sexta-feira, 31 de maio de 2013

Uma Princesa de Marte - 24° Capítulo

Capítulo 24 - TARS TARKAS ENCONTRA UM
ALIADO


Por volta do meio-dia, passei voando baixo sobre uma grande cidade em ruínas da antiga Marte. Enquanto eu deslizava sobre a planície à minha frente, dei de encontro com alguns milhares de guerreiros verdes engajados em uma tremenda batalha. Mal eu os havia avistado e uma rajada de tiros veio em minha direção. Com sua quase infalível acuidade de mira, minha pequena nave foi instantaneamente transformada em ruínas, caindo erraticamente para o chão. Caí praticamente no centro do combate selvagem, entre guerreiros que não haviam visto minha aproximação - tão ocupados estavam em sua luta de vida ou morte. Os homens lutavam a pé, com espadas longas, enquanto, na periferia do conflito, o disparo ocasional de um atirador de elite derrubava guerreiros que tentassem por algum instante se separar da massa confusa. Conforme minha máquina desapareceu entre eles, percebi que era lutar ou morrer, com grandes chances de morrer de qualquer maneira. E assim atingi o chão desembainhando minha espada longa pronto para me defender da melhor maneira.
Caí perto de um grande monstro que estava em combate com três antagonistas. Quando olhei de soslaio sua face brutal, iluminada pela luz da batalha, reconheci Tars Tarkas. Ele não me viu, pois eu estava um pouco atrás dele. Nesse momento os três guerreiros inimigos - que reconheci como warhoons - atacaram simultaneamente. O poderoso ser agiu rápido contra um deles, mas ao dar um passo para trás preparando outro golpe, caiu sobre um dos mortos e ficou à mercê de seus opositores por um instante. Rápidos como raios, eles se abateram sobre o thark, e os pedaços de Tars Tarkas teriam de ser recolhidos posteriormente se eu não tivesse saltado à frente de sua forma prostrada para combater seus adversários. Eu já havia dado cabo de um deles quando o poderoso thark recobrou seu equilíbrio e rapidamente exterminou o outro.
Ele me lançou um olhar e um leve sorriso se formou em seus lábios macabros. Tocando meu ombro, disse: -
Eu mal poderia reconhecê-lo, John Carter, mas nenhum outro mortal sobre Barsoom faria o que você fez por mim. Acho que aprendi que existe a tal coisa chamada amizade,
meu amigo.
Ele não disse mais nada - ou sequer teria a oportunidade para isso -, porque os warhoons estavam se aproximando de nós. Juntos, lutamos ombro a ombro durante toda aquela longa e quente tarde até que a maré da batalha mudasse e que os remanescentes da feroz horda warhoon recuassem montando seus thoats e fugissem na escuridão que se formava. Dez mil homens haviam se envolvido nessa batalha titânica, e sobre o campo da batalha havia três mil mortos. Nenhum lado pediu, ofereceu, ou mesmo tentou, fazer prisioneiros. Em nosso retorno ã cidade após a batalha, seguimos diretamente para os alojamentos de Tars Tarkas, onde fui deixado a sós enquanto o líder atendia à costumeira reunião do conselho que se segue imediatamente após um conflito. Enquanto esperava sentado o retorno do guerreiro verde, ouvi algo se movendo no apartamento ao lado e, quando fui ver o que era, uma grande e odiosa criatura disparou em minha direção, jogando-me contra uma pilha de sedas e peles sobre a qual eu estava deitado momentos antes. Era Woola... fiel e querido Woola. Ele havia encontrado o caminho de volta a Thark, como Tars Tarkas me contaria depois, e ido imediatamente aos meus antigos aposentos, onde iniciou uma patética e aparentemente infrutífera vigília esperando meu retorno.
