sábado, 18 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 13° Capítulo


Capítulo 13 - DESCOBRINDO O AMOR EM MARTE


Após a batalha com as naves voadoras, a comunidade permaneceu na cidade por vários dias, abandonando a marcha para casa até que pudesse se sentir razoavelmente segura de que os navios não retornariam. Ser pego em campo aberto com uma caravana de carruagens e crianças estava longe de ser desejável, mesmo para um povo tão belicoso como os marcianos verdes.
Durante nosso período de inatividade, Tars Tarkas havia me instruído em muitos dos costumes e artes da  guerra inerentes aos tharks, incluindo lições de como cavalgar e guiar as grandes bestas que levavam os guerreiros. Essas criaturas, conhecidas como thoats, são tão perigosas e traiçoeiras quanto seus mestres, mas quando domadas tornam-se suficientemente tratáveis para os propósitos dos marcianos verdes. Dois desses animais haviam caído em minhas mãos, vindos dos guerreiros cujo metal agora eu vestia e, em um curto período de tempo, eu lidava com elas quase tão bem quanto os guerreiros nativos. O método não era nem um pouco complicado. Se os thoats não respondiam com rapidez suficiente às instruções telepáticas de seus cavaleiros, sofriam um terrível golpe entre as orelhas com a coronha de uma pistola e, se continuassem arredios, esse tratamento era continuado até que as feras se submetessem ou derrubassem seu ginete.
No último caso, era uma disputa de vida e morte entre o homem e o animal. Se o primeiro fosse rápido o bastante com sua pistola, ele poderia viver para cavalgar novamente, mas em outro animal. Se não, seu corpo despedaçado e mutilado era recolhido por suas mulheres e queimado de acordo com os costumes tharkianos.
Minha experiência com Woola me incentivou a experimentar a gentileza no tratamento de meus thoats. Primeiro, ensinei-os que não poderiam me derrubar e até mesmo bati com força entre suas orelhas para imprimir sobre eles minha autoridade e poder. Então, em etapas, ganhei sua confiança da mesma maneira que consegui inúmeras vezes com minhas muitas outras montarias mais mundanas. Sempre tive muita habilidade com animais e, por inclinação, assim como isso me trazia resultados mais duradouros e satisfatórios, sempre fui afável e humano no trato com os de ordens inferiores. Eu poderia, se necessário, tirar uma vida humana com muito menos remorso do que faria com a de um pobre animal irracional e irresponsável.
No decorrer de alguns dias, meus thoats eram a maravilha de toda uma comunidade. Eles me seguiam feito cães, roçando seus grandes focinhos contra meu corpo em uma desajeitada demonstração de afeto. Respondiam a todos os meus comandos com uma diligência e docilidade que faziam com que os guerreiros marcianos me atribuíssem um poder especial terráqueo desconhecido em Marte.
Como você os enfeitiçou? - perguntou Tars Tarkas numa tarde, quando me viu colocar meu braço entre as grandes mandíbulas de um de meus thoats, que havia prendido um pedaço de pedra entre dois de seus dentes quando estava pastando a vegetação musgosa de nosso pátio.
Sendo gentil - respondi. - Sabe, Tars Tarkas, os sentimentos mais delicados têm seu valor até mesmo para um guerreiro. No calor de uma batalha, assim como durante uma marcha, sei que meus thoats obedecerão a cada comando meu e, portanto, minha eficiência em combate será maior. E serei um guerreiro melhor porque sou um senhor gentil. Seus outros guerreiros tirariam vantagem, assim como a comunidade toda, se adotassem meus métodos nesse assunto. Apenas alguns dias atrás, você mesmo me disse que essas grandes feras, pela instabilidade de seu temperamento, eram responsáveis por transformar vitórias em derrotas, uma vez que, em um momento crucial, podiam decidir derrubar e destroçar seus cavaleiros.
- Mostre-me como conseguiu esses resultados - foi a única resposta de Tars Tarkas.
Então expliquei tão cuidadosamente quanto possível todo o método de treinamento adotado com meus animais e, depois, ele me fez repetir tudo diante de Lorquas Ptomel e dos guerreiros reunidos. Aquele momento marcou o começo de uma nova existência para os pobres thoats e, antes que eu deixasse a comunidade de Lorquas Ptomel, tive a satisfação de presenciar um regimento de montarias tão tratáveis e dóceis quanto possível. O efeito da precisão e rapidez nos movimentos militares era tão eloqüente que Lorquas Ptomel me presenteou com uma gigantesca tornozeleira de sua própria indumentária em sinal de apreço por meu serviço à sua horda. No sétimo dia após a batalha com as naves voadoras, retomamos a marcha em direção a Thark. Qualquer possibilidade de outro ataque foi considerada remota por Lorquas Ptomel.
