segunda-feira, 20 de maio de 2013

Uma Princesa de Marte - 15° Capítulo

Capítulo 15 - SOLA ME CONTA SUA HISTÓRIA


Quando recobrei a consciência, logo descobri que havia ficado desmaiado apenas por um momento. Levantei-me rapidamente com um salto procurando por minha espada, que encontrei enterrada até o cabo no peito verde de Zad, que jazia duro como pedra sobre o musgo ocre do antigo fundo do mar. Conforme recobrei meus sentidos, encontrei sua arma trespassada do lado esquerdo de meu peito, mas atravessava somente a pele e os músculos que cobrem minhas costelas, entrando perto do centro do peito e saindo logo abaixo do ombro.
Quando me arremessei, torci-me tanto que sua espada somente passou por sob os músculos, infligindo um doloroso, porém inofensivo, ferimento. Retirando a lâmina de meu corpo, me recompus e dei as costas para aquela horrível carcaça. Eu estava fatigado, dolorido e nauseado enquanto ia na direção das carruagens que carregavam minha comitiva e meus pertences. Um murmúrio de aplausos marcianos me saudou, mas não me importei com aquilo.
Sangrando e fraco, alcancei minhas fêmeas que, acostumadas com tais ocorrências, fizeram meus curativos aplicando incríveis agentes medicinais e remédios que só não curam os golpes mais fatais. Dê a chance a uma mulher marciana e a morte terá de esperar sentada. Logo, elas me enfaixaram e, assim, excetuando a fraqueza causada pela perda de sangue e um pouco de dor na região do ferimento, não sofri maior agonia em virtude desse golpe que, sob tratamento terráqueo, sem dúvida me deixaria de cama por dias. Assim que haviam terminado seu serviço em mim, apressei- me à carruagem de Dejah Thoris, onde encontrei a pobre Sola com seu peito envolvido em bandagens, mas aparentemente era um dano mínimo provocado por seu encontro com Sarkoja, cuja adaga pareceu ter atingido a borda de um dos ornamentos peitorais de metal e, ao desviar, causado apenas um leve ferimento. Ao me aproximar, encontrei Dejah Thoris deitada de bruços sobre suas sedas e peles, sua forma flexível tremendo pelo choro. Ela não notou minha presença, ou sequer me ouviu falando com Sola, que estava parada a uma curta distância do veículo.
Ela está ferida? - perguntei a Sola, indicando Dejah Thoris com uma inclinação de minha cabeça.
Não - ela respondeu. - Ela acha que você está morto.
E que agora o gato de sua avó não tem mais ninguém para polir seus dentes? - indaguei com um sorriso.
Acho que você está sendo injusto com ela, John Carter - disse Sola. - Não entendo os modos de nenhum de vocês, mas tenho certeza de que a neta de dez mil jeddaks não lamentaria dessa maneira por alguém que não estivesse em um alto posto entre seus afetos. Eles são uma raça orgulhosa, mas são justos, assim como todos os barsoomianos, e você deve tê-la ferido ou injustiçado agudamente para que ela não admitisse que você continuasse vivo, embora lamente sua morte.
Lágrimas são uma visão rara em Barsoom - ela continuou -, e para mim é difícil interpretá-las. Vi apenas duas pessoas chorando em minha vida, além de Dejah Thoris. Uma chorou de tristeza. Outra, por raiva descontrolada. A primeira foi minha mãe, alguns anos antes que a matassem. A outra foi Sarkoja, quando tiraram a adaga de suas mãos hoje.
Sua mãe! - exclamei. - Mas, Sola, você não podia ter conhecido sua mãe, garota!
Mas conheci. E à meu pai também - ela completou. - Caso queira ouvir uma rara história nada barsoomiana,
venha à minha carruagem hoje à noite, John Carter, e contarei a você aquilo que nunca contei a ninguém em toda a minha vida. E agora o sinal foi dado para que retomemos a marcha. Você deve ir.
Virei à noite, Sola - prometi. - Não esqueça de dizer a Dejah Thoris que estou vivo e bem. Não vou importunála agora, mas certifique-se de que não fique sabendo que vi suas lágrimas. Se ela quiser falar comigo, nada me resta senão esperar por seu desejo.
Sola subiu na carruagem, que já estava se movimentando para seu lugar na fila, e eu me apressei para o thoat que me esperava e galopei até meu posto junto a Tars Tarkas, na retaguarda da coluna. Criamos um espetáculo dos mais majestosos e imponentes ao nos espalharmos pela paisagem amarela. As duzentas e cinqüenta carruagens ornadas e de colorido brilhante, precedidas por uma guarda avançada de cerca de duzentos guerreiros e líderes, cavalgando em linhas de cinco distantes aproximadamente cem metros entre si, seguidos por outros tantos na mesma formação em grupos de vinte ou mais compondo as alas laterais. Os cinqüenta mastodontes adicionais, bestas de tração pesada conhecidas como zitidars, e os quinhentos ou seiscentos thoats sobressalentes corriam livres dentro do quadrado vazio desenhado pelos guerreiros em formação.
