domingo, 26 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 20° Capítulo

Capítulo 20 - NA FÁBRICA DE ATMOSFERA



Por dois dias esperei ali por Kantos Kan, mas como ele não apareceu, comecei a caminhar para o noroeste, em direção ao ponto onde ele havia dito que se localizava a hidrovia mais próxima. Minha única alimentação se baseava no leite vegetal das plantas, que forneciam tão generosamente esse fluido valioso.
Por duas longas semanas errei, cambaleando pelas noites, guiado somente pelas estrelas e escondendo-me durante os dias atrás de alguma saliência de rocha ou entre as colinas ocasionais que cruzava. Várias vezes fui atacado por feras selvagens. Monstruosidades estranhas e grotescas pulavam sobre mim no escuro, forçando-me a carregar minha espada longa constantemente em punho, sempre preparado a enfrentá-las. Normalmente, meu estranho e recentemente adquirido poder telepático me avisava com tempo suficiente, mas uma vez me vi com presas odiosas em minha jugular e uma cara peluda contra a minha antes que eu sequer soubesse que estava em perigo. Que tipo de coisa estava sobre mim, não sei dizer, mas que era grande, pesada e com muitas pernas, isso eu pude sentir. Minhas mãos estavam em sua garganta antes que as presas tivessem chance de se enterrar em meu pescoço. Vagarosamente, forcei sua cara peluda para longe de mim e cerrei meus dedos como um alicate sobre sua traqueia. Sem emitir som enquanto estávamos no chão, a fera empregou toda a sua força para me alcançar com suas terríveis presas enquanto eu me desdobrava para continuar meu aperto, sufocando-a à medida que tentava mantê-la longe de minha garganta. Vagarosamente, meus braços cederam devido ao embate desigual e, polegada após polegada, os olhos faiscantes e os caninos reluzentes de meu antagonista chegavam cada vez mais perto de mim. Em determinado ponto, quando sua cara peluda tocou novamente a minha, percebi que tudo estava acabado. Nesse momento, uma massa viva de destruição saltou da escuridão em volta e caiu sobre a criatura que me mantinha preso ao chão. Os dois rolaram rosnando sobre o musgo, rasgando e dilacerando um ao outro de uma maneira amedrontadora, mas em pouco tempo tudo estava acabado, e meu salvador se postou com a cabeça abaixada sobre a garganta da coisa morta que desejava me matar. A lua mais próxima, surgindo repentinamente sobre o horizonte e iluminando o cenário barsoomiano, mostrou que meu guardião era Woola, mas de onde havia vindo ou como havia me encontrado, eu não sabia dizer. Desnecessário citar que eu estava alegre por seu companheirismo, mas meu prazer em vê-lo se misturava à ansiedade por tê-lo deixado com Dejah Thoris. Eu tinha certeza de que somente sua morte explicaria o distanciamento de Woola dela, tão leal que era em obedecer meus comandos.
Agora, sob a luz das luas fulgurantes, vi que ele era apenas uma sombra de sua antiga forma. E quando ele se desviou de meus afagos e começou a devorar avidamente a carcaça aos meus pés, entendi que o pobre companheiro estava mais que faminto. Eu mesmo estava apenas um pouco menos apurado, mas não consegui me forçar a comer a carne crua e não possuía meios de acender um fogo. Quando Woola terminou sua refeição, retomei minha cansativa e aparentemente infinita caminhada em busca da suposta hidrovia.
Ao alvorecer do décimo quinto dia de minha jornada, fiquei radiante ao avistar as altas árvores que anunciavam o objeto de minha busca. Por volta do meio-dia me arrastei dolorosamente aos portais de uma grande construção que talvez cobrisse seis quilômetros quadrados e tinha uma altura de sessenta metros. Não apresentava nenhuma abertura em suas poderosas paredes, exceto uma pequena porta perto da qual me esparramei, exausto. Não havia sinal de vida alguma à vista. Não pude encontrar uma campainha ou outro meio de fazer que minha presença fosse percebida pelos habitantes daquele lugar, a não ser que uma pequena abertura na parede próxima à porta servisse a esse propósito. Era quase tão pequena quanto um lápis comum. Deduzi que aquilo devia ser algum tipo de bocal e levei minha boca até ele. Quando estava pronto para falar em seu interior, uma voz veio dali perguntando quem eu era, de onde e qual a natureza de minha jornada. Expliquei que havia escapado dos warhoons e que estava morrendo de fome e exaustão.
Você veste o metal de um guerreiro, está sendo seguido por um calot e ainda assim tem a aparência de um homem vermelho. Sua cor não é nem verde nem vermelha. Em nome do nono dia, que tipo de criatura é você?
