sábado, 11 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 6° Capítulo


Capítulo 06 - UMA LUTA QUE CONQUISTOU AMIGOS


A coisa, que se parecia mais com o homem terrestre do que os marcianos que eu havia visto, me prendeu no chão com um pé gigante, enquanto matraqueava e gesticulava para alguma criatura que respondia atrás de mim. Esse outro, que evidentemente era seu companheiro, logo veio em nossa direção, segurando uma pesada clava de pedra com a qual evidentemente tencionava me partir a cabeça.
As criaturas mediam entre três e quatro metros de altura em posição ereta e tinham, como os marcianos verdes, um conjunto intermediário de braços ou pernas a meio caminho entre seus membros superiores e inferiores. Seus olhos eram bem juntos e não protuberantes, suas orelhas ficavam no alto da cabeça, enquanto seus focinhos e dentes eram assombrosamente parecidos com os de nossos gorilas africanos. No geral, eles não eram desagradáveis quando observados em comparação aos marcianos verdes. A clava balançou em um arco que acabou completando- se sobre meu rosto enquanto eu olhava para cima. Foi quando um raio de horror cheio de pernas se jogou através da porta com carga total sobre o peito de meu executor. Com um guincho de medo, o macaco que me segurava saltou pela janela aberta, mas seu companheiro entrou em uma intensa luta mortal com meu protetor, que não era nada menos que minha fiel coisa de guarda. Não conseguia me obrigar a chamar uma criatura tão hedionda de cachorro. Fiquei em pé o mais rápido que consegui e, apoiando- me contra a parede, testemunhei uma batalha que poucos seres tiveram a oportunidade de presenciar. A força, agilidade e ferocidade cega dessas duas criaturas não têm paralelos conhecidos na Terra. Minha fera teve uma vantagem em sua primeira investida, enterrando suas poderosas presas profundamente no peito de seu adversário, mas os grandes braços e patas do macaco, aliados a músculos que transcendem em muito os dos homens marcianos que havia visto, havia agarrado a garganta de meu guardião e lentamente o sufocava, dobrando para trás sua cabeça e pescoço sobre seu corpo. Por um momento, esperei ver o primeiro cair sem forças com seu pescoço quebrado. Ao fazer isso, o macaco estava despedaçando toda a parte frontal de seu peito, que estava preso no aperto de alicate das poderosas mandíbulas. Para a frente e para trás os dois rolavam no chão, nenhum deles emitindo um som de medo ou dor. Naquele momento vi os olhos de minha fera saltarem totalmente para fora de suas órbitas e o sangue fluir de suas narinas. Era evidente que ele estava perdendo as forças, mas o mesmo ocorria com o macaco, cujos esforços momentaneamente diminuíram.
Subitamente voltei a mim e, com o estranho instinto que sempre parece me chamar ao dever, agarrei a clava e, brandindo-a com todas as forças de meus braços humanos, golpeei em cheio a cabeça do macaco, esmagando seu crânio como se fosse a casca de um ovo. Mal eu acabara de desferir o golpe quando fui confrontado por um novo perigo. O companheiro do macaco, recuperado de seu primeiro choque de terror, havia voltado à cena do encontro por dentro do edifício. Eu o vislumbrei um pouco antes de ele atingir a porta e devo confessar que sua visão, agora rugindo ao perceber seu companheiro sem vida estirado no chão, e espumando pela boca, no auge de sua fúria, me encheu de terríveis pressentimentos.
Sempre estou disposto a ficar e lutar quando as chances não estão esmagadoramente contra mim, mas nesse caso não antecipei nem glória nem lucro em empregar minha relativamente insignificante força contra os músculos de aço e a ferocidade brutal desse enfurecido habitante de um planeta desconhecido. Na realidade, o único resultado de um encontro como esse, até onde eu podia prever, parecia ser a morte súbita. Eu estava em pé perto da janela e sabia que, uma vez na rua, poderia ganhar a praça e a segurança antes que a criatura pudesse me dominar. Ao menos havia uma chance de segurança na fuga contra a morte quase certa caso eu ficasse e lutasse, não importando com que desespero.
É verdade que eu segurava a clava, mas que serventia ela teria contra quatro enormes braços? Mesmo que eu conseguisse quebrar um deles com meu primeiro golpe, pois imaginei que o macaco tentaria repelir o bastão, ele poderia me alcançar e aniquilar com os outros antes que eu pudesse me recuperar para desferir um segundo ataque. No instante em que esses pensamentos me passaram pela cabeça eu havia me virado para alcançar a janela, mas a visão da forma de meu outrora guardião fez sumir no ar todos os pensamentos de fuga. Ele estava deitado arfando sobre o piso do aposento com seus grandes olhos fincados em mim no que parecia ser um lamentável apelo por proteção. Eu não seria capaz de suportar aquele olhar nem, pensando bem, abandonar meu salvador sem ao menos lutar por ele tanto quanto ele havia lutado por mim.