O metal resplandecente e as jóias dos belíssimos ornamentos de homens e mulheres, duplicados nos paramentos dos zitidars e thoats, entremeados pelos brilhos das cores das magníficas sedas, peles e penas, emprestavam tal esplendor à caravana que teria feito um marajá do leste da índia ficar verde de inveja. As enormes e largas rodas das carruagens e as patas estofadas dos animais não produziam som ao tocar o fundo do mar recoberto de musgo. E assim nos movíamos, em extremo silêncio, como uma gigantesca assombração, exceto quando a quietude era quebrada pelo grunhido gutural de um zitidar incitado ou pelos berros de thoats brigando. Os marcianos verdes conversam muito pouco e, quase sempre, com a voz baixa em monossílabos, o que cria algo parecido com um leve e distante trovoar.
Cruzamos uma vastidão de musgo virgem que, após se curvar sob a pressão das rodas largas ou das patas estofadas, se levantava novamente atrás de nós, não deixando sinal algum de que havíamos passado. Na verdade, éramos como espectros caminhando sobre o mar morto daquele planeta, deixando para trás nenhum som ou pegadas de nossa passagem. Era a primeira marcha de uma grande quantidade de homens e animais que eu presenciava e que não levantava pó ou deixava rastros.
Não há poeira sobre Marte, exceto nas regiões cultivadas durante os meses do inverno e, mesmo assim, a ausência de ventos fortes a torna praticamente imperceptível. Naquela noite acampamos no sopé das colinas que havíamos avistado há dois dias e que marcavam a fronteira ao sul do mar que citei. Nossos animais estavam há dois dias sem beber - e sem água já há quase dois meses, logo após terem deixado Thark. Mas, como Tars Tarkas me explicou, eles precisam de poucos recursos e podem viver quase indefinidamente apenas alimentando-se com o musgo que cobre Barsoom e que guarda em seus finos caules umidade suficiente para atender às limitadas demandas dos animais. Após participar de uma refeição noturna feita de uma comida parecida com queijo e leite vegetal, procurei por Sola, a quem encontrei trabalhando em ornamentos para Tars Tarkas sob a luz de uma tocha. Ela olhou para cima em minha direção e sua face se iluminou de prazer, dando-me boas-vindas.
- Fico feliz que tenha vindo - ela disse. - Dejah Thoris dorme e eu estou sozinha. Meu próprio povo não se importa comigo, John Carter, pois sou muito diferente deles. É uma triste sina, uma vez que devo viver minha vida entre eles; às vezes queria ser uma genuína mulher marciana verde, desprovida de amor ou esperança. Mas conheci o amor, e por isso estou perdida. Prometo lhe contar minha história, ou melhor, a história de meus pais - Sola prosseguiu. - Pelo que aprendi sobre você e os costumes de seu povo, estou certa de que essa narrativa não lhe parecerá estranha, mas entre os marcianos verdes não existe nada similar nem na memória dos mais idosos indivíduos de Thark, nem nossas lendas têm narrativas similares...
Minha mãe era bem pequena. Na verdade, pequena demais para que lhe permitissem as responsabilidades da maternidade, uma vez que nossos líderes procriam principalmente pelo tamanho. Ela também era menos fria e cruel que a maioria das outras mulheres marcianas e importava-se pouco com a companhia delas. Eventualmente, vagava pelas avenidas desertas de Thark sozinha ou sentava-se entre as flores silvestres que enfeitam as colinas próximas, pensando pensamentos e desejando desejos que, acredito, sou a única dentre as mulheres de Thark que pode entendê-los. Afinal, não sou filha de minha mãe?
E ali, entre as colinas, ela encontrou um jovem guerreiro cuja tarefa era guardar os zitidars e thoats enquanto pastavam, para que não fossem para além das montanhas. Eles conversavam, a princípio, somente sobre as coisas que interessavam à comunidade dos tharks, mas gradualmente, conforme foram se encontrando mais vezes - depois tornou- se evidente que tais encontros não eram mais obra do acaso passaram a falar de si mesmos, seus gostos, suas ambições e esperanças. Ela confiou nele e confessou a grande repugnância que sentia pelas crueldades de sua espécie por causa das vidas abomináveis e sem amor que eram obrigados a viver. E assim esperou que uma tempestade delatora se despejasse dos lábios frios e rudes dele. Mas, em vez disso, ele a tomou nos braços e a beijou. Eles mantiveram seu amor em segredo por seis longos anos. Ela, minha mãe, fazia parte do séquito de Tal Hajus, ao passo que seu amante era um simples guerreiro, vestido apenas com seu próprio metal. Caso seu desafio às tradições dos tharks fosse descoberto, ambos pagariam por sua falha na grande arena, perante Tal Hajus e suas hordas.
