quinta-feira, 23 de maio de 2013

Uma Princesa de Marte - 17° Capítulo


Capítulo 17 - UMA CUSTOSA RECAPTURA


Quando o orador se voltou para deixar o apartamento pela porta onde eu estava à espreita, eu já não precisava esperar mais. Eu havia ouvido o suficiente para encher minha alma de terror e, saindo furtivamente, retornei ao pátio pelo caminho por onde havia vindo. Meu plano de ação se formou em um instante. Cruzei o quarteirão e a avenida que circundava o lado oposto. Logo eu estava no quintal de Tal Hajus. Os apartamentos brilhantemente iluminados do primeiro andar me indicaram onde olhar primeiro e, avançando até as janelas, espreitei seu interior. Logo descobri que minha aproximação não seria tão fácil quanto eu esperava, porque os quartos dos fundos que ladeavam o pátio estavam repletos de guerreiros e mulheres. Olhei para os andares acima e descobri que o terceiro estava aparentemente apagado, decidindo fazer minha entrada no edifício por ali. Bastou o espaço de um momento para que eu alcançasse as janelas ao alto, e logo eu me lançava para dentro das sombras acolhedoras do andar apagado. Felizmente o quarto que escolhi estava vazio. Rastejando silenciosamente pelo corredor adiante, vislumbrei uma luz nos apartamentos à minha frente. Chegando ao que parecia ser um portal, descobri que nada mais era do que uma abertura sobre uma imensa câmara interna que encimava o primeiro andar - dois andares abaixo de mim - até o telhado em forma de domo do prédio, bem acima de minha cabeça. O andar desse grande hall circular estava abarrotado de líderes, guerreiros e mulheres. Em um dos cantos estava uma grande plataforma elevada sobre a qual habitava a fera mais horrenda que meus olhos jamais viram. Ele tinha as mesmas feições frias, cruéis, duras e terríveis que as dos guerreiros verdes, mas acentuadas e degradadas pela fúria animal à qual se entregara por longos anos. Não havia uma marca de dignidade ou orgulho em seu semblante bestial, enquanto seu corpanzil se espalhava para além da plataforma sobre a qual estava agachada como um grande peixe-demônio.
Seus seis membros acentuavam a similaridade de uma forma horrível e assombrosa. Mas a visão que me congelou em apreensão foi ver Dejah Thoris e Sola paradas em frente a ele, sob seu olhar doentio e aflitivo, seus olhos lascivos e saltados que lambiam as curvas de sua bela figura. Ela estava falando, mas eu não podia ouvir o que dizia, ou sequer o lamento rouco de sua resposta. Ela estava ereta à sua frente, sua cabeça altiva e, mesmo a distância que me separava deles, eu podia ler o desprezo e o nojo em sua face enquanto seu olhar soberano não demonstrava sinais de temor a ele. Ela era realmente a filha orgulhosa de mil jeddaks, cada centímetro de seu corpo tão belo e precioso. Tão pequeno, tão frágil comparado aos dos imponentes guerreiros à sua volta, mas cuja majestade os reduzia à insignificância. Ela era a figura mais poderosa entre eles e eu acreditava muito que eles podiam sentir o mesmo.
Imediatamente Tal Hajus fez um sinal para que a câmara fosse evacuada e que as prisioneiras fossem deixadas sozinhas com ele. Vagarosamente os líderes, guerreiros e mulheres se dispersaram nas sombras das câmaras vizinhas para deixar Dejah Thoris e Sola sozinhas diante do jeddak dos tharks. Apenas um líder hesitou antes de partir. Eu o vi parado nas sombras de uma larga coluna, sua figura nervosamente revolvendo sobre o punho de sua grande espada e seus olhos cruéis pousados com um ódio implacável sobre Tal Hajus. Era Tars Tarkas, e eu podia ler seus pensamentos porque estavam estampados na fúria despudorada em sua face. Ele estava pensando naquela outra mulher que, há quarenta anos, também ficou diante desse animal. Se eu pudesse dizer uma palavra em seu ouvido naquela hora, o reinado de Tal Hajus estaria terminado.
