Wednesday, 8 May 2013

Uma princesa de Marte - 3° Capítulo


Capítulo 03 - MINHA CHEGADA A MARTE


Abri meus olhos para uma estranha e bizarra paisagem. Sabia que estava em Marte e nem uma vez questionei minha sanidade ou se estava acordado. Não estava dormindo, não havia necessidade de me beliscar dessa vez. Minha consciência disse claramente que eu estava em Marte da mesma forma que sua mente lhe diz que você está na Terra. Você não questiona o fato, e eu não o questionei.
Eu estava deitado de bruços sobre uma cama amarelada, forrada com uma vegetação parecida com musgo que se esticava ao meu redor em todas as direções por intermináveis quilômetros. Eu parecia estar deitado num vale profundo e circular, ao longo da borda externa, cujas irregularidades das colinas baixas pude distinguir.
Era meio-dia, o sol brilhava com toda força sobre mim e o calor era intenso sobre meu corpo nu, ainda que não mais forte do que teria sido em condições similares em um deserto do Arizona.
Aqui e ali havia leves afloramentos de pedras com quartzo que cintilavam à luz do sol. Um pouco à minha esquerda, talvez a uns cem metros, havia uma construção baixa e murada, com cerca um metro e meio de altura. Não havia água ou outra vegetação a vista que não o musgo e, como estava com sede, resolvi fazer uma pequena exploração.
Ao dar impulso com meus pés tive minha primeira surpresa marciana. O esforço, que na Terra teria me colocado em pé, me fez subir cerca de três metros no ar marciano. No entanto, pousei suavemente no solo, sem choque ou batida dignos de nota. Nesse momento teve início uma série de evoluções que mesmo na época pareceram ridículas ao extremo. Descobri que deveria aprender a andar novamente, uma vez que o esforço muscular que me fazia caminhar de maneira fácil e segura na Terra me pregava uma estranha peça em Marte.
Em vez de avançar de forma digna e equilibrada, minhas tentativas de caminhar resultaram em uma variedade de saltos que me arremessavam para longe do chão cerca de meio metro a cada passo e terminavam comigo de cara ou de costas no chão a cada dois ou três saltos. Meus músculos, perfeitamente ajustados e acostumados à força da gravidade na Terra, brincavam de forma maldosa em minha primeira tentativa de me ajustar à gravidade e à pressão atmosférica menores de Marte.
Contudo, eu estava determinado a explorar a estrutura baixa que constituía a única evidência de habitação à vista, de forma que me deparei por acaso com o plano singular de reverter ao primeiro princípio da locomoção, engatinhar. Sai-me suficientemente bem nisso, e em instantes havia atingido o muro baixo e circular da estrutura.
A construção parecia não ter portas ou janelas na lateral mais próxima a mim, mas como o muro tinha pouco mais de um metro de altura, me coloquei cuidadosamente em pé e olhei sobre a parede para a visão mais estranha que jamais havia visto. O teto da estrutura era feito de vidro sólido com cerca de dez centímetros de espessura e, abaixo dele, havia várias centenas de grandes ovos perfeitamente redondos e brancos como neve. Eles eram quase uniformes em tamanho, com cerca de sessenta centímetros de altura e um pouco menos de diâmetro. 
Cinco ou seis ovos já haviam chocado, e as grotescas caricaturas que se sentavam piscando sob a luz do sol foram suficientes para me fazer duvidar de minha sanidade. Pareciam ser constituídas principalmente de uma cabeça, corpo pequeno e esquelético, pescoço comprido e seis pernas, ou, como aprendi mais tarde, duas pernas e dois braços, com um par de membros intermediários que podiam ser utilizados como braços ou pernas, de acordo com a vontade. Os olhos estavam posicionados em pontos extremos das laterais da cabeça, um pouco acima do centro, e se projetavam de tal forma que poderiam olhar para a frente ou para trás de forma independente um do outro, permitindo assim que o estranho animal olhasse em qualquer direção, ou em duas direções ao mesmo tempo, sem a necessidade de virar a cabeça.
As orelhas, um pouco acima dos olhos e próximas uma da outra, eram como pequenas antenas côncavas projetando-se não mais do que uma polegada nesses jovens espécimes. Seus narizes não passavam de fendas longitudinais no meio de suas faces, entre suas bocas e orelhas.
Não havia penas em seus corpos, que apresentavam um leve tom amarelo-esverdeado. Nos adultos, como viria a aprender logo, essa cor escurece até chegar a um verde-oliva e é mais escura nos machos que nas fêmeas. Além disso, as cabeças dos adultos não são tão desproporcionais aos corpos como no caso dos jovens.
