domingo, 26 de maio de 2013

Uma Princesa de Marte - 19° Capítulo

Capítulo 19 - COMBATENDO NA ARENA



Vagarosamente, recuperei minha compostura e finalmente ensaiei uma nova tentativa de remover as chaves do cadáver de meu antigo carcereiro. Mas quando tentei encontrá-lo tateando na escuridão, percebi para minha surpresa que ele havia sumido.
Então, a verdade brilhou sobre mim; os donos dos olhos brilhantes haviam arrastado meu prêmio para ser devorado em seu lar logo ao lado. Haviam esperado por dias, semanas ou meses, por toda essa detestável eternidade do meu aprisionamento para arrastar meu corpo sem vida para seu banquete. Por dois dias não me trouxeram nenhuma comida, mas então um novo mensageiro apareceu e minha prisão retomou seu curso anterior, mas desta vez não permiti que a razão submergisse diante do horror de minha situação. Logo após esse episódio, um outro prisioneiro foi trazido e acorrentado próximo a mim. Pela luz trêmula da tocha pude ver que era um marciano vermelho, e mal podia esperar que seus guardas se fossem para me dirigir a ele. Enquanto os passos se distanciavam cada vez mais, pronunciei cuidadosamente a palavra marciana de saudação, "kaor".
Quem é você que fala da escuridão? - ele respondeu. - John Carter, amigo dos homens vermelhos de Helium.
Eu venho de Helium - disse ele -, mas não lembro de seu nome.
E então lhe contei minha história assim como a escrevo aqui, omitindo apenas qualquer referência ao meu amor por Dejah Thoris. Ele estava bastante excitado pelas notícias sobre a princesa de Helium e parecia muito confiante de que ela e Sola conseguiriam chegar facilmente a um local seguro a partir do ponto onde havíamos nos separado. Ele disse que conhecia bem o lugar porque o desfiladeiro pelo qual os guerreiros warhoons haviam passado quando nos descobriram era o único usado por eles quando marchavam para o sul.
Do ponto onde Dejah Thoris e Sola entraram nas montanhas, estavam a menos de oito quilômetros de uma grande hidrovia, e provavelmente estão a salvo agora - ele me assegurou. Meu companheiro de cela era Kantos Kan, um padwar (tenente) da armada de Helium. Ele tinha participado da infeliz expedição que havia caído nas mãos dos tharks quando Dejah Thoris fora capturada. Ele relatou brevemente os eventos que se seguiram à derrota das belonaves. Gravemente feridos e com muitos desfalques na tripulação, os guerreiros avançavam com dificuldade de volta a Helium, mas quando passaram próximos à cidade de Zodanga, a capital dos inimigos hereditários de Helium entre os homens vermelhos de Barsoom, foram atacados por um grande número de navios de guerra e toda a frota, exceto a nave à qual Kantos Kan pertencia, foi destruída ou capturada. Seu navio foi perseguido durante dias por três naves de guerra, mas finalmente escaparam na escuridão de uma noite sem lua.
Trinta dias depois da captura de Dejah Thoris, parcialmente ao mesmo tempo em que chegamos a Thark, seu navio havia chegado a Helium com cerca de dez sobreviventes da tripulação original de setecentos oficiais e homens. Imediatamente, sete grandes frotas, cada uma de cem poderosos navios de guerra, foram despachadas em busca de Dejah Thoris e, acompanhando esses navios, outros duzentos barcos menores se mantinham em busca incessante e inútil pela princesa desaparecida. Duas comunidades de marcianos verdes haviam sido varridas da face de Barsoom por essas frotas vingadoras, mas nenhum traço de Dejah Thoris foi encontrado. Eles estavam procurando entre as hordas do norte, e somente alguns dias atrás estenderam sua busca para o sul. Kantos Kan havia sido designado para um desses planadores menores, de apenas um piloto, e teve a desventura de ser descoberto pelos warhoons quando explorava sua cidade. A bravura e ousadia desse homem ganhou meu mais profundo respeito e admiração. Sozinho, ele havia pousado nos arrabaldes da cidade e, a pé, penetrado nos edifícios em volta da praça. Por dois dias e duas noites ele explorou seus alojamentos e masmorras em busca de sua amada princesa apenas para cair nas mãos de um grupo de warhoons quando estava prestes a partir, depois de se certificar de que Dejah Thoris não estava aprisionada ali. Durante o período de nosso encarceramento, Kantos Kan e eu nos tornamos camaradas e criamos uma terna amizade. Apenas alguns dias se passaram, contudo, até sermos arrastados para fora de nossa masmorra para os grandes jogos. Fomos conduzidos logo pela manhã até um enorme anfiteatro que, em vez de ser construído sobre o solo, havia sido escavado abaixo da superfície. O lugar estava parcialmente coberto por entulho, o que dificultava um cálculo sobre seu real tamanho original. Em sua presente condição, comportava a totalidade das hordas reunidas de vinte mil warhoons. A arena era imensa, mas extremamente acidentada e desnivelada. Ao seu redor os warhoons haviam empilhado blocos de construção de alguns dos edifícios em ruínas da cidade velha para evitar que os animais e prisioneiros escapassem para a platéia. Em cada uma das extremidades haviam sido construídas