terça-feira, 7 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 2° Capítulo


Capítulo 02 - A FUGA DA MORTE


Uma sensação de deliciosa languidez se abateu sobre mim, meus músculos relaxaram e estava a ponto de me entregar ao desejo de dormir quando o som de cavalos se aproximando chegou aos meus ouvidos. Tentei me erguer, mas fiquei horrorizado em descobrir que meus músculos se recusavam a responder aos meus comandos. Eu continuava completamente desperto, mas incapaz de mover um músculo sequer, como se tivesse me transformado em pedra. Foi então, pela primeira vez, que notei um leve vapor preenchendo a caverna. Era extremamente tênue e só podia ser notado contra a abertura que levava à luz do dia. Também chegou às minhas narinas um odor ligeiramente acre, e pude apenas supor que eu havia sido abatido por algum gás venenoso. Mas, como mantinha a consciência e ainda assim estava incapacitado de me mover, era algo que não conseguia compreender. 
Eu havia me deitado voltado para a abertura da caverna, de onde podia ver um pequeno trecho da trilha que se encontrava entre a caverna e a curva do penhasco ao redor do qual a trilha passava. O barulho de cavalos se aproximando havia cessado e julguei que os índios estivessem rastejando furtivamente em minha direção ao longo da pequena saliência que levava à minha tumba em vida. Lembro-me de ter desejado que acabassem comigo rapidamente, já que não tinha nenhum apreço especial pela idéia das incontáveis coisas que poderiam fazer comigo caso lhes aprouvesse. Não precisei esperar muito até que um som furtivo me informasse de sua proximidade e, em seguida, um rosto encoberto por um chapéu e com listras pintadas esticou-se cuidadosamente próximo da borda do penhasco. E olhos selvagens encontraram os meus. Tinha certeza de que ele podia me ver na mortiça luz da caverna, uma vez que toda a luz do sol nascente projetava-se sobre mim pela abertura. O índio, em vez de se aproximar, simplesmente parou e encarou-me. Seus olhos saltando das órbitas e seu queixo caído. E então outro rosto selvagem apareceu, e um terceiro e um quarto e um quinto, erguendo seus pescoços sobre os ombros dos companheiros que não ousavam ultrapassar a estreita fenda. Cada rosto constituía uma imagem de assombro e medo, mas por qual razão não pude atinar, nem vim a descobrir antes que se passassem dez anos. Era aparente que havia mais guerreiros por trás dos que me observavam, já que os primeiros transmitiam palavras sussurrantes para os que se encontravam para trás.
De repente, um lamento baixo, porém distinto, foi emitido nas profundezas da caverna atrás de mim. Quando os índios o ouviram, viraram-se e correram aterrorizados, assolados pelo pânico. Tão furiosos foram seus esforços em escapar do ser invisível atrás de mim que um dos guerreiros foi impetuosamente arremessado do penhasco para as rochas abaixo. Seus gritos desesperados ecoaram pelo desfiladeiro por um curto período de tempo, e mais uma vez tudo ficou em silêncio.
O som que os havia aterrorizado não se repetiu, mas foi suficiente para que eu começasse a especular a respeito do possível horror oculto nas sombras às minhas costas. O medo é um sentimento relativo, de modo que só posso medir minhas impressões naquele momento por meio das situações de perigo que vivi em períodos anteriores àquele, ou por meio das experiências que passei desde então; mas posso afirmar sem nenhuma vergonha que, se as sensações que suportei durante os minutos seguintes foram de medo, que Deus ajude o covarde, pois a covardia é, sem sombra de dúvidas, sua própria punição.
Estar paralisado de costas para um perigo tão horrível e desconhecido, de cujo som os ferozes guerreiros apaches fogem desenfreadamente como um rebanho de ovelhas fugiria de uma matilha de lobos, me parece a última palavra em situações apavorantes para um homem que sempre esteve acostumado a lutar por sua vida com todas as forças de sua poderosa constituição. Diversas vezes pensei ter ouvido sons débeis atrás de mim, como se alguém estivesse se movendo com cuidado, mas finalmente até esses sons cessaram e fui deixado só, para contemplar minha própria situação. Podia apenas conjeturar vagamente a causa de minha paralisia e minha única esperança era a de que passasse de forma tão repentina quanto se abateu sobre mim. No final da tarde, meu cavalo, que ficara parado com as rédeas soltas diante da caverna, começou a descer lentamente a trilha - evidentemente em busca de comida e água -, e fiquei só com o misterioso e desconhecido companheiro e com o corpo sem vida de meu amigo, que, dentro de meu campo de visão, jazia na saliência em que o havia colocado no início da manhã.
