Thursday, 9 May 2013

Uma princesa de Marte - 4° Capítulo

Capítulo 04 - UM PRISIONEIRO


Havíamos percorrido talvez dez milhas quando o terreno começou a se elevar de forma muito rápida. Nós estávamos, como vim à saber depois, nos aproximando da margem de um dos mares de Marte, todos mortos há muito tempo, no fundo do qual ocorreu meu encontro com os marcianos. Em pouco tempo chegamos aos pés das montanhas e, depois de atravessar uma estreita ravina, saímos em um vale aberto, na extremidade remota do qual havia um planalto, sobre o qual contemplei uma enorme cidade. Galopamos em sua direção, entrando através do que parecia ser uma estrada abandonada que levava para fora da cidade, mas chegava apenas até a borda do planalto, onde acabava abruptamente em um lance de escada de degraus amplos.
Mediante atenta observação notei, conforme passava pelos edifícios, que eles estavam desertos e, embora não estivessem muito deteriorados, tinham a aparência de não serem ocupados há anos, possivelmente há eras. Na direção do centro da cidade havia uma grande praça, onde nela e nos edifícios imediatamente ao seu redor estavam acampadas algo em torno de novecentas a mil criaturas da mesma raça de meus captores, pois assim passara a considerá-los, apesar da maneira suave com que fui aprisionado.
Com exceção de seus ornamentos, todos estavam nus. As mulheres apresentavam uma aparência um pouco diferente da dos homens, exceto pelo fato de que suas presas eram muito maiores em relação à sua altura, em alguns casos curvando-se quase até as orelhas posicionadas no alto da cabeça. Os corpos eram menores e mais claros, e os dedos de seus pés ostentavam unhas rudimentares, totalmente ausentes entre os machos. A altura das fêmeas adultas variava entre três e três metros e meio.
As crianças eram de cor mais clara, mais clara até que as mulheres, e todos pareciam idênticos à meus olhos, a não ser pelo fato de que alguns eram mais altos do que outros. Por serem mais velhos, presumi. Não vi sinais de idade avançada entre eles, nem havia qualquer diferença notável em sua aparência desde a maturidade, cerca de quarenta anos, até aproximadamente os mil anos, quando voluntariamente saem em sua última e estranha peregrinação até o rio Iss, o qual nenhum marciano vivo sabe aonde vai e de onde nenhum marciano jamais voltou; caso retornasse depois de embarcar uma vez em suas frias e escuras águas, não teria permissão de viver. Estima-se que apenas um marciano em mil morre de doença ou enfermidade, e que por volta de vinte fazem a peregrinação voluntária. Os outros novecentos e setenta e nove morrem de forma violenta em duelos, caçadas, na aviação e na guerra. Mas talvez a maior perda de vidas ocorra, de longe, durante a infância, quando um vasto número de pequenos marcianos cai vítima dos grandes macacos albinos de Marte. A expectativa média de vida de um marciano após a idade madura é de cerca de trezentos anos, mas esse número seria próximo da marca dos mil anos, não fossem os vários caminhos que levam a uma morte violenta. Devido aos escassos recursos do planeta, evidentemente tornou-se necessário contrabalançar a crescente longevidade decorrente de suas notáveis habilidades em medicina e cirurgia, de modo que a vida humana em Marte passou a ser considerada de forma leviana, como evidenciado por seus perigosos esportes e guerras quase contínuas entre as diversas comunidades.
Há outras causas naturais que contribuem para a tendência de diminuição da população, mas nada colabora de forma mais intensa para esse fim do que o fato de nunca um marciano, macho ou fêmea, estar voluntariamente desprovido de uma arma de destruição.
Ao nos aproximarmos da praça e minha presença ser descoberta, fomos imediatamente rodeados por centenas de criaturas que pareciam ansiosas em me puxar de meu assento atrás de meu guarda. Uma palavra do líder do grupo calou seu clamor e trotamos através da praça até a entrada do edifício mais magnífico que olhos mortais já puderam vislumbrar. O edifício era baixo, mas cobria uma enorme área. Havia sido construído em mármore branco reluzente incrustado com pedras douradas e brilhantes que ofuscavam e cintilavam sob a luz do sol. A entrada principal tinha cerca de trinta metros de largura e projetava-se do edifício formando uma enorme abóbada sobre o hall de entrada. Não havia escadarias, somente uma leve rampa para o primeiro andar do edifício se abria para uma enorme câmara rodeada por galerias.