Mas ele finalmente marchou para fora da sala, sem saber que havia deixado sua própria filha à mercê da criatura que ele mais desprezava. Tal Hajus levantou-se e eu, entre temeroso e preparado para suas intenções, corri para o corredor circular que levava aos andares abaixo. Não havia ninguém por perto para me impedir e cheguei ao andar principal onde estava a câmara sem ser notado, tomando minha posição na sombra da mesma coluna que Tars Tarkas havia acabado de deixar. Quando cheguei, Tal Hajus estava falando: - Princesa de Helium, eu poderia abocanhar um resgate absurdo de seu povo se a devolvesse intacta, mas prefiro mil vezes observar seu lindo rosto contorcido pela agonia da tortura. Garanto que será
bem longa, embora dez dias de prazer sejam muito pouco para que eu demonstre todo o amor que sinto por sua raça. Os terrores de sua morte deverão assombrar o sono dos homens vermelhos pelas próximas eras. Eles terão arrepios à noite quando seus pais lhes contarem sobre a implacável vingança dos homens verdes, do poder, da força, do ódio e da crueldade de Tal Hajus. Mas, antes da tortura, você deve ser minha por uma pequena hora. E vou garantir que seu avô, Tardos Mors, jeddak de Helium, tome conhecimento desse fato para que rasteje pelo chão em agonia por sua infelicidade. Amanhã começará sua tortura. Esta noite, serás de Tal Hajus. Venha! Ele pulou de sua plataforma e a tomou rudemente pelo braço, mas ele mal a havia tocado e saltei entre eles. Minha espada curta, afiada e brilhante, estava em minha mão direita. Eu poderia tê-la mergulhado em seu coração pútrido antes mesmo que ele percebesse minha presença, mas quando levantei meu braço para desferir o golpe, pensei em Tars Tarkas e, mesmo com toda a minha raiva, com todo o meu ódio, eu não poderia tirar dele o doce momento pelo qual ele viveu e esperou todos esses extenuantes anos. Em vez disso, disparei meu bom punho direito em cheio na ponta de seu queixo. Sem emitir som, ele desabou no chão como se estivesse morto. No mesmo silêncio sepulcral, peguei Dejah Thoris pela mão e, com um gesto para que Sola nos seguisse, corremos em silêncio da câmara para o andar superior. Sem sermos vistos, chegamos à janela dos fundos.
Usando as faixas e couros de meus equipamentos, baixei-as - primeiro Sola, depois Dejah Thoris - até o chão, e depois caí suavemente, conduzindo-as com urgência ao redor do pátio pelas sombras das construções, e retornamos pelo mesmo caminho pelo qual eu havia seguido desde as fronteiras da cidade. Finalmente, demos com meus thoats no pátio onde os havia deixado e, colocando os arreios sobre eles, nos apressamos através do prédio até a avenida do lado de fora. Montados - Sola sobre um animal e Dejah Thoris atrás de mim sobre o outro -, cavalgamos para longe da cidade pelas colinas do sul. Em vez de dar a volta ao redor da cidade para o noroeste, na direção da hidrovia mais próxima, que estava a uma curta distância de nós, desviamos para nordeste e nos abatemos sobre a vastidão musgosa através da qual, após duzentas perigosas e cansativas milhas, nos esperava outra artéria principal que levava a Helium.
Não proferimos nenhuma palavra até termos deixado a cidade na distância, mas eu podia ouvir o choro mudo de Dejah Thoris que se segurava em mim com sua delicada cabeça repousando sobre meu ombro.
- Se conseguirmos, meu líder, o débito de Helium será gigantesco. Maior do que jamais poderiam recompensálo. E, se não conseguirmos - ela continuou -, o débito não será menor, mas Helium nunca saberá que você salvou a última de nossa linhagem de algo pior que a morte.
Eu não respondi, apenas movi minha mão para o lado e pressionei os pequenos dedos de minha amada enquanto eles me apertavam em sinal de apoio. Assim, mantendo o silêncio, aceleramos sobre o musgo amarelo enluarado, cada um de nós ocupado com seus próprios pensamentos. De minha parte, eu só podia estar feliz por ter tentado. Com o corpo tépido de Dejah Thoris junto ao meu e com todo o perigo recém-passado, meu coração cantava alegremente, como se estivéssemos adentrando os portões de Helium. Nossos planos anteriores foram desfeitos tão desastrosamente que agora nos encontrávamos sem comida ou água. E apenas eu estava armado. Portanto, fustigamos nossos animais a uma velocidade que provavelmente se traduziria em dor para eles antes que avistássemos o final do primeiro estágio de nossa jornada. Cavalgamos a noite toda e o dia seguinte com poucas e breves paradas. Na segunda noite, tanto nós quanto os animais estávamos completamente esgotados e nos deitamos sobre o musgo para um sono de cinco ou seis horas, voltando à jornada outra vez antes do alvorecer. Cavalgamos o dia seguinte todo e quando, no final da tarde, ainda não tínhamos avistado árvores distantes - o sinal das grandes hidrovias por toda a Barsoom -, a terrível verdade desabou sobre nós: estávamos perdidos.