De lá até possivelmente a meia-noite, tudo era silêncio, o silêncio da morte. Então, repentinamente, o pavoroso lamento da manhã abateu-se sobre meus alarmados ouvidos, e novamente das sombras escuras veio o som de algo se movendo e um fraco murmúrio, como o de folhas mortas. O choque para o meu já extenuado sistema nervoso foi terrível ao extremo e, com um esforço sobre-humano, esforcei-me para quebrar meus terríveis grilhões. Foi um esforço da mente, da vontade, dos nervos; não muscular, pois não era capaz de mover nem meu dedo mínimo, mas não menos poderoso apesar de tudo. E então algo cedeu, houve uma momentânea sensação de náusea, um barulho agudo como o estalar de um fio de aço, e me pus em pé de costas contra a parede da caverna, encarando meu inimigo desconhecido.
A luz da lua inundou a caverna e, diante de mim, estava meu próprio corpo, na mesma posição em que esteve deitado durante todas aquelas horas, com os olhos encarando a borda externa e as mãos pousadas frouxamente sobre o chão. Primeiro observei meu corpo sem vida sobre o chão da caverna e, em seguida, olhei para mim mesmo em total perplexidade, pois ali eu jazia vestido, e, todavia, estava em pé, nu como no momento de meu nascimento.
A transição foi tão repentina e tão inesperada que por um momento me esqueci de tudo, exceto minha estranha metamorfose. Meu primeiro pensamento foi: "Então isso é a morte! Realmente passei para sempre para aquela outra vida!" Mas não podia acreditar nisso, uma vez que sentia meu coração batendo contra minhas costelas em virtude do vigor de meu esforço em me libertar do torpor que me havia acometido. Minha respiração saía em arfadas rápidas e curtas, um suor frio saía de cada poro de meu corpo e a antiga prática do beliscão revelou o fato de que eu não era nada além de um espectro.
Minha atenção foi nova e repentinamente chamada de volta para os meus arredores por uma repetição do estranho lamento vindo das profundezas da caverna. Minhas armas estavam atadas ao meu corpo sem vida que, por alguma razão insondável, me era impossível tocá-lo. Minha carabina estava em seu coldre, amarrada à minha sela, e como meu cavalo havia fugido, fui deixado sem meios de defesa. Minha única alternativa parecia ser a fuga, e minha decisão se cristalizou com a recorrência do ruído daquilo que agora parecia, na escuridão da caverna e para minha imaginação distorcida, estar rastejando furtivamente em minha direção.
Incapaz de resistir por mais tempo à tentação de fugir daquele lugar terrível, pulei rapidamente através da abertura para a luz das estrelas de uma noite clara do Arizona. O ar fresco e revigorante das montanhas fora da caverna agiu como um tônico imediato e senti uma vivacidade e coragem renovadas fluindo através de meu corpo. Parando na extremidade da abertura, repreendi- me pelo que, agora, parecia ser uma apreensão totalmente injustificada. Conjeturei que havia permanecido deitado e indefeso durante muitas horas dentro da caverna, que nada me havia molestado, e meu bom senso, quando capaz de seguir um raciocínio claro e lógico, convenceu-me de que os ruídos que ouvi deveriam ser resultado de causas puramente naturais e inofensivas. Provavelmente, a configuração da caverna era tal que uma leve brisa poderia causar os sons que ouvi.
Decidi investigar, mas primeiro ergui a cabeça para encher meus pulmões com o puro e revigorante ar noturno das montanhas. 
Ao fazer isso, vi estendendo-se muito abaixo de mim a bela vista do desfiladeiro rochoso e uma planície pontilhada de cactos, transformada pela luz do luar em um milagre de doce esplendor e impressionante encanto.
Poucas maravilhas no oeste são mais inspiradoras que as belezas de uma paisagem banhada pelo luar no Arizona. As montanhas prateadas na distância, as estranhas luzes e sombras sobre as encostas escarpadas, os riachos e os detalhes inusitados dos rígidos e belos cactos formam uma imagem ao mesmo tempo mágica e inspiradora, como se estivéssemos captando pela primeira vez o vislumbre de algum mundo morto e esquecido, tão diferente de qualquer outro recanto sobre a terra.
Assim, parado em meditação, desviei meu olhar da paisagem para os céus, no qual uma miríade de estrelas formava uma abóbada para as maravilhas da cena terrestre. Minha atenção foi rapidamente desviada por uma grande estrela vermelha próxima do horizonte distante. Ao mirá-la, senti uma esmagadora fascinação - era Marte, o deus da guerra que, para mim, homem lutador, sempre teve o poder de irresistível sedução. Ao olhar para ele naquela longínqua noite, o astro parecia me chamar através do inconcebível vazio, seduzindo- me, atraindo-me como o ímã atrai uma partícula de ferro.
Meu desejo ultrapassava qualquer obstáculo. Fechei os olhos, estiquei meus braços em direção ao deus de minha vocação e senti-me atraído, com a rapidez do pensamento, através da incomensurável imensidão do espaço. Houve um instante de frio extremo e absoluta escuridão.

Um comentário:

  1. a mi también me gusta!! con ganas de leer el tercer capítulo :)

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...