As íris eram vermelho-sangue, como nos albinos, enquanto a pupila era escura. O globo ocular em si era bastante branco, assim como os dentes. Esses últimos atribuíam uma aparência feroz a uma fisionomia que já
seria apavorante e terrível, uma vez que os pontiagudos caninos faziam uma curva para cima, terminando perto de onde os olhos dos seres humanos se localizam. O branco dos dentes não se parecia com o do marfim, mas com a mais branca e brilhante porcelana. Contra o fundo escuro de suas peles cor de oliva, seus caninos se sobressaíam de forma impressionante, fazendo com que essas armas tivessem uma aparência formidável. Notei a maioria desses detalhes mais tarde, já que tive pouco tempo para especular sobre as maravilhas de minha nova descoberta. Eu tinha observado que os ovos estavam em processo de eclosão e, enquanto fiquei assistindo aos abomináveis pequenos monstros quebrarem as cascas, deixei de notar a aproximação de cerca de vinte marcianos adultos às minhas costas. Vieram através do musgo macio e abafado que cobre praticamente toda a superfície de Marte, com exceção das áreas congeladas nos pólos e das regiões cultivadas dispersas, e poderiam ter-me capturado com facilidade, porém suas intenções eram bem mais sinistras. Foi o barulho dos apetrechos do guerreiro mais à frente que me chamou a atenção.
Minha vida estava por um fio, e muitas vezes me admiro ter escapado tão facilmente. Caso o rifle do líder desse grupo não balançasse de seu coldre ao lado da sela, de tal modo que batia a coronha contra a sua grande lança de metal, eu teria sido morto sem imaginar sequer que a morte estava próxima. Mas o pequeno som fez com que eu me virasse e ali, sobre mim, a menos de dez passos de distância do meu peito, estava a ponta da grande lança de doze metros de comprimento com a extremidade revestida de metal reluzente, mantida baixa na lateral de uma versão montada dos pequenos demônios que eu observava. Quão fracos e inofensivos eles pareciam agora, ao lado dessas enormes e terríveis encarnações do ódio, da vingança e da morte. O próprio homem, pois assim posso o chamar, tinha pelo menos quatro metros e meio de altura e, na Terra, teria pesado em torno de cento e oitenta quilos. Estava sentado em sua montaria como nós nos sentamos em um cavalo, segurando o torso do animal com seus membros inferiores, enquanto as mãos de seus dois braços direitos seguravam sua imensa lança ao lado de sua montaria. Seus dois braços esquerdos estavam estendidos lateralmente para ajudar a preservar seu equilíbrio, a coisa por ele montada não apresentava estribo ou rédeas de qualquer espécie para condução.
E sua montaria! Como podem palavras humanas descrevê-la! Atingia três metros na altura do ombro, tinha quatro pernas de cada lado, um rabo achatado e largo - maior na ponta que na raiz, o qual mantinha reto e para trás enquanto corria -, e uma boca escancarada que dividia sua cabeça do focinho até o pescoço longo e volumoso.
Como seu mestre, era totalmente desprovido de cabelo, mas possuía uma cor de ardósia escura, sendo extremamente liso e brilhante. Sua barriga era branca, e suas pernas mudavam da cor de ardósia de seus ombros e quadris para um amarelo vivo nos pés. Os pés em si eram fortemente acolchoados e sem unhas, fato este que também contribuiu para sua aproximação silenciosa e que, assim como a multiplicidade de pernas, constitui um traço característico da fauna de Marte. Apenas o tipo mais evoluído de homem e um outro animal, o único mamífero existente em Marte, possuem unhas bem formadas, e não existe absolutamente nenhum animal com casco lá. Seguindo esse primeiro atacante demoníaco enfileiravam-se dezenove outros, similares em todos os aspectos mas, como aprendi mais tarde, apresentando características que lhes são peculiares, exatamente como não há dois de nós idênticos, embora sejamos todos forjados em um molde semelhante. Essa imagem ou, melhor dizendo, pesadelo materializado, que descrevi detalhadamente, causou-me apenas uma impressão terrível e imediata conforme girei para me deparar com ela.
Desarmado e desnudo como estava, a primeira lei da natureza manifestou-se na única solução possível para meu problema imediato, que era sair da área de alcance da ponta da lança posicionada para o ataque.
Conseqüentemente, dei um salto bastante mundano, e ao mesmo tempo sobre-humano, para atingir o topo da incubadora marciana, pois determinei que se tratava desse tipo de estrutura.
Meu esforço foi coroado com um sucesso que me chocou não menos do que pareceu surpreender os guerreiros marcianos. Fui elevado dez metros no ar e aterrissei a cerca de trinta metros de meus perseguidores, do lado oposto da estrutura. Desci no musgo macio de forma fácil e sem problemas, e, virando-me, vi meus inimigos alinharem-se ao longo da parede adiante. Alguns me inspecionavam com expressões que, posteriormente, descobri serem de extrema surpresa, e os outros estavam evidentemente satisfeitos por eu não ter molestado sua prole. Estavam conversando em tom baixo, gesticulando e apontando em minha direção. Sua descoberta de que eu não havia machucado os pequenos marcianos e que estava desarmado deve ter feito com que me encarassem com menos ferocidade. Mas, como descobri depois, o que mais pesou a meu favor foi a demonstração de minhas habilidades em saltar obstáculos.
