quinta-feira, 16 de maio de 2013

Uma princesa de Marte - 11° Capítulo


Capítulo 11 - COM DEJAH THORIS

Quando chegamos em campo aberto, as duas guardas fêmeas que haviam sido instruídas a vigiar Dejah Thoris se apressaram e tentaram recuperar sua custódia, novamente. A pobre criança se encolheu contra mim e senti suas duas pequenas mãos apertando meu braço com força. Afugentando-as, informei-as que Sola cuidaria da cativa de agora em diante e em seguida adverti Sarkoja de que quaisquer outras atenções cruéis que se abatessem sobre Dejah Thoris resultariam em repentino e doloroso fim.
Minha ameaça mostrou-se infeliz e resultou em mais danos que benefícios a Dejah Thoris porque, como aprendi depois, homens não matam mulheres em Marte, nem mulheres, homens. Então, Sarkoja simplesmente nos desferiu um olhar ameaçador e se foi para arquitetar suas maldades contra nós. Logo encontrei Sola e expliquei a ela meu desejo de que cuidasse de Dejah Thoris assim como cuidava de mim, e que queria que ela encontrasse outros alojamentos onde Sarkoja não as molestaria e, finalmente, informei- a de que eu mesmo iria me alojar entre os homens. Sola espiou os equipamentos que eu carregava nas mãos e pendurados em meus ombros. Você é um grande líder agora, John Carter - ela disse. E devo cumprir o que me pede, apesar de que o faria da mesma forma sob quaisquer circunstâncias. O homem cujo metal você carrega era jovem, mas era um grande guerreiro e havia, por meio de suas promoções e mortes, conseguido um posto próximo ao de Tars Tarkas que, como você sabe, está abaixo somente de Lorquas Ptomel. Você é o décimo primeiro, havendo apenas outros dez líderes acima de você em valentia nesta comunidade.
E se eu matasse Lorquas Ptomel? - perguntei.
-Você seria o primeiro, John Carter. Mas você só pode obter esta honraria se o conselho inteiro decidir que Lorquas Ptomel deve enfrentá-lo num duelo; ou, caso seja atacado por ele, se você matá-lo em legítima defesa, conquistando assim o primeiro lugar.
Eu gargalhei e mudei de assunto. Eu não tinha nenhum desejo de matar Lorquas Ptomel e menos ainda de ser um jed entre os tharks. Acompanhei Sola e Dejah Thoris na busca de novos alojamentos, os quais encontramos em uma construção próxima à câmara de audiência e de arquitetura muito mais pretensiosa do que nossa antiga habitação. Também encontramos nesse prédio verdadeiros apartamentos-dormitório com camas antigas e altas de metal fundido penduradas no alto, balançando por enormes correntes de ouro presas nos tetos de mármore. A decoração das paredes era extremamente elaborada e, ao contrário dos afrescos nos outros edifícios que eu havia visto, retratavam várias figuras humanas em suas composições. Eram pessoas como eu e de cor muito mais clara do que a de Dejah Thoris. Eles vestiam túnicas graciosas e soltas, altamente ornamentadas com metais e jóias, e seus cabelos luxuriantes eram de um lindo dourado e de um bronze avermelhado. Os homens estavam barbeados e apenas alguns carregavam armas. As pinturas representavam, em grande parte, um povo de pele e cabelos delicados em atividade.
Dejah Thoris entrelaçou suas mãos em uma exclamação de êxtase enquanto olhava para as magníficas obras de arte, criadas por um povo há muito extinto, enquanto Sola, por outro lado, parecia sequer notá-los. Decidimos usar esse quarto, localizado no segundo andar e voltado para a praça, para abrigar Dejah Thoris e Sola. Em seus fundos, outro cômodo adjacente serviria como cozinha e despensa. Depois disso, despachei Sola para trazer roupas de cama, alimentos e utensílios de que ela poderia precisar, dizendo que eu guardaria Dejah Thoris até que ela voltasse. Enquanto Sola partia, Dejah Thoris voltou-se para mim com um sorriso tímido.
E para onde, então, sua prisioneira escaparia se você a deixasse, além de acompanhá-lo por onde for, procurar sua proteção e pedir-lhe perdão pelos pensamentos cruéis que cultivou contra você nesses últimos dias?