jaulas para os manterem presos até que fosse sua vez de encontrar a morte hedionda sobre a arena. Kantos Kan e eu fomos confinados juntos em uma das jaulas. Nas outras havia calots selvagens, thoats, zitidars ensandecidos, guerreiros verdes e mulheres de outras hordas, além de muitos outros estranhos e ferozes animais de Barsoom que eu nunca havia visto antes. O barulho de seus rugidos, grunhidos e berros era suficiente para fazer o coração mais vigoroso sentir intenso mau agouro. Kantos Kan explicou-me que no final do dia um desses prisioneiros ganharia a liberdade enquanto os outros estariam todos mortos sobre a arena. Os vencedores das várias disputas do dia seriam colocados um contra o outro até que somente um sobrevivesse. O vitorioso do último embate seria libertado, fosse animal ou homem.
Na manhã seguinte as jaulas seriam preenchidas com um novo contingente de vítimas e assim por diante pelos dez dias dos jogos. Logo após termos sido encarcerados, o anfiteatro começou a lotar e, dentro de uma hora, absolutamente todos os assentos foram ocupados. Dak Kova, com seus jeds e líderes, estava sentado no centro de um lado da arena sobre uma grande plataforma elevada. A um sinal de Dak Kova as portas de duas gaiolas foram abertas e uma dezena de fêmeas marcianas foram guiadas ao centro da arena. Cada uma levava uma adaga consigo. Do outro lado, um bando de doze calots - ou cães selvagens - foram soltos sobre elas. Enquanto as feras, rosnando e espumando, dispararam sobre as mulheres virtualmente indefesas, virei minha cabeça, evitando a visão medonha que se seguiria. Os gritos e gargalhadas da horda verde foram testemunhas da excelente qualidade do esporte e, quando me voltei para a arena, após Kantos Kan dizer que tudo havia se acabado, vi três calots vitoriosos, rugindo e rosnando sobre os corpos de suas presas. As mulheres tinham dado um bom trabalho a eles. A seguir, um zitidar ensandecido foi solto entre os cães, e assim foi durante todo aquele longo, quente e horripilante dia.
No decorrer do dia, fui colocado primeiro contra homens, depois feras, mas como estava armado com uma espada longa e sempre suplantei meus adversários em agilidade - e geralmente em força -, aquilo foi brincadeira de criança para mim. Uma vez após outra mereci o aplauso da multidão sedenta por sangue e, perto do final, havia gritos que diziam para eu ser retirado da arena e ser feito membro das hordas de Warhoon.
Finalmente, havia apenas três de nós: um grande guerreiro verde de alguma horda do norte longínquo, Kantos Kan e eu. Os outros dois deviam se enfrentar, e então eu lutaria contra o ganhador pela liberdade que premiava o último vitorioso. Kantos Kan havia lutado diversas vezes durante o dia e, assim como eu, havia sempre saído vencedor, embora ocasionalmente por uma pequena vantagem, especialmente quando colocado contra guerreiros verdes. Eu tinha poucas esperanças de que ele pudesse derrotar esse gigantesco adversário que havia moído a todos no decorrer do dia. O indivíduo chegava a quase cinco metros de altura enquanto Kantos Kan estava alguns centímetros abaixo de um e oitenta. Ao avançarem para se encontrar, vi pela primeira vez um truque dos espadachins marcianos que concentrava toda a esperança de vitória e da vida de Kantos Kan em um lance de sorte. Ao chegar a cerca de seis metros de distância do gigante, ele pendeu o braço que empunhava sua espada para trás, sobre seu ombro, e com um movimento de pêndulo arremessou sua arma com grande força, mirando o guerreiro verde adiante. Ela voou reta como uma flecha e, atingindo o coração do pobre diabo, derrubou-o morto sobre o chão da arena.
Agora, Kantos Kan e eu deveríamos nos enfrentar, mas quando nos aproximamos para o encontro, sussurrei a ele que prolongasse o combate até perto do cair da noite na esperança de encontrarmos alguma forma de escapar. A horda evidentemente percebeu que não estávamos no espírito de lutar contra o outro e nos vaiavam com raiva porque nenhum de nós disparava golpes fatais. Quando vi a escuridão repentina chegando, murmurei a Kantos Kan para simular um golpe entre meu braço esquerdo e meu corpo. Quando ele o fez, cambaleei para trás prendendo a espada firmemente com meu braço e então caí ao chão com sua arma aparentemente se projetando de meu peito. Kantos Kan percebeu meu truque e rapidamente se colocou ao meu lado pousando seu pé sobre meu pescoço e recolheu sua espada de meu corpo para dar o golpe de misericórdia, cortando minha veia jugular. Mas nessa hora a lâmina fria atingiu inofensivamente a areia da arena. Na escuridão que agora nos cobria, ninguém podia dizer que ele não havia dado cabo de minha vida. Sussurrei a ele que fosse reclamar sua liberdade e que me procurasse nas colinas ao leste da cidade. E assim ele se foi.
Quando o anfiteatro foi esvaziado, rastejei furtivamente até o alto e, como a grande escavação ficava distante da praça, em um local ermo da grande cidade abandonada, alcancei as colinas ao longe sem maiores problemas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...