Sunday, 19 May 2013

Uma princesa de Marte - 14° Capítulo


Capítulo 14 - UM DUELO ATÉ A MORTE


Meu primeiro impulso foi contar a ela sobre meu amor e, então, pensei em sua posição de cativa desamparada da qual somente eu poderia aliviar os fardos e protegê- la com meus parcos meios contra os milhares de inimigos hereditários que ela teria de encarar em sua chegada a Thark. Eu não podia permitir que o acaso lhe desse ainda mais dor e sofrimento ao declarar meu amor ao qual, com quase absoluta certeza, ela não corresponderia. Se eu fosse inconveniente a tal ponto, sua posição seria ainda mais insuportável que a atual, e pensei que ela poderia achar que eu estava me aproveitando de seu desamparo para influenciar sua decisão. E assim esse argumento final selou meus lábios.
Por que está tão quieta, Dejah Thoris? - perguntei. - Talvez queira retornar a Sola e ao seu alojamento?
Não - ela murmurou. - Estou feliz aqui. Não sei por que eu deveria estar sempre feliz e contente enquanto você, John Carter, um estranho, está comigo. Em momentos como este com você que parece que estou segura e que devo retornar logo à corte de meu pai e sentir seus fortes braços em minha volta, e as lágrimas e beijos de minha mãe em minha face.
Então as pessoas se beijam em Barsoom? - perguntei quando ela explicou a palavra que usou, respondendo à minha pergunta sobre o significado.
Sim. Pais, irmãos e irmãs. E... - ela adicionou em um tom baixo e pensativo - amantes.
E você, Dejah Thoris, tem pais, irmãos e irmãs?
Sim.
E um... amante?
Ela ficou calada e eu não podia me arriscar a repetir a pergunta.
Os homens de Barsoom - finalmente ela respondeu - não fazem perguntas pessoais às mulheres, exceto à suas mães e à mulher pela qual ele lutou e venceu.
Mas eu lutei... - comecei e então desejei que minha língua tivesse sido arrancada de minha boca, porque ela se virou mesmo quando me contive e, retirando minhas sedas de seu ombro, as estendeu de volta para mim. Sem dizer nenhuma palavra e mantendo a cabeça altiva, foi-se na direção da praça e do portal de seu dormitório com a postura da rainha que personificava. Não tentei segui-la e, em vez de me certificar de que havia chegado ao edifício em segurança, ordenei que Woola a acompanhasse. Voltei-me, desconsolado, e entrei em minha casa. Sentei por horas com as pernas cruzadas sobre minhas sedas, com os sentimentos confusos, meditando sobre as estranhas peças que o destino nos prega, pobres e malditos mortais.
Então, isso era o amor! Eu havia escapado dele através dos anos em que vaguei pelos cinco continentes e os mares que os cercam. Apesar das belíssimas mulheres e de oportunidades insistentes, apesar de desejar parcialmente pelo amor e procurar constantemente meu ideal, foi-me reservado me apaixonar furiosa e irremediavelmente por uma criatura de outro mundo, de uma espécie similar, porém diferente da minha. Uma mulher que nascera de um ovo e cuja vida talvez chegasse a mil anos, cujo povo tinha costumes e idéias estranhos. Uma mulher cujas esperanças, cujos prazeres, cujos padrões de virtude - e de certo e errado - variavam tanto quanto os meus, assim como os dos marcianos verdes. Sim, fui um tolo, mas estava apaixonado e, mesmo passando pelo maior sofrimento que já havia conhecido, não a trocaria nem por todas as riquezas de Barsoom.
Assim é o amor e assim são os amantes em qualquer lugar onde o amor é conhecido. Para mim, Dejah Thoris era toda perfeita: virtuosa, bela, nobre e bondosa. Acreditava nisso do fundo de meu coração, das profundezas de minha alma. Pensava nisso naquela noite em Korad, enquanto me sentava de pernas cruzadas sobre minhas sedas e a lua mais próxima de Barsoom se apressava pelo céu, vinda do oeste em direção ao horizonte, refulgindo o ouro, o mármore e os mosaicos de minha câmara imemorial. Acredito nisso ainda hoje, sentado à mesa em meu pequeno estúdio com vista para o Hudson. Vinte anos se passaram; dez deles lutando por Dejah Thoris e por seu povo, e outros dez vivendo das memórias que tenho dela. 
