sexta-feira, 10 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 5° Capítulo


Capítulo 05 - ENGANANDO MEU CÃO DE GUARDA


Sola encarou os olhos perversos do bruto, murmurou uma palavra ou duas de comando, apontou para mim e saiu do aposento. Tudo que pude fazer foi considerar o que aquela monstruosidade de aparência feroz poderia fazer quando deixado a sós com um pedaço relativamente tenro de carne. Mas meus medos não tinham fundamento, pois a fera, depois de me inspecionar de forma intensa por um momento, cruzou a sala até a única saída que levava à rua e deitou-se atravessado na soleira.
Essa foi minha primeira experiência com um cão de guarda marciano, mas não estava destinada a ser a última. Esse companheiro me protegeria cuidadosamente durante o tempo em que permaneceria cativo entre esses homens verdes; duas vezes salvou minha vida e nunca se afastou de mim voluntariamente por um momento sequer. Enquanto Sola estava fora, aproveitei para examinar mais detalhadamente o quarto no qual estava preso. As pinturas nos murais retratavam cenas de rara e estonteante beleza. Montanhas, rios, lagos, oceanos, pradarias, árvores e flores, estradas serpenteantes, jardins beijados pelo sol - cenas que poderiam retratar vistas terrestres, exceto pela coloração da vegetação. O trabalho tinha evidentemente sido executado pela mão de um mestre, tão sutil era a atmosfera, tão perfeita a técnica. Ainda assim, em nenhum lugar havia a representação de um animal vivo, homem ou bicho, pela qual eu pudesse conjeturar a aparência desses outros e talvez extintos cidadãos de Marte.
Enquanto permitia que minha imaginação corresse amotinada em loucas conjeturas sobre a possível explicação para as estranhas anomalias que até agora tinha encontrado em Marte, Sola retornou com comida e bebida. Ela as depositou no chão ao meu lado e, sentando-se a uma curta distância, me encarou atentamente. A comida consistia em quase meio quilo de alguma substância sólida com consistência de queijo e sem muito gosto, enquanto o líquido era aparentemente leite de algum animal. Não era desagradável ao paladar, embora levemente ácido, e em pouco tempo aprendi a valorizá-lo enormemente. Ele provinha, como descobri mais tarde, não de um animal - uma vez que existia apenas um mamífero em Marte e esse mamífero era, sem dúvida, bastante raro -, mas de uma grande planta que cresce praticamente sem água, mas parece destilar seu abundante estoque de leite a partir dos produtos do solo, da umidade do ar e dos raios do sol. Uma única planta dessa espécie pode fornecer oito ou dez litros de leite por dia. Depois de comer senti-me bastante revigorado, mas, sentindo a necessidade de descansar, me estirei sobre as sedas e logo dormi. Devo ter dormido várias horas, pois estava escuro quando acordei e sentia muito frio. Notei que alguém havia jogado uma pele sobre mim, mas ela estava parcialmente mal colocada e no escuro não consegui arrumá-la. Subitamente, uma mão se esticou e puxou a coberta para cima de mim, adicionando outra logo em seguida.
Presumi que minha zelosa guardiã fosse Sola, e não estava errado. Apenas essa garota, entre todos os marcianos verdes com os quais tive contato, revelou características de simpatia, gentileza e afeição. Sua atenção às minhas necessidades físicas foi infalível e seu cuidado solícito me poupou muito sofrimento e provações.
Como eu aprenderia, as noites marcianas são extremamente frias, e como praticamente não há crepúsculo ou aurora, as mudanças de temperatura são súbitas e muito desconfortáveis, como as transições entre a luz do dia e a escuridão. As noites são iluminadas por uma luz brilhante ou são então muito escuras, pois se nenhuma das duas luas de Marte calha de estar no céu, a escuridão resultante é quase total, já que a falta de atmosfera ou, melhor dizendo, a escassa atmosfera não consegue difundir a luz das estrelas de forma muito ampla. Por outro lado, se ambas as luas estão no céu à noite, a superfície do solo é vivamente iluminada. As duas luas de Marte se encontram muito mais perto do planeta do que a nossa lua está da Terra. A lua mais próxima está a cerca de oito mil quilômetros de distância, enquanto a mais afastada está a pouco mais de vinte de dois mil quilômetros de distância, em comparação aos mais de quatrocentos mil quilômetros que nos separam da nossa lua. A lua mais próxima de Marte completa sua evolução ao redor do planeta em pouco mais de sete horas e meia, de forma que pode ser vista atravessando o céu como um gigantesco meteoro duas ou três vezes por noite, revelando todas as suas fases a cada passagem pelos céus.