Era evidente que havíamos andado em círculos, mas era difícil dizer para qual lado. Também não parecia possível usar o sol para nos guiar durante o dia e as luas e estrelas à noite. Sob qualquer alternativa, não havia hidrovia à vista e todo o grupo estava prestes a sucumbir de fome, sede e cansaço. Ao longe, e um pouco à direita, era possível distinguir os contornos de montanhas baixas, as quais decidimos tentar escalar na esperança de que pudéssemos avistar algum indício da hidrovia que procurávamos. A noite caiu sobre nós antes de atingirmos nosso objetivo, e quase desmaiando de cansaço e fraqueza, nos deitamos e dormimos. Acordei cedo pela manhã com um grande corpo encostado perto do meu. Abri meus olhos e contemplei meu abençoado Woola se aninhando junto a mim. A fera fiel havia nos seguido pela vastidão desolada para compartilhar nosso destino, qualquer que fosse. Passando meus braços sobre seu pescoço, pressionei minha bochecha contra a dele - e não me envergonho de tê-lo feito, nem das lágrimas que vieram aos meus olhos quando pensei em seu amor por mim. Logo após isso, Dejah Thoris e Sola acordaram e ficou decidido que nos empenharíamos imediatamente em um esforço para chegar às colinas.
Havíamos andado menos de um quilômetro quando notei que meu thoat estava começando a cambalear e refugar de um modo entristecedor, apesar de termos tentado não forçá-los além da velocidade de marcha desde o meio do dia anterior. Repentinamente, ele cambaleou para um lado e desabou violentamente contra o chão. Dejah Thoris e eu fomos jogados da sela e caímos sobre o musgo macio sofrendo pouco mais que um tombo, mas o pobre animal estava em condição deplorável, sendo incapaz até mesmo de se levantar, apesar de aliviado de nosso peso. Sola me disse que quando caísse o frescor da noite, junto com o descanso, ele reviveria.
Então decidi não matá-lo, como era minha primeira intenção, porque achei cruel abandoná-lo ali para morrer de fome e sede. Retirando seus arreios e colocando-os ao seu lado, partimos, deixando o pobre parceiro ao sabor do destino e continuamos da melhor forma possível com apenas um thoat. Sola e eu caminhamos, fazendo Dejah Thoris cavalgar mesmo contra sua vontade. Nessas condições, havíamos progredido cerca de outro quilômetro na direção das colinas que buscávamos alcançar quando Dejah Thoris, de seu vantajoso posto de observação sobre o thoat, gritou que havia visto um grande grupo de homens montados em formação descendo de uma passagem das colinas vários quilômetros adiante. Sola e eu olhamos juntos para a direção indicada e ali, claramente, estavam várias centenas de guerreiros montados. Eles pareciam se dirigir para sudoeste, o que os levaria para longe de nós. Sem dúvida eram guerreiros de Thark enviados para nos capturar, e respiramos com muito alívio por estarem viajando na direção oposta à nossa. Retirando Dejah Thoris rapidamente do thoat, comandei para que o animal se deitasse e nós três fizemos o mesmo, tentando passar despercebidos ao máximo com medo de chamar a atenção dos guerreiros para nossa direção.
Pudemos vê-los se enfileirando pela passagem por apenas um instante antes que se perdessem de vista por trás da milagrosa cordilheira. Para nós, era uma cordilheira providencial, já que não deixou que ficassem à vista por mais tempo, o que os levaria a nos descobrir. Aquele que parecia ser o último guerreiro ainda podia ser visto na passagem. Ele parou e, para nossa desolação, elevou seu pequeno, mas poderoso, binóculo aos olhos e vasculhou o fundo do mar em todas as direções. Ele era, evidentemente, um líder, pois, situava-se na extrema retaguarda da coluna, posição que, em certas formações de marcha dos homens verdes, cabe a um líder. Quando seu binóculo desviou em nossa direção, nossos corações pararam em nossos peitos e pude sentir um suor frio em todos os poros de meu corpo. Quando estava observando diretamente sobre nós, ele... parou. A tensão em nossos nervos estava próxima do ponto de ruptura e acredito que nenhum de nós respirou durante os momentos em que ele nos manteve na linha de visão de seu instrumento. Então, ele baixou seu binóculo e pudemos vê-lo gritando uma ordem aos guerreiros que já haviam sumido de nossa vista por trás do topo. Ele não esperou que o alcançassem e fustigou seu thoat, vindo desabalado em nossa direção.
