Friday, 17 May 2013

Uma princesa de Marte - 12° Capítulo


Capítulo 12 - UM PRISIONEIRO COM PODER


Quando entrei e saudei, Lorquas Ptomel acenou para que eu avançasse e, fixando seus grandes e detestáveis olhos sobre mim, dirigiu-me a palavra assim:
Você está conosco há alguns dias e durante esse tempo ganhou, por meio de suas habilidades, uma alta posição entre nós. Ainda assim, você não é um de nós. E não nos deve obediência. Sua posição é bastante peculiar - ele continuou. - Você é um prisioneiro e ainda assim dá ordens que devem ser cumpridas. Você é um alienígena e mesmo assim é um líder tharkiano. Você é um anão e ainda assim pode matar um poderoso guerreiro com um golpe de seu punho. E agora é dito que você esteve planejando escapar com outra prisioneira de outra raça, uma prisioneira que, ela mesma sugere, tende a acreditar que você retornou do vale de Dor. Qualquer dessas acusações, se provada, daria base suficiente para sua execução, mas somos pessoas justas e você deverá ser julgado quando voltarmos a Thark, se Tal Hajus assim ordenar.
Mas - ele continuou em seus tons guturais bárbaros -, se você fugir com a garota vermelha, serei eu a ter de me relatar a Tal Hajus. Serei eu a encarar Tars Tarkas e comprovar meu direito ao comando, ou o metal de minha carcaça morta irá para um homem mais apto, porque esse é o costume dos tharks. Não tenho contendas com Tars Tarkas. Juntos, regemos de forma soberana a maior das comunidades inferiores entre os homens verdes. Não desejamos lutar entre nós, e, portanto, John Carter, se você estivesse morto, eu estaria mais feliz. Contudo, apenas sob duas condições você poderia ser morto por nós sem ordens de Tal Hajus: em combate pessoal e em legítima defesa, caso ataque um de nós; ou se fosse preso em uma tentativa de fuga. Por questão de justiça, devo adverti-lo de que apenas esperamos uma dessas duas desculpas para nos livrar dessa enorme responsabilidade. 
A entrega da garota vermelha em segurança a Tal Hajus é da maior importância. Nem em mil anos os tharks fizeram tal captura. Ela é a neta do maior dos jeddaks vermelhos, que também é nosso mais amargo inimigo. Tenho dito. A garota vermelha nos disse que éramos desprovidos dos sentimentos mais delicados de humanidade, mas somos uma raça justa e honesta. Pode ir. Voltei-me e deixei a câmara de audiência. Então este era o começo da perseguição de Sarkoja! Eu sabia que ninguém mais poderia ser responsável por esse relato que chegou aos ouvidos de Lorquas Ptomel tão rapidamente, e agora eu me lembrava as partes de nossa conversa que haviam mencionado a fuga e minha origem.
Sarkoja era a fêmea mais idosa e respeitada de Tars Tarkas. Assim sendo, ela tinha grande poder nos bastidores do trono, porque nenhum guerreiro gozava de maior grau de confiança de Lorquas Ptomel que seu tenente mais hábil, Tars Tarkas.
Contudo, em vez de fazer com que eu abandonasse meus planos de uma possível fuga, minha audiência com
Lorquas Ptomel apenas ajudou a focalizar toda a minha atenção nesse objetivo. Agora, mais do que nunca, a necessidade absoluta de escapar, como Dejah Thoris já sabia, me pressionava, pois eu estava convencido de que um destino terrível esperava por ela no quartel-general de Tal Hajus. Conforme Sola havia descrito, esse monstro era a personificação exagerada de todas as eras de crueldade, ferocidade e brutalidade das quais ele descendia. Frio, astuto, calculista. Ele também era, em marcante contraste a todos os seus semelhantes, um escravo daquela paixão bruta cuja minguante demanda por procriação em seu planeta moribundo havia quase estagnado no peito marciano.
A idéia de que a divina Dejah Thoris poderia cair nas garras de tal atavismo abismai fez com que eu suasse frio. Seria melhor guardarmos munição amiga para nós mesmos num último momento, como faziam as valentes mulheres das fronteiras de minha terra distante, que preferiam dar cabo de suas próprias vidas a cair nas mãos dos índios selvagens. Enquanto eu vagava pela praça, perdido em meus sombrios pressentimentos, Tars Tarkas se aproximou de mim em seu caminho para a câmara de audiência. Seu comportamento para comigo permanecia inalterado e me saudou como se não tivéssemos nos separado apenas alguns momentos antes.
Onde ficam suas acomodações, John Carter? - ele perguntou.
-Ainda não escolhi nenhuma - respondi. - Pareceume melhor que eu me alojasse sozinho ou com os outros guerreiros, mas estava esperando uma oportunidade de lhe pedir um conselho.
Como sabe - sorri não estou familiarizado com todos os costumes dos tharks.
-Venha comigo - ele indicou. E juntos atravessamos a praça em direção a uma construção que me alegrou por ser vizinha àquela ocupada por Sola e seus protegidos. Meus alojamentos ocupam o primeiro andar deste edifício - ele disse -, e o segundo também está ocupado pelos guerreiros, mas o terceiro andar e todos acima estão livres. Pode escolher qualquer um. - Entendo que você abriu mão de sua mulher para ficar com a prisioneira - ele continuou. - Bem, como você disse, seus hábitos não são os mesmos que os nossos, mas você luta bem o bastante para agir como quiser e, portanto, se prefere desistir de sua mulher pela cativa, o problema é seu. Mas como líder você deve ter seus serviçais, e de acordo com os costumes, você pode escolher qualquer uma das fêmeas da comitiva dos líderes cujos metais você agora veste. Eu agradeci, mas assegurei-o de que poderia cuidar muito bem de mim mesmo, exceto para preparar comida. Ele prometeu, então, enviar uma mulher para cozinhar, para cuidar de minhas armas e forjar minha munição, o que ele acreditava ser essencial. Sugeri que talvez pudessem me trazer também algumas das cobertas de seda e peles que conquistara como espólios do combate, pois as noites eram frias e eu não trazia nenhuma comigo. Ele prometeu fazê-lo e então partiu. Sozinho, subi o corredor espiralado até os andares superiores em busca
