sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma Princesa de Marte - 18° Capítulo

Capítulo 18 - ACORRENTADO EM WARHOON


Devem ter se passado várias horas até que eu recobrasse a consciência, e bem me lembro do sentimento de surpresa que me varreu quando percebi que não estava morto. Eu estava deitado sobre uma pilha de cobertas de seda e peles no canto de um pequeno quarto no qual havia vários guerreiros verdes e uma fêmea idosa e feia se debruçava sobre mim. Ao abrir meus olhos, ela se virou para um dos guerreiros
dizendo: Ele viverá, oh jed.
Muito bem - respondeu aquele a quem ela tinha se dirigido, levantando-se e se aproximando de meu leito. - Ele daria uma rara peleja nos grandes jogos. Agora que meus olhos repousavam sobre ele, vi que não era thark, porque os ornamentos de metais não eram daquela horda. Ele era um indivíduo grande, terrivelmente coberto por cicatrizes no rosto e no peito, um canino quebrado e uma orelha faltando. Em cada lado de seu peito havia crânios humanos, dos quais pendiam algumas mãos humanas ressecadas.
Sua referência aos grandes jogos dos quais eu tanto ouvira falar enquanto estive entre os tharks me convenceu de que eu havia pulado do purgatório para o Geena (Geena ou Vale de Hiron aparece em textos religiosos como o Vale da Morte ou o próprio inferno. Era um lugar ao sul de Jerusalém onde o lixo era queimado). Depois de mais algumas palavras com a fêmea, com as quais ela o assegurou de que agora eu seria capaz de viajar, o jed ordenou que montássemos e cavalgássemos na retaguarda da coluna principal.
Fui amarrado em segurança no thoat mais selvagem e indomável que jamais vi e, com um guerreiro montado de cada lado para evitar que a fera disparasse, cavalgamos a passo furioso para alcançar a coluna. Meus ferimentos não doíam muito devido à presteza e rapidez com que os bálsamos e injeções ministrados pela fêmea exerciam seus poderes terapêuticos, e pela destreza com que ela havia enfaixado e emplastrado minhas feridas. Pouco antes do anoitecer alcançamos o corpo principal de soldados, que já havia montado acampamento para a noite. Fui levado imediatamente para diante do líder, que provou ser o jeddak das hordas de Warhoon.
Assim como o jed que havia me trazido, ele era terrivelmente marcado por cicatrizes e também decorava seu protetor peitoral com os crânios humanos e as mãos secas que pareciam distinguir sua medonha ferocidade, que transcendia em muito até mesmo a dos tharks. O jeddak, Bar Comas, que era comparativamente jovem, era objeto do ódio feroz e invejoso de seu antigo tenente, Dak Kova, o jed que havia me capturado. E não pude deixar de notar os esforços quase premeditados que Dak Kova fez para afrontar seu superior.
Ele omitiu completamente a saudação formal habitual quando surgiu na presença do jeddak, e ao me empurrar rudemente diante do regente, exclamou em uma voz alta e ameaçadora: 
Trouxe a estranha criatura que veste o metal de um thark e a quem terei o prazer de pôr em combate contra um thoat selvagem nos grandes jogos. Ele morrerá conforme Bar Comas, seu jeddak, achar conveniente. Se é que acharei - respondeu o jovem regente com ênfase e dignidade.
Se achar? - rugiu Dak Kova. - Pelas mãos mortas em meu pescoço, ele deve morrer, Bar Comas. Nenhuma fraqueza sentimental de sua parte poderá salvá-lo. Oh, quisera eu que Warhoon fosse regida por um verdadeiro jeddak a um fracote de coração aguado de quem até mesmo o velho Dak Kova poderia arrancar seu metal com as mãos nuas!
Bar Comas encarou o líder desafiador e insubordinado por um instante com uma expressão arrogante, destemidamente desdenhosa e odiosa, e então, sem sacar uma arma ou pronunciar palavra, arremeteu contra a garganta de seu difamador. Eu nunca havia presenciado dois guerreiros verdes marcianos em combate franco. A exibição de ferocidade animal que se seguiu foi tão medonha que sequer a imaginação mais ensandecida poderia criar. Eles buscavam os olhos e orelhas do adversário com suas mãos e suas presas reluzentes. Rasgavam e perfuravam até que ambos estavam praticamente em retalhos da cabeça aos pés. Bar Comas saiu-se melhor na batalha por ser mais jovem, rápido e inteligente. Logo pareceu que o embate estava vencido, exceto na investida final, quando Bar Comas escorregou ao se libertar de um agarrão. Era a oportunidade que Dak Kova precisava. Arremessando-se sobre o corpo do adversário, enterrou sua única e poderosa presa na virilha de Bar Comas e, com um último e potente esforço, abriu o corpo do jovem jeddak em dois, com seu grande canino cravado entre os ossos da mandíbula de Bar Comas. Vencedor e vencido cambalearam sem forças ou vida sobre o musgo, uma grande massa de carne retalhada e ensangüentada sobre o chão.