Havia uma pequena chance que devíamos aproveitar rapidamente. Levando meu estranho rifle marciano ao ombro, mirei e toquei o botão que controlava o gatilho. Houve uma pequena explosão quando o projétil atingiu seu alvo, fazendo com que o líder em carga fosse arremessado no ar para trás de sua montaria. Levantando-me de supetão, ordenei que meu thoat se erguesse e instruí que Sola e Dejah Thoris montassem nele e fizessem seu melhor para alcançar as colinas antes que os marcianos verdes estivessem sobre nós. Eu sabia que elas poderiam encontrar refúgio temporário nas ravinas e valas e, mesmo que morressem de fome ou sede, seria melhor do que caírem nas mãos dos tharks. Entregando a elas meus dois revólveres, uma tentativa débil de proteção e, em último caso, de ajuda para que escapassem da horrenda morte que uma recaptura significaria, levantei Dejah Thoris e a coloquei sobre o thoat na garupa de Sola, que já havia montado ao meu comando.
Adeus, minha princesa - sussurrei -, ainda podemos nos encontrar em Helium. Já escapei de apuros piores que este - forcei um sorriso enquanto mentia.
O quê? - ela gritou. - Você não virá conosco?
E como poderia, Dejah Thoris? Alguém precisa retardar esses indivíduos por algum tempo e posso escapar
deles mais facilmente sozinho do que com nós três juntos.
Ela pulou rapidamente do thoat, passou seus preciosos braços em volta de meu pescoço, virou-se para Sola
e disse em uma dignidade tranqüila:
Fuja, Sola! Dejah Thoris ficará para morrer com o homem que ama.
Essas palavras ainda estão gravadas em meu coração. Oh, eu abriria mão de minha vida com alegria mil vezes se pudesse ouvi-la dizendo isso outra vez. Mas eu não podia desperdiçar sequer um segundo com o arrebatamento de seu doce abraço. Pressionei meus lábios contra os dela pela primeira vez, peguei-a no colo e a atirei sobre seu assento atrás de Sola novamente. Ordenei em tom categórico que Sola a prendesse à força e, após bater sobre o flanco do thoat, observei-as começar a jornada. Dejah Thoris esforçava-se ao máximo para se libertar dos braços de Sola. Ao me voltar, enxerguei os marcianos verdes sobre o cume procurando por seu líder. Eles o viram em um momento e, então, viram a mim. Mal haviam notado minha presença quando, deitando-me de bruços sobre o musgo, comecei a disparar contra eles. Eu tinha um cartucho completo de cem tiros no pente do rifle e outros cem no cinturão às minhas costas. Disparei uma rajada contínua até que todos os guerreiros que haviam surgido do outro lado da montanha estivessem mortos ou tentando se abrigar. Contudo, meu intervalo foi curto, porque logo um grupo inteiro, somando cerca de mil homens, reapareceu vindo à carga, correndo furiosamente em minha direção. Atirei até meu rifle esvaziar e o inimigo estar quase sobre mim. Com um relance, vi que Dejah Thoris e Sola já haviam desaparecido por entre as colinas; saltei, desfazendo-me de minha arma inútil e continuei na direção oposta àquela tomada por Sola e sua protegida. Se os marcianos nunca haviam presenciado uma exibição de salto, então assistiram a uma, surpresos, naquele agora longínquo dia. Foi assim que os desviei, ao mesmo tempo levando- os para longe de Dejah Thoris sem deixar escapar sua atenção da tentativa de me capturar. Eles me perseguiram desesperadamente até que meu pé atingiu um pedaço protuberante de quartzo e sofri uma bela queda sobre o musgo. Quando olhei para cima, já estavam sobre mim e, apesar de tentar sacar minha espada longa na tentativa de vender o mais caro possível minha vida, logo tudo estava acabado. Eu cambaleei sob seus golpes, que recaíam sobre mim em perfeita coordenação.
Minha cabeça girou, tudo escureceu e sucumbi sob eles para o esquecimento.

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