Sou um amigo dos homens vermelhos de Barsoom e estou faminto. Em nome da humanidade, por favor, abra - respondi.
Na mesma hora a porta começou a se afastar diante de mim e foi se afundando para dentro da parede por cerca de quinze metros para então deslizar suavemente para a esquerda, expondo um corredor curto e estreito feito de concreto. Do outro lado dele havia uma outra porta, parecida em todos os aspectos com a primeira que eu havia acabado de passar. Não havia ninguém à vista, mas imediatamente após passarmos pela porta, ela deslizou mansamente de volta ao seu lugar atrás de nós e se afastou rapidamente até sua posição original, na parede frontal da construção. Conforme a porta deslizou para o lado, notei sua grande espessura, que chegava facilmente a cinco metros. E quando ela voltou ao seu lugar após se fechar atrás de nós, grandes cilindros de aço haviam se soltado do teto atrás dela e se encaixado em suas extremidades
inferiores, em largas aberturas no piso. 
Seus testemunhos são bastante extraordinários - disse a voz após terminar seu interrogatório. - Mas você evidentemente fala a verdade, assim como é evidente que não é de Barsoom. Posso ver isso observando a formação de seu cérebro, a estranha localização de seus órgãos internos e a forma e o tamanho de seu coração.
Consegue ver através de mim? - exclamei.
Sim, consigo ver tudo exceto seus pensamentos. Se você fosse um barsoomiano, eu poderia lê-los.
Então, a porta se abriu do outro lado da câmara e um homem estranho e ressecado como uma múmia veio em minha direção. Ele vestia somente um único artigo de vestuário ou enfeite, um pequeno colar de ouro do qual pendia sobre seu peito um grande ornamento, do tamanho de um prato de jantar incrustado com grandes diamantes em toda a volta, reservando o centro exato para uma pedra estranha, de dois centímetros e meio de diâmetro, que cintilava nove raios diferentes. Eram as sete cores de nosso prisma terreno e dois outros lindos raios que, para mim, eram novos e ainda sem nome. Não consigo descrevê-los muito além de como se descreve o vermelho a um cego. Somente sei que são belos ao extremo.
O velho sentou-se e falou comigo por horas. A parte mais esquisita de nosso encontro foi que eu era capaz de ler todos os seus pensamentos, enquanto ele não podia vislumbrar sequer uma fração dos meus, exceto se eu falasse.
Eu não podia informá-lo de minha habilidade de sentir suas operações mentais, e, portanto, aprendi muito com ele - o que seria de grande valia para mim posteriormente. Eram coisas que eu nunca saberia se ele suspeitasse de meu poder alienígena, porque os marcianos têm perfeito controle do funcionamento de suas mentes, sendo capazes de direcionar seus pensamentos com absoluta precisão. A construção na qual eu me encontrava continha o maquinário que produz a atmosfera artificial que sustenta Marte. 0 segredo de todo o processo é focado no uso do nono raio, uma das grandes cintilações que notei emanando da grande pedra no diadema de meu anfitrião.
Esse raio é separado dos outros raios do sol ao passar por instrumentos cuidadosamente ajustados e colocados no telhado da grande construção. Três quartos dela são reservatórios nos quais o nono raio é armazenado. Esse produto é tratado eletricamente, ou seja, certas porções das refinadas vibrações elétricas são incorporadas a ele, e em seguida o produto é bombeado para os cinco principais centros de ar do planeta onde, quando liberado, entra em contato com o éter espacial e se transforma em atmosfera. Há sempre uma reserva suficiente do nono raio estocada na grande construção para manter a atual atmosfera marciana por mil anos. O único temor, como meu velho amigo contou, era o de que algum acidente se abatesse sobre os aparelhos de bombeamento.
Ele me levou até uma câmara interna onde pude ver a bateria de vinte bombas de rádio, cada qual destinada à tarefa de prover Marte inteiro com o composto atmosférico. Por oitocentos anos, disse o velho, ele havia vigiado essas bombas, que eram usadas em alternância a cada período - equivalente a pouco mais de vinte e quatro horas e meia da contagem terrestre. Ele tinha um assistente com quem dividia os turnos. Cada um desses homens passava meio ano marciano, algo perto de trezentos e quarenta e quatro de nossos dias, sozinho nessa edificação isolada. Todo marciano vermelho é ensinado, já nos primeiros anos da infância, a fabricar atmosfera, mas somente dois por vez detêm o segredo de ingressar no grande edifício que, construído com suas muralhas de quarenta e cinco metros de espessura, é absolutamente inexpugnável. Seu teto é protegido de ataques aéreos por uma cobertura de vidro de um metro de meio de espessura. O único temor que guardam é pelo ataque de marcianos verdes ou de algum homem vermelho ensandecido, porque todos os barsoomianos sabem que a própria existência de vida em Marte depende do funcionamento ininterrupto desta fábrica.