O ovo do qual nasci foi escondido sob uma vasilha de vidro sobre a mais alta e inacessível das torres parcialmente em ruínas da antiga Thark. Uma vez a cada ano, por cinco longos anos, minha mãe visitava o ovo em processo de incubação. Ela não ousava ser mais constante porque, com a culpa pesando em sua consciência, achava que cada movimento seu estava sendo observado. Durante esse período, meu pai ganhou grande distinção como guerreiro e havia tomado os metais de vários líderes. Seu amor por minha mãe nunca diminuiu, e seu objetivo de vida era poder conquistar o metal do próprio Tal Hajus para se tornar o governante dos tharks, livre para tomá-la como sua e, por meio de seu poder, proteger a criança que, de outro modo, seria morta se a verdade viesse à tona.
Conquistar o metal de Tal Hajus era um devaneio insano em parcos cinco anos, mas seu avanço era rápido e logo ele tinha uma alta posição nos conselhos de Thark. Mas, um dia, a chance se perdeu para sempre, antes que ele pudesse salvar seus entes queridos. Ele foi enviado para longe, em uma longa expedição para a calota ártica ao sul, para guerrear contra os nativos e saquear suas peles. Porque este é o modo como agem os barsoomianos verdes: eles não trabalham para produzir o que podem tomar de outros em batalha.
Ele ficou fora por quatro anos e, quando retornou, tudo já estava acabado há três. Um ano após sua partida e pouco antes do retorno de uma expedição que havia partido para a colheita de frutos em uma incubadora da comunidade, o ovo eclodiu. Daí por diante, minha mãe continuou a me manter na velha torre, visitando-me a cada noite e me banhando com o amor de que a vida em comunidade nos privaria. Ela esperava que, quando a expedição à incubadora voltasse, seria possível me misturar com os outros jovens destinados aos alojamentos de Tal Hajus. Assim, escaparia do destino que certamente se seguiria após a descoberta de seu pecado contra as antigas tradições dos homens verdes. Ela rapidamente me ensinou a língua e os costumes de minha espécie, e uma noite me contou a história que contei a você até este ponto, e me pressionou sobre a necessidade de sigilo absoluto e do grande cuidado que eu teria de ter depois que ela me colocasse entre as outras jovens tharks. Eu não poderia permitir que ninguém desconfiasse que minha educação era mais avançada que a das outras, ou dar sinais que denunciassem minha afeição a ela na presença de outros, ou que eu tinha conhecimento de minha filiação. E, me puxando para perto de si, sussurrou em meu ouvido o nome de meu pai.
Então, uma luz se acendeu sobre nós na escuridão da câmara da torre e ali estava Sarkoja, seus olhos brilhantes cheios de ódio estancados em um frenesi de raiva e desprezo sobre minha mãe. A torrente de ira e insultos que Sarkoja despejou sobre minha mãe deixou meu coração gelado de terror. Aparentemente ela havia ouvido toda a história. E sua presença, naquela noite fatídica, era o resultado de sua suspeita das longas ausências noturnas de minha mãe dos alojamentos. Mas uma coisa ela não ouviu ou sabia: o nome sussurrado de meu pai. Isso era óbvio, devido às repetidas exigências para que minha mãe revelasse o nome de seu parceiro em pecado, mas nenhuma quantidade de insultos ou ameaças poderia obrigá-la a dizer e, para me salvar de torturas desnecessárias, ela mentiu, dizendo a Sarkoja que ela mesma não sabia e não poderia ter contado a mim.
Proferindo suas últimas maledicências, Sarkoja se foi apressada para reportar a Tal Hajus sua descoberta. Enquanto ela partia, minha mãe, embrulhando-me com as sedas e peles de suas cobertas noturnas para que eu ficasse quase irreconhecível, desceu às ruas e correu desesperadamente na direção das cercanias da cidade, indo para o sul, à procura do homem a quem ela não poderia pedir proteção, mas de quem desejava ver o rosto uma vez mais antes de morrer.