Embora os marcianos sejam imensos, seus ossos são muito grandes e sua musculatura é desenvolvida apenas na proporção da gravidade que devem suportar. O resultado é que eles são infinitamente menos ágeis e menos poderosos, em proporção à seu peso, que um homem terrestre, e duvido que qualquer um deles, caso fosse de repente transportado para a Terra, conseguisse erguer o próprio peso do chão - de fato, estou convencido de que seriam incapazes de fazê-lo. Meu feito era tão maravilhoso em Marte como o teria sido na Terra e, assim, abandonando o desejo de me aniquilar, passaram a me encarar como uma magnífica descoberta a ser capturada e exibida entre seus companheiros.
A vantagem que minha inesperada agilidade me proporcionou permitiu que eu formulasse planos para o futuro imediato e que notasse com mais atenção a aparência dos guerreiros, pois em minha mente não pude desassociar essa gente dos guerreiros que, apenas um dia antes, haviam me perseguido. Notei que cada um deles estava armado com várias outras armas além da enorme lança que descrevi. A arma que fez com que me decidisse contra uma tentativa de fuga por vôo foi a que evidentemente correspondia a algum tipo de rifle e em cujo manuseio senti, por alguma razão, serem eles bastante eficientes.
Esses rifles eram de um metal branco com coronha de madeira que, aprendi mais tarde, ser de uma planta muito leve e imensamente dura, muito apreciada em Marte e completamente desconhecida para nós, habitantes da Terra. O metal do cano era uma liga composta principalmente por alumínio e aço, que aprenderam a temperar até atingir uma dureza que excede em muito a durezado aço com que estamos familiarizados. O peso desses rifles é comparativamente leve e, com os projéteis explosivos de rádio de baixo calibre que utilizam - e o grande comprimento do cano - são extremamente mortais a distâncias que seriam inconcebíveis na Terra. O raio de alcance efetivo teórico desse rifle é de quase quinhentos metros, mas o melhor que podem realmente fazer em serviço quando equipados com seus localizadores sem fio e miras é de um pouco mais de trezentos metros. Isso foi mais que suficiente para me imbuir de grande respeito pelas armas de fogo marcianas, e alguma força telepática deve ter me advertido contra uma tentativa de fuga em plena luz do dia bem debaixo dos focinhos de vinte destas máquinas da morte.
Os marcianos, depois de conversarem por algum tempo, viraram-se e partiram na direção de onde vieram, deixando um de seus homens sozinho ao lado da construção. Quando já haviam se afastado cerca de duzentos metros, se detiveram e, virando suas montarias em nossa direção, sentaram-se e ficaram observando o guerreiro parado ao lado da construção. O guerreiro em questão era aquele cuja lança quase havia me perfurado e era evidentemente o líder do grupo, já que notei que eles pareceram ter tomado suas posições atuais segundo suas ordens. Quando sua brigada estancou, ele desmontou, jogou sua lança ao chão, baixou seus braços pequenos e deu a volta na extremidade da incubadora vindo em minha direção, completamente desarmado e tão desnudo quanto eu, com exceção dos ornamentos amarrados em sua cabeça, membros e peito.
Quando estava a cerca de quinze metros de mim, ele retirou um enorme bracelete de metal e, segurando-a em minha direção na palma aberta de sua mão, dirigiu- se a mim com uma voz clara e ressonante, mas em um idioma que, desnecessário dizer, não pude entender. Ele permaneceu parado como que esperando uma resposta, estirando suas orelhas em forma de antenas e mantendo seus olhos de aparência estranha fixos na minha direção.
Como o silêncio se tornou incômodo, decidi arriscar um pouco de conversa de minha parte, já que acreditei que ele estivesse fazendo uma proposta de paz. O baixar de suas armas e a retirada de sua tropa antes de seu avanço em minha direção teriam significado uma missão pacífica em qualquer lugar na Terra, então, por que não em Marte?
Colocando minha mão sobre meu coração, fiz uma reverência ao marciano e expliquei que, embora não tivesse entendido seu idioma, suas ações demonstravam a paz e amizade que, no momento atual, me eram mais caras ao coração. Claro que daria no mesmo se eu fosse um riacho murmurante, dado o entendimento que meu discurso causou na criatura, mas ele compreendeu a ação que imediatamente se seguiu às minhas palavras. Esticando minha mão em sua direção, avancei e tomei o bracelete de sua palma aberta, prendendo-o sobre meu braço acima do cotovelo. Sorri para ele e fiquei esperando. Sua boca larga estendeu-se em um sorriso de resposta e, prendendo um de seus braços intermediários no meu, ele se virou e dirigiu-se para sua montaria. Ao mesmo tempo, gesticulou aos seus seguidores que avançassem. Eles começaram a caminhar em nossa direção em uma corrida selvagem, mas foram detidos por um sinal dele. Evidentemente ele temeu que eu, caso me assustasse novamente, desta vez saltasse totalmente para fora de seu alcance. Ele trocou algumas palavras com seus homens, gesticulou para mim que montasse na garupa de um deles e, em seguida, montou em seu animal. O indivíduo escolhido baixou duas ou três mãos e me colocou atrás de si, na lustrosa traseira de sua montaria, onde me segurei da melhor forma possível pelas faixas e correias que prendiam as armas e ornamentos do marciano.
Assim, toda a procissão se virou e galopou na direção da cadeia de colinas ao longe.

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