Um fato curioso que descobri enquanto observava seus pensamentos é que as portas externas são manipuladas por meio telepático. As trancas são tão perfeitamente ajustadas que as portas são movidas pela ação de uma certa combinação de ondas mentais. Para experimentar meu novo brinquedo, pensei em surpreendê-lo revelando sua combinação, e assim perguntei como ele havia feito para abrir portas tão imensas de dentro das câmaras internas da fortaleza. Rápido como um raio, ele fez saltar de sua mente nove sons marcianos, mas estes desapareceram rapidamente quando me respondeu que se tratava de um segredo que não podia divulgar. Dali em diante, mudou seu tratamento para comigo como se temesse ter sido surpreendido divulgando seu grande segredo. Li desconfiança e medo em seu olhar e pensamento, apesar de suas palavras continuarem simpáticas.
Antes de me recolher para dormir, prometeu que me daria uma carta para um produtor de uma plantação próxima que me ajudaria a chegar a Zodanga que, segundo disse, era a cidade marciana mais próxima. Mas certifique-se de não deixá-los saber que está indo para Helium, porque estão em guerra com aquele país. Meu assistente e eu não somos de país algum, pertencemos a toda a Barsoom e esse talismã que usamos nos protege em todas as terras, mesmo entre os homens verdes. Mas, mesmo assim, não confiamos muito neles e os evitamos - ele adicionou. Portanto, boa noite, meu amigo - ele continuou. - Desejo- lhe uma noite longa e revigorante de sono. Sim, um longo sono.
E mesmo sorrindo prazerosamente, vi em seus pensamentos que ele desejava que nunca tivesse me deixado entrar. Em seguida, vi uma imagem dele parado sobre mim durante a noite, e um golpe rápido de uma longa adaga e as palavras obtusas se formaram: "Desculpe, mas isto é pelo bem de Barsoom". Quando fechou a porta de minha câmara atrás de si, seus pensamentos foram desligados de mim, assim como sua presença, o que me pareceu estranho por meu parco conhecimento sobre transferência mental. O que eu devia fazer? Como poderia escapar por aquelas poderosas paredes? Eu poderia matá-lo facilmente agora que estava ciente, mas, uma vez morto, eu não poderia escapar e, com as máquinas paradas na grande fábrica, eu morreria junto com todos os outros habitantes do planeta. Todos, até mesmo Dejah Thoris, se ainda não estivesse morta. Para os outros, eu não dava a mínima, mas a lembrança de Dejah Thoris levou para longe de minhas idéias o desejo de matar meu anfitrião desprevenido. Cautelosamente, abri a porta do meu apartamento e saí, seguido por Woola. Um plano ousado me ocorreu de repente: tentaria forçar as grandes travas com as nove ondas mentais que havia lido na mente de meu hospedeiro. Rastejando furtivamente corredor após corredor, e agora por corredores serpenteantes que guinavam para lá e para cá, finalmente alcancei o grande hall no qual havia quebrado meu longo jejum naquela manhã. Não tive sinal de meu anfitrião nem sabia para onde ele se retirava durante a noite. Eu estava a ponto de entrar bravamente na sala
quando um leve barulho atrás de mim me fez continuar nas sombras de uma reentrância no corredor. Arrastando Woola comigo, fiquei agachado na escuridão. Na mesma hora, o velho homem passou perto de mim enquanto entrava na mesma sala fracamente iluminada que eu estava prestes a atravessar. Vi que ele levava uma longa e fina adaga em sua mão e que estava afiando sua ponta em uma pedra. Em sua mente havia a decisão de inspecionar as bombas de rádio, o que lhe tomaria cerca de trinta minutos e, em seguida, retornaria à minha câmara e daria cabo de mim.
Quando ele passou pelo grande hall e desapareceu corredor abaixo na direção da sala de bombas, deixei sorrateiramente meu esconderijo e cruzei a grande porta, a mais interna das três que me separavam da liberdade. Concentrando minha mente na fechadura maciça, disparei as nove ondas de pensamento contra ela. Em expectativa sufocante, esperei até quando a grande porta se moveu suavemente em minha direção e deslizou em silêncio para um dos lados. Um após o outro, os grandes portais se abriram ao meu comando, e Woola e eu saímos para a escuridão, livres, mas não em melhores condições do que estávamos antes - exceto por agora estarmos de estômago cheio. Apressando-me para longe das sombras dos formidáveis blocos, cheguei até a primeira encruzilhada, pretendendo atingir a primeira estrada o mais rápido possível. Cheguei a ela perto do amanhecer. Adentrando a primeira área delimitada que encontrei, procurei por evidências de alguma habitação. Havia ali prédios de concreto de formato irregular lacrados por portas intransponíveis e pesadas, às quais nenhuma quantidade de batidas ou chamados logrou resposta.