Sem mais demora, portanto, me virei para enfrentar o ataque do enfurecido macaco macho. Ele agora estava muito perto de mim para que a clava tivesse qualquer utilidade efetiva; portanto, simplesmente joguei-a com a maior força possível contra seu corpanzil que avançava. 0 instrumento o atingiu logo abaixo dos joelhos, produzindo um uivo de dor e fúria e, assim, desequilibrando-o e fazendo com que se lançasse sobre
mim com toda a força, com os braços completamente abertos para amortecer sua queda.
Novamente, como no dia anterior, recorri a táticas terrestres e, golpeando meu punho direito com toda a força contra seu queixo, enfiei um golpe de esquerda no fundo de seu estômago. O efeito foi maravilhoso. Depois de dar um pequeno passo para o lado, após o segundo golpe, ele se ajoelhou e caiu no chão nocauteado pela dor e resfolegando.
Saltando sobre seu corpo prostrado, apanhei a clava e dei cabo do monstro antes que pudesse se levantar. Quando eu desferia o golpe, uma risada baixa soou atrás de mim e, virando-me, vi Tars Tarkas, Sola e outros três ou quatro em pé na porta do aposento. Quando meus olhos encontraram os deles fui, pela segunda vez, o destinatário de seus aplausos, reservados com tanto zelo. Minha ausência havia sido notada por Sola ao acordar e ela rapidamente informou a Tars Tarkas, que imediatamente saiu a minha procura com um punhado de guerreiros.
Ao se aproximarem dos limites da cidade, testemunharam as ações do macaco macho quando este disparou na direção do edifício, espumando de raiva. Eles o seguiram prontamente, pensando ser pouco provável que suas ações pudessem ser uma pista de meu paradeiro, e assistiram nossa breve, porém, decisiva batalha. Esse encontro, juntamente com meu ajuste de contas com o guerreiro marciano no dia anterior e meus feitos na arte do salto, colocaram-me em uma posição privilegiada a seus olhos. Evidentemente desprovidos de todos os nobres sentimentos de amizade, amor ou afeto, essas pessoas veneram com fervor a destreza física e a bravura, e nada é bom o bastante para o objeto de sua adoração contanto que este mantenha sua posição por meio de repetidos exemplos de perícia, força e coragem. Sola, que havia acompanhado o grupo de buscas por vontade própria, foi a única entre os marcianos cuja face não havia se contorcido em risadas enquanto eu lutava por minha vida. Ela, ao contrário, manteve-se séria com aparente solicitude e, assim que dei cabo do monstro, correu para mim e cuidadosamente examinou meu corpo à procura de possíveis ferimentos ou machucados. Satisfeita por eu ter saído ileso, sorriu silenciosamente e, pegando em minha mão, começou a caminhar na direção da porta do aposento. Tars Tarkas e os outros guerreiros haviam entrado e estavam parados diante da fera - agora rapidamente recuperada - que havia salvado minha vida e cuja vida eu, em troca, havia salvado. Eles pareciam perdidos em uma discussão e, finalmente, um deles dirigiuse a mim, mas lembrando meu desconhecimento de sua língua, voltou-se novamente para Tars Tarkas que, com uma palavra e gesto, deu alguma ordem ao companheiro e virou-se para nos seguir para fora. Havia algo de ameaçador em suas atitudes para com a minha fera e hesitei em sair até saber do resultado. Foi uma ideia muito boa, pois o guerreiro sacou uma pistola de aparência demoníaca de seu coldre e estava a ponto de dar fim à criatura quando saltei para a frente e ergui seu braço. A bala atingiu o batente de madeira da janela e explodiu, atravessando por completo a madeira e a alvenaria.
Então, me ajoelhei ao lado daquele ser de aspecto temível e, colocando-o em pé, gesticulei para que me seguisse. Os olhares de surpresa que minhas ações provocaram nos marcianos foram absurdos. Eles eram incapazes de entender, exceto de uma maneira débil e infantil, atributos como gratidão e compaixão. O guerreiro cuja arma eu havia empurrado lançou um olhar inquisitivo para Tars Tarkas, mas este último gesticulou para que eu fosse deixado a meu próprio gosto. Assim, voltamos para a praça com minha grande fera seguindo meus calcanhares e Sola me segurando firmemente pelo braço.
Agora eu tinha pelo menos dois amigos em Marte; uma jovem mulher que cuidava de mim com solicitude maternal e uma fera muda que, como mais tarde viria à saber, carregava em sua feia e pobre carcaça mais amor, mais lealdade, mais gratidão do que se poderia encontrar em toda a população de cinco milhões de marcianos verdes que vagavam pelas cidades desertas e pelos leitos dos mares mortos de Marte.

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