A manhã de nossa partida para Thark se abriu clara e quente, como todas as manhãs marcianas, exceto pelas seis semanas quando a neve derrete nos pólos. Procurei por Dejah Thoris na multidão de carruagens partindo, mas ela me ignorou e pude ver o sangue vermelho corar suas faces. Com a inconsistência tola do amor, mantive o controle quando podia ter alegado ignorância quanto à natureza de minha ofensa, ou pelo menos de sua gravidade, e então ter conseguido, pelo menos, alguma conciliação. Meu dever ordenava que eu cuidasse para que ela estivesse confortável. Passei em vistoria por sua carruagem e rearranjei suas sedas e peles. Ao fazer isso, notei com pavor que ela havia sido acorrentada fortemente ao lado do veículo por seu tornozelo.
O que significa isto? - gritei virando-me para Sola.
Sarkoja achou melhor - ela respondeu, seu rosto sinalizando sua desaprovação ao procedimento.
Ao examinar os grilhões, vi que estavam presos por
um pesado cadeado. Onde está a chave, Sola? Por favor, me entregue.
Está com Sarkoja, John Carter - ela respondeu. Voltei-me sem dizer uma palavra e fui em busca de Tars Tarkas, a quem me opus com veemência pelas humilhações e crueldades desnecessárias - pelo menos aos meus olhos apaixonados - impostas sobre Dejah Thoris.
John Carter - ele respondeu -, se você e Dejah Thoris terão alguma chance de fuga, será nessa jornada. Sabemos que você não irá sem ela. Você se mostrou um poderoso lutador e não desejamos acorrentá-lo, portanto seguramos ambos do modo mais fácil que nos garantirá segurança. Tenho dito.
Senti a força de sua retórica rapidamente, e sabia ser inútil apelar de sua decisão. Mas pedi que a chave fosse retirada de Sarkoja e que ordenassem que deixasse a prisioneira em paz no futuro.
Isso, Tars Tarkas, você deve me retribuir pela amizade que, devo confessar, sinto por você.
Amizade? - ele replicou. - Isso não existe, John Carter, mas concederei seu pedido. Ordenarei que Sarkoja pare de aborrecer a garota e eu mesmo tomarei a chave sob minha custódia.
Exceto se quiser que eu assuma a responsabilidade - eu disse sorrindo.
Ele me olhou longa e seriamente antes de falar: 
Se você me der sua palavra de que nem você, nem Dejah Thoris tentarão escapar até que tenhamos chegado em segurança à corte de Tal Hajus, pode ficar com a chave e jogar as correntes no rio Iss.
Seria melhor você guardar a chave, Tars Tarkas - respondi.
Ele sorriu e não falou mais, mas naquela noite, quando estávamos montando o acampamento, eu o vi desacorrentando Dejah Thoris. Com toda sua cruel ferocidade e frieza, havia alguma influência oculta em Tars Tarkas que ele parecia estar sempre tentando subjugar. Seria isso um vestígio de algum instinto humano recorrente de algum antigo ancestral que o assombra com o horror dos costumes de seu povo? Quando estava me aproximando da carruagem de Dejah Thoris, passei por Sarkoja e o olhar negro e perverso que me dispensou foi o bálsamo mais doce que eu havia sentido nas últimas horas. Senhor, ela me odiava! O ódio emanava dela de forma tão palpável que quase era possível cortá-lo com uma espada.
Alguns momentos depois eu a vi em atenta conversa com um guerreiro chamado Zad, um grande, maciço e poderoso bruto, mas que nunca havia matado nenhum de seus líderes e, portanto, não tinha um segundo nome. Era esse costume que havia me conferido os nomes dos chefes que eu havia matado. Na verdade, alguns guerreiros se dirigiam a mim como Dotar Sojat, uma combinação dos sobrenomes dos dois líderes guerreiros cujo metal eu havia tomado ou, em outras palavras, que eu havia derrotado em luta justa. Enquanto Sarkoja falava com Zad, ele dirigia olhares ocasionais em minha direção, e parecia que ela o incitava com veemência a executar algum ato. Não prestei muita atenção a isso naquela hora, mas no dia seguinte eu teria boas razões para me lembrar das circunstâncias e, ao mesmo tempo, ter um breve vislumbre do quanto ódio Sarkoja guardava - e o quão longe ela seria capaz de chegar - para liberar sua malévola vingança sobre mim.
Dejah Thoris não se importou mais comigo por toda a tarde e, mesmo quando eu dizia seu nome, ela não respondia nem demonstrava mais que um tremor de sua pálpebra quando notava minha existência. De minha
parte, fiz o que a maioria dos apaixonados faria: saber como ela estava por meio de alguém próximo. Por essa razão, interceptei Sola em outra parte.
Qual é o problema com Dejah Thoris? - desabafei. - Ela não quer falar comigo?
Sola pareceu ficar confusa também, pois essas estranhas ações por parte de dois humanos realmente estavam além de sua compreensão, pobre coitada.