Cansado e esgotado pela falta de sono, joguei-me sobre o chão ordenando que Woola ficasse de guarda. Algum tempo depois fui acordado por um amedrontador rosnado e abri meus olhos para ver três marcianos
vermelhos parados a uma curta distância, seus rifles mirados contra nós.
- Estou desarmado e não sou inimigo - apressei-me em explicar. - Fui prisioneiro dos homens verdes e estou a caminho de Zodanga. Tudo o que peço é comida e descanso para mim e meu calot, e as indicações corretas para atingir meu destino.
Eles baixaram seus rifles e avançaram com satisfação até mim, pousando suas mãos direitas sobre meu ombro esquerdo - sua maneira habitual de saudação - enquanto faziam muitas perguntas sobre mim e minhas jornadas errantes. Em seguida, me levaram até a casa de um deles, que ficava próxima. As construções às quais visitei boa parte da manhã eram ocupadas apenas pelo gado e produtos da fazenda. A aconchegante casa ficava em um bosque de árvores enormes e, como todos os lares dos marcianos vermelhos, durante a noite erguia-se do chão entre doze e quinze metros sobre um pilar de metal que corria para cima e para baixo dentro de uma luva enterrada no solo, operada por um pequeno motor de rádio na entrada do hall da construção. Em vez de se incomodarem com barras e parafusos para suas habitações, os marcianos vermelhos simplesmente as elevavam para longe dos perigos da noite. Eles também tinham meios próprios de descer ou se elevar do chão se quisessem sair dos domicílios. Esses irmãos, com suas esposas e filhos, ocupavam três casas similares na fazenda. Eles próprios não trabalhavam, por serem oficiais a serviço do governo. O esforço físico era realizado por condenados, prisioneiros de guerra, delinqüentes sociais e solteiros inveterados pobres demais para pagar a alta taxa celibatária que todos os governos de marcianos vermelhos impunham.
Os irmãos eram a personificação da cordialidade e hospitalidade. Passei vários dias ali, repousando e me recuperando de minhas longas e árduas experiências. Quando já haviam ouvido minha história - da qual omiti qualquer referência a Dejah Thoris e ao velho da fábrica de atmosfera - me aconselharam a pintar o corpo com uma cor que lembrasse mais os de sua raça para então tentar um emprego em Zodanga, fosse no exército ou na armada. - As chances de acreditarem em seu relato antes que você prove ser confiável e faça amigos entre a alta nobreza da corte são remotas. E isso você pode conseguir facilmente por meio do serviço militar, porque somos um povo bélico de Barsoom - explicou um deles - e guardamos nossos maiores favores para os grandes lutadores. Quando eu estava pronto para partir, me forneceram um pequeno macho thoat domesticado, que é usado como montaria por todos os marcianos vermelhos. O animal tem o tamanho aproximado de um cavalo, é muito gentil, mas é uma réplica exata em cores e forma de seus primos enormes e ferozes na natureza.
Os irmãos haviam me dado também um óleo avermelhado com o qual untei meu corpo todo. Um deles cortou meus cabelos, que haviam crescido muito no decorrer do tempo. Quadrado atrás e com uma franja na frente, para que assim eu transitasse por toda a Barsoom como um legítimo marciano vermelho. Meus metais e ornamentos também tiveram seu estilo renovado para o de um cavalheiro zodangano membro da casa de Ptor, que era o nome de família de meus benfeitores. Eles encheram minha bolsa lateral com dinheiro zodangano.
O sistema monetário em Marte é parecido com o nosso, exceto pelo fato de as moedas serem ovais. Cédulas de dinheiro são emitidas pelos próprios indivíduos conforme suas necessidades e compensadas uma vez ao ano. Se um homem emite mais do que pode saldar, o governo paga seus credores completamente e o endividado quita seu débito nas fazendas ou nas minas, que são todas de propriedade do governo. É um bom modelo, exceto para os endividados, por ser difícil encontrar trabalhadores voluntários suficientes para as grandes fazendas isoladas de Marte, que se estendem em estreitas faixas de pólo a pólo, passando por vastidões povoadas por animais selvagens e homens mais selvagens ainda.
Quando mencionei a impossibilidade de minha recíproca à sua gentileza, me asseguraram de que eu teria amplas oportunidades para isso - se eu vivesse bastante tempo em Barsoom. Acenaram seu adeus até que eu sumisse de vista sobre a estrada larga e branca.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...