Tal Hajus sabe que está aqui, John Carter - disse Tars Tarkas quando retornou das dependências do jeddak. - Sarkoja o viu e o reconheceu quando voltávamos. Tal Hajus ordenou que eu o levasse até ele esta noite. Eu tenho dez thoats, John Carter. Você pode ter uma chance com eles, e eu o acompanharei até a hidrovia mais próxima que leva a Helium. Tars Tarkas pode ser um guerreiro verde cruel, mas também pode ser amigo. Venha não percamos tempo.
E quando você retornar, Tars Tarkas? - perguntei.
Os calots selvagens, talvez. Ou pior - ele respondeu. - Exceto se eu tiver a oportunidade que espero há tanto tempo de enfrentar Tal Hajus em combate.
Nós ficaremos, Tars Tarkas, e veremos Tal Hajus esta noite. Você não precisa se sacrificar e talvez seja esta a noite que guarda a chance que tanto espera.
Ele discordou energicamente, dizendo que Tal Hajus ainda era assolado por uma fúria selvagem apenas por lembrar do murro que eu havia lhe acertado, e que se tivesse a chance de colocar as mãos em mim, eu seria sujeitado às mais terríveis torturas. Enquanto comíamos, repeti a Tars Tarkas a história que Sola havia me contado naquela noite no fundo do mar, durante a marcha para Thark. Ele falou pouco, mas os músculos de sua face se revolveram em paixão e agonia pela lembrança dos horrores que haviam se abatido sobre a única coisa que ele jamais amou em sua fria, cruel e terrível existência. Assim, não mais avesso à minha sugestão de irmos ter com Tal Hajus, me disse apenas que antes gostaria de falar com Sarkoja. Atendendo seu pedido, acompanhei-o até os aposentos dela e o olhar de ódio perverso que ela lançou sobre mim foi a recompensa mais gratificante para qualquer desventura futura que esse retorno acidental a Thark poderia me trazer.
Sarkoja - disse Tars Tarkas -, quarenta anos atrás você serviu de instrumento para a tortura e morte de uma mulher chamada Kozava. Acabei de descobrir que o guerreiro que amava aquela mulher agora sabe de seu papel na trama. Talvez ele não mate você, Sarkoja, pois este não é nosso costume, mas não há nada que o impeça de amarrar a ponta de uma correia em seu pescoço e a outra em um thoat selvagem, simplesmente para testar sua capacidade de sobrevivência e assim ajudar a perpetuar nossa raça. Ao ouvir isso, ele jurou que realizaria tal feito pela manhã, e achei correto avisá-la, porque sou um homem justo. O rio Iss fica a uma pequena peregrinação de distância, Sarkoja. Venha, John Carter.
Na manhã seguinte, Sarkoja havia partido e nunca mais foi vista. Em silêncio, caminhamos rapidamente ao palácio do jeddak, onde fomos levados imediatamente à sua presença. Na verdade, ele mal podia esperar para me ver e estava em pé sobre sua plataforma olhando fixamente para a porta de entrada quando chegamos.
Amarre-o naquele pilar - ele guinchou. - Vamos ver quem ousou agredir o poderoso Tal Hajus. Aqueçam os ferros. Com minhas próprias mãos queimarei seus olhos ainda em sua cabeça para que seu olhar não enoje minha pessoa.
Líderes de Thark - eu bradei, voltando-me para a assembléia do conselho e ignorando Tal Hajus. - Sou um líder como vocês e hoje lutei lado a lado com seu maior guerreiro. Vocês me devem, ao menos, uma audiência. Fiz por merecer por meus atos de hoje. Você clamam ser apenas pessoas...
Silêncio - rugiu Tal Hajus. - Amordacem a criatura e prendam-na como ordenei.
Justiça, Tal Hajus - exclamou Lorquas Ptomel. - Quem é você para colocar de lado os costumes ancestrais dos tharks?