No piso dessa câmara, repleta de mesas e cadeiras altamente trabalhadas, estavam reunidos cerca de quarenta ou cinqüenta marcianos machos ao redor dos degraus de uma tribuna. Na plataforma, perfeitamente agachado, encontrava-se um enorme guerreiro pesadamente carregado com paramentos metálicos, penas de cores alegres e adornos belamente elaborados em couro engenhosamente cravejados de pedras preciosas. De seus ombros pendia uma capa curta de pele branca alinhada revestida com seda escarlate brilhante.
O que mais me impressionou em relação à assembléia e ao hall no qual estavam reunidos foi o fato de as criaturas serem totalmente desproporcionais em relação às mesas, cadeiras e outros móveis, que possuíam um tamanho adequado ao dos seres humanos como eu; em contrapartida, a grande quantidade de marcianos mal permitia que eles se espremessem nas cadeiras nem deixava espaço para suas longas pernas sob as mesas. Assim, ficou evidente que havia mais cidadãos em Marte além das selvagens e grotescas criaturas nas mãos das quais eu havia caído, mas as provas de extrema antigüidade exibidas em toda a minha volta indicavam que essas construções deveriam ter pertencido a alguma raça há muito extinta e esquecida na vaga antigüidade de Marte. Nosso grupo havia parado na entrada do edifício e, a um sinal do líder, fui colocado no chão. Novamente travando seu braço no meu, seguimos para a câmara de audiências.
Havia algumas formalidades a serem observadas ao abordar seu superior. Meu captor caminhou a passos largos na direção da tribuna, os outros se afastavam para que ele avançasse. O líder principal se levantou e pronunciou o nome de meu acompanhante que, por sua vez, parou e repetiu o nome do governante, seguido por seu título.
Naquele momento, essa cerimônia e as palavras proferidas nada significavam para mim, mas posteriormente
vim à saber que esta era a saudação costumeira entre marcianos verdes. Caso fossem estranhos entre si e, portanto, incapazes de se saudarem, teriam trocado presentes silenciosamente se suas missões fossem de paz - do contrário, teriam trocado tiros ou terminado as apresentações com alguma outra de suas diversas armas. Meu captor, cujo nome era Tars Tarkas, era virtualmente o vice-líder da comunidade e um homem de grandes habilidades como estadista e guerreiro. Evidentemente, ele explicou em poucas palavras os incidentes ligados à sua expedição, incluindo minha captura e, quando terminou, seu líder despendeu alguma atenção a mim.
Respondi em nosso bom e velho inglês apenas para convencê-lo de que nenhum de nós poderia entender o outro, mas notei que, quando sorri levemente durante a conclusão, ele fez o mesmo. Esse episódio e a ocorrência de um feito similar durante minha primeira conversa com Tars Tarkas convenceu-me de que ao menos tínhamos alguma coisa em comum: a capacidade de sorrir. Mas eu aprenderia que o sorriso marciano é meramente mecânico e que a risada marciana é algo que faz com que homens fortes fiquem brancos de horror.
A idéia de humor entre os homens verdes de Marte é amplamente divergente das nossas concepções de estímulo da alegria. A agonia da morte de um outro ser provoca, para essas estranhas criaturas, a mais louca hilaridade, enquanto a principal forma da mais simples diversão é matar seus prisioneiros de guerra de formas diversas e horripilantes.
Os guerreiros reunidos examinaram-me com atenção, sentindo meus músculos e a textura de minha pele. Então o principal líder evidentemente expressou o desejo de ver minha apresentação e, gesticulando para que eu o seguisse, entrou com Tars Tarkas na praça a céu aberto.