Durante os dias imediatamente anteriores à nossa partida, vi Dejah Thoris poucas vezes, por estar sempre muito ocupado com Tars Tarkas tomando lições sobre a arte marciana da guerra, assim como treinando meus thoats. Nas poucas vezes em que visitei seus alojamentos, ela não estava, caminhando pelas ruas com Sola ou investigando as construções nos arredores da praça. Eu as havia avisado quanto aos perigos de se aventurar para longe da praça, temendo os grandes macacos albinos com cuja ferocidade eu estava por demais familiarizado. Contudo, uma vez que Woola as acompanhava em todas as suas excursões, e que Sola estava bem armada, havia relativamente pouco motivo para preocupação.
Na noite anterior à nossa partida, eu as vi se aproximando por uma das grandes avenidas que levavam à praça pelo leste. Adiantei-me para encontrá- las, comunicando a Sola que agora eu me responsabilizaria pela guarda de Dejah Thoris e pedi que retornasse aos seus aposentos para algumas tarefas triviais. Eu gostava e confiava em Sola, mas, por alguma razão, eu queria ficar sozinho com Dejah Thoris, que representava para mim toda a companhia prazerosa e agradável que eu havia deixado na Terra. Esses laços pareciam ser recíprocos, tão poderosos como se tivéssemos nascido sob o mesmo teto em vez de planetas diferentes, separados por setenta e sete milhões de quilômetros de distância. Eu tinha certeza de que ela compartilhava esses sentimentos comigo porque, quando me aproximei, seu olhar de desalento abandonou seu semblante para ser substituído por um sorriso jovial de boas vindas enquanto ela colocava sua pequenina mão direita em meu ombro esquerdo, em uma típica saudação dos marcianos vermelhos.
Sarkoja disse a Sola que você se tornou um legítimo thark - ela disse. - E que agora eu não o veria mais do que vejo os outros guerreiros.
Sarkoja é uma mentirosa de primeira grandeza, que vai contra a alegação dos tharks de que são absolutamente verdadeiros - respondi.
Dejah Thoris riu. Eu sabia que mesmo que se tornasse um membro da comunidade, você não deixaria de ser meu amigo. "Um guerreiro pode trocar seu metal, mas não seu coração", é o que dizem em Barsoom. Acho que estão tentando nos manter separados - ela continuou -, pois sempre que você estava de folga, uma das mulheres mais velhas da comitiva de Tars Tarkas arranjava alguma desculpa para mandar Sola e eu para longe dali. Elas me despachavam para os fossos subterrâneos dos prédios para ajudá-las a misturar seu detestável pó de rádio e fazer seus terríveis projéteis. Sabia que eles têm de ser fabricados sob iluminação artificial porque a luz do sol faz com que eles explodam? Já percebeu que suas balas sempre explodem quando atingem um objeto? Sua cobertura externa opaca se quebra no impacto expondo um cilindro de vidro, quase maciço, na ponta da frente, onde há uma pequena partícula de pó de rádio. No momento em que a luz, mesmo que difusa, atinge o pó, elas explodem com uma violência arrasadora. Se um dia você testemunhar uma batalha noturna, perceberá a ausência dessas explosões, mas a manhã seguinte à batalha será preenchida pelo som das detonações dos projéteis explosivos lançados na noite anterior. Por via de regra utilizam-se projéteis sem explosivos à noite. Mesmo estando muito interessado na explicação de Dejah Thoris sobre esse acessório do arsenal marciano, eu estava mais preocupado com o problema imediato do tratamento que dispensavam a ela. O fato de estarem-na mantendo longe de mim não era surpresa, mas o fato de que a estavam sujeitando a um trabalho perigoso e árduo me enfureceu.
-Você foi sujeitada por elas à crueldade e afronta, Dejah Thoris? - perguntei sentindo o sangue quente de meus ancestrais pulsar em minhas veias enquanto aguardava sua resposta.
- Apenas um pouco, John Carter - ela respondeu. - Nada pode me ferir além de meu orgulho. Elas sabem que sou filha de dez mil jeddaks, que minha linha ancestral retrocede diretamente e sem falhas ao construtor do primeiro aqueduto e elas, que sequer conheceram suas próprias mães, me invejam. No fundo, odeiam suas sinas horríveis e então descarregam seu pobre despeito sobre mim, que significo tudo o que elas não possuem, tudo o que almejam, mas que não podem alcançar. Tenhamos misericórdia delas, meu líder, porque mesmo se morrermos em suas mãos, podemos lastimá-las, já que somos maiores que eles. E eles sabem.
Tivesse eu sabido a importância dessas palavras, "meu líder", quando conferidas por uma mulher marciana vermelha a um homem, teria tido a maior surpresa de minha vida. Mas naquele momento eu não sabia, e nem saberia por meses a fio. Sim, eu ainda tinha muito a aprender sobre Barsoom. 
Presumo ser mais sábio nos curvarmos perante nosso destino com tanta graça quanto possível, Dejah Thoris. Mas espero, no entanto, que eu esteja presente na próxima vez que qualquer marciano, seja verde, vermelho, rosa ou violeta, ouse ao menos franzir as sobrancelhas para você, minha princesa.
Dejah Thoris perdeu o fôlego com minhas últimas palavras e me fitou com olhos dilatados e respiração acelerada. Então, com um sorrisinho estranho que marcou suas provocantes covinhas nos cantos de sua boca, ela balançou a cabeça e gritou:
Que criancinha! Um grande guerreiro, mas, ainda assim, nem aprendeu a andar.
O que foi que eu fiz agora? - perguntei bastante perplexo.
-Algum dia você descobrirá, John Carter, se sobrevivermos.
Mas não serei eu a contar. E eu, filha de Mors Kajak, filho de Tardos Mors, ouvi sem raiva - disse para si mesma ao concluir.
Então ela voltou mais uma vez a um de seus alegres, felizes e sorridentes humores, brincando comigo sobre minha destreza como um guerreiro thark em contraste com meu coração puro e minha cordialidade natural.
Presumo que se você ferisse um inimigo acidentalmente você o levaria para casa e cuidaria dele até que sarasse - ela riu.
E exatamente isso que fazemos na Terra - respondi. - Pelo menos entre os homens civilizados. 
Isso a fez sorrir novamente. Ela não podia entender porque, mesmo com toda sua ternura e doçura feminina, ainda era uma marciana e, para um marciano, o único bom inimigo é o inimigo morto, porque cada adversário morto significa muito mais a ser repartido entre aqueles que vivem. Eu estava bastante curioso para saber o que eu havia dito ou feito para causar tanta perturbação momentos antes, e continuei a importuná-la para que explicasse.
Não! - ela exclamou. - Já basta o que você disse e o que eu ouvi. E quando você aprender, John Carter, e se eu estiver morta, como é provável que aconteça antes que a lua mais distante tenha orbitado Barsoom mais doze vezes, lembre que eu ouvi a isso e que eu... sorri. Tudo aquilo era grego para mim, mas quanto mais eu implorava para que ela explicasse, mais assertivas se tornavam suas recusas ao meu pedido e, assim, em grande desesperança, desisti.
O dia agora havia dado lugar à noite, e enquanto vagávamos pela grande avenida iluminada pelas duas luas de Barsoom, e com a Terra nos olhando através de seu brilhante olho verde, parecia que não estávamos sozinhos no universo, e eu, pelo menos, estava contente de que assim fosse. O frio da noite marciana caiu sobre nós e, tirando minhas sedas, joguei-as sobre os ombros de Dejah Thoris. Enquanto meu braço repousou por um instante sobre ela, senti um arrepio passar por cada fibra de meu ser, algo que nenhum contato com qualquer outro ser humano jamais havia me causado. E me pareceu que ela se curvou levemente em minha direção, mas disso não tenho certeza.
A única coisa que eu sei é que meu braço descansou sobre seus ombros mais tempo do que o necessário, e ela não se esquivou nem falou. E assim, em silêncio, caminhamos pela superfície de um mundo agonizante, mas ao menos no peito de pelo menos um de nós havia nascido o mais antigo sentimento, ainda que sempre novo. Eu amava Dejah Thoris. O toque de meu braço sobre seu ombro nu havia me dito em palavras inconfundíveis, e eu soube que já a amava desde o primeiro momento em que meus olhos encontraram os dela, naquela primeira vez na praça da cidade abandonada de Korad.

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