domingo, 12 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 7° Capítulo


Capítulo 07 - CRIANDO FILHOS EM MARTE


Depois de um café da manhã, que foi uma réplica exata da refeição do dia anterior e um indício de praticamente toda refeição que se seguiu enquanto estive com os homens verdes de Marte, Sola me acompanhou até a praça, onde encontrei toda a comunidade engajada em cuidar ou ajudar a arrear as enormes feras mastodônticas às grandes carruagens de três rodas. Havia cerca de duzentos e cinqüenta desses veículos, cada qual puxado por um único animal, sendo que qualquer um deles, pela aparência, poderia facilmente puxar todo o comboio, mesmo que totalmente carregado.
As carruagens eram grandes, confortáveis e ricamente decoradas. Em cada uma estava sentada uma fêmea marciana carregada de ornamentos de metal, com jóias, sedas e peles. Sobre os dorsos de cada uma das bestas que puxavam as carruagens ficava empoleirado um jovem condutor marciano. Como os animais sobre os quais os guerreiros estavam montados, os pesados animais de carga não utilizavam cabresto ou sela, pois eram totalmente guiados por meios telepáticos. Esse poder é maravilhosamente desenvolvido em todos os marcianos, sendo responsável em grande parte pela simplicidade de seu idioma e pelas relativamente poucas palavras trocadas, mesmo em longas conversas. É a linguagem universal de Marte, por meio da qual as formas de vida mais e menos desenvolvidas desse mundo de paradoxos são capazes de se comunicar em um grau maior ou menor, dependendo da esfera intelectual das espécies e do desenvolvimento do indivíduo.
Conforme a procissão assumia a linha de marcha em uma fila única, Sola me arrastou para uma das carruagens vazias e acompanhamos a procissão na direção do ponto através do qual eu havia entrado na cidade no dia anterior. Na cabeceira da caravana cavalgavam algo em torno de duzentos guerreiros, cinco de cada lado, e um número semelhante acompanhava a traseira, enquanto vinte e cinco ou trinta batedores nos flanqueavam em ambos os lados. Todos, homens, mulheres e crianças - menos eu -, estavam pesadamente armados, e na traseira de cada carruagem trotava um cão de caça marciano, minha própria fera seguia de perto a nossa. Na verdade, a fiel criatura nunca me abandonou voluntariamente durante os dez anos que estive em Marte. Nosso caminho passava através do pequeno vale antes da cidade, pelas colinas até o fundo do mar morto, que cruzei em minha jornada da incubadora até a praça. A incubadora, como ficou provado, era o ponto final de nossa jornada nesse dia e, como toda a procissão disparou em um galope enlouquecido assim que atingiu o espaço plano do fundo do mar, logo nosso objetivo estava em nosso campo de visão.
Ao atingir seu destino, as carruagens foram estacionadas com precisão militar nos quatro lados da estrutura e metade dos guerreiros, comandados pelo enorme líder, desmontou e avançou em sua direção. Pude ver Tars Tarkas explicando algo para o líder principal cujo nome, aliás, era, até onde pude traduzir para o inglês, Lorquas Ptomel, jed; sendo jed seu título.