Sim, justiça! - ecoou outra dúzia de vozes e, assim, enquanto Tal Hajus fumegava e espumava, continuei: Vocês são um povo valente e amam a bravura, mas onde estava seu poderoso jeddak durante a batalha de hoje? Eu não o vi no calor do confronto, pois ele não estava lá. Ele mutila mulheres indefesas e crianças em seu lar, mas qual foi a última vez que o viram lutando com homens? Ora, até mesmo eu, um anão perto dele, derrubei-o com um único golpe de meu punho. Não é assim que os tharks escolhem seus jeddaks? Aqui ao meu lado está um grande thark, um poderoso guerreiro e um homem nobre. Líderes, como soa "Tars Tarkas, jeddak de Thark"?
Um clamor de concordância ressoou saudando essa sugestão.
Permanece a este conselho o comando, e Tal Hajus deve provar sua capacidade de reinar. Se fosse um homem valente, desafiaria Tars Tarkas ao combate, mas ele não o fará, porque Tal Hajus tem medo. Tal Hajus, seu jeddak, é um covarde. Eu poderia tê-lo matado com minhas próprias mãos, e ele sabe disso.
Depois que terminei, houve um silêncio nervoso, enquanto todos os olhos de voltavam sobre Tal Hajus. Ele não falou ou se moveu, mas o verde malhado de seu semblante ficou lívido e a espuma congelou em seus lábios.
Tal Hajus - disse Lorquas Ptomel com uma voz fria e dura nunca em toda a minha vida presenciei um jeddak dos tharks ser tão humilhado. Só pode haver uma resposta para essa acusação. Esperamos por ela. Mesmo assim, Tal Hajus continuou estático, petrificado.
Líderes - continuou Lorquas Ptomel -, deve o jeddak Tal Hajus provar para Tars Tarkas sua capacidade de governar?
Havia vinte líderes sobre a tribuna, e vinte espadas brilharam no alto em concordância.
Não havia alternativa. A decisão era definitiva e assim Tal Hajus desembainhou sua espada longa e avançou para encontrar Tars Tarkas. O combate logo estava terminado e, com seu pé sobre o pescoço do monstro morto, Tars Tarkas tornou-se o jeddak dos tharks. Seu primeiro ato foi fazer de mim um líder completo, com a patente que eu havia conquistado por meus combates nas primeiras semanas de cativeiro entre eles. Vendo a disposição favorável dos guerreiros em relação a Tars Tarkas, assim como em relação a mim, aproveitei a oportunidade para engajá-los à minha causa contra Zodanga. Contei a Tars Tarkas a história de minhas aventuras e, em poucas palavras, expliquei a ele o que se passava em minha mente. John Carter sugere que a resgatemos e a devolvamos a Helium. O saque a Zodanga será magnífico, e eventualmente tenho pensado que se tivéssemos uma aliança com o povo de Helium, poderíamos obter segurança e sustentabilidade suficientes para permitir um aumento do volume e freqüência de nossas ninhadas e, assim, tornarmo-nos inquestionavelmente soberanos entre os homens verdes de toda a Barsoom. O que me dizem?
Era uma chance de lutar, uma oportunidade de saquear, e eles morderam a isca como um rato corre para a ratoeira. Para tharks, eles eram extremamente entusiasmados e, antes que outra meia hora se passasse, vinte
mensageiros montados já estavam cavalgando pelos fundos dos mares mortos para anunciar a reunião das hordas para a expedição. Em três dias estávamos em marcha rumo a Zodanga. Éramos cem mil bravos depois de Tars Tarkas ter recrutado os serviços de três hordas menores com a promessa da grande pilhagem a Zodanga. Eu cavalgava na dianteira da coluna ao lado do grande thark enquanto, aos pés de minha montaria, meu amado Woola nos acompanhava. Viajamos sempre à noite, calculando nossa marcha para que acampássemos durante o dia nas cidades desertas nas quais, inclusive as feras, ficávamos o tempo todo na parte interna das construções. Durante a marcha, Tars Tarkas fez uso de sua considerável habilidade como governante e recrutou outros cinqüenta mil guerreiros de várias hordas. Assim, dez dias após termos partido, paramos à meia-noite do lado de fora da grande cidade fortificada de Zodanga. Cento e cinqüenta mil bravos.