Quando nos aproximávamos da extremidade sul, um som chegou até nós vindo da planície musgosa, da direção da única passagem entre as colinas que levava aos portões. A passagem pela qual as caravanas vindas tanto do norte quanto do sul entravam na cidade. Os sons que ouvimos eram berros de thoats e grunhidos de zitidars com um ocasional clangor de armas que anunciavam a aproximação de um grupo de soldados. O pensamento que mais dominava sua mente era o de que meu pai estava voltando de sua expedição, mas sua astúcia thark a impediu de precipitar-se em uma corrida para saudá-lo.
Recuando para as sombras de um portal, esperou a caravana adentrar a avenida e ocupar a passagem de parede a parede, quebrando sua formação e amontoando-se pela via. Quando a parte posterior da procissão passou por nós, a lua mais baixa se livrou dos telhados mais altos e iluminou a cena com todo o brilho de sua luz impressionante. Minha mãe se encolheu ainda mais contra as sombras protetoras e, de seu esconderijo, viu que a expedição não era a de meu pai, mas a caravana que retornava trazendo os jovens tharks. Instantaneamente seu plano estava arquitetado e, quando uma grande carruagem chacoalhou perto de nosso refúgio, ela deslizou sorrateiramente sobre seu estribo posterior, agachando-se na penumbra formada pelos flancos e pressionando-me contra seu seio em um delírio de amor.
Ela sabia, mas eu não, que nunca mais, depois daquela noite, me seguraria contra seu peito, e que talvez sequer nos víssemos uma outra vez. Na confusão da praça, ela me colocou entre as outras crianças e misturei-me a elas, cujos guardiões que as vigiaram durante a jornada agora estavam livres para se aliviar de sua responsabilidade.
Fomos encaminhadas juntas até um grande pavilhão e alimentadas por mulheres que não haviam acompanhado a expedição. No dia seguinte, fomos divididas entre as comitivas dos líderes. Nunca mais vi minha mãe depois daquela noite. Ela foi aprisionada por Tal Hajus e todos os esforços, mesmo as mais horríveis e vergonhosas torturas, foram usados para forçar seus lábios a dizerem o nome de meu pai. Mas ela permaneceu inabalada e leal, morrendo, enfim, entre as gargalhadas de Tal Hajus e seus líderes durante uma terrível sessão de tortura.
Depois descobri que ela havia dito a Tal Hajus que havia me matado para me salvar do mesmo destino em suas mãos, e que havia jogado meu corpo aos macacos albinos. Apenas Sarkoja não acreditou nela e, até hoje, creio, ela suspeite de minha verdadeira origem, mas não ousa me expor agora, aconteça o que acontecer, porque também suspeita, estou certa disso, da identidade de meu pai.
Quando ele retornou da expedição e soube da história que sucedera a minha mãe, foi Tal Hajus quem o contou. E eu estava presente. Mas nunca, sequer um tremor em seus músculos, denunciou a mais leve emoção. Ele apenas não riu, como fez Tal Hajus em regozijo enquanto descrevia seus espasmos de morte. A partir daquele momento, ele foi o mais cruel entre os cruéis e eu espero o dia em que ele atinja sua ambição e derrube a carcaça de Tal Hajus a seus pés. Tenho certeza de que ele apenas espera a oportunidade de executar sua terrível vingança e que seu grande amor continua tão forte em seu peito quanto era da primeira vez, quando transformou sua alma quarenta anos atrás. Estou tão certa disso quanto do fato de estarmos no alto da beira de um oceano antiqüíssimo enquanto pessoas de bem dormem, John Carter.
E seu pai, Sola, está conosco agora? - perguntei.
Sim - ela respondeu -, mas até onde sei, ele não me conhece nem sabe quem delatou minha mãe a Tal Hajus. Somente eu sei o nome de meu pai e somente eu, Tal Hajus e Sarkoja sabemos que foi ela a mensageira da história que trouxe morte e tortura sobre aquela que ele amava.
Nos sentamos em silêncio por alguns momentos. Ela, envolta em pensamentos obscuros, e eu, em compaixão pelas pobres criaturas a quem os cruéis e insanos costumes de sua raça haviam condenado a vidas sem amor, de crueldade e ódio. Na mesma hora, ela disse:
-John Carter, se um dia um homem de verdade andou sobre a face fria e morta de Barsoom, esse alguém é você. Eu sei que posso confiar em você, e porque essa informação pode algum dia ajudá-lo, ajudar a meu pai, a Dejah Thoris ou a mim mesma, direi a você o nome dele e não vou impor restrições ou condições sobre guardar ou não segredo. Quando chegar a hora, fale a verdade se isso parecer o melhor a ser feito. Acredito em você porque sei que não é amaldiçoado com o terrível traço da absoluta e rígida verdade, sei que poderia mentir como outros cavalheiros da Virgínia se uma mentira pudesse evitar que a desgraça e o sofrimento se abatessem sobre outros.
O nome de meu pai é Tars Tarkas.

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