A lua mais distante gira em torno de Marte em cerca de trinta e uma horas e quinze minutos, e, com seu satélite irmão, torna a paisagem noturna uma cena de estranha e esplêndida grandeza. E é bom que a natureza tenha iluminado a noite marciana de forma tão graciosa e abundante, pois os homens verdes de Marte, sendo uma raça nômade sem grande desenvolvimento intelectual, possuem apenas meios primitivos de iluminação artificial, dependendo principalmente de tochas, um tipo de vela e uma lâmpada a óleo que gera gás e queima sem pavio. Esse último dispositivo produz uma luz branca brilhante de longo alcance, mas como o óleo natural exigido para alimentá-la só pode ser obtido através da mineração em um dos vários locais remotos e longínquos, é utilizada poucas vezes por essas criaturas cujo único pensamento é o hoje e cujo ódio ao trabalho manual os têm mantido em um estado semibárbaro por incontáveis eras.
Depois que Sola arrumou minhas cobertas, dormi novamente, acordando apenas quando já era dia. Os outros ocupantes do quarto, cinco no total, eram todas mulheres e ainda estavam dormindo, amontoadas com uma diversificada gama de sedas e peles. Atravessado na soleira, permanecia esticado o primitivo guardião insone, na mesma posição em que o havia visto no dia anterior. Aparentemente, ele não havia movido um músculo. Seus olhos estavam diretamente fixados em mim e comecei a me perguntar exatamente o que me aconteceria caso eu tentasse fugir.
Sempre estive propenso a buscar aventuras e a investigar e experimentar em situações em que homens mais sábios teriam deixado ao acaso. Ocorria-me agora que a maneira mais certa de descobrir qual seria exatamente a atitude dessa fera em relação a mim era tentar sair do aposento. Estava bastante seguro em minha crença de que poderia escapar caso fosse perseguido pelo animal se estivesse fora do prédio, pois começava a ficar bastante orgulhoso de minhas habilidades como saltador. Além disso, pude deduzir, pelo comprimento diminuto de suas pernas, que o animal em questão não era um saltador e, provavelmente, nem corredor. Assim, devagar e com cuidado, me coloquei em pé, apenas para ver se meu observador fazia o mesmo. Cautelosamente, avancei em sua direção, descobrindo que me movendo em uma marcha arrastada era capaz de conservar meu equilíbrio e fazer um progresso razoavelmente rápido. Conforme me aproximei do animal, ele cautelosamente se afastou de mim e, quando cheguei ao exterior, ele se moveu para o lado para permitir minha passagem. Ele então se postou atrás de mim e seguiu-me a uma distância de cerca de dez passos conforme eu avançava pela rua deserta. Evidentemente sua missão era apenas me proteger, pensei, mas quando atingi o limite da cidade, ele subitamente pulou a minha frente, produzindo sons estranhos e expondo suas horrendas e ferozes presas.
Pensando em me divertir um pouco às suas custas, corri em sua direção e, quando estava quase em cima dele, saltei no ar, aterrissando muito além e afastando-me da cidade. Ele se virou e disparou em minha direção com a velocidade mais pavorosa que já havia visto. Havia pensado que suas pernas fossem um obstáculo para a rapidez, mas se ele estivesse correndo com galgos ingleses, esses últimos teriam parecido tão lentos quando um capacho. Como eu viria à saber, esse era o animal mais veloz de Marte e, devido à sua inteligência, lealdade e ferocidade, era usado na caça, na guerra e como protetor dos homens marcianos. Rapidamente percebi que teria dificuldade em escapar das presas da fera em um percurso reto, de modo que respondi à sua disparada voltando por onde tinha vindo e saltando sobre ele quando estava quase me alcançando. Essa manobra me deu uma vantagem considerável e fui capaz de chegar à cidade bastante a sua frente. Como ele vinha uivando atrás de mim, pulei para uma janela a cerca de dez metros do chão na frente de um dos prédios com vista para o vale. Agarrando o peitoril, me icei e sentei sem olhar para o interior do edifício e fitei para o desconsertado animal abaixo de mim.
Porém minha exultação foi curta. Mal havia me sentado em segurança sobre o peitoril quando uma mão enorme me agarrou por trás pelo pescoço e me arrastou violentamente para o interior da sala. Ali, fui jogado de costas e vi em pé a minha frente uma colossal criatura-macaco, branca e sem pelos, exceto por uma enorme rajada de cabelos espetados sobre sua cabeça.

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