Logo fui informado sobre o objeto de sua conversa já que, chamando Sola, Tars Tarkas gesticulou para que ela me levasse até ele. Nessa ocasião, eu já havia dominado as dificuldades de andar sob condições marcianas e, respondendo rapidamente ao seu comando, avancei para o lado da incubadora no qual estavam os guerreiros. Ao chegar ao seu lado, um breve olhar mostrou-me que todos, exceto alguns poucos, haviam chocado, e a incubadora estava realmente cheia com os pequenos e horrendos demônios. Sua altura variava entre noventa e cento e vinte centímetros, e se moviam sem descanso pela estrutura como que procurando por comida. Quando parei à sua frente, Tars Tarkas apontou para a incubadora e disse "sak". Vi que ele queria que eu repetisse minha apresentação do dia anterior para instrução de Lorquas Ptomel e, já que devo confessar que minha proeza me proporcionou um bocado de satisfação, atendi rapidamente, saltando sobre as carruagens estacionadas no lado mais afastado da incubadora. Quando retornei, Lorquas Ptomel rosnou algo em minha direção e, voltando-se para seus guerreiros, emitiu algumas palavras de comando relativas à incubadora. Eles não prestaram mais atenção em mim e me foi concedida permissão para permanecer perto e assistir às suas operações, que consistiam em produzir uma abertura na parede da incubadora grande o suficiente para permitir a saída dos jovens marcianos. Em ambos os lados dessa abertura as mulheres e os marcianos mais jovens, fêmeas e machos, formavam duas filas, sólidas como paredes, que passavam por entre as carruagens e cobriam grande parte da planície. Os pequenos marcianos, selvagens como gazelas, corriam entre essas filas seguindo por toda a extensão do corredor, onde eram capturados um por vez pelas mulheres e crianças mais velhas. O último da fila apanhava o primeiro pequeno a atingir o final da passagem; quem estivesse à sua frente capturava o segundo e assim por diante, até que todas as pequenas criaturas tivessem saído da incubadora e sido pegas por algum jovem ou fêmea. Conforme pegavam as crianças, as fêmeas saíam da fila e voltavam para suas respectivas carruagens, ao passo que aqueles que caíram nas mãos dos homens jovens eram posteriormente entregues a alguma mulher.
Eu vi que a cerimônia, se é que poderia ser digna desse nome, estava acabada e, procurando por Sola, a encontrei em nossa carruagem com uma criaturinha horrenda apertada em seus braços. O trabalho de criar jovens marcianos verdes consiste apenas em ensiná-los a falar e a utilizar as armas de guerra que lhes são entregues desde o primeiro ano de sua vida. Saídos dos ovos nos quais repousaram por cinco anos, seu período de incubação, davam o primeiro passo no mundo perfeitamente desenvolvidos, exceto pelo tamanho. Não conheceriam suas mães, que, por sua vez, teriam dificuldade em apontar os pais com qualquer grau de precisão; eles são as crianças da comunidade e sua educação recai sobre as fêmeas que por acaso os capturaram conforme saíam da incubadora.
Suas mães adotivas não podem sequer ter um ovo na incubadora, como era o caso de Sola - que ainda não havia começado a botar -, até menos de um ano antes de se tornar a mãe da prole de outra mulher. Mas isso pouco conta entre os marcianos verdes, já que amor entre pais e filhos lhes é tão desconhecido quanto é comum entre nós. Acredito que esse horrível sistema, que vem sendo levado adiante há eras, é a causa direta da perda de todos os sentimentos refinados e instintos humanitários superiores entre essas pobres criaturas. Desde o nascimento, não conhecem o amor paternal ou maternal, não sabem o significado da palavra lar. São ensinados que deverão suportar o sofrimento da vida até que possam demonstrar, por meio de seu físico e ferocidade, que estão aptos a sobreviver. Ao se mostrarem deformados ou imperfeitos em qualquer instância, são imediatamente eliminados. E não devem derramar sequer uma lágrima pelas cruéis provações às quais serão submetidos desde a mais tenra infância. Não estou querendo dizer que os marcianos adultos sejam desnecessária ou intencionalmente cruéis aos mais jovens, mas em sua dura e impiedosa luta pela sobrevivência neste planeta em curso de morte, os recursos naturais se reduziram a tal ponto que manter qualquer vida adicional significa um tributo a mais à comunidade que a sustenta.
Por meio de seleção cuidadosa, dão suporte apenas aos espécimes mais preparados de cada espécie e, com previsão quase sobrenatural, regulam a taxa de nascimentos para apenas contrabalançar as mortes. Cada fêmea adulta marciana deposita cerca de treze ovos por ano. Aqueles que atingem o tamanho, peso e que sejam aprovados em testes específicos de gravidade, são escondidos nos recônditos de alguma gruta subterrânea onde a temperatura é baixa demais para a incubação. Todo ano esses ovos são cuidadosamente examinados por um conselho de vinte líderes, e todos, exceto cem dos mais perfeitos, são destruídos entre a produção de um ano inteiro.