Ela disse que você a enfureceu, e isso é tudo. Exceto que ela é filha de um jed e neta de um jeddak e que foi
humilhada por uma criatura que não é digna de polir os dentes do sorak de sua avó.
Ponderei sobre o relato por algum tempo, finalmente perguntando:
E o que seria um sorak, Sola?
Um pequeno animal vermelho, do tamanho de minha mão, que as mulheres marcianas têm como estimação -
explicou Sola.
Indigno de polir os dentes do gato da sua avó! "Devo estar muito mal colocado na lista de considerações de Dejah Thoris", pensei, mas não pude deixar de gargalhar perante uma figura de linguagem tão estranha, tão domiciliar e, por isso mesmo, tão terrena. Isso me deixou com saudades de casa, porque soou muito como "não é digno de polir seus sapatos". A partir disso, embarquei em um raciocínio novo para mim. Comecei a me perguntar o que as pessoas estariam fazendo em casa. Eu já não as via há anos. Havia a família dos Carters, na Virgínia, que diziam ter parentesco próximo comigo, dos quais eu supostamente era um tio-avô ou alguma besteira do tipo. Eu podia me passar por alguém de vinte e cinco ou trinta anos e ser um tio-avô sempre me pareceu muito incongruente, porque meus pensamentos e sentimentos eram os mesmos de um garoto. Havia duas pequenas crianças na família Carter que eu amava e que pensavam não haver ninguém parecido com o Tio Jack na face da Terra. Eu podia vê-los claramente enquanto parado sob o céu enluarado de Barsoom, e sentia sua falta como nunca senti de mortal algum antes. Errante por natureza, nunca havia conhecido o real significado da palavra "lar", mas o casarão dos Carters sempre significou tudo o que aquela palavra me dizia, e agora meu coração estava voltado para ela, em fuga das pessoas hostis entre as quais eu havia sido arremessado. Pois agora, até mesmo Dejah Thoris me desprezava! Eu era uma criatura inferior, tão baixa que não servia sequer para polir os dentes do gato de sua avó. Então, meu senso de humor veio para me salvar. Ri, me cobri com minhas sedas e peles e dormi, sobre o chão assolado pela lua, o sono pesado e revigorante de um guerreiro. Desfizemos o acampamento logo nas primeiras horas do dia seguinte e marchamos até escurecer fazendo apenas uma parada. Dois incidentes quebraram a tranqüilidade da marcha. Perto do meio-dia, enxergamos a boa distância o que era evidentemente uma incubadora e Lorquas Ptomel ordenou que Tars Tarkas investigasse. Este último reuniu uma dúzia de guerreiros, eu incluído, e cavalgamos pelo carpete aveludado de musgo até a pequena área cercada. Era de fato uma incubadora, mas os ovos eram muito pequenos em comparação com aqueles que vi eclodindo da primeira vez, quando de minha chegada a Marte. Tars Tarkas desmontou e examinou detidamente o cercado por alguns minutos até anunciar que era de propriedade dos homens verdes de Warhoon, e que o cimento ainda estava um pouco fresco onde haviam levantado as paredes.
Não podem estar a mais de um dia à nossa frente - exclamou com as faíscas da batalha saltando de seu rosto.
O trabalho na incubadora foi rápido. Os guerreiros derrubaram a entrada para que um par deles, rastejando para dentro, destruísse todos os ovos com suas espadas curtas. Após montarmos novamente, nos apressamos para alcançar a caravana. Durante a cavalgada aproveitei a ocasião e perguntei a Tars Tarkas se esses warhoons cujos ovos havíamos destruído eram um povo menor que os tharks. Notei que os ovos são muito menores dos que vi eclodindo em sua incubadora - adicionei.
Ele explicou que os ovos haviam acabado de ser postos ali, mas que, como todos os ovos de marcianos verdes, eles cresceriam durante seu período de cinco anos de incubação até que obtivessem o tamanho dos que eu vi quando de minha chegada a Barsoom. Isso era realmente uma informação interessante porque sempre me parecera notável que as mulheres marcianas, mesmo sendo tão grandes, pudessem produzir ovos enormes dos quais eu vi os infantes de mais de um metro de altura emergindo. Na verdade, o ovo recém-botado é pouco maior que um ovo de ganso comum. Dessa forma, eles não começam a crescer até que sejam expostos à luz do sol, facilitando o transporte de várias centenas deles de uma só vez quando os líderes os levam das cavernas até as incubadoras.