A força de combate e a eficiência dessas hordas de ferozes monstros verdes eram equivalentes a dez vezes o mesmo número de homens vermelhos. Tars Tarkas me disse que nunca na história de Barsoom uma força de guerreiros verdes como essa havia marchado para a guerra juntos. Era uma tarefa colossal manter qualquer tipo de harmonia entre eles, e é inacreditável para mim que ele tenha levado todos até a cidade sem que um grande motim irrompesse entre eles. Mas ao nos aproximarmos de Zodanga, suas disputas pessoais haviam sucumbido perante ao ódio maior que sentiam pelos homens vermelhos e, em especial, aos zodanganos, que por anos haviam empreendido uma campanha brutal pela completa exterminação dos homens verdes, dirigindo atenção especial à destruição de suas incubadoras. Agora que Zodanga estava diante de nós, a tarefa de obter um meio de entrar na cidade foi delegada a mim. Aconselhando Tars Tarkas a manter suas forças divididas em duas frentes fora do alcance das sentinelas da cidade - cada uma alinhada a cada um dos grandes portões -, reuni vinte guerreiros desmontados e me aproximei de um dos pequenos portões que pontilhavam as muralhas em pequenos intervalos. Esses portões não têm guardas fixos, mas são cobertos por sentinelas que patrulham a avenida que circunda a cidade beirando os muros assim como nossas polícias metropolitanas patrulham suas jurisdições. As muralhas de Zodanga têm vinte e dois metros de altura e quinze de espessura. São construídas de enormes blocos de carboneto de silício, e a missão de adentrar a cidade parecia, aos guerreiros verdes que me acompanhavam, impossível. Os indivíduos que haviam sido instruídos a me seguir eram de uma das hordas menores e, portanto, não me conheciam. Colocando três deles voltados para o muro, seus braços enganchados uns nos outros, ordenei que dois outros montassem em seus ombros e, a um sexto, ordenei que escalasse os ombros dos dois acima. A cabeça do guerreiro no ápice ficava a doze metros do chão.
Dessa forma, com dez guerreiros, construí uma série de três degraus do solo até os ombros do guerreiro do topo. Guardando uma pequena distância atrás deles, tomei impulso correndo, subindo de uma fileira para a próxima e, com um salto final dos ombros largos do último deles, me agarrei firmemente ao topo da grande muralha e silenciosamente me projetei para o vasto plano que a encimava. Eu arrastava atrás de mim seis tiras de couro amarradas, emprestadas de seis guerreiros. Essas tiras haviam sido previamente presas umas às outras e, passando a ponta de uma para o guerreiro mais próximo do topo, desci a outra ponta cuidadosamente sobre o lado oposto do muro, na direção da avenida abaixo. Não havia ninguém à vista, e assim desci até a ponta da corda de couro e saltei os dez metros restantes até o pavimento. Kantos Kan havia me ensinado o segredo para abrir esses portões. No momento seguinte, vinte grandes guerreiros estavam dentro da cidade condenada de Zodanga. Descobri, para minha alegria, que eu havia entrado na periferia mais baixa do enorme terreno do palácio. A construção se apresentava ao longe com uma luz de brilho glorioso e, na mesma hora, enviei um destacamento de guerreiros diretamente para o interior do palácio enquanto o restante da valente horda atacava as barracas dos soldados. Despachei um de meus homens para pedir a Tars Tarkas uma unidade de cinqüenta tharks, anunciando minhas intenções. Ordenei que dez guerreiros tomassem e abrissem um dos portões maiores enquanto eu e os outros nove remanescentes abriríamos o outro. Precisávamos fazer nosso trabalho em silêncio e nenhum tiro deveria ser disparado, nenhum avanço em grupo deveria ser feito até que eu tivesse chegado ao palácio com meus cinqüenta tharks. 
Nosso plano funcionou perfeitamente. As duas sentinelas que encontramos foram encomendadas aos seus deuses sobre os bancos do mar perdido de Korus, e os guardas de ambos os portões os seguiram em silêncio.

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