Você está certa - respondi. - Não há fuga possível para nenhum de nós dois, exceto juntos. Ouvi seu desafio à criatura que você chama de Tars Tarkas e acho que entendi sua posição entre esse povo, mas o que não consigo compreender é sua declaração de que não é de Barsoom. Então, em nome de meu primeiro ancestral - ela continuou -, de onde mais você poderia ser? Você é parecido com meu povo e, ainda assim, tão diferente. Você fala minha língua e, mesmo assim, ouço você dizer a Tars Tarkas que a aprendeu recentemente. Todos os barsoomianos falam a mesma língua, da calota glacial sul à calota glacial norte, embora suas escritas sejam diferentes. Somente no vale Dor, onde o rio Iss desemboca no mar perdido de Korus, supõe-se que uma outra língua seja falada e, exceto nas lendas de nossos ancestrais, não há registro de algum barsoomiano ter retornado do rio Iss ou das praias do Korus, no vale Dor. Não me diga que você retornou de lá! Eles o matariam da forma mais terrível em qualquer lugar da superfície de Barsoom se isso for verdade. Por favor, diga que não!
Seus olhos se preencheram com uma luz estranha. Sua voz era suplicante e suas pequenas mãos se estenderam até meu peito, onde me pressionaram como se quisessem arrancar uma negativa de meu próprio coração.
- Eu não conheço seus costumes, Dejah Thoris, mas em minha Virgínia um cavalheiro não mente para se salvar. Eu não sou de Dor. Nunca estive no misterioso Iss e o mar perdido de Korus continua perdido, até onde eu sei. Acredita em mim?
E então me impressionei ao perceber que eu ansiava que ela acreditasse em mim. Não que temesse os resultados que se seguiriam caso todos acreditassem que eu havia retornado do céu ou do inferno barsoomianos, ou coisa que o valha. Por que, então? Por que eu me importaria com o que ela pensava? Olhei para ela, sua bela face inclinada para mim e seus maravilhosos olhos revelavam as profundezas de sua alma. E, quando meus olhos encontraram os dela, eu soube o porquê e... estremeci. Uma onda de sentimento similar pareceu se agitar dentro dela. Ela se afastou de mim com um suspiro e com seu rosto lindo e ardente inclinado para mim, sussurrou:
Acredito em você, John Carter. Não sei o que é um "cavalheiro", nem nunca ouvi falar da Virgínia, mas em Barsoom os homens não mentem. Se ele não deseja falar a verdade, ele permanece em silêncio. Onde é essa Virgínia, seu país, John Carter? - ela perguntou. E me pareceu que o lindo nome de minha amada terra nunca havia soado tão belo como quando proferido por seus lábios perfeitos naquele dia agora tão distante. Eu vim de outro mundo - respondi -, do grande planeta Terra, que gira em torno desse mesmo sol e ocupa a
próxima órbita após Barsoom, que chamamos de Marte. Como cheguei aqui, não posso dizer, porque não sei. Mas aqui estou e, uma vez que minha presença me permite servir a Dejah Thoris, fico feliz por isso. Ela me fitou com seus olhos confusos longa e interrogativamente. Eu sabia muito bem que era difícil para ela acreditar em minhas palavras e não podia esperar que acreditasse, embora eu suplicasse por sua confiança e respeito. Eu deveria não ter dito nada sobre meus antecedentes, mas nenhum homem poderia olhar dentro daqueles olhos e se negar aos seus mais ínfimos pedidos.
Finalmente ela sorriu e, levantando-se, disse: Eu devo acreditar mesmo que não consiga entender. Vejo claramente que você não é um homem da Barsoom atual. Você é como nós, mas diferente..., mas por que eu deveria ocupar minha cabeça com tal problema quando meu coração me diz que acredito porque quero acreditar?
Era uma boa lógica. Boa, terráquea, feminina e, se a satisfazia, eu certamente não poderia encontrar nenhuma falha nela. Na verdade, era praticamente o único tipo de lógica que poderia admitir o meu problema. Caímos em uma conversa genérica, perguntando e respondendo várias questões de ambos os lados. Ela estava curiosa em aprender os costumes de meu povo e demonstrava um notável conhecimento dos eventos na Terra. Quando a questionei mais profundamente sobre essa aparente familiaridade com as coisas terráqueas, ela gargalhou e gritou: - Ora, todo aluno em Barsoom conhece a geografia e bastante sobre a fauna e a flora, assim como a história do seu planeta, quase tão bem quanto do nosso. Por acaso não podemos ver tudo o que acontece sobre a Terra, como você a chama? Afinal, ela não está pairando nos céus bem à nossa vista? Aquilo me deixou embasbacado, devo admitir, tanto quanto meus relatos a haviam confundido, confessei. Ela então me explicou de forma geral os instrumentos que seu povo usava, aperfeiçoados por eras, e que lhes permitiam jogar sobre uma tela uma imagem perfeita do que estava acontecendo sobre qualquer planeta e em várias estrelas. Essas imagens eram tão detalhadas que, quando fotografadas e ampliadas, objetos do tamanho de uma folha de grama podiam ser reconhecidos com clareza. Depois, já em Helium, pude ver diversas dessas imagens, assim como os instrumentos que as produziam. Então, se você é tão familiar com as coisas da Terra - perguntei -, por que não me reconheceu como um dos habitantes daquele planeta? Ela sorriu novamente, com a mesma complacência aborrecida dispensada à pergunta de uma criança:
Porque, John Carter - ela respondeu -, quase todo planeta e estrelas que tenham condições atmosféricas parecidas com as de Barsoom apresentam formas de vida animal, quase idênticas a você e eu. Além do mais, os homens da Terra, quase sem exceção, cobrem seus corpos com estranhos pedaços de tecido e suas cabeças com aparelhos ridículos que impedem uma melhor visão e cujos motivos não somos capazes de entender. Enquanto você, quando encontrado pelos guerreiros tharkianos, estava sem interferências e adornos. O fato de você estar sem adornos é uma forte prova de que sua origem não é barsoomiana, ao passo que a ausência de vestes grotescas pode gerar a dúvida de que você seja um terráqueo.