Bar Comas estava morto e somente os esforços mais hercúleos por parte das fêmeas de Dak Kova o salvariam do destino que merecia. Três dias depois, no entanto, ele caminhou sem ajuda até o corpo de Bar Comas que, seguindo o costume, não havia sido removido de onde caíra. Colocando seu pé sobre o pescoço de seu outrora regente, assumiu o título de jeddak de Warhoon. As mãos e a cabeça do jeddak morto foram removidas para se somarem aos ornamentos de seu conquistador. Depois, as mulheres queimaram o que restou entre gargalhadas selvagens e terríveis. Os ferimentos de Dak Kova haviam atrasado tanto a marcha que decidiram desistir da expedição, que se tratava de um ataque a uma pequena comunidade thark em retaliação pela destruição de uma incubadora. A vingança esperaria até depois dos grandes jogos e todo o grupo de dez mil guerreiros volveu novamente na direção de Warhoon. Minha primeira impressão desse povo cruel e sanguinário nada mais foi do que uma prévia daquilo que presenciaria quase diariamente entre eles. Era uma horda menor que a dos tharks, mas muito mais feroz. Não houve sequer um dia que passasse sem que alguns dos membros das várias comunidades de Warhoon se digladiassem mortalmente. Cheguei a ver um total de oito duelos mortais em um único dia. Chegamos à cidade de Warhoon após três dias de marcha e fui imediatamente jogado em uma masmorra, sendo fortemente acorrentado ao chão e às paredes. A comida era trazida em intervalos, mas devido à completa escuridão do local eu não saberia dizer se fiquei ali por dias, meses ou anos. Foi a mais terrível experiência de toda a minha vida e sempre me pareceu um milagre que minha mente não tenha cedido aos terrores daquela negritude total. O lugar era repleto de coisas rastejantes. Corpos frios e sinuosos passavam sobre mim enquanto eu estava deitado. Na escuridão, eu tinha vislumbres ocasionais de olhos brilhantes e exaltados fixados em incessante atenção sobre mim. Nenhum som chegou a mim do mundo acima e nenhuma palavra era desferida por meu carcereiro quando me trazia comida, embora no início eu o bombardeasse com perguntas.
Finalmente, toda a minha repulsa e ódio maníaco por essas deploráveis criaturas que me haviam confinado naquele lugar horrendo foram canalizados por minha consciência cambaleante sobre esse único emissário que representava, para mim, toda a horda de warhoons. Eu havia notado que ele avançava com sua tocha tremeluzente até onde pudesse colocar a comida ao meu alcance e, quando parava para colocá-la no chão, sua cabeça ficava praticamente na altura do meu peito. Então, com a astúcia de um louco, fiquei no canto mais ao fundo de minha cela na vez seguinte que o ouvi se aproximando. Reuni o pedaço de corrente que sobrava dos grilhões que me prendiam e aguardei agachado como uma fera predadora. Quando ele parou para colocar minha comida sobre o chão, girei a corrente sobre minha cabeça e atingi seu crânio com os elos com toda a minha força. Sem emitir som, ele escorregou para o chão, morto.
Gargalhando e falando como o idiota em que eu estava me transformando, caí sobre sua forma prostrada. Meus dedos procuravam sua garganta inerte. Em seguida, eles tatearam uma pequena corrente em cuja extremidade estavam penduradas algumas chaves. O toque de meus dedos nessas chaves me trouxe de volta ã razão em um piscar de olhos.
Eu não era mais um idiota saltitante, mas um homem são, sensato, com os meios para a fuga em suas próprias mãos. Enquanto eu tateava para remover a corrente do pescoço de minha vítima, olhei para cima na escuridão para ver seis pares de olhos brilhantes e estáticos sobre mim. Lentamente se aproximaram e eu lentamente me encolhi para mais longe daquela terrível visão. De volta ao meu canto, me agachei, mantendo minhas mãos espalmadas diante de mim. Sorrateiramente os olhos medonhos se aproximaram até chegar ao cadáver à minha frente. Então, vagarosamente recuaram, mas desta vez acompanhados por um som áspero, e desapareceram em algum dos negros e distantes recantos de minha masmorra.

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