Pouco depois do incidente com os ovos dos warhoons, paramos para descansar os animais. E foi durante essa parada que o segundo dos episódios interessantes daquele dia ocorreu. Eu estava ocupado em trocar de montaria para poupar um de meus thoats quando Zad se aproximou e, sem dizer nenhuma palavra, desferiu um terrível golpe com sua espada longa em meu animal. Não precisei de um manual de etiqueta dos marcianos verdes para saber como responder. Na verdade, estava tão cego de raiva que tive de me controlar para não sacar minha pistola e abatê-lo por sua imensa brutalidade. Mas ele ficou esperando com a espada longa em punho, deixando-me, como única escolha, desembainhar minha espada e enfrentá-lo em luta franca com a arma de sua escolha ou outra inferior. Essa última alternativa é sempre permitida, portanto eu podia usar minha espada curta, minha adaga, minha machadinha ou meus punhos, se quisesse, continuando assim completamente dentro do meu direito. Mas eu não poderia usar armas de fogo ou uma lança enquanto ele brandia apenas sua espada longa.
Escolhi a mesma arma que Zad havia sacado, pois sabia que ele se orgulhava de sua habilidade em manejá-la. Queria derrotá-lo com sua própria arma. A luta que se seguiu foi longa e atrasou a marcha por uma hora. Toda a comunidade nos cercou, reservando um espaço livre de trinta metros de diâmetro para nossa batalha. Primeiro, Zad tentou me derrubar como um boi faz com um lobo, mas eu era rápido demais para ele e, cada vez que eu me desviava de suas investidas, ele passava reto por mim apenas para receber um corte de minha espada em seu braço ou costas. Logo ele estava escorrendo sangue pela meia dúzia de seus ferimentos, mas eu não conseguia uma chance de desferir um golpe efetivo. Então ele mudou sua tática e, lutando cuidadosamente e com extrema habilidade, tentou pela ciência o que lhe era impossível pela força bruta. Devo admitir que ele era um magnífico espadachim e que, não fosse por minha grande resistência e notável agilidade devido à menor gravidade que Marte me emprestava, talvez eu não fosse capaz de enfrentá-lo da forma louvável como fiz.
Nos cercamos por algum tempo, sem muitos danos para ambos os lados. As espadas longas, retas e finas como agulhas brilhavam sob o sol e ressoavam pelo silêncio quando colidiam a cada defesa correta. Finalmente, Zad, percebendo que estava se cansando mais que eu, tomou a decisão evidente de se aproximar e encerrar o combate, clamando para si os louros da vitória. Exatamente quando ele se lançou sobre mim, um raio de luz atingiu meus olhos, fazendo com que eu não enxergasse sua aproximação e não pudesse fazer nada além de saltar às cegas para um dos lados, em uma tentativa de escapar da poderosa lâmina que eu já parecia sentir em meus órgãos. Fui apenas parcialmente feliz na tentativa, pois senti uma dor aguda em meu ombro esquerdo e, quando varri à minha volta com os olhos, tentando localizar meu adversário, minha vista encontrou uma cena surpreendente que compensou o ferimento que a cegueira temporária havia me causado.
Longe, sobre a carruagem de Dejah Thoris, havia três figuras em pé, com o propósito claro de assistir ao embate acima das cabeças dos tharks que se interpunham no caminho. Ali estavam Dejah Thoris, Sola e Sarkoja, e quando meu olhar ligeiramente passou por elas, uma pequena placa se destacou, um objeto que ficará gravado em minha memória até o dia de minha morte. Quando olhei, Dejah Thoris se voltou para Sarkoja com a fúria de uma jovem tigresa e atingiu algo em sua mão levantada. Algo que brilhou ao sol enquanto rodopiava em direção ao chão. Então descobri o que havia me cegado no momento crucial da luta e como Sarkoja havia encontrado um meio de me matar sem que ela mesma desferisse a estocada fatal. Outra coisa que percebi e que quase me fez perder a vida, porque desviou minha mente por uma fração de segundo de meu antagonista, foi, logo após Dejah Thoris derrubar o pequeno espelho de sua mão, Sarkoja, com a face lívida de ódio e raivosa frustração, brandir sua adaga e mirar um terrível golpe em Dejah Thoris. A última coisa que vi foi a grande faca descendo sobre seu protetor peitoral. Meu inimigo havia se recuperado de sua investida e estava tornando as coisas complicadas para mim, então relutantemente desviei minha atenção para a tarefa, mesmo com minha mente fora da batalha.
Nos atacamos furiosamente vez após outra até que, repentinamente, sentindo a ponta de sua lâmina afiada em meu peito com um golpe impossível de desviar ou escapar, joguei-me sobre ele com a espada estendida e todo o peso do meu corpo, determinando que eu não morreria sozinho se pudesse evitar. Senti o aço rasgar meu peito e tudo fez-se negro à minha frente. Minha cabeça rodopiava, zonza, e senti meus joelhos dobrarem.

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