem guerreiros que foram ordenados a voltar às lajes para cobrir um eventual retorno da frota ou de seus reforços. Logo ficou evidente que ela se chocaria contra as construções a mais ou menos um quilômetro e meio ao sul de nossa posição e, enquanto eu observava o progresso da aproximação, vi uma porção de guerreiros a galope mais adiante, desmontando e entrando na construção que parecia destinada ao choque.
Enquanto a nave se aproximava do edifício - e logo antes do golpe -, os guerreiros marcianos preencheram as janelas e suavizaram o choque da colisão com suas grandes lanças. Em questão de momentos, eles já haviam atirado ganchos, prendendo o grande barco que era rebocado para o chão por seus companheiros no solo. Após terem-na firmemente presa, subiram pelas laterais da nave e vasculharam de proa a popa. Eu podia vê-los examinando os marinheiros mortos, procurando por sinais de vida, até que um grupo surgiu dos porões trazendo uma pequena figura entre eles. A criatura era consideravelmente mais baixa que a metade da altura dos guerreiros verdes marcianos, e da sacada onde estava pude ver que caminhava ereta sobre duas pernas. Deduzi que seria uma nova e estranha monstruosidade marciana com a qual eu ainda iria me familiarizar.
Eles levaram seu prisioneiro ao chão e começaram a pilhar sistematicamente a embarcação. Essa operação demandou várias horas, durante as quais um grande número de carruagens foi requisitado para transportar o saque que consistia de armas, munição, sedas, peles, jóias, barcos estranhamente esculpidos em rocha e uma quantidade de comidas sólidas e líquidas, incluindo muitos barris de água - os primeiros que vi desde que cheguei em Marte.
Após o último carregamento ser removido, os guerreiros fizeram amarrações pela nave e a rebocaram para longe no vale, na direção sudoeste. Alguns poucos deles entraram a bordo e se empenharam com dedicação, ao que parecia de minha distante posição, a esvaziar garrafões de ácido sobre os corpos dos marinheiros nos conveses e estruturas da embarcação. Com essa operação concluída, escalaram apressadamente pelos lados, descendo pelos cabos até o chão. O último guerreiro a deixar o deque voltou-se e arremessou algo para trás, sobre o convés, esperando por um instante o resultado de seu ato. Quando uma tímida labareda brotou do local de onde seu objeto foi arremessado, ele saltou pela amurada e rapidamente pousou no chão. Logo após ele ter iniciado o incêndio, os cabos foram soltos simultaneamente e a grande belonave, mais leve após a remoção dos espólios, foi alçada majestosamente para o ar com seus deques e estruturas do convés envoltos em uma massa de chamas uivantes. Vagarosamente ela vagou para sudeste, subindo cada vez mais e mais alto enquanto as chamas consumiam suas peças de madeira e diminuíam ainda mais seu peso. Subindo à laje do edifício, observei por horas a fio até que finalmente ela se perdeu de vista na distância. A visão foi impressionante ao extremo enquanto se contemplava essa imensa pira funerária flutuando, levada pela corrente sem rumo e sem controle pelas solitárias vastidões dos céus marcianos, um navio abandonado de morte e destruição representando a história de vida dessas estranhas e ferozes criaturas carregadas pelas inamistosas mãos do destino.
Bastante deprimido por aquela cena, para mim, incompreensível, desci vagarosamente até a rua. Os atos que eu havia testemunhado pareciam marcar mais a derrota e a aniquilação das forças de um povo irmão do que o embate de nossos guerreiros verdes contra uma horda de criaturas similares, ainda que hostis. Eu não podia compreender a aparente alucinação nem mesmo me livrar dela, mas, em algum lugar nas profundezas de minha alma senti um estranho anseio em relação a esses inimigos desconhecidos; uma forte esperança surgiu em mim dizendo que a frota voltaria e exigiria um acerto de contas com os guerreiros verdes que haviam atacado-a de forma tão desenfreada e cruel. Perto de meu calcanhar, agora seu lugar habitual, vinha Woola, o cão. Quando apareci na rua, Sola correu em minha direção como se eu fosse o objeto de sua busca. A cavalaria estava retornando à praça central e nossa marcha para casa seria protelada para o dia seguinte. Na verdade, a marcha não recomeçaria por mais de uma semana devido ao temor de um contra-ataque da força aérea.
Lorquas Ptomel era um velho guerreiro muito astuto para ser pego de surpresa nos descampados com sua caravana de carruagens e crianças, e assim permanecemos na cidade deserta até que o perigo aparentemente desaparecesse.
Enquanto Sola e eu entrávamos na praça, meus olhos se depararam com uma visão que preencheu todo o meu ser com uma grande e confusa explosão de esperança, medo, exultação e depressão, ainda que a maior parte dessa mistura fosse um sutil senso de alívio e alegria, uma vez que quando nos aproximamos da multidão de marcianos, vislumbrei o prisioneiro da batalha aérea que havia sido rudemente arrastado para dentro de uma construção próxima por uma dupla de fêmeas marcianas verdes.
E a visão que meus olhos captaram era a de uma figura esguia, feminina, similar em todos os detalhes às mulheres terráqueas de minha vida anterior. Ela não me viu de pronto, mas quando estava desaparecendo através do portal do edifício que seria sua prisão, ela se voltou e seus olhos encontraram os meus. Seu rosto era oval e lindo ao extremo, suas feições eram desenhadas com delicadeza e perfeição, seus olhos eram grandes e brilhantes e sua cabeça era encimada por uma massa de cabelos ondulantes e negros como carvão, presos frouxamente em um estranho penteado. Sua pele era de uma tonalidade vermelho-cobre suave contra a qual o brilho escarlate de suas bochechas e o tom rubiáceo de seus lábios belamente moldados ampliavam sua luz, causando um curioso efeito.
Ela estava despida de roupas enquanto as marcianas verdes a acompanhavam. Na verdade, exceto por seus ornamentos ricamente detalhados, ela estava completamente nua, mas nenhum outro aparato poderia aumentar ainda mais a beleza de sua figura perfeita e simétrica. Enquanto seu olhar repousava em meus olhos arregalados de surpresa, ela fez um pequeno sinal com sua mão livre. Um sinal que, obviamente, eu não podia entender.
Nossos olhares se cruzaram por apenas um momento, e então o semblante de esperança e coragem renovada que havia iluminado sua face quando me descobriu desapareceu em pura tristeza aliada a ódio e desprezo. Percebi que não havia respondido ao seu sinal e, ignorante como era aos costumes marcianos, senti intuitivamente que ela havia feito um apelo de ajuda e proteção que minha desgraçada estupidez me privou de atender. E então, arrastada para longe de minha vista, ela foi para as profundezas do edifício deserto.

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