Foi então que narrei os detalhes da minha partida da Terra, explicando que meu corpo jazia completamente vestido com todos os mesmos - para ela - estranhos trajes dos habitantes comuns. Nesse momento, Sola retornou com nossas escassas posses e seu jovem protegido marciano que, obviamente, teria de dividir os dormitórios com elas.
Sola nos perguntou se tivemos algum visitante durante sua ausência e pareceu muito surpresa quando respondemos negativamente. Pareceu que quando ela subia rumo aos andares superiores onde nossos dormitórios se localizavam, havia encontrado Sarkoja descendo. Decidimos que ela devia estar bisbilhotando, mas como não nos lembramos de nada de importância ter ocorrido, descartamos o assunto, embora nos prometendo mutuamente que nos manteríamos em alto grau de alerta no futuro.
Dejah Thoris e eu nos concentramos em examinar a arquitetura e as decorações das belas salas do edifício que ocupávamos. Ela me disse que tudo indicava que esse povo havia florescido mais de cem mil anos atrás. Eles eram os remotos progenitores de sua raça, mas haviam se misturado com a outra raça de antigos marcianos, que eram muito escuros, quase negros, e também com a raça amarelo-avermelhada que havia florescido naquele tempo. Essas três grandes divisões dos marcianos superiores haviam sido forçadas a uma poderosa aliança enquanto os mares do planeta secavam, compelindo-os a buscar as comparativamente poucas - e em constante redução - áreas férteis e a se defenderem sob as novas condições de vida e contra as hordas selvagens de homens verdes.
Eras de relacionamento próximo e casamentos entre si resultaram na primeira raça de homens vermelhos, dos quais Dejah Thoris era uma encantadora e bela descendente. Durante os milênios de trabalho árduo e incessante combate contra suas várias raças, assim como contra os homens verdes, e antes que tivessem se adaptado às mudanças ambientais, muitas das civilizações superiores e muitas das artes dos marcianos de cabelos claros se perderam. Mas a raça vermelha de hoje chegou a um ponto em que acredita ter compensado, com novas descobertas e em uma civilização mais pragmática, todo o conhecimento irrecuperavelmente perdido com os antigos barsoomianos sob as incontáveis gerações que se interpõem entre eles.
Esses antigos marcianos formavam uma raça altamente culta e letrada, mas durante as vicissitudes daqueles séculos de adaptação às novas condições, não somente seus avanços industriais cessaram, mas também todos os seus arquivos, documentos e literatura se perderam. Dejah Thoris relatou muitos fatos interessantes e lendas sobre essa raça perdida de indivíduos nobres e gentis. Ela disse que a cidade onde estávamos acampados era onde hipoteticamente se situara o centro comercial e cultural conhecido como Korad. Havia sido construída sobre um lindo refúgio natural, incrustada entre magníficas colinas. O pequeno vale na frente oeste da cidade, ela explicou, era tudo o que restava do porto, enquanto a passagem entre as colinas até o fundo do velho mar era o canal através do qual passavam as mercadorias até os portões da cidade. As praias dos mares antigos eram pontilhadas por cidades como esta e por outras menores, cada vez mais escassas e que podiam ser encontradas convergindo para o centro dos oceanos, uma vez que as pessoas descobriram ser necessário seguir as águas que recuavam cada vez mais até que a urgência levou-as à sua última chance de salvação, os chamados canais marcianos. Tínhamos nos entretido tanto na exploração do edifício e em nossa conversa que o final da tarde já havia chegado sem que percebêssemos. Fomos trazidos de volta ã realidade de nossa condição atual por um mensageiro que trazia uma convocação de Lorquas Ptomel, requerendo minha presença diante dele imediatamente.
Despedindo-me de Dejah Thoris e Sola, e ordenando Woola a ficar de guarda, apressei-me à câmara de audiência, onde encontrei Lorquas Ptomel e Tars Tarkas sentados sobre a tribuna.

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