Ao final de cinco anos, foram escolhidos quinhentos ovos dos mais perfeitos entre milhares de ovos botados. Estes, então, são colocados em incubadoras praticamente à vácuo para serem chocados pelos raios do sol durante outros cinco anos. A eclosão que testemunhamos hoje foi um bom exemplo desse evento. Menos de um por cento dos ovos eclode no espaço de dois dias. Se os ovos atrasados eclodiram, nada se sabe do destino desses pequenos. Eles não são queridos porque seus descendentes podem herdar e transmitir a tendência de incubação prolongada e assim desorganizar o sistema que tem se mantido por eras, permitindo que os marcianos adultos calculem o tempo adequado para retornarem às incubadoras, com precisão de horas. As incubadoras são construídas nos mais remotos rincões, onde há pouca ou nenhuma chance de serem descobertas por outras tribos. O resultado de tal catástrofe significaria a ausência de crianças na comunidade por outros cinco anos. Posteriormente eu presenciaria os resultados da descoberta de uma incubadora alheia.
A comunidade dos marcianos verdes da qual meu grupo fazia parte era composta por trinta mil almas. Eles cruzaram uma imensa extensão de terras áridas e semiáridas entre as latitudes oitenta e quarenta graus sul, e se dirigiram para leste e oeste por dois outros terrenos enormes cultivados. Seu quartel-general repousa no canto sudoeste dessa região, próximo ao cruzamento de dois dos chamados canais marcianos. Como a incubadora fica localizada no longínquo norte de seu próprio território, em uma área supostamente desabitada e erma, tínhamos à nossa frente uma tremenda jornada da qual eu, obviamente, não fazia a menor ideia. Após nosso retorno à cidade fantasma, passei vários dias relativamente ocioso. No dia seguinte ao nosso retorno, todos os guerreiros haviam cavalgado para longe e ainda não haviam voltado até pouco antes do cair da noite. Como depois aprendi, eles haviam ido às grutas subterrâneas onde os ovos eram guardados e os haviam transportado para a incubadora - a qual eles novamente lacraram com novas paredes por outros cinco anos e que, com bastante probabilidade, não seriam visitadas novamente durante esse período. As grutas nas quais escondiam os ovos até que estivessem prontos para incubação estavam localizadas há muitos quilômetros ao sul da incubadora e seriam visitadas anualmente pelo conselho de vinte líderes. O porquê de não construírem suas grutas e incubadoras perto de suas cidades sempre foi um mistério para mim e, como muitos outros mistérios marcianos, continuarão sem resposta para os costumes e o raciocínio terráqueos.
As tarefas de Sola agora haviam dobrado, uma vez que estava encarregada de cuidar do jovem marciano e de mim, mas nenhum de nós requeria muita atenção. Ambos estávamos praticamente no mesmo nível de educação quanto aos costumes marcianos e Sola ficou responsável por treinar os dois juntos. Seu prêmio consistia em um macho muito forte e fisicamente perfeito, com cerca de um metro e trinta de altura. Ele também aprendia rápido e nos divertimos consideravelmente - pelo menos, eu sim - com a rivalidade entre irmãos que demonstrávamos.
A linguagem marciana, como já citei, é extremamente simples e em uma semana eu podia comunicar todas as minhas necessidades e entender praticamente tudo o que diziam para mim. Da mesma forma, sob a tutela de Sola, desenvolvi poderes telepáticos que me permitiam sentir praticamente tudo o que ocorria ao meu redor. O que mais surpreendeu Sola foi que enquanto eu podia captar facilmente as mensagens de outros - algumas, até, que nem eram endereçadas a mim -, ninguém podia ouvir um pio de minha mente sob quaisquer circunstâncias.
A princípio, isso me atormentou, mas depois fiquei muito feliz, por me dar uma indubitável vantagem sobre os marcianos.

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