Até agora, eu não havia feito nenhuma tentativa de caminhar, desde meu primeiro sinal de fracasso, exceto ao agarrar firmemente o braço de Tars Tarkas, de forma que agora ia pulando e esvoaçando entre as mesas e cadeiras como um gafanhoto monstruoso. Depois de me machucar seriamente, para grande diversão dos marcianos, novamente recorri ao engatinhar, mas isso não estava de acordo com seus planos, pois fui rudemente colocado em pé por um sujeito enorme que riu com o mais puro entusiasmo de minha desgraça. Ao me colocar em pé violentamente, seu rosto se inclinou próximo ao meu e fiz a única coisa que um cavalheiro pode fazer sob circunstâncias de brutalidade, grosseria e falta de consideração para com os direitos de um estranho. Enfiei meu punho diretamente em sua mandíbula e ele caiu como um boi no abate. Enquanto ele caía ao chão, voltei minhas costas na direção da mesa mais próxima, esperando ser subjugado pela vingança de seus companheiros; estava, porém, determinado a proporcionar-lhes uma luta tão boa quanto possível, dadas as chances desiguais, antes de abrir mão da minha vida.
No entanto, meus medos foram infundados, pois outros marcianos, em princípio mudos de espanto, finalmente romperam em um selvagem estrondo de risadas e aplausos. Não reconheci os aplausos como tal, mas, posteriormente, quando tomei conhecimento de seus costumes, aprendi que havia conquistado o que eles raramente concedem, uma manifestação de aprovação. O sujeito que atingi permaneceu onde caiu e nenhum de seus companheiros se aproximou dele. Tars Tarkas avançou em minha direção, estendendo um de seus braços, e assim prosseguimos até a praça sem mais contratempos. É claro que eu não conhecia a razão para termos saído para o exterior, mas logo vim à saber. Primeiro, eles repetiram a palavra "sak" inúmeras vezes, e então Tars Tarkas deu vários pulos, repetindo a mesma palavra antes de cada salto. Virando-se para mim, disse "sak"! Entendi o que queriam e, recompondo-me, "sakei" com tão impressionante sucesso que me afastei bons quarenta e cinco metros e, dessa vez, não perdi meu equilíbrio e pousei em pé sem cair. Então, voltei para o pequeno grupo de guerreiros com saltos fáceis de sete ou oito metros.
Minha exibição foi testemunhada por várias centenas de marcianos comuns e eles imediatamente exigiram uma repetição, que o líder ordenou que eu fizesse. Mas eu estava com fome e sede e decidi naquela hora que minha única forma de salvação seria exigir consideração dessas criaturas que, evidentemente, não concederiam de forma voluntária. Portanto, ignorei os repetidos comandos para "sakar" e cada vez que eram pronunciados, gesticulava em direção à minha boca e esfregava meu estômago. Tars Tarkas e o líder trocaram algumas palavras e o último, chamando uma jovem fêmea entre a multidão, lhe passou algumas instruções e gesticulou para que eu a acompanhasse. Agarrei seu braço estendido e juntos cruzamos a praça em direção de um grande prédio no lado mais afastado.
Minha acompanhante tinha cerca de dois metros e meio de altura, tendo acabado de chegar à maturidade, mas ainda sem ter atingido o máximo de sua altura. Ela era de uma cor verde-oliva claro, com couro liso e lustroso. Seu nome, soube mais tarde, era Sola, e ela fazia parte da comitiva de Tars Tarkas. Ela me conduziu até uma espaçosa câmara em um dos edifícios na frente da praça, o que, pela confusão de sedas e peles sobre o chão, entendi ser o dormitório de vários dos nativos.
O quarto era bem iluminado por várias janelas amplas e estava belamente decorado com pinturas murais e mosaicos, mas sobre todos eles parecia repousar aquele indefinível toque de antigüidade que me convenceu de que os arquitetos e construtores dessas criações assombrosas nada tinham em comum com os rudes meio brutos que agora os ocupavam. Sola indicou que eu sentasse sobre uma pilha de sedas próxima ao centro da sala e, virando-se, fez um peculiar som sibilante, como se sinalizasse para alguém no aposento ao lado. Em resposta ao seu chamado, tive minha primeira visão de uma nova maravilha marciana que sacolejou sobre suas dez pernas curtas e agachou-se diante da garota como um filhote obediente.
A coisa tinha o tamanho de um pônei shetland, mas sua cabeça ostentava uma ligeira semelhança com a cabeça de um sapo, exceto que as mandíbulas eram equipadas com três fileiras de presas longas e afiadas.

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