de dormitórios adequados. As belezas daquele outro edifício se repetiam neste e, como de costume, logo me perdi em um passeio de investigação e descobertas. Finalmente, escolhi um quarto frontal no terceiro andar, porque me deixava mais próximo de Dejah Thoris, cujo apartamento se localizava no segundo andar do edifício vizinho. Pensei que seria possível criar alguns meios de comunicação pelos quais ela poderia me chamar caso precisasse de meus serviços ou proteção.
Ao lado de meu apartamento-dormitório, havia banheiras, closets e outros quartos e salas de estar. Ao todo, havia cerca de dez cômodos nesse andar. As janelas dos quartos dos fundos davam para um pátio enorme que formava o centro do quadrado feito pelos edifícios defronte às quatro ruas contíguas, e que agora serviam de alojamento para os vários animais que pertenciam aos guerreiros que ocupavam os edifícios vizinhos. Embora o pátio estivesse tomado pela vegetação amarela e musgosa que cobria quase toda a superfície de Marte, havia também numerosas fontes, estátuas, bancos e armações em estilo pérgula que deviam ter testemunhado a beleza que esse pátio devia ter apresentado em tempos passados, quando embelezado pelo povo sorridente e de cabelos claros a quem as inalteráveis e severas leis cósmicas haviam não somente expulsado de seus lares, mas de tudo o mais exceto das vagas lendas de seus descendentes. Era possível facilmente imaginar a belíssima folhagem da luxuriante vegetação marciana que um dia cobriu essa cena com vida e cor; as figuras graciosas de lindas mulheres, os homens elegantes e bonitos, os alegres grupos de crianças... toda a luz do sol, felicidade e paz. Era difícil aceitar que todos haviam desaparecido, sugados por eras de trevas, crueldade e ignorância, até que seus instintos hereditários humanitários e sua cultura se elevassem uma vez mais na composição final daquela que agora é a raça dominante sobre Marte.
Meus pensamentos foram interrompidos pela chegada de várias jovens fêmeas carregando montes de armas, sedas, peles, jóias, utensílios de cozinha e barris de comida e bebida, incluindo uma considerável quantidade de pilhagem da nave voadora. Tudo isso, parecia, era de propriedade dos dois líderes que eu havia matado e, agora, pelos costumes dos tharks, me pertenciam. Sob meus comandos elas colocaram os objetos em um dos quartos dos fundos e partiram, somente para retornar com um segundo carregamento, o qual me informaram constituir o restante de meus bens. Na segunda viagem, vieram acompanhadas por outras dez ou quinze mulheres e jovens que pareciam ser as comitivas dos dois líderes. Elas não eram suas famílias, nem suas esposas ou servas. O relacionamento era peculiar e tão diferente de tudo que conhecemos que é bastante difícil descrever. Toda propriedade entre os marcianos verdes pertence a todos da comunidade, exceto as armas pessoais, ornamentos e cobertas de seda e peles de cada um. Somente sobre essas posses alguém pode reclamar seus direitos, mas não se pode acumular mais desses objetos do que o necessário para suas reais necessidades. Os excedentes são guardados apenas sob custódia e são passados adiante aos membros mais jovens da comunidade conforme se faz necessário.
As mulheres e crianças da comitiva de um homem podem ser comparados à uma unidade militar da qual ele é responsável de várias maneiras, incluindo questões como instrução, disciplina, sustento e exigências para sua contínua marcha e seus eternos conflitos com outras comunidades e com os marcianos vermelhos. Suas mulheres não são esposas. Os marcianos verdes não têm um termo que corresponda ao significado da palavra terráquea. Seu acasalamento é uma questão restrita aos interesses da comunidade e é gerenciado sem que se consulte a seleção natural. O conselho dos líderes de cada comunidade controla a questão com tanta atenção quanto o dono de cavalos de corrida de Kentucky gerencia a produção científica de seus animais para aprimorar todo o conjunto. A teoria pode soar bem, como é comum quando se trata de teorias, mas os resultados de séculos dessa prática antinatural, aliados à decisão da comunidade de que o rebento seja mantido distante de uma figura materna, se personifica nas frias e cruéis criaturas, e em sua existência soturna, desalmada e melancólica. É verdade que os marcianos verdes são absolutamente virtuosos, tanto homens quando mulheres, com exceção feita a degenerados como Tal Hajus. Mas seria preferível um equilíbrio mais delicado de características humanas, mesmo ao custo de uma ocasional e pequena perda de castidade. Sabendo disso, era meu dever assumir responsabilidade por essas criaturas, quer eu quisesse ou não, e fiz o melhor que pude, indicando a elas seus quartos nos andares superiores, reservando o terceiro andar para mim. Encarreguei uma das garotas com os afazeres de uma simples refeição e dei ordens às demais que retomassem as outras atividades que constituíam suas vocações primárias. Após isso, raramente